Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campos da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri dois link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Na minha terra se fala assim - parte 14

Babujar – sujar de baba, misturar com saliva, beber algo direto no gargalo (sem usar copo, caneca ou xícara). Ato repudiado por ser anti-higiênico. Beber no bico: por a garrafa na boca _ é o próprio ato de babujar, mesclar o conteúdo com cuspe, saliva.

Baquiado – que sofreu um baque, uma queda, resvalo. Enfraquecido. Decadente.

Biboca – ou biriboca. Palavra de origem indígena: escondido (no sentido de recôndito); longínquo. “Fulano mora num biboca”. “Não vou lá naquela biriboca.”

Boia – comida. Para efeito deste vocabulário o termo não é abordado no sentido do verbo boiar (flutuar), aquilo que boia, flutua; o sentido é de alimento: “comer a boia” (almoçar ou jantar), “boiar” (alimentar); “a boia está fria”.

Café com leite – neutro, peso morto, não essencial, dispensável. Refere-se a pessoas que estão participando de algo, mas nada estão somando. Se forem retiradas tudo continua como antes. “Fulano é café com leite”. Jogador de futebol que em campo não joga nada; o mesmo que dente de leite.

Chispa1- fagulha, labareda: “uma chispa de fogo iniciou a queimada”. 2- ordem para ir embora com rapidez: “chispa, menino!”; ou seja, corre, vá, saia daqui, fuja. O verbo chispar significa correr, no sentido de fuga espavorida. “Passou chispando...”.

Conversa vai, conversa vem – diálogo cheio de voltas sem chegar ao âmago da questão; rodeio de palavras que não focam o assunto; prévia numa conversa antes de se abordar o tema principal. Expressão intermediária inserida numa narrativa, para indicar que além do que está sendo narrado, houve ainda, muita conversa antes de se chegar ao fato e a seguir, após enuncia-la, se narra o fato.

Dar sopa – dar bobeira, marcar touca, não se acautelar, descuido, falta de prevenção.

De tanta preguiça a minhoca ficou sem osso – expressão usada diante do inerte, passivo, preguiçoso ao extremo. Tem antes o caráter de insulto que de conselho ou lição moral, por isto se qualifica como expressão e não ditado, não obstante o tamanho do enunciado e a imediata aparência proverbial.

Descambar – mudar de direção repentinamente e contra a vontade, inverter o lado que se ia, descer um morro, tombar numa grota ou montanha, despencar, cair na ribanceira. “A bicicleta descambou com ele ladeira abaixo.”

Desfiar o rosário – contar uma longa e lamentosa narrativa; externar problemas íntimos e angústias; desabafar as decepções contando a alguém.

Dois pesos, duas medidas – agir de uma forma com uma pessoa e de outra forma com outra; tratar uma situação de uma maneira e noutra ocasião, mudando os sujeitos, tratar de outra maneira. Medida sem imparcialidade. Abordar de forma distinta a ricos e pobres. Discriminar.

Dose – situação desagradável, constrangedora; diálogo ruim: “é dose!”; “foi dose!”. Diz-se do que é difícil suportar. Por vezes vem intensificado sob a forma de expressão: dose pra leão; dose pra elefante; dose pra cachorro. Sempre é usado de forma exclamativa e reticente. Pessoa de difícil convívio social: “fulano é dose!” Parece uma alusão a uma dose de bebida ardente ou de remédio amargo, difícil de ingerir.

Dragão – pessoa desprovida de qualquer padrão de beleza; muito feio. Palavra de insulto.

Em cima do riscado – corretíssimo, alinhado, sem qualquer erro.

Encafifar – cismar, desconfiar, suspeitar. Permanecer em longo silêncio como se buscasse na mente uma resposta para algo: estar encafifado.

Esganar1- atacar, avançar, agredir de unhas e dentes. Sinal de ferocidade: “começaram a brigar e a mulher esganou o marido...” 2- comer compulsivamente e sem regras mínimas de boa educação: esganado (devorador), esganação (fome desmedida).

Fazer gato e sapato – ou fazer de gato e sapato. Fazer o que quiser com alguém, desrespeitar, humilhar, ofender, menosprezar, minimizar, desqualificar, abusar de uma pessoa: “xiiii... dava dó de ver; fez gato e sapato dela!”

Ficar pianinho – cumprir rigorosamente as regras; obedecer fielmente; não reclamar de nada. Manso. “Fica pianinho, filho, pra você não ser demitido!”

