Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campos da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri dois link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O Caipira: personagem mal compreendido

Brasil afora corre a palavra "caipira" como sinônimo grotesco e zombeteiro de homem do campo, rurícola, produtor rural, morador dos arraiais e sítios. Por onde quer que seja o termo se aplica eivado de uma carga de descaso e até mesmo discriminação. Quase sempre é assim. 

Caipirismo se diz à atitude arcaica ou ao modo de agir, falar e vestir à maneira rural e não à urbana. Rural aqui subentendido como um rural muito ermo, tosco, antiquado, provinciano...

SAMPAIO (1987) buscando a etimologia da palavra apostou que procede do tupi "caí-pyra", icaipira, o envergonhado, o tímido. Seria uma formação em particípio passado adjetivo, do verbo "cai "(envergonhar), conjugado ao sufixo "pyra" (ou byra) _ o envergonhado. Contudo, em nota, Frederico Edelweiss discordou alegando ser kaí um adjetivo guarani.

CASCUDO (s.d.) abordou a possibilidade de caipira ser alteração de caipora, "o morador do mato", segundo origem tupi. Verbetizou-o traçando-lhe com a maestria de sempre seu perfil psicológico e etnográfico: "homem ou mulher que não mora na povoação, que não tem instrução ou trato social, que não sabe vestir-se ou apresentar-se em público." 

ARAÚJO (1964) registrou como ninguém a cultura caipira, a cultura do caipira. Em abordagem que entremeia a folclorística e a sociologia, o iminente estudioso foi extremamente cuidadoso na descrição e análise dos ritos, as crendices, a religiosidade, o artesanato, a indústria caseira, o modo de vida, as festas, os folguedos e danças, a produção agrícola, a culinária, etc. Verdadeiro documentário, indelével, é obra fundamental para quem queira iniciar ou aprofundar no assunto.

Qual a área do caipira? Poder-se-ia dizer que todo o Brasil. Cada área geográfica tem seu próprio tipo de "caipira" embora que o "típico", digamos assim, resida no interior goiano e mineiro, até terras paulistas, quiçá paranaenses. Tem uma vasta gama de sinônimos ou regionalismos e raro aquele que não vem maculado de zombaria: capiau, jeca, roceiro, tabaréu, matuto, maratimba (sul capixaba), caiçara (litorâneo em São Paulo e Paraná), etc. Para lhe desqualificar os procedimentos revelando sua imaginada idiotice o chamam ou dizem ser um panguá, caboclo, coió, roceiro, jurubeba, jacu, jabacuré, tião, sô zé... Chamar alguém de caipira é xingar-lhe, quando deveria ser um elogio.

Do ponto de vista étnico o caipira é fruto da miscigenação de nossos formadores e nada há nele que o vincule mais diretamente a uma etnia. Ele pertence ao povo brasileiro. A mescla dos saberes de cada um ele herdou e assim construiu uma parcela deveres significativa da cultura popular nacional. 

O estereótipo do caipira foi pintado na cidade como supersticioso, crédulo, apalermado, quase andrajoso, desengonçado, bobalhão. Teria roupas velhas e remendadas, chapéu de palha à cabeça, paletó surrado pelo tempo, cabelo desgrenhado, encardido, barba por fazer, descuidado em geral, calçado de alpercatas ou botinas, por vezes, sapatos velhos; cheirador de rapé, fumador de cigarros de palha, bebedor de cachaça. Pendendo no currião (*) um canivete de picar fumo, metido dentro de uma bainha de couro. No bolso de trás da calça um chumaço de palha seca de milho para confecção de cigarros. A mulher caipira não dista muito dessa figuração: vestido estampado, de cores berrantes e desenhos grosseiros, babados, pouca elegância no agir e andar; desprovida de qualquer senso de estética (sob a ótica urbana) ou de vaidade (idem); maquiagem borrada, exagerada, ridícula. Cabelo longo, amarrado com uma tira de trapo, ensebado, lamentável. Sandália simples no pé. Um bolsa sofrível a tiracolo. 

