Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A dama de pedra

(mais uma lenda da Serra do Lenheiro)


De longe, parece ser só mais uma pedra na Serra do Lenheiro, nem tão longe da cidade de São João del-Rei. Entremeio matas e campos e grandes afloramentos rochosos, um rochedo comum traz quase ao rés do chão a escultura de uma face feminina de perfil, coberta a cabeça por um pano, tudo entalhado na pedra dura.

Ao caminhante desatento ou ao afoito passa despercebida a obra de arte. Ao coração poético logo ela chama à atenção. Ninguém sabe sua data exata, ou quem a fez, ou porque entalhou. Tudo reside no campo lendário. Entretanto, onde o fato histórico se perde nas longuras do tempo, ou está obscurecido no esquecimento de algum velho relato, ou talvez perdido nas memórias coletivas, então... a lenda se torna verdade. 

Contam-se algumas narrativas da origem, por vezes discrepantes no conteúdo ou até inverossímeis. Mas tem uma versão mais repetida que abaixo reproduzo. Ante a fisionomia tristonha da dama de pedra, encoberta por um pano na cabeça à moda antiga... quiçá é a que de fato remete à verdade perdida! Ou será que não? 

Dizem que foi no tempo colonial, no auge do ciclo do ouro. O Canal do Ingleses escoava água em abundância até o grande mundéu ao sopé do Morro do Caititu. Ali os escravos em labuta interminável apuravam o ouro para a riqueza cada vez maior do proprietário das terras. O sinhô branco era como de costume ou modelo daquele tempo, sisudo, ganancioso ao extremo, tendo o status social como maior premissa. Escravo para ele era mero objeto de produção e a esposa, sinhá muito humana, de espírito iluminado, era destratada com a grosseria inexplicável. 

Vivia a pobre mulher infeliz, ciosa de um amor que sonhou e nunca teve, posto que seu casamento era um inferno de desventuras. Entre a riqueza, preferia a simplicidade da senzala, para onde sempre fugia, visitando as vovós africanas, de quem ouvia as histórias de seu povo, ou para junto das minas, observar o trabalho braçal dos escravos, luzidios ao sol, com as costas suadas de tanto esforço. Se um escravo ia ao tronco, ela vinha curar-lhe as feridas. 

Não demorou que um lhe ressaltasse aos olhos. Para além de seu conjunto físico musculoso, era o sorriso daquele escravo que iluminava sua alma. Reconhecia a sinhá em tal sorriso um velho conhecido. É como se fosse alguém que já conhecera. Mas era apenas mais um escravo. Ele, por outro lado, reconhecia no olhar dela igualmente algo familiar, que não podiam entender, senão mesmo, dava medo... mas o desejo era bem maior. A aproximação não tardou. A sinhá ia para o mundéu vê-lo em trabalho. Até que, sinalizando-lhe com os olhos, chamou-o a um canto. E ele foi. 

Se esgueiraram entre as pedras, buscaram a camuflagem dos matos. A barra da longa saia se molhou na água do aqueduto. Riam. Conversavam. Se entreolhavam... e se amaram ali entre as rochas, a natureza por testemunha. 

A paixão se apoderou deles e a aventura perigosa mas irresistível tornou-se um costume. Sempre que oportuno fugiam para detrás das pedras onde seus corpos ardentes se tornavam um só. Não faltou quem os alertasse do perigo, mas era inútil. O amor em verdade impossível para o contexto daquela época, machucava pela impossibilidade de uma união permanente ou estável. O escravo registrou essa tristeza em pedra, talhando o rosto sofrido da amada numa rocha. 

E foi ocasião que o senhor descobriu o amor dos dois. Enfurecido, logo idealizou vingança sangrenta. Queria lavar sua honra. Prendeu o escravo, humilhou-o o quanto pode e não se contendo, matou-o de forma horrenda: meteu-lhe fogo no corpo, queimando-o por completo. A sinhá em prantos e gritos tentava impedir... mas em vão. O desespero da sinhá era incontido e a dor e sofrimento do escravo que ardia era infinito! O sinhô a tudo observava impassivo, com ódio.

Os escravos cuidaram de seu corpo esturricado. O cobriram de folhas úmidas e frescas, que contribuíram para refrescar seu cadáver carbonizado e com preces em seu favor a alma deixou aquele corpo.

Dali para frente, a vida da sinhá foi só tristezas, lembranças. E na verdade durou muito pouco. A tragédia não acabara: certo dia, não suportando mais a dor da ausência de seu amor, a sinhá saiu por sobre as pedras, galgando-as, olhando infinitamente o horizonte profundo, como se o procurasse. Seus olhos se perderam na imensidão e seu coração saudoso a impulsionou dali para baixo. Suicidou-se pulando dos Três Pontões. O amor de fim trágico eternizou-se. A busca um pelo outro fora do corpo humano prosseguiu na espiritualidade. 

A dama de pedra. Serra do Lenheiro.
São João del-Rei/MG. 
Foto: Ulisses Passarelli, 09/09/2018


"Serra do Lenheiro, Morro de São João, 
escalavrado pelo braço forte do escravo,
faiscando o brilho dourado da paixão;
testemunho de amores mal resolvidos. 

Na rocha bruta o escravo entalhou, 
com rudes ferramentas o rosto marcante,
daquela sinhá tristonha pelas injustiças
sinhá que tanto... ele amou. 

Onde prospera a cobiça não cabe o amor;
a chama ardente do mal rompeu o enlace,
do alto da pedreira um grito de horror,
em vertiginosa queda a sinhá se prostrou. 

A mesma chama ainda tosta o cerrado. 
Mas o sonho renasce, esperança de vida, 
pois o espírito pela verdade marcado
retorna ao cuidado donde é guardião!"