Filar – tomar (no sentido de usurpar), tirar uma porção, pegar algo que não lhe pertence. Pequeno furto. Filão: quem tem o mal hábito de filar.

Firme igual prego no angu – expressão bem humorada: sendo o angu mole, um prego nele fincado jamais poderá ter firmeza. Muito usada na conversa corriqueira, no ato de se cumprimentar um amigo: “_ ô fulano, bom dia! Como está? Firme?” ao que se responde: “ _ Firme igual prego no angu!”. Não é raro que se siga uma risada. Está subentendido que aquela pessoa passa por qualquer dificuldade ou limitação, preocupação ou descontrole, mas que leva com bom humor e resignação. Também se diz: “firme igual bosta”; “firme igual prego na gelatina”; “firme igual prego na bananeira”. No sentido de amenizar uma vicissitude não deixa de ser uma expressão de eufemismo.

Fogo – termo exclamativo, que indica uma situação agitada, com certo descontrole, hiperatividade: “É fogo, viu!”. “Ele é fogo!”. Para se qualificar o comportamento de um indivíduo por vezes se torna em expressão: fogo na roupa ou fogo no cu. Já a expressão fogo de palha tem outro sentido: indica uma pretensão passageira, brevidade de uma intensão, ação descontinuada, falta de persistência para alcançar o objetivo, algo que começa com intensidade e rapidamente decai.

Fora de hora – em horário impróprio. Tarde da noite. Além do horário de convívio familiar.

Inhambado – atrapalhado, descontrolado, desgovernado. “O serviço tá todo inhambado”.

Invisão – visão assombrosa, aparição espectral, vidência fantasmagórica.

Joia – ótimo; excelente. “O concerto estava joia!”; “o sapateiro arrumou a sandália e ficou joia”.

Lereia – conversa fiada, diálogo sem proveito, palavreado sem sentido, rodeio de expressões.

Lomba – ou lombeira. Soneira, sonolência, preguiça. Vontade extrema de descansar, dormir nas tardes quentes e após se alimentar muito. O mesmo que timoneira.

Matar quem está me matando – matar a fome, comer, alimentar-se.

Meia pedra; meio tijolo – mais ou menos. Diz-se daquilo que não se pode ter exatidão. Razoável.  “_ Como você está passando? _ Ah, vou levando... meia pedra, meio tijolo.”

Meio de mundo – ermo; lugar despovoado e longínquo, ambiente inculto, paragem que não tem nada. “Lá é um mei’ de mundo danado!”

Michorna – bagunça, desordem, ambiente desregrado. “Isso aqui tá uma michorna ...”

Não está com nada no balaio – insignificante, inexpressivo, sem representatividade, de pouca influência, sem poder de mando. “Fulano não está com nada no balaio!”

Não faz falta nem fartura – expressão usada para qualificar negativamente uma pessoa, cuja presença ou ação nada soma nem subtrai; pessoa cuja presença é dispensável. Peso morto. “Não precisa chamar fulano pra reunião; ele não faz falta nem fartura”.

Pandu – barriga; estômago. Encher o pandu: comer muito, devorar.

Pele e osso – magérrimo, caquético. “O cachorro tá pele e osso”.

Porongo bobalhão, idiota, apalermado, sem expediente, sem pró-atividade.

Rompante – arrogância, petulância, modo agressivo de se expressar. Falar com rompante (com impetuosidade). Chegar num rompante (sem humildade).

Sacalão – balançar com vigor, sacudido brutal, resvalo forte. “Tomou um sacalão”.

Saco de batatas – pessoa inerte, entregue à preguiça. “Levanta daí, saco de batatas!”

Sungar – suspender (no sentido de erguer); levantar. “Sunga a tábua”, diz o pedreiro ao servente.

Tilosca – considerável, significativo, desejável. É termo sempre exclamativo e enfático, usado para indicar a opinião quando não se convém usar as palavras formais: “Ô tilosca!”.

Timoneira – grande sonolência durante o dia, não o sono normal que vem à noite. Desânimo extremo ao calor do dia. Bocejos subsequentes e muito próximos uns dos outros.


Tratar a pão de ló – cuidar com todo zelo; tratar da melhor forma possível, não apenas no sentido de alimentar com fartura e qualidade. Dar o melhor de si para outrem. 


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Procissão do Imperador Perpétuo

O Blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES apresenta mais um vídeo: a Procissão do Imperador Perpétuo. Ela é parte do Jubileu do Divino de São João del-Rei, que embora centrado no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos neste momento específico, véspera de Pentecostes, extrapola sua jurisdição eclesiástica e os limites do grande bairro. 