Uns e outros infalivelmente arrastando uma linguagem cheia de erros grosseiros de pronúncia e recheada de um vocabulário com termos e expressões das antigas. Sotaque próprio. Usam palavras específicas que na cidade pouco se sabe o que seja. O traje simplório contudo é uma necessidade prática da pesada lida cotidiana. Para os eventos, as festas, as celebrações, o homem do campo se veste bem e com gosto, limpo e cuidadoso. Vimos algumas vezes uma cena inusitada: gente da cidade ir a uma vila assistir uma festa de padroeiro ou outra, ingenuamente vestido de forma simples, e passar vergonha de ver os naturais do lugar, "os caipiras", mais limpos e bem vestidos que o cidadão da zona urbana. É uma oportunidade interessante para quebra desse paradigma. 

Anda pela cidade uma vez por mês para vender seus produtos (galinhas, toicinho, balaios, fumo, ovos, verduras, tapetes de tear, mel, sabão de bola... produtos da roça) e com o dinheiro apurado compram aquilo que não acham na roça (sal, querosene, ferramentas, ração para animais, produtos veterinários, etc.) e para lá seguem com tudo pendurado num saco no lombo de um cavalo, ou jogado no porta malas de um velho ônibus. 

É possível que essa figura se baseie em algum arquétipo do imaginário colonial, ou mesmo, que reproduza de fato, em memória inconsciente do coletivo, o tipo humano campesino do século XVIII e XIX, forçado pelas vicissitudes de seu tempo a ser assim ou, pelo menos, movido pela vida rude do campo, tal como é visto pela fidalguia orgulhosa da cidade.

Soma-se a isto a personificação do caipira na literatura brasileira, que aproveitando do elemento pré-existente contribuiu para fixá-lo no imaginário popular. Nesta mesma linha de raciocínio destaca-se a obra de Monteiro Lobato e notadamente o personagem Jeca Tatu, que à época figurou numa forte campanha de prevenção contra os males da verminose. A lerdeza de sua figura, tomada como modelo do caipira, foi atribuída à intensa infestação de vermes intestinais, adquiridos graças a maus hábitos de higiene, que, uma vez corrigidos fizeram a sua saúde regenerar e o jeca se tornou homem forte, bem disposto e trabalhador. A narrativa deste personagem teve um alcance extraordinário e foi repetido em comerciais, almanaques, coletâneas de estórias infantis de natureza didática com notável longevidade e popularidade, não obstante o caráter depreciador de sua própria figura, visto à luz do pensamento então vigente. 

Contudo, há um senão: no anedotário, o caipira surge portador de uma sagacidade incomum. Agindo no caipirismo, aparentando-se abestalhado é de fato inteligente, de pensamento rápido, esperto e se sobressai a toda cilada ou embaraço com a simplicidade costumeira, portador que é de uma solução irrefutável para cada circunstância.  

Outra ambiguidade reside na musicalidade e na poética. No imaginário urbano sobre o caipira se reconhece seu potencial nesses ramos, atribuído à sua ingenuidade de um lado e à vivência em contato com a natureza por outro. O caipira é então entendido como o sujeito que sabe como ninguém extrair do bucolismo de sua paisagem nativa os mais belos elementos para versos e melodias ao som da inseparável viola. Cantando só ou em duplas, traduz para a cidade o sentimento rural e em verdade invadiu a urbe com sua arte para mostrar que o campo tem valor. Neste contexto muito se deve aos esforços de Cornélio Pires, pioneiro nas gravações das modas caipiras, dando importantíssima contribuição para a discografia brasileira, valorizando as duplas de cantores.  Uma das modas gravadas graças a seu esforço, "Jorginho do Sertão", celebrizou-se e tornou-se antológica. Não é desconhecido o espaço que a música caipira conquistou no mercado gigantesco de shows e gravadoras. Com os anos, as adaptações converteram o estilo original e surgiu a música sertaneja, que hoje vende milhões e povoa a mídia, já bem distante das bases. E para a distinguir, a música caipira que permanece ligada diretamente ao campo (tradicional), esta foi adjetivada com a expressão "de raiz". A formação de duplas caipiras e até trios tornou-se uma possibilidade de sucesso com larga aceitação de mercado. Modas e toadas as mais diversas foram extensamente gravadas e regravadas, algumas celebrizando-se na voz de duplas de grande êxito.