Notas e Créditos

* Texto, fotografia e poema (22/09/2018): Ulisses Passarelli


sábado, 7 de julho de 2018

Violas: de Portugal aos sertões



                As violas são instrumentos musicais cordofones dedilhados, de procedência ibérica, derivadas da vihuela medieval, que por sua vez procede de primitivos instrumentos de cordas do oriente médio, notadamente de antigos alaúdes, da época do império árabe, de quando os mouros dominaram a Península Ibérica.

                Em Portugal desenvolveram-se várias modalidades de violas, distintas por algumas características e agrupadas em dois conjuntos, com maior ou menor curvatura do corpo (enfranque). Assim, no território insular surgiram as “violas de arame”, ganhando peculiaridades na Ilha da Madeira (viola madeirense) e no Arquipélago dos Açores (viola micaelense e viola terceirense). Igualmente na parte continental daquele país: viola campaniça ou de Beja, típica do Alentejo; viola braguesa, da região do Minho; viola beiroa, da Beira Baixa; viola toeira, da região da Beira Alta, sobretudo Coimbra; viola amarantina, do Douro Litoral, que evoca em seu nome a cidade de Amarante, terra do célebre São Gonçalo, protetor dos violeiros.

Chegaram ao Brasil no princípio da colonização portuguesa, ainda no século XVI. Das caravelas desembarcaram e os padres jesuítas as usaram para os trabalhos de catequese dos índios nos aldeamentos ao longo da faixa litorânea. Logo o instrumento caiu no gosto popular e passou ao uso da população comum, na mestiçagem cultural de tantas etnias formadoras da nacionalidade brasileira.

                Então a viola original portuguesa passa a ser feita aqui, com madeiras tropicais, que lhe conferiram outra sonoridade. A adaptação de formas e curvaturas possibilitou o ajuste de novas madeiras. As facilidades ou dificuldades de toques, as experiências de execução das músicas, as características regionais de cada cultura, contribuíram para o surgimento de muitas afinações diferentes, que ganharam nomes pitorescos: rio abaixo, rio acima, cebolinha (simples e ré acima), cebolão (em ré e em mi), natural, paulistinha, paraguaçu, cana verde, boiadeira, riachão, repentista e outras.

                Essa adaptação da viola portuguesa à realidade brasileira gerou a viola caipira, tipicamente nacional, também conhecida por viola sertaneja. Uma de suas variações, no nordeste brasileiro, alcançou grande popularidade a partir da década de 1940, a chamada viola dinâmica, característica pelo som melódico, de timbre metálico, graças à presença estrutural de um disco metálico contido no bojo do instrumento, cuja vibração se reverbera por pequenos amplificadores na caixa. A viola dinâmica é características do uso dos poetas repentistas nordestinos.

                Em outras regiões nacionais a viola se firmou na tradição musical folclórica, desde as danças populares como as catiras, curraleiras, fandangos, dança de São Gonçalo, até as congadas e folias de Reis, do Brasil central e sudeste ao sul. Para o norte, em terras amazônicas, entrou a viola como acompanhamento de certas danças típicas e no aparato musical religioso de benditos e ladainhas.

Para mais, Brasil afora, acompanhava modinhas e lundus, colaborando intensivamente para a construção do universo da música popular brasileira. Mas foi sobretudo nas modas e toadas de violas, ponteios e rasqueados, na mão hábil e trabalhadora do homem rural, que a viola se despontou na composição das chamadas duplas caipiras e se popularizou imensamente no centro-sul brasileiro. Em oposição, o violão era um instrumento desde sempre mais urbano, ligado aos poetas e literatos, música de boemia e das canções. Mas na formação das duplas, viola e violão se casaram em perfeita harmonia, aquela com dez cordas, este com seis.

Por toda parte a cultura tradicional a envolveu em lendas. Desenvolveram-se simpatias ao seu redor e um universo cultural próprio se estabeleceu sobre a viola, se configurando como um dos instrumentos mais importantes da música brasileira.

                Assim a viola participou como elemento estruturante e simbólico da música sertaneja, vista sempre pelo aspecto poético, bucólico, evocador de brasilidade, trazendo à tona a nostalgia da roça.

Depois de longo período de ocaso, a viola experimenta desde meados dos anos 80 ou começo da década seguinte um soerguimento e agora um período de efervescência musical, graças ao virtuosismo de grandes músicos solistas ou de conjunto, que trabalhando na mídia e na educação patrimonial, nos revelam o valor incomensurável deste instrumento, tão afeito aos cantares brasileiros, de caráter identitário à própria cultura nacional. A viola hoje galga os rumos da música profissional, em franco crescimento.

Violeiro - Lourival Amâncio de Paula, folião e capitão - São Gonçalo do Amarante (SJDR-MG).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (básicas)

ANDRADE, Mário de. Danças Dramáticas do Brasil. São Paulo: Martins, 1959.
ARAÚJO, Alceu Maynard Araújo. Folclore Nacional. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1964.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário de Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: EDIOURO, [s.d]. 930p.
HINDLEY, Geoffrey. Instrumentos musicais. São Paulo: Melhoramentos, 1981. Coleção Prisma.

REFERÊNCIAS NA INTERNET (básicas)

Violas portuguesas. Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Violas_portuguesas (acesso em 04/07/2018, 15:53 h)
As afinações da viola. Casa dos Violeiros: http://casadosvioleiros.com/homolog/index.php/a-viola/9-a-viola-caipira/13-afinacoes-da-viola (acesso em 04/07/2018, 15:54 h)
Viola caipira: por que uns usam afinação em Mi e outros em Ré? Curso de Viola: http://auladeviola.com/viola-caipira-por-que-uns-usam-afinacao-em-mi-e-outros-em-re/#sthash.pXLhruvE.dpbs  (acesso em 04/07/2018, 15:56 h)
Viola dinâmica. You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=Z2IrbScNy44  (acesso em 04/07/2018, 15:56 h)    
 


Notas e Créditos

* Texto (04/07/2018) e fotografia (2010): Ulisses Passarelli

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Pentecostes em crônica: a Festa do Divino em São João del-Rei

Certas sutilezas acontecem no jubileu pentecostal de Matosinhos, em São João del-Rei. Na correria da grande Festa do Divino, na agitação de cores e sons, movimentos coreográficos e gente, celebrações e reencontros... agente não percebe alguns detalhes. 