As 17 horas do sábado sai a procissão da Igreja de São Francisco de Assis rumo à de Matosinhos, atualmente atravessando o coração do centro histórico, pela antiga Rua Direita (atual Getúlio Vargas). É aberta por cavaleiros, portando o estandarte do Divino além de flâmulas e guiões; seguem membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Matosinhos e outros irmandades convidadas; vem a seguir os fiéis e formando corpo com a procissão vários grupos de folias. Na sequência é a vez da corte imperial, ricamente trajada, o próprio Imperador e por fim a liteira carregada por militares, no interior da qual está a imagem do Imperador Perpétuo, Santo Antônio. 

A festa, que existe desde 1774, incorporou esta procissão no seu desenvolvimento a partir das primeiras décadas do século XIX, desde que comerciantes da cidade elegeram Santo Antônio de Pádua para o cargo de Imperador Perpétuo (vide link ao fim da postagem). Com isto, todos os anos mudava-se o Imperador Coroado, mas o Perpétuo se mantinha. A procissão desapareceu ao longo dos anos, em data incerta. A própria festa foi paralisada em 1924 e depois voltou noutros moldes, bem tênue. Sofrera os efeitos da romanização católica e ainda a supressão motivada pela invasão de bancas de jogos de azar. Em 1998 a Festa do Divino foi reativada com grandes cuidados nos aspectos religiosos e culturais e se mantém ativa e forte. Desde então foi retomada a figura do Imperador Perpétuo e sua procissão, colorida, cheia de fé e musicalidade. 

As folias no longo trajeto se alternam nos toques. A grande maioria é de folias do Divino da própria cidade e por vezes outras dos municípios vizinhos e no caso específico deste vídeo, observa-se a folia de Coqueiros (Nazareno/MG), a primeira a tocar, que não é do Divino, mas uma folia de Reis e São Sebastião. O vídeo termina no momento de uma breve parada na Gruta do Divino, onde sob a direção do sacerdote se unem em preces e cantos laudatórios ao Espírito Santo. 

A gruta está a meio caminho de Matosinhos. A procissão segue, embora o vídeo não mostre e na empolgante chegada as folias adentram o santuário e cantam durante a missa, cada grupo se responsabilizando por um canto litúrgico na sua própria toada. A seguir ganham um lanche e depois se reúnem em torno do coreto no adro para apresentações ao grande público, no encontro de folias. 

Assim é o sábado que antecede imediatamente o Pentecostes em São João del-Rei. É o último dia da novena e preparação imediata para o dia maior do grande festejo jubilar em honra ao Paráclito. 

Aspecto geral da chegada da Procissão do Imperador Perpétuo no
Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. 23/05/2015. 



Notas e Créditos

* Texto, edição do vídeo e acervo: Ulisses Passarelli
** Vídeo e fotografia: Iago C.S. Passarelli, 23/05/2015
*** Para saber mais a respeito leia:
 A PROCISSÃO DO IMPERADOR PERPÉTUO   


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Folia do Divino das Águas Férreas

Esta postagem exibe vídeo da saída da Procissão do Imperador Perpétuo (Santo Antônio) da Festa do Divino, em São João del-Rei, observando-se momento da participação da Folia do Divino das Águas Férreas (Bairro Tijuco), sob o comando do Mestre Geraldo Elói de Lacerda.

Águas Férreas é uma parcela do Bairro Tijuco entrecortada por um córrego homônimo, que nasce no complexo serrano do Lenheiro, mais exatamente na encosta da Serra das Almas; desce pela região do Mato Assombrado e adentra a zona urbana. Até aí é um regato límpido, conquanto um pouco ferruginoso, razão de seu nome, mas logo recebe toda sorte de imundícies urbanas e se conflue na margem esquerda do Córrego do Lenheiro já completamente poluído. Ao atravessar a região da Gameleira recebe as águas que vem da encosta do Buraco do Urubu, conhecidas por Córrego da Gameleira e mais abaixo um fio d'água que vem do Fervedouro. 

Nas Águas Férreas o mestre em questão a muitos anos, desde a década de 1980, comanda este grupo de folia que ele próprio fundou, superando todas as vicissitudes para mantê-la ativa e conta com a ajuda notável da esposa e dos companheiros de folia para conservar a tradição. Em jornada anual de visita às casas, participação em festas religiosas e encontros culturais, o grupo se desdobra a cada período em folia de Reis, folia de São Sebastião e folia do Divino, esta, motivo central desta postagem. 





