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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 10 de maio de 2014

Entregadores de Leite

Muito mais que um simples veículo que carrega as latas cheias de leite para o laticínio toda manhã, nas roças, o “caminhão do leite” é além de entregador, o integrador.

Tradicionalmente faz o intercâmbio entre fazendeiros e sitiantes na zona rural. Pelas estradas vicinais, toda manhã bem cedo, em cada jirau armado numa sombra do acostamento, pega uma lata cheia deixada pelo retireiro, que trabalhou na ordenha desde a madrugada e deixa a vazia; leva um recado ao próximo ponto; traz uma encomenda do povoado anterior; dá uma carona até o arraial  seguinte ou a um entroncamento; carreia notícias em geral; marca a hora do trabalho matutino.

Outrora, nas festas dos arraiais, ele trazia encarapitado em sua carroceria um punhado de devotos em romaria para as capelas. Nas queimas de judas, o boneco era amarrado em sua carroceria, preso a um pau e buzinando sem parar, chegava acompanhado de carreata, trazendo o boneco para a forca na árvore de embaúba, fincada na sua chácara.

Um caminhão do leite atravessa a cidade de São João del-Rei.

Pelos poeirentos caminhos rurais o caminhão do leite é, depois do carro de bois, o veículo mais prestigiado.

Estão em franco desaparecimento, substituídos pelos caminhões-tanque, com mecanismo de resfriamento.

Com eles também vão rareando os entregadores de leite, de porta em porta, antes em carroções, como vi na Rua Antônio Rocha, em São João del-Rei, por longos anos desde a infância, em veículo fechado, de chapa metálica pintada de azul, com duas portas atrás. O condutor parava o burro, descia, abria as portas e tirava o latão de leite para venda em domicílio.

Outros entregadores o fazem ou faziam pendurando os latões em motocicletas, ou mais tradicionalmente, no lombo de cavalos. É o fornecimento de leite in natura, gordo, bom para o doce de leite, doce deleite... Rende muita nata, ideal para a confecção caseira da  manteiga e matéria-prima de quitandas, sobretudo da inigualável rosquinha de nata.

O leiteiro vindo do Buião, atravessa a Serra do Lenheiro 
para trazer leite aos fregueses do Senhor dos Montes, em São João del-Rei.

Exigências, taxas, normas. Caminhos do progresso traçam novos rumos para o produtor rural que parecem fazer de tudo para complicar sua vida, mais contribuindo para o êxodo para a periferia urbana que para mantê-lo na roça. A pequena produção de subsistência se arrasta enferma. Estas cenas pitorescas se perdem. A socialização entre campo e zona urbana se distancia, o caminhão tanque não é mais o estafeta de sítio em sítio. Ao homem do campo resta adaptar-se ou mudar para a cidade.

Carriola manual para entrega de leite.
Bairro Bom Pastor, Grande Matosinhos, São João del-Rei.
 
Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

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