Moçambique de Passa Tempo: presença sempre marcante. 

Assim, por exemplo, o zelo dos congadeiros em levantar o mastro na abertura da festa - a forma como olham ao céu, vislumbrando a bandeira que sobe - é um olhar de esperança, de expectativa, que não se pode descrever, mas apenas sentir pelo convívio ou pela observação com vista clínica. A imagem transcende ao plano material. É telúrica. Esperança de uma grande festa, equilibrada, feliz. O instante imediato do levantamento, a inclinação do madeiro, se reveste de certa tensão, que logo se esvai quando o mastro se verticaliza na posição final. Se o dançante beija o mastro e bate-lhe a fronte para buscar forças, logo, gente da assistência, sem saber por qual razão, repete o gesto. A descida dos mastros é entusiástica, concorrida. Muita gente aglomera em derredor, gerando preocupação aos responsáveis de algum contratempo. Na sonorização se pede guardar distância de segurança. Mas o povo junta, parece magnetizado, e aguarda com ansiedade especial a descida do mastro do Espírito Santo, o mais alto. Querem ver como vai ser, mesmo já sabendo como acontece. É como uma aliança sagrada que é benta de novo, uma promessa que se renova. 

Moçambiqueiro de Pedra Negra entoa seu canto, lamento, louvor, prece!

A cavalgada traz à tona as origens rurais, o ruído característico de cascos no asfalto; o cheiro do estrume. A imagem urbana do casario, o comércio cheio de engenhos publicitários, tudo se contrapõe à vermelhidão dos estandartes e flâmulas, alvejadas ao centro pela clássica figura da pombinha milagrosa. A sua passagem anuncia a proximidade da festa. O povo o diz: olha a festa chegando, a cavalgada passou! Já se formou o vínculo da imagem dos cavaleiros à chegada do festejo. Ou seja: o objetivo anunciatório é cumprido de maneira natural, espontânea. 

Experiência e sabedoria: moçambiqueiro de Ibituruna. 

Quanto às folias no sábado, véspera do dia maior, o povo fica estático diante do coreto, hipnotizado, ouvindo uma a uma, todos os anos, comparando os estilos (toadas), evocando saudades da roça dos avós quando viam em tenra infância a chegada dos foliões; rememoram os pais que acolhiam as bandeiras e músicos folieiros dobrando o joelho ao chão, coando o café saboroso para servir com quitanda e queijo. Muitos vão à emoção. Folia mexe com as pessoas. Quem gosta, gosta! As folias carregam uma simbologia de um mundo rural, um elo perdido na modernidade, que a melodia resgata na memória, renovando a aliança com as raízes. (De novo as alianças...) No salão do café, há mais que broas, pães e biscoitos. A ornamentação é toda em branco e vermelho (tecidos, fitas, flores, bexigas de ar, bandeirolas). O quadro negro traz mensagens escritas saudando o Espírito Santo. O bolo tem uma pombinha em cima. É carinho, zelo. Bastaria o lanche, mas o tempero é amoroso. O ornamento aclimata os folieiros. Ali se confraternizam, dialogam, membros de uma e outra folia. Amizades se selam e renovam. 

Capitão Tadeu, congado anfitrião de Matosinhos. 

Alvorada é sacrifício de poucos. Tradição. Madrugadinha o caixeiro acorda, pois o despertador zoa irritante. A missão chama: "Quando chega a hora é hora, vamos com Deus e Nossa Senhora!". Um desjejum rápido e já basta. Muito frio nessa época. Lá fora o vento gelado não é receptivo mas é preciso bater caixa às 6 horas no Santuário. O sino já chama no bronze. Este ano foram dois grupos de caixeiros, com cerca de quatro caixas cada, um de Matosinhos, outro de Santa Cruz de Minas. É coisa rara de se ver. Em verdade quase ninguém vê e nisso reside a mágica do ato. Não se faz para público, não é para aplauso. É para o Divino. Ele o vê e isto basta ao caixeiro. Isto lhe é suficiente estímulo para sair de seus cobertores ao frio da aurora. Alvorada é saudação ao dia maior. É pedir forças para a tarefa imensa que se seguirá ao longo do dia. E o fazem com tamanho vigor e dedicação como se uma multidão os assistisse; multidão que não passa de meia dúzia´de aventureiros que se dignaram acordar tão cedo em gélida manhã. Alvorada é para Deus; não para plateia. Se canta, se reza, se louva. 

Capitães de Barbacena. 

Congados vão chegando pelas oito e meia, nove... O largo se engalana em festa. A Deusa Ceres assiste a tudo estática, impassível, imponente. Em verdade ainda mais bela nesse dia. 

Devoção à bandeira, com o congado do Bairro São Dimas. 

As pessoas acorrem para apreciar. Se socializam, reencontram, dialogam. Fazem comentários elogiosos sobre a desenvoltura de um sanfoneiro, a expressividade de um capitão, o bailado de um catupé animado, a marcialidade de um congo, o zunir das gungas de um moçambique, o bater idiofônico das manguaras de um vilão. Alguns devotos beijam bandeiras e se persignam. Capitães se saúdam ritualisticamente. Há uma forma de fazê-lo. Não basta acenar ou pegar nas mãos. Se dois grupos se encontram frente a frente podem trocar de bandeiras, cada uma beijando a do outro, como cortesia e respeito. Praxe. 

Congo de São Gonçalo do Amarante. 

No salão Rainha aguarda ansiosa a passagem do congado predileto, elogiando seu vestido abalonado. E sai toda ciente de sua majestade que é real de fato. Na retaguarda do terno de dançantes caminha solenemente. Sinhô Rei vai também... 