Nas artes há ainda de se lembrar das pinturas realistas de Almeida Júnior, que imortalizou o caipira em suas telas.

Parte da mídia e da produção cinematográfica nos vende o cowboy. E porque será que ele foi tão bem absorvido? A cultura massiva repisa valores estilizados dos vaqueiros norte-americanos que nos chegam pelas telas. O mercado se aproveita do fato. O povo o consome. Mas paralelo a isto a cultura caipira sobrevive, nem que seja fragmentada, mas está aí. Como um fator de resistência identitária ela teima em desaparecer frente à mudança dos tempos ainda que aparente ser anacrônica. Em vários lugares a promoção de festas que enaltecem os valores da cultura caipira são exemplos desta reação ou resistência. Os festivais de carros de bois e tropeiros em certa medida ou paralelismo andam na mesma lógica. Na zona rural de São João del-Rei, no vilarejo do Caquende, já a nove anos acontece o encontro da cultura popular, cujo foco maior é reconhecer e valorizar a cultura popular rural, os saberes do homem do campo, do lavrador. É a celebração do trabalho, da colheita, da amizade e do saber caipira. 

Foi o caipira que nos deixou as danças típicas como o catira (cateretê), os fandangos como suítes de danças airosas, o gosto pela viola, o padrão de tantos festejos típicos. Foi ele quem fez viver nos vilarejos os folguedos típicos, trazidos também às cidades com seu próprio êxodo, apesar de não ser esta a única via de chegada da cultura popular às urbes, onde, aliás, também se forma dinamica e espontaneamente. Cultivou nosso patrimônio imaterial, decantou as lendas e fábulas, dominou a técnica de produção de maquinários como engenhos, moinhos e prensas. 

Ainda neste ramo da cultura é preciso enaltecer o papel do caipira na adaptação da viola ibérica ao solo brasileiro. De várias regiões portuguesas vieram os modelos originais, nossas matrizes: viola braguesa, viola amarantina, viola campaniça, viola beiroa, viola de arame, viola toeira. Foi ao sopé dos ranchos de pouso de tropas e boiadeiros, foi à sombra da árvore da beira do curral no intervalo da lida, foi no serão na cozinha, foi no alpendre da fazendinha que o caipira adaptou os modelos portugueses de viola à realidade brasileira, dando-lhe novos formatos de corpo, se valendo das madeiras tropicais da nação, e, com muita criatividade, reinventando velhas afinações ou criando novas, que foi batizando de nomes curiosos: boiadeira, rio abaixo, rio acima, cebolão, cebolinha, paulistinha, natural, cana-verde, paraguaçu, cuiabana, nordestina, repentista, realejo, etc... E assim surgiu a viola caipira, o instrumento musical mais representativo dos meios rurais, o mais emblemático, imediato evocador da nostalgia e do bucolismo romântico das roças. Fez logo parceria com a rabeca e a sanfona. A viola caipira é o carro chefe das cantorias da zona rural, comandando as modas, cateretês, cururus, fandangos, danças de São Gonçalo, folias de Reis e do Divino, e até mesmo presente em muitas congadas. Alguns grupos de congo se identificam por terem como primeiro dançante de cada fila (guia) um violeiro e o povo logo o diz "congo de viola".

A favor do caipira a sua fé reconhecida o distingue, a dedicação aos festejos de seus santos queridos e protetores o enaltece pela devoção ímpar. Também o reconhecem como uma pessoa extremamente honesta e trabalhadora. 