Notas e Créditos

* Vídeo e fotografia: Iago C.S. Passarelli, 23/05/2015
** Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Dia da Consciência Negra no Quilombo do Palmital

A pequena comunidade quilombola do Palmital, no município de Nazareno/MG, no Campo das Vertentes, festejou o Dia da Consciência Negra, a efeméride que rememora os feitos históricos de Zumbi dos Palmares neste último 20 de novembro.  

É uma localidade recôndita, entre cerrados e filões de matas remanescentes, onde, a julgar pelo nome, outrora devesse abundar a palmeira-juçara ou içara (Euterpe edulis, Arecaceae), fonte do palmito, alimento muito procurado, razão de elevado extrativismo, que aliado à destruição da Mata Atlântica pôs esta palmeira em risco de extinção.  O nome tem procedência indígena, do tupi, "yu'sara", que significa "palmito doce". 

Entremeio pequenas propriedades rurais esparsas, centraliza a comunidade uma igreja dedicada a São Sebastião. Diante dela se descortina um grande largo carente de toda e qualquer tratamento urbanístico. Algumas casas se concentram em redor. Logo se destaca uma gigantesca árvore seca, cujo tronco judiado pelo tempo parece ser muito simbólico para a comunidade. 

No meio da manhã já grupos culturais convidados animavam o lugar: o Moçambique Santa Efigênia, formado por congadeiros de São João del-Rei e Santa Cruz de Minas, o grupo de Inculturação Afro-descendentes Raízes da Serra, de São João del-Rei, a Capoeira Biriba de Ouro, da mesma cidade e a Folia de Reis de Coqueiros (Nazareno), que traz como lema na camisa a curiosa expressão "Vai da boa vontade". 

Os grupos se apresentaram livremente e visitaram a igreja. Foi-lhes servido lauto almoço, com destaque para a feijoada e o frango com ora-pro-nobis e para completar, como sobremesa, canjica, arroz-doce e doce de leite, maravilhas da culinária típica. Diga-se de passagem, o almoço foi franqueado aos presentes em geral e não apenas aos dançantes. 

Na parte da tarde aconteceram apresentações individuais junto ao palanque. O povo do lugar prestigiou intensamente as manifestações. No todo a festividade se equipara à da Jaguara, outra comunidade quilombola do mesmo município, que motivou uma postagem deste blog ano passado (vide link ao final desta). 

Observando o lugar, sua riqueza humana, as possibilidades múltiplas que a natureza possibilita, vislumbrando sua cultura... é de se pensar no potencial do quilombo alicerçado num projeto amplo e criterioso de sustentabilidade e manutenção do homem na terra, com nuances sociais, educacionais, culturais, ecológicas, arqueológicas... etc. Seria muito bem vindo um bom projeto para o lugar. 

Igreja de São Sebastião, Palmital (Nazareno). 

Grupo de Inculturação Afro-descendentes Raízes da Terra,
de São João del-Rei. 

Plantação de mandioca e uma casa no Palmital.

Para chegar à festa, o povo vem à cavalo, ou de motocicleta... 

... mas também vem ao festejo a pé. 

Festa é ocasião de reencontro, bate-papo, confraternização. 

Entrada da comunidade quilombola. 

Membros da Folia de Coqueiros. 

Passagem de um rally.

Capoeira. 

Largo em festa: moçambique, folia, capoeira, inculturação. 
Todos os grupos culturais, visitantes e moradores se irmanam dançando e cantando
 em redor da grande árvore seca, símbolo do lugar.  

Córrego do Palmital junto ao povoado e tubulação de água.
Afluente da margem esquerda do Rio das Mortes.  
Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 20/11/2016
*** Leia também: JAGUARA... QUE NOME É ESTE?   

Referências na internet

Içara (palmeira). Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/I%C3%A7ara_(palmeira)

sábado, 19 de novembro de 2016

Folia do Carlão na Restinga


Folia do Divino da Colônia José Teodoro visita a Capela de São Sebastião
da Restinga de Baixo. 24/01/2016. 

Nesta postagem o blog Tradições Populares das Vertentes apresenta mais um vídeo. Nesta oportunidade é possível observar a "Folia do Carlão" adentrando na Capela de São Sebastião, na Restinga de Baixo (Ritápolis/MG), no dia vinte e quatro de janeiro do corrente, durante a festa do padroeiro daquela comunidade rural. Trata-se de um festejo muito tradicional que este blog já registrou numa postagem (vide link ao final desta).