Moçambique de Ibituruna em marcha. 

A passagem de tão álacre cortejo suscita a saudação da vizinhança que o aplaudi das janelas e sacadas. Na porta acorrem; na calçada se postam. Dos peitorais das janelas toalhas de cor ornam as fachadas; vasos floridos e imagens são postas. A rua se sacraliza. Não se vê isso todo dia. Festa do Divino mexe com o sentimento. Os dons se esparramam como uma brisa que sopra. Não é raro ouvir comentários que "essa festa é linda!" ou "é minha festa preferida!" ou ainda... "eu lembro da minha mãe..."

Nossa Senhora do Rosário, a grande Mãe, estampada na bandeira do catupé de Cláudio. 

Como descrever tanta emoção? Será mesmo possível? Vai vendo... No adro o povo forma corredor. Congados passam pelo meio. Na porta o imperador está postado, como anfitrião maior. De cetro em riste saúda e cumprimenta. Presenteia com uma lembrança artesanal, uma pombinha. O congado passa o portal sagrado e entra no céu simbólico, assim tratada a nave do templo. Diante do altar é de ver e não esquecer a respeitabilidade extremada dos congadeiros ao altar com suas imagens. Que exemplo eles deixam! Rezar com alegria!!! Pra todo lado é gente filmando dos celulares e fazendo selfs. Todos querem uma lembrança. 

Moçambiqueiro são-joanense toca um pantagome feito de calotas de carro. 

Almoço é alarido. Comida boa, de muita fartura, limpinha, cheirosa. Bom tempero. A equipe da cozinha é admirável. Trabalho árduo, dificílimo. Aquilo sim é abnegação! Cozinheira não vê festa, mas festa sem ela não existe. 

Esperança de futuro com jovens e crianças no congado de Resende Costa.  

O Imperador já está agora lá na Igreja de Santa Terezinha. Nossa Senhora do Rosário também. é preciso escoltar seu andor ao santuário. Um imenso cortejo se forma, serpenteante. Escoa em sons e cores pelas ruas, maciço, uniforme, gigante. O pessoal do Departamento de Trânsito e da Guarda Municipal se empenha de corpo e alma para que tudo dê certo; e dá. Sem eles vira uma esculhambação. A chegada ao Santuário é apoteótica. Quem o viu não esquece. Quem não o viu não sabe o que perdeu... 

Moçambiqueiros de Itaguara escoltam o andor de Nossa Senhora do Rosário. 

Curioso também é a indagação constante das pessoas sobre quem é o novo imperador. Todo ano é a mesma pergunta: "Quem vai ser coroado?" A cerimônia em si todos querem ver em detalhe, esticam pescoço, saem dos assentos. O Imperador vira o foco. Quando um deixa a coroa, é logo acolhido pelos dos anos anteriores, como membro de uma fraternidade. E de fato o é. Deveria aliás haver um "Conselho dos Imperadores", agregando como membros natos todos (e apenas) os imperadores de cada ano, para com sua experiência ser o braço direito do Presidente da festa. 

Carrancas também esteve presente com sua congada. 

O imperador que deixa a coroa parece leve, sorri aliviado. O outro está tenso, fisionomia carregada. É o peso da responsabilidade. A coroa pesa. Senhor Bispo o coroa e o apresenta aos fieis sendo então ovacionado. Muitos querem cumprimentá-lo fotografar ao seu lado. O imperador é uma autoridade simbólica. 

Coronel Xavier Chaves, sempre presente com plena autenticidade. 

A procissão é um momento sagrado que a multidão se envolve como uma massa humana focada num só objetivo. Seguindo a liteira de Santo Antônio e os andores de Nossa Senhora da Lapa seguem congadeiros, imperadores e mais devotos, em preces e cantares. Gente precisando de graças especiais "disputa" oportunidade de carregar o andor. É hora de um sacrifício que vale o pedido especial. Quem precisa mais quer entrar com o andor nos ombros pela igreja. É como se o pedido estivesse entrando no céu. Assim o povo o vê. 

No sorriso a fé! Capitão Ganair, de Conselheiro Lafaiete, presença contínua desde 1998. 

Que mundo de detalhes há para observar! Quanta riqueza humana quebrando a rotina escravizadora. A Festa do Divino se faz jubilar na satisfação coletiva que gera. É festa que emociona. É festa que fluidifica a fé na cultura inseparável. 

De antigas raízes no rosário o congado de Ritápolis marca presença. 
  
As mulheres do Pilão de Nhá valorizam a cultura rural. Caquende. 
  
Como uma onda azul, chegam os marujos de Congonhas. 

Tradicional guarda de catupé de Santa Cruz de Minas, sob a bandeira de São Miguel. 
    
Marujos de Senhora das Dores se apresentam ao Imperador.  

Capitão do congado de Santana do Garambéu. 

Congado de Itutinga durante o Cortejo Imperial. 
 
Congado de Resende Costa chega no adro do Santuário. 

O cortejo adentra o adro do santuário. 

Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 20/05/2018
*** Obs.: a disposição das fotografias no texto é aleatória e de caráter meramente ilustrativo, sem ligação exata com os parágrafos.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Festa do Divino 2018 - São João del-Rei

Está em plena realização mais uma festa jubilar em honra ao Divino Espírito Santo Paráclito, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei/MG. A comemoração atinge seu apogeu no Domingo de Pentecostes, comemorado no bairro desde 1774. Em 1783 ganhou o título de jubileu perpétuo, graças a um breve pontifício do Papa Pio VI. Foi suprimida em 1924 e logo a seguir retomada em novos padrões, seguindo sem o brilho de outrora até 1998, ano que foi remodelada novamente, ganhando forte incremento de elementos históricos, artísticos e culturais, o dito "resgate". 

Desde então, tem sido uma das festas mais significativas do município, verdadeira referência de valores culturais, congregando grande número de grupos folclóricos que dançam, cantam e tocam seus instrumentos externando como expressão devocional e de resistência, sua forma de conexão com o sagrado, através da religiosidade popular, que, na festa, se irmana e dá as mãos aos processos de evangelização. 