É muito arraigada a aproximação do caipira ao mineiro do interior, quase em sinônimo. Nas piadas que o mineiro (citado expressamente como tal) protagoniza, seu personagem guarda as características do caipirismo e a expertise de sobressair sobre todos com acuidade de raciocínio. 

Qual um estereótipo, o modelo antiquado de mineiro materializa o caipira até mesmo em Minas Gerais. Nessas condições, o próprio natural deste estado, ao narrar uma piada, diz: _ "Um mineiro, lá do interior..." (como se ele próprio não fosse do interior) ou _ "O mineirinho..." (minêrin'). Interior neste contexto não é o local longe do litoral ou da capital; assume o ar de distante, longínquo, ermo _ em relação ao narrador. O caipira do interior em certa medida se equipara ao conceito de sertanejo, já em tom fantasioso. 

Se de um lado o caipira é com muito humor e sarcasmo caricaturado nas charges e nas danças juninas das quadrilhas, por outro, é em certa medida invejado por suas qualidades reconhecidas e senão mesmo idealizado como modelo de equilíbrio na vida natural. Muitos sonham em sair do caótico mundo urbano e se esconder num rancho beira rio, sob árvores e cantos de pássaros; muitos da cidade planejam adquirir um sítio para nele viver à caipira; tantos outros nos momentos de depressão e tédio atavicamente passam uns dias no campo desprovidos de todo conforto urbano para se refazerem. Ao estresse urbano se opõe o sonho de junto a uma casinha modesta ouvir o som da viola, comer uns torresmos com angu e tomar uma talagada de boa pinga.

Aliás, à cachaça de produção seriada, industrial, crê muito apreciador desta bebida nacional, se oponha aquela de produção limitada, artesanal _ "pinga do roça" _ cuja maneira de produzir o caipira domina como ninguém. E o conceito se fixou como uma verdade, independente de qualquer argumento técnico. 

Tal ambiguidade de sentimentos parece revelar o caipira que existe em nós, do qual queremos nos livrar para provarmos agente mesmo que nós evoluímos, sofisticamos, civilizamos (!). Mas se o desequilíbrio de nossa civilidade nos assola é o atavismo que nos torna às raízes e como árvore não vive sem raiz, é no campo que buscamos a seiva revigorante.


Cena da colheita do milho no Caquende e intervalo para o cafezinho. 

Notas e Créditos

* Caipira - além do sentido abordado nesta postagem, caipira é também chamado um artefato de equitação de madeira e couro, um tipo de chicote. Ver a postagem CHICOTES.

** Currião - cinto de couro cru, ainda provido de pelos do animal, apenas curtido ao sol. Grande correia de suspender a calça; correiona, correião. 

*** Texto: Ulisses Passarelli

*** Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 04/05/2014. 

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. São Paulo: Martins, 1964. 3v. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. 

SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional: introdução e notas de Frederico G Edelweiss. 5.ed. São Paulo: Nacional; Brasília: INL, 1987. 359p. p.110 e 212.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Nomenclatura geográfica popular

Na ocupação ambiental, o homem no convívio com a natureza e uso de seus recursos, à medida que foi desbravando o imensidão continental, tratou logo de denominar os lugares para facilidade de localização. Tais nomes se fixaram como topônimos e tem elevado valor cultural: Serra das Vertentes, Rio Carandaí, Morro do Vento, Fazenda do Pombal, Povoado do Biongo, Cruzeiro do Pau d'Angá, Ponte da Província, Pedreira da Divisa, Lagoa do Cará, Córrego do Lenheiro, Ribeirão São Francisco Xavier, Gruta do Caititu, Cachoeira dos Gamelões, etc. Muitas vezes os topônimos são vitimados por mudanças indevidas de nomes, num flagrante desrespeito ao seu significado histórico. A toponímia já foi alvo de postagem neste blog (*). 