O citado grupo é uma Folia do Divino Espírito Santo e tem por nome oficial "Mensageiros do Paráclito". O cognome é uma referência à alcunha do organizador, o Folião Carlos Leandro de Oliveira. O grupo está sediado na Colônia José Teodoro, zona rural de São João del-Rei e tem se revelado muito ativo, participando de várias festas religiosas, apresentações culturais e jornada de visita às casas dos devotos. Embora sendo uma Folia do Divino, não deixa de cantar para São Sebastião nas ocasiões específicas, como esta, ou para o presépio, na quadra natalina. 

Conta com três embaixadores: Natal, Antônio Francisco dos Santos e Pedro Paulo Ramos, que aparecem nas imagens, embora que especificamente neste vídeo a cantoria esteja à cargo deste último, Pedro, que traz consigo larga experiência. 




Notas e Créditos

* Texto, fotografia, vídeo, edição e acervo: Ulisses Passarelli
** Leia também neste blog: A FESTA DE SÃO SEBASTIÃO NA RESTINGA 

sábado, 12 de novembro de 2016

Brincadeiras infantis: parte 5 - fórmulas de escolha

Algumas lúdicas infantis, notadamente os jogos, tem em suas regras a premissa de se definir quem será o primeiro a começar a ação. Quando não surge um voluntário, para que haja justiça na escolha, não recaindo sobre o de menor idade, o mais fraco, o mais lento ou o menos experiente na brincadeira, se procede a um sorteio entre os participantes com o intuito de escolher "com quem está" a queda" (*).

O procedimento desta escolha é especificamente o alvo desta postagem, posto que não se trata de simples sorteio, com nomes ou números escritos em pequenos papéis para se retirar a esmo um deles que indicará o escolhido. Não é assim tão convencional. Se existe só uma bicicleta para quatro ou cinco brincarem ou se quer saber com quem está o pique, existem fórmulas próprias de escolha. Quando a criançada decide brincar de gangorra, ou num balanço, em qualquer brinquedo no qual se precisa definir quem será o primeiro a usar, para não haver motivo para discussão e desavença, aplica-se uma fórmula de escolha. Seu resultado é plenamente aceito, entendido como uma medida que isenta a escolha de trapaça. 

Algumas fórmulas de escolha são deveras conhecidas e difundidas por várias regiões. Outras nem tanto. Passemos em breve revista algumas vigentes em São João del-Rei e região.

*  *  *

Par ou ímpar: mecanismo de escolha entre duas crianças, postadas frente a frente. Uma diz "par" e a outra, "ímpar". Levam ambas as mãos para trás do corpo. Olhando-se fixamente, anunciam em uníssono: 

"Um dó-lá-si 
vamos e ... já!"

De imediato e com rapidez estendem as mãos para frente indicando com uma ou ambas um número qualquer, contado por cada dedo estirado, entre zero e dez, independente de se ter escolhido par ou ímpar. A soma dos valores apontados por ambos vai dar um número que se for par dá a vitória a quem escolheu par, se der a ímpar, a quem escolheu ímpar. 

Cada macaco em seu galho: é uma fórmula de eliminação usada quando existem mais crianças brincando. Uma delas toma a iniciativa de pegar uma pedrinha no chão. Leva as duas mãos para trás do corpo e secretamente troca entre elas a pedra de modo que as crianças não saibam em qual está. Estica ambos os braços com firmeza tendo as mãos bem cerradas para não evidenciar a pedra. Os brincantes se esforçar por adivinhar a mão correta: espiam por entre seus dedos se aparece uma fresta que permite ver a pedra. Quando ele anuncia "cada macaco em seu galho!", todos prontamente seguram num de seus braços esticados, uns na direita, outros na esquerda, conforme o palpite individual. É comum brincarem como se estivessem pendentes num galho (o braço) e daí caem, mas logo se penduram de novo. Então ele abre as mãos e revela onde está a pedra. Os que escolheram esta mão permanecem em fase de escolha; os que escolheram a mão vazia estão eliminados. E repete a operação eliminando mais, até sobrarem só dois. Se os dois remanescentes escolherem a mão vazia, repetem a vez com eles, determinando que cada um escolha braços diferentes. 