A novena está acontecendo todos os dias após a missa das 19 horas. Os mastros já foram levantados e a cavalgada ocorreu de forma exitosa no domingo próximo passado. 

Ora a comunidade se prepara para a grande Procissão do Imperador Perpétuo, no próximo sábado, dia 19, com saída às 17 horas da Igreja de São Francisco de Assis. Através do centro histórico ruma para Matosinhos, trazendo em uma liteira a imagem de Santo Antônio, sob acompanhamento musical das companhias de folia do Divino. A missa após a chegada tem a participação delas e na sequência acontecem apresentações individuais desses grupos no coreto armado no adro. 

Já no domingo, 20 de maio, a programação se estende da aurora até a noite, destacando-se a participação de vários grupos de congados do município, que recebem as guardas visitantes da região e de mais além, o dia todo empenhadas nos ritos pentecostais e nas tradições congadeiras. A missa solene das 16 horas se conclui com a coroação do novo Imperador e a procissão solene congrega uma multidão!

Participe da Festa do Divino. Venha prestigiar nossas tradições!

Fotodigitalização da capa do folheto da novena.
Papel couché, 15 x 21 cm. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli

domingo, 22 de abril de 2018

11º Encontro da Cultura Popular do Caquende

Concluiu-se neste domingo, 22 de abril, o 11º Encontro da Cultura Popular no povoado do Caquende, sito no distrito de São Sebastião da Vitória, município de São João del-Rei, ao seu extremo sudoeste, às margens do Rio Grande, barrado pela Represa de Camargos. Área historicamente muito relevante, foi entrecortada pelo Caminho Velho, hoje incorporado à Estrada Real. Por ali passavam desde os primórdios da colonização mineira os viajantes que vinham de São Paulo rumo às minas de ouro. 

Focado na homenagem e valorização ao trabalho tradicional e a cultura do homem do campo, o encontro álacre enaltece o lavrador, o pequeno produtor rural, o costume dos mutirões, dos toques de viola, das festas de colheita. Tudo no encontro é tematizado neste sentido, inclusive na própria ornamentação e na culinária ofertada aos grupos participantes. O seu valor cultural é inegável e o potencial turístico incontestável.

O encontro não é uma festa da igreja; não é um evento religioso. Todo o esforço, planejamento e execução parte da comunidade e em especial de um grupo de pessoas abnegadas à causa cultural, que em voluntariado, organizaram tudo.

Em tudo e por tudo é uma festa cultural. Isto não impede que o povo por si mesmo homenageie com um Pai Nosso e uma salva de palmas e vivas ao mártir São Sebastião, patrono dos agricultores, pois sua devoção é profundamente enraizada na cultura rural; São Bento foi lembrado na prece para afastar bichos peçonhentos, quando no evento, o grupo de lavradores foi à roça fazer a colheita do milho. E os visitantes se aglomeraram ao redor para ouvir cantorias, ver a quebra das espigas, a reunião das mesmas e de abóboras e morangas em grandes jacás (espécie de balaios), a sua recolhida ao carro de bois, a distribuição de pinga, broas e angu-doce servido na palha do milho aos trabalhadores. Tudo isto transcorrido, o carro veio à tenda e a colheita foi arriada. Em torno deste produto da terra, dançou-se o engenho novo, manifesto coletivo de gratidão. Aproveitando a sonorização, foi explicado a estrutura do carro de bois, cada peça, de que madeira é feita, para que serve, com a orientação do carreiro "Jaraguá". Anunciaram até os nomes dos bois, batizados tradicionalmente: Cigano, Roxinho, Tico-tico, Sabiá, Recreio e Delicado.

E os grupos, daqui e dali tocavam, dançavam e cantavam, cada qual mostrando seu saber. Estiveram presentes: da cidade de São João del-Rei o Grupo de Inculturação "Raízes da Terra", do Bairro São Geraldo, junto ao maracatu; a Folia do Divino "Embaixada Santa", do Bairro São Judas Tadeu (Caieira), a Folia do Divino das Águas Férreas, do Bairro Tijuco; de outros municípios prestigiaram o evento os seguintes congados: de Santa Cruz de Minas ("São Miguel Arcanjo" - catupé), de Prados ("Nossa Senhora do Rosário" - catupé), de Dores de Campos ("Nossa Senhora do Rosário" - marujos), de Carrancas ("Nossa Senhora do Rosário" - congo).

Por todo o largo as crianças brincavam aproveitando o gramado. Na barraca de comes-e-bebes os adultos se confraternizavam. Havia grande movimentação de visitantes, inclusive visitando a exposição de produtos artesanais e objetos

Seguiu o almoço coletivo dos dançantes. Registre-se que foi almoço de grande fartura, delicioso no sabor, apetecível no aroma, higiênico no preparo, elogiado por quantos o provaram. Logo se vê que foi feito com o tempero da boa vontade.

Cortejo na rua, de volta ao largo depois de circulá-lo, sob a tenda, transcorreram as apresentações individuais de cada grupo. Tudo em boa ordem, cumprindo o programado sem atrasos ou atropelos, fechando com a dança do pilão pelo grupo local, Pilão de Nhá, com a maestria de sempre. Ainda pelas tantas, arrematando veio a banda de música de Vitória mostrar sua arte musical tão disciplinada.

A coordenação foi cuidadosa: de alvará na mão, lutou pelo planejamento à base da união, coisa que tantos desconhecem. Superando dificuldades a luta foi vencida. Missão cumprida, agora que colham os frutos desse sucesso, um trabalho incomensurável e de extensão educativa, social e cultural incríveis, sem ajuda de quem deveria tê-la dado. Mas é assim mesmo, como quem lavra a terra bruta e nela semeia, que o grupo do Caquende faz. Que venha o próximo encontro, que certamente será tão exitoso quanto os anteriores. Fica consignado nesta postagem o mais sincero parabéns aos responsáveis pelo evento.  



Grupo Pilão de Nhá, do Caquende, preparando-se para se apresentar na tenda:
autenticidade, identidade, dedicação, esforço, ensaio.  

Um par de bonecos, referência aos espantalhos e joões do mato. 

Recepção festiva na tenda. 

Folia da Caieira. 

Manejando uma serra de desdobrar. 

Colheita do milho. 


Congado de Santa Cruz de Minas. 

Congado de Dores de Campos. 

Carro de bois da Zueira.

Congado de Prados.  

Folia das Águas Férreas. 
 
Congado de Carrancas. 

Painel montado na praça contendo cartazes das festas anteriores:
memória, registro, história, referência, folk-comunicação. 

Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 26 de março de 2018

Adeus, Mestre João Matias... Sua bênção!

São João del-Rei está bem mais triste hoje... perdemos o Mestre João Matias (João Batista do Nascimento), decano de nossas folias de Reis. Falecido no Domingo de Ramos, aos 94 anos, foi sepultado no Cemitério do Rosário, na tarde da Segunda-feira Santa, 26 de março de 2018, após a celebração de corpo presente na Catedral do Pilar.  

1- Mestre João Matias na Procissão do Imperador Perpétuo,
durante a Festa do Divino. 03/06/2017. 

Filho de Pedro Matias (Pedro Nolasco do Nascimento)que nomina uma rua do Bairro Guarda-Mor, onde morava João Matias) e Zezé (Maria José de Oliveira). Era natural de Conceição da Barra de Minas. Deixou família numerosa e honrada e uma vastidão de amigos e admiradores. Homem trabalhador, no sentido profundo da palavra, depois de múltiplas experiências na vida do campo e em serviços urbanos, ainda agora, em avançada idade, mas pleno de saúde e consciência, cuidava de seu sítio com muita dedicação, plantando e criando. 

2- Apresentação no Coreto Municipal Maestro João Cavalcante. 11/12/2013. 

A fé lhe movia, indubitavelmente. Membro da Confraria de Nossa Senhora do Rosário, não perdia as celebrações e procissões, sempre esbanjando disposição e simpatia. 

3- Apresentação no Memorial Dom Lucas. 10/12/2013. 

Não era apenas mais um folião ou mais um mestre da cultura popular. Matias foi uma referência neste campo da cultura, um baluarte. Começou jovem nas folias, no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, em 1947, onde tocou por vários anos. Em 1980 fundou sua própria folia no Bairro Guarda-mor em São João del-Rei. 

4- Ulisses Passarelli, João Matias e Affonso Furtado com as bandeiras do mestre. 27/01/2014. 

Tocando um violão, cantava com voz inconfundível entre nossas folias. Improvisava com facilidade. Sempre muito cortês, fazia versos de homenagem às pessoas assim, de repente. Não enjeitava apresentação ou encontro de folias de Reis, sempre muito ativo. Saía também com a folia de São Sebastião e então se notabilizou pelos longos anos que participou com seu grupo na festa deste taumaturgo na Catedral do Pilar, conquistando admiração dos sacerdotes, como o memorável Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva, que certa vez lhe ofertou um estandarte com a estampa deste santo. Matias gostava muito deste presente e fazia questão de frisar quem lhe havia dado. Igualmente saía com a folia do Divino e neste sentido, desde 1998, nunca faltou a uma festa do Espírito Santo no Santuário de Matosinhos. 

5- Folião Luthero Castorino coloca a faixa de mestre em João Matias. 18/02/2014. 

Outras vezes, quando era possível e oportuno, João Matias se fardava de bastião ou marungo, mascarado cômico que acompanha as folias de Reis, denotando sua versatilidade. 

Ao completar noventa anos de idade, recebeu homenagem pela Comissão do Divino, em Matosinhos, conforme já descrevemos em outra postagem (*). Naquela oportunidade recebeu também a condecoração de Mestre, ofertada pela instituição Casa de Santos Reis, graças ao iminente folclorista e estudioso das tradições reiseiras Affonso Furtado. 

6- Durante homenagem aos foliões, no Encontro de Folias de Reis do Largo de São Francisco,
ao lado do violeiro Chico Lobo e da organizadora Alzira Haddad. 28/12/2013. 

Em certa ocasião, alguns anos passados, acompanhamos Mestre Matias à vila de Paraíso (Piedade do Rio Grande), com a folia em viagem através do sul do município. Costumava ir lá e levava dentro da van muito alimento: arroz, feijão, carne, verduras, refrigerantes, etc. Lá deixava com uma senhora que de costume já os recebia. Ela fazia farto almoço. A folia visitou as casas dos lugar e foi absolutamente admirável a popularidade do Mestre em apreço. Parada para o almoço e retorno à atividade. Missão árdua mas compensadora em sua graça. Todo o alimento que sobrava e era muito, deixava por lá. 

7- Momentos antes da saída da Procissão do Imperador Perpétuo,
junto ao folieiro Marcos Antônio. 23/05/2015. 

Hoje, seu sepultamento foi algo muito tocante. No Velório do Rosário, lotado, apareceram seus folieiros além de membros das outras folias da cidade, inclusive vários outros mestres para render-lhe a homenagem. Se irmanaram todos numa folia só e cantaram sua despedida muito emocionante. Os foliões Luís Rosa e Luthéro Castorino puxaram a cantoria, com muita habilidade. 

A partida do Sr. João Matias deixa um vazio... Já se preparava para a presença no Encontro da Cultura Popular no distrito do Caquende em abril e a para a Festa do Divino em maio. Como será difícil sem ele! Perda humana inestimável. 

Ao fim da encomendação de sua alma, o celebrante, Padre Álisson Sacramento, deixou o recado bem claro: "Não deixem a folia parar! É muito bonito e importante. Ele gostava demais!"