Uni-duni-tê: uma criança dentre as demais e toma a iniciativa de aplicar a fórmula para uma escolha. Se posta frente a frente as demais, quase sempre poucas, duas ou três. As que estão sendo escolhidas ficam lado a lado. A que vai fazer a escolha fica diante delas e apontando alternadamente o dedo indicador para cada uma, recita: 

"Uni-duni-tê!
Salamê minguê!
Um sorvete colorê!
Escolhido pra você!"

A recitação é um tanto cantada, ou antes apenas ritmada e nesse ritmo, o dedo aponta a cada sílaba ou tempo forte para uma criança. A escolha recai na última palavra que em tom de suspense é dividida: "vo... cê!" A sílaba "vo" aponta para uma criança e a "cê" é que verdadeiramente indica a escolhida. E o jogo começa por ela. Uma variante diz no último verso: "Escolhido foi você". 

Cara ou coroa: fórmula das mais conhecidas, cosmopolita, que os próprios árbitros de futebol usam para definir em qual lado do campo ficará cada time. Da mesma sorte nos jogos infantis. Mas pode ser usado para qualquer escolha entre duas crianças. Usa uma moeda. A criança escolhe um lado da moeda (cara - a efígie da República) ou o outro, onde está cunhado o valor (coroa). A moeda é jogada para o alto e aparada na palma da mão. A face voltada para cima indica a vitória de quem a escolheu, seja cara ou coroa, com igual probabilidade de ocorrência. 

Zerinho ou um: fórmula de escolha ou processo de eliminação na qual os participantes ficam diante uns dos outros e estendendo o braço com a mão fechada indica-se o algarismo zero; braço estendido com o dedo indicador estirado indica o algarismo um. Antes de indicar o braço fica escondido atrás do corpo ou junto da coxa, sempre com a mão fechada, enquanto os participantes em coro entoam: 

"Zerinho-um!"

A pronúncia é lenta, sílabas divididas: "zé...ri-nhooo...um!". O "um" é incisivo e decisivo. Ao ouvi-lo, rapidamente estiram o braço e mantém a mão fechada (zero) ou o dedo apontado (um). A eliminação se faz por partes: é excluído a minoria que apontou ou zero ou um, gradativamente, até restarem apenas dois. Ou seja: se todos por coincidência põe zero ou põe um, ninguém sai; se exatamente metade põe zero e outra metade põe um, também permanecem todos. Se a maioria põe zero, a minoria que pôs um é retirada; ou o contrário, se a maioria pôs um, a minoria do zero sai. Quando só restam dois na fórmula ela não pode mais ser aplicada e precisa ser concluída com outra fórmula de escolha, qualquer uma das demais que constam nesta postagem. 


Notas e Créditos

* Com quem está: expressão usual para indicar o indivíduo que numa dada partida de uma brincadeira infantil é o responsável por iniciar o jogo, correr atrás dos outros brincantes, procurá-los ou assumir qualquer outra função de destaque na regra do jogo. 
Queda: a partida em si. Uma queda: equivale a uma partida, um jogo independente. 
*** Texto: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Festa do Rosário em Resende Costa, 2016

O imenso Ciclo do Rosário aproxima-se do fim de mais um conjunto anual de festividades na região mineira das Vertentes. Neste último fim de semana foi a vez de Resende Costa, primitivo Arraial das Lages, Terra de Inconfidentes, cidade de aprimorado artesanato, sobretudo baseado no algodão, com produção de colchas, tapetes, etc., nas rocas e teares. 

A data é muito tradicional naquele município, desde longa data fixada no primeiro domingo de novembro. Atrai muitos congados da região e de áreas mais distantes. Tem intenso movimento popular de largo, com a Praça do Rosário apinhada de gente e lotada (rua abaixo) de barraqueiros estabelecidos no evento. É uma das festas do Rosário mais fortes da região. 

Não é para menos. Resende Costa, cidade alta da Serra das Vertentes, tem longa e enraizada tradição congadeira. Já teve muitas guardas, sobretudo de catupés e via de regra participa bastante das festividades congêneres em várias comunidades. Em 2016 lá estiveram ternos ou guardas de Coronel Xavier Chaves, de Congonhas, Conselheiro Lafaiete, Carandaí, São João del-Rei/Santa Cruz de Minas, Ritápolis (cidade e distrito da Restinga), Passa Tempo e Cerrado (Desterro de Entre Rios). 