8- Adeus, Mestre João Matias... Sua bênção!  (**)

Notas e Créditos

* Para saber mais a respeito leia a seguinte postagem clicando neste link:
NOVENTA ANOS DE UM GRANDE FOLIÃO
** Fotografia durante a Festa de Nossa Senhora da Boa Morte, 15/08/2014. 
***Texto: Ulisses Passarelli
**** Fotografias: 2 e 3 - Ulisses Passarelli; demais fotografias - Iago C.S. Passarelli

segunda-feira, 19 de março de 2018

Sacolinha de São José

O dia 19 de março é reservado no calendário católico aos festejos ou memória em honra a São José, o Carpinteiro, esposo de Maria de Nazaré, Mãe de Jesus. Ao largo das comemorações oficiais o povo por si mesmo difunde crenças e formas próprias de recorrer ao prestigiado santo. Assim é que no nordeste brasileiro, este é o dia de observar de maneira especial o clima: se chove no dia deste santo ou o clima fica fresco, é sinal positivo de um bom inverno, presságio de mais chuvas próximas amenizando a seca atroz. 

A fotografia que compõe a presente postagem revela uma forma inusitada de corrente, com o objetivo de trazer fartura, rendimento do salário, em nome da devoção ao venerável santo: o Saquinho ou Sacolinha de São José. O exemplar aqui fotografado pertence a uma senhora de São João del-Rei, cuja identidade reservamos. 

Consiste em uma pequena bolsa de tecido, na cor amarela, tramada em crochê, destinada a conservar o dinheiro recebido. No interior vai uma tira de papel com o escrito da corrente, que segue transcrito:

"Neste saquinho da sorte guardarás tuas economias e terás a proteção de São José em situações financeiras. Nunca te faltará nada. Daqui um ano, no dia 19 de março, farás 19 saquinhos e os distribuirás após ter assistido a missa de São José. Basta fazer uma vez. Guarde sempre contigo este saquinho com esta mensagem e a moeda que deve ser colocada junto. São José te abençoará."

Tal papel é enrolado em torno de uma moeda e posto no interior do saquinho onde permanece sempre. O restante do dinheiro é posto e tirado conforme a necessidade. Contém também outro papel de corrente, de forma ovalada, tendo a estampa de São José por marca d'água, sobre a qual vem o seguinte texto, muito parecido ao anterior: 

"Esta é a sacolinha de São José. Todo o dinheiro que receber, coloque dentro dela, mesmo que seja por um minuto. Nesta sacolinha guardarás as tuas economias e terás a proteção de São José. Daqui a um ano, 19 de março de 2015, farás 19 sacolinhas e distribuirás, com uma moeda dentro de cada uma. Não gaste a moeda que estou lhe enviando. Assim nunca lhe faltarás nada. Obrigada São José. São Paulo 19 de março de 2015."

A pessoa que a recebeu em São João del-Rei atualizou o exemplar à caneta esferográfica, fazendo uma rasura, que alterou a data 2015 para 2016 e "Paulo" para "João". 

Completa o conjunto um laço de fita amarela de cetim, para atar a abertura da sacolinha ou saquinho e uma medalha com a efígie do santo afixada por costura. 

Daí o saquinho é guardado em segurança no fundo de bolsa, guarda-roupa, baú, gaveta, algibeira... longe das vistas de possíveis ladrões. Mesmo vindo de outra cidade distante a corrente se aclimatou em São João del-Rei e em 2017 já se esparramou; com novos adeptos, em 2018 seguirá se multiplicando. A fórmula também atende aos preceitos da folk-comunicação, como outras correntes típicas. 

Sacolinha de São José: sacola de crochê com medalha e papéis da corrente.
A régua com escala em centímetros posta ao lado oferece a proporção do tamanho.
São João del-Rei. 10/03/2018. 

Notas e Créditos

* Texto e fotografia: Ulisses Passarelli

sábado, 10 de março de 2018

Divisas de antigamente (e a honestidade!)

As divisas de terrenos ou meras separações internas de piquetes ou de hortas guardam um interesse especial e poucas vezes evidente para os estudos. Em si reside o método, a técnica de se levantar uma demarcação; mas além disso passa pelo comportamento da honestidade, que tem muito peso para o homem do campo de modo especial. 

A palavra parece em tudo fora de moda. Num mundo louco, de escândalos inimagináveis, a honestidade tornou-se para os ímpios um princípio ultrapassado, dispensável, incompatível com a modernidade. Infelizmente essa cancerização ética é generalizada e corrompeu o país.

Contudo no passado a honestidade era preceito básico de uma pessoa e seus conceitos ainda mantidos por alguns, marcaram a formação cultural do cidadão de antanho, com reflexos ainda hoje. Honestidade era e ainda é para alguns um ponto de honra. 

A honra do homem se pautava na clareza de suas finanças e na fidelidade da esposa. 

No primeiro caso, é relatado oralmente que um fiapo de barba ou do bigode do homem, guardado num envelope, tinha o valor de uma promissória na transação comercial, devolvido ao seu dono tão logo paga a dívida comprometida oralmente. Pagar antes da data marcada era um esforço natural, prova ainda maior de hombridade e melhoria da condição de crédito. Ao se mudar de uma cidade havia o cuidado de se deixar claro que não ficavam dívidas para trás: 


“O abaixo assignado, ao retirar-se para o Estado do Ceará, declara nada ficar devendo á praça desta cidade. S.João d’El-Rey, 3 de Julho de 1895. Ten. Francisco A. d’Albuquerque, do 8º Regimento” (Jornal O Resistente, n.16, 03/07/1895, São João del-Rei). 


A expressão popular “fulano... é homem com H” refere-se também a este aspecto: enfatizando o "H" pretendia-se afirmar a honra do indivíduo, o cumprimento das obrigações domésticas e profissionais, a reputação ilibada, o caráter inflexível, a postura firme na resolução das injustiças e equívocos. 