O dia maior foi antecedido por missas diárias na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, seguida de preces do tríduo preparatório, findando com sonorização e show. No sábado, após as celebrações, teve lugar o levantamento dos mastros, no adro. No domingo se destacaram a Missa Sertaneja pela manhã e a Missa Conga à tarde. Nesta, tocou o Moçambique "Nossa Senhora Aparecida", de Passa Tempo, sob o comando do grande mestre, Capitão Luís Maurício. Os congados ao longo do dia tocaram pelo largo e ruas, receberam como de costume, alimentação farta e saborosa, apresentaram-se diante do palco, onde foram agraciados com medalha de honra ao mérito. Houve muita confraternização e espírito de concórdia. A todo tempo notou-se a participação dedicada da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário resende-costense. Após a missa da tarde uma procissão seguiu até a dianteira da Matriz (Nossa Senhora da Penha de França) e retornou ao Rosário, bastante concorrida, com a participação dos congados. Finda a procissão os grupos se despediram, retornando para suas cidades. 

As imagens abaixo foram captadas durante a festa deste ano. Mostram uma ínfima parcela do esplendor desta festividade, da qual é mister tecer elogios e incentivos de continuidade, ao clero que muito apoiou com grande respeito e dedicação, à irmandade, a toda comunidade e aos congadeiros de Resende Costa, que foram os anfitriões das guardas visitantes. 

A Igreja do Rosário testemunha o espírito de irmandade entre congadeiros.

Confraternização de congadeiros de diferentes guardas. 

O terno do Cerrado em marcha pelas ruas de Resende Costa. 

Marujos de Congonhas. 

Rei e Rainha observam a movimentação dos Marujos
"Sereia do Mar", de Congonhas. 

Detalhe do bordado em paetês do quépi de marujos
de Conselheiro Lafaiete: bandeira nacional.

Detalhe de um bastão, do moçambique de Passa Tempo. 

Jovens congadeiros de Resende Costa,
sob a bandeira de São Cosme e São Damião. 

Congado da Restinga de Baixo. 

Moçambiqueiro saúda a bandeira do congado de Ritápolis. 

Capitães do Moçambique Santa Efigênia durante apresentação. 
No comando do congado, o Capitão de Coronel Xavier Chaves
maneja o tamborim.   

Detalhe do capacho na entrada da igreja. 
 
Imagem de Nossa Senhora do Rosário em seu andor,
no adro da igreja durante a Missa Conga. 

Irmandade de Nossa Senhora do Rosário abrindo a procissão. 

Comissão do Divino com o Imperador:
presença de São João del-Rei. 

Um dos mastros da festa, dedicado
a São Cosme e São Damião. 

Cartaz da Festa do Rosário.
Resende Costa, 2016. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 07/11/2016

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Finados no Quicumbi

Em geral, nos cemitérios como um todo, o dia primeiro de novembro é o de maior movimentação no ano em razão do feriado de Finados. O fluxo de visitantes é enorme. É gente que vem relembrar os entes queridos, rezar pelas almas, limpar e enfeitar as lápides. 

Em São João del-Rei e cidades vizinhas em todos os campos santos se observa o mesmo. Mas ora tomemos por foco o Cemitério Municipal, no Bairro das Fábricas, popularmente conhecido por Quicumbi. Devido ao seu maior tamanho e número de sepultados, naturalmente acolhe mais devotos e visitantes.

Já na entrada há um imenso burburinho de gente entrando e saindo e ambulantes vendendo flores e velas, refrigerantes e água mineral, picolés e sorvetes. Muitos carros e motocicletas andando lento em frente procurando estacionamento. Muita gente chegando de bicicleta. 

Dá para notar a presença de um frade ofertando à venda terços e cd's de música religiosa; alguns evangélicos distribuindo folhetos; umbandistas ao fundo do cemitério acendendo suas velas de cores e fazendo pequenas entregas. O território do sagrado é nítido para diferentes correntes religiosas. Há uma missa muito concorrida que acontece no corredor de entrada, sob uma tenda ali instalada a propósito. No túmulo da Jovem Desconhecia transcorre o culto popular de sua alma, tida como milagrosa. É claramente o túmulo mais visitado e tem inclusive um velário próprio, tantos os que ali acendem seus pedidos. 

Na capelinha central sempre tem quem esteja balbuciando orações, passando contas do terço entre os dedos, lendo um papel de corrente religiosa que deixam sobre o pequeno altar. 

Na sua lateral, o velário, não cabe mais velas, que geram muito calor em volta, derretendo a parafina num caldo grosso e fumacento. É difícil chegar perto, tantos são os devotos ali acumulados. 

Fileiras e mais fileiras de túmulos e carreiras de gavetas se sucedem até o fundo, palmilhadas por parentes, familiares e amigos, saudosos, em prece, ou deixando aqui e ali flores, lavando ou varrendo lápides, lustrando uma cera sobre uma pedra. Gente se encontra, conversa, mata saudades, recorda, lamenta, chora junto. 

Lá na retaguarda, junto ao ossuário geral, aos pés de um cruzeiro o povo de terreiro arreia suas firmezas e oferendas, deixa algumas imagens, garrafas de cachaça e charutos. 

O Quicumbi acolhe a todos. É democrático, popular e ecumênico. Todos os anos é assim, amém!



1-3 - Devotos e visitantes no túmulo da Jovem Desconhecida. 

4- Aspecto geral do Cemitério Municipal.
 
5- Vista externa do Cemitério Municipal com a presença de vendedores.
A mata vestigial no morro ao fundo é área da nascente do minúsculo
Córrego do Quicumbi, hoje canalizado.
 
Notas e Créditos

* Texto e fotografias (02/11/2016): Ulisses Passarelli

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Moçambique de Ibituruna

Apresentamos nesta postagem um vídeo curto que mostra o momento da chegada do Moçambique "Nossa Senhora do Rosário", de Ibituruna, na voz do Capitão Antônio Salvador, em toque de jomba, ao café da manhã, durante o 3º Encontro de Congados de Tiradentes/MG, a 17/07/2016.








 Imagens do moçambique de Ibituruna durante o encontro. 

Ibituruna é cidade do Campo das Vertentes às margens do Rio das Mortes já em seu trecho de baixo curso. Junto à imponente serra homônima, se orgulha de ser, conforme dizeres de Diogo de Vasconcelos, "o mais antigo lar da pátria mineira". Com essa pomposa frase referia-se o autor nas páginas da história ao fato de ter sido a primeira povoação fundada em Minas Gerais, no remoto 1674, pelo célebre bandeirante paulista Fernão Dias Paes. Chefiando a Bandeira das Esmeraldas, que subiu do Vale do Paraíba para o ermo interior através da Mantiqueira, após atravessar o sul mineiro chegou ao vale do Rio das Mortes onde se viu obrigado a estacionar até o fim da estação chuvosa. Foi então oportuno fundar uma feitoria: Ibituruna. Eram pequenas povoações ou núcleos de fornecimento de mantimentos e víveres com o intuito de ser uma base permanente de suporte para a passagem das caravanas de bandeirantes.

Serra de Ibituruna, vista da cidade.  

Panorama da praça da matriz. 

Placa comemorativa do tricentenário nas imediações do Rosário. 

Marco de sesmaria, exposto na mesma praça da foto anterior. 

Igreja do Rosário no dia maior de sua festa,
repleta de assistência e congadeiros. 

A palavra Ibituruna é de origem indígena, de base tupi, significando "serra negra".

A cidade, cujo padroeiro é São Gonçalo do Amarante, possui ainda elementos significativos da arquitetura histórica. A Festa do Rosário é um grande atrativo turístico-cultural, no mês de junho, último final de semana, congregando congados visitantes de toda a redondeza, numa demonstração de ser um dos festejos congadeiros mais pujantes dessa área geográfica. 

Seu moçambique conserva os aspectos típicos autênticos dos moçambiques regionais, batendo na jomba velhas cantigas que rememoram o sofrimento do escravo e a devoção a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. 



Letra do canto

"Pai e Filho, Espírito Santo,
anjo da guarda do lado,      BIS
com as três palavras divinas,
trago o meu corpo fechado!"   BIS

"_ Aqui nesta casa, 
oi, mora quem é?
_ Bom Jesus!
Maria, José!"

"_ Na casa de nhônhô, 
nós reza sem santo...
_ Pai e Filho!
Espírito Santo!"

Referências Bibliográficas

VASCONCELOS, Diogo Pereira Ribeiro de. Breve descrição geográfica, física e política da Capitania de Minas Gerais. Estudo crítico por Carla Maria Junho Anastasia; transcrição e pesquisa histórica por Carla Maria Junho Anastasia e Marcelo Cândido da Silva. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1994.  188p. Coleção Mineiriana, Série Clássicos. 

Notas e Créditos

* Texto e vídeo: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 17/07/2016 (moçambique) e 30/06/2013 (cidade)
*** Para saber mais sobre moçambique, leia neste blog a postagem:

JOMBA: UM OUTRO TIPO DE MOÇAMBIQUE