Outra marca da honestidade era o respeito às divisas. Fiel ao preceito bíblico _ "não passes além dos marcos antigos que puseram teus pais" (Provérbios, 22:28) _ o homem de bem não se arvorava em alterar posição de cercas e muros, respeitando-as tal como as herdara ou comprara. Se algum vizinho se atrevia a não cumprir a mesma premissa, era rechaçado à bala de carabina. O conceito comum que valia então nos meados do século XX era que se tratava tal ato de defesa da honra, da honestidade e dos direitos; não se encarava como gesto agressivo ou de violência, segundo os conceitos daquela época. Antigas propriedades coloniais tinham sua marcação a partir de uma coluna de pedra, o marco de sesmaria, a partir do qual como um pião, se definia os limites. Já os terrenos de mineração eram divididos em lotes, chamados datas: uma data de terra, uma data mineral. 

As Câmaras coloniais de São João del-Rei e São José del-Rei (atual Tiradentes) se degladiaram em queixumes na primeira metade dos setecentos porque os então vereadores josefenses não exitaram em estender sua jurisdição gradativamente muito além da área de seu termo, demarcado em 1719. Agindo arbitrariamente em direção oeste, invadiram a área são-joanense provocando a ira dos edis da vila de São João, que repetidas vezes reclamaram da invasão, inutilmente aliás. A contenda política, jurídica e administrativa perdurou pelo menos até 1755, quando o Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca, Dr. Francisco José Pinto de Mendonça, em ato de correição, estabeleceu as divisas pelo Rio das Mortes e seu afluente, o Elvas, ficando as terras da margem esquerda com São João del-Rei e as da direita com São José del-Rei.

A nível mais focal as divisas além dos fluxos d'água e das culminâncias montanhosas, se fazia por valos e muros de pedras. 

Os valos eram cavidades lineares rasgadas na terra, como uma longa canaleta, de relativa profundidade, estabelecendo pela dificuldade de transposição o limite entre duas antigas propriedades. Em muitos lugares os valos desapareceram à força de trator, sendo aterrados e terraplenados para expansão de área agro-pecuária. Os remanescentes são de elevado interesse da arqueologia histórica, representando uma técnica de estabelecimento de divisas feita sob a força braçal de ferramentas empunhadas pelos escravos. Com em geral a água pluvial corre em seu interior, a umidade prevalece. Com isto a vegetação cresce bastante e os valos se tornam corredores de fauna. Tanto mais, as condições específicas de sombra e umidade em seu interior propiciam um microclima adequado ao surgimento de uma flora específica e por conseguinte da presença de invertebrados e pássaros. 

Os muros de pedras também foram em passado remoto erguidos pelos escravos. Separavam terrenos de sesmeiros, pastagem, encostas. Definindo áreas de propriedades, alinhavam-se por vezes campo afora, outras vezes serra acima, se valendo da oferta de pedras do próprio terreno ou obrigando a trazê-las de longe em carros de bois. 

A técnica simples de sua feitura se mostrava contudo eficiente, pelos cuidados na escolha correta da forma das pedras a serem empilhadas, o embasamento nas pedras-mestras (que seguram a estrutura nos pontos mais irregulares do terreno), os travamentos, os pontos de passagem de água. Com o passar dos anos uma camada de lodo e líquens se acumula sobre as pedras e as ambientam ao local, passando a ser morada da fauna. Os muros de pedras se integram à paisagem e dão-lhe uma nota de bucolismo.

Diz-se em São João del-Rei que a construção dos muros se dava no período de entressafra e nas secas, quando rareava a água dos mundéus de mineração. Ao escravo, em vez do descanso, se sobrepunha a carregação de pedras para composição dos muros. Essa seria a possível origem do ditado "enquanto descanso, carrego pedras..."

A nível das pequenas roças e hortas se via comumente o cercamento por bambu. A medida previne a entrada de animais domésticos que destruiriam as plantações. As lascas se sucedem em trançamento vertical, entre arames esticados moirão a moirão. Via de regra o corte do bambu se dá na seca, quando sabidamente o mesmo tem pouca umidade. Para exatidão da época do corte, se definiu que deve ser durante a lua minguante, nos meses sem "R" em seu nome: maio, junho, julho e agosto. Isto seria uma garantia de durabilidade, contra podridão e ataque de insetos xilófagos. O bambu se corta a facão ou foice. 

Hoje ainda vislumbramos algumas dessas antigas divisas, por vezes vestigiais, em segmentos de valos, fragmentos de muros e restos de cerca. Mas ainda assim tem elas um especial interesse para os estudos etnográficos e históricos e merecem preservação. 

1- Cerca de bambu. 02/07/2013.
Emboabas (São João del-Rei/MG)
2- O autor observando um valo. 10/07/2017.
Serra do Lenheiro (São João del-Rei/MG)

3- Muro de pedras. 01/10/2017.
Ritápolis/MG.  

4- Detalhe dos sistema construtivo do muro da foto 3. 

5- Muro de pedras com passagem de antiga estrada boiadeira.
24/07/2009. Brumado de Cima (São João del-Rei/MG).

Notas e Créditos

* Texto e desenho: Ulisses Passarelli
** Fotografias: 1, 3, 4 e 5 - Ulisses Passarelli; 2: Luiz Antônio Sacramento Miranda
*** Obs.: vimos no agreste potiguar em 1992 várias pequenas residências rurais em diversos municípios com uso disseminado de cercas feitas com paus roliços cortados da vegetação nativa. Uma das mais comuns eram as formadas pelo cruzamento de paus, tomando a forma de tesouras. No litoral tanto do Rio Grande do Norte quanto do Ceará igualmente as notamos, além de outros modelos, que à época esboçamos num desenho à lápis, abaixo reproduzido:



Referência Bibliográfica

BARREIROS, Eduardo Canabrava. As Vilas del-Rei e a Cidadania de Tiradentes. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1976. 128p.