Ora este texto se dedica a uma outra classe de denominações: a dos acidentes geográficos, que tem íntima correlação coma a toponímia. Independente do topônimo individual existem alguns elementos paisagísticos de orografia, hidrografia e vegetação, que por se repetirem daqui e dali, mereceram uma nomenclatura específica. Alguns termos são assaz conhecidos e até dicionarizados; outros, nem tanto... No mais, existem diferenças regionais de significação. Assim, o quê aqui nas Vertentes denominamos "restinga" em nada corresponde à restinga litorânea, como forma de vegetação (**). 

A nomenclatura geográfica popular nunca teve nenhum compromisso com as formas acadêmicas. É como o povo vê a natureza e isto lhe basta. 

É sobretudo nos meios rurais que sobrevivem estas expressões que aos ouvidos urbanos soam estranhas. O sitiante delas precisa quando vai campear uma rês tresmalhada: 

_ "Você viu aquela minha vaca moira (***), compadre? Ela sumiu desde ontem...
_ Vi, compadre, lá detrás daquele boqueirão rio abaixo". 

É o bastante como indicativo. No local, além da acuidade visual, o sitiante observará sinais como fezes no caminho, vegetação pisoteada pela criação, ramos quebrados pela trilha. Logo acha a vaca. E se não achar, reza para Santo Antônio, que esse santo não falha na busca de gado perdido...

Serve-lhe de posicionamento de limites: 

_ "minha divisa, sô Zé, passa lá no espigão daquela serra". 

Ouvir um tropeiro, ou dialogar com o boiadeiro, observar a fala do retireiro... é uma aula maravilhosa de saberes do nosso mundo rural, é mergulhar num universo de cultura popular muitas vezes menosprezado pelos compêndios. 

Os termos abaixo listados em glossário foram sumariamente pinçados da memória. Natural que existam omissões de outros... Lembrando mais uma vez que noutras regiões poderão existir mais designações ou que estas tenham outro significado. Além da nomenclatura geográfica, aproveitando o ensejo, foram acrescidos outros termos correlatos que indicam certas características de um terreno. 


Glossário


Aba - a vertente de uma serra; encosta. 

Areado - regato com considerável quantidade de areia no leito. 

Baiacu - lama finíssima e escorregadia, imediatamente à margem dos rios. Na costa o conceito é outro: baiacu é o nome dado pelos pescadores aos peixes oceânicos da família tetraodontidae

Baiacu na margem do Rio das Mortes, na localidade do Brumadinho
(São João del-Rei/MG). 24/08/2014. 

Banqueta - degrau ou base de um barranco; talude ao sopé de um morro. Nas margens do Rio das Mortes, na Colônia do Bengo, em São João del-Rei, logo após a antiga "Parada do Patronato" (km 103 da Estrada de Ferro Oeste de Minas, extinta "Linha do Sertão") uma curva leve do rio, em corredeira, tem o nome de Banqueta. É tida por mal assombrada. Aí, a muitos anos, relatam, o famoso benzedor sr Emídio do Bengo teria visto à noite uma cobra gigantesca atravessando a linha férrea rumo ao rio. Decerto, seria uma sucuri (anaconda). 

Barra - o mesmo que "encontro": é a foz de um córrego ou rio. 

Barra de um regato no Córrego do Brumado de Cima.
São João del-Rei. 25/07/2009. 

Bocaina - vale, abertura entre duas montanhas. 

Boqueirão - vossoroca grande, abertura erosiva larga de um terreno. 

Capão - o mesmo que capoeira. Mata pequena. Ficou célebre na história da Guerra dos Emboabas (1707-1709) o episódio de uma chacina próxima à atual cidade de São João del-Rei, num local que ficou conhecido por "Capão da Traição". 

Capoeira - Pequena mata, isolada de outras áreas florestais. Conjunto relativamente fechado de árvores pequenas. 

“Falei contigo 
no cordão do quarentão, 
quando eu roçava capuêra 
minha cumida era mamão, 
eu pegava com São Jorge, 
santo da minha divução! etc.” 
(Calango, Guilherme [Bias Fortes/MG], 1996). 

O mesmo que capão. Se acaso tem árvores um tanto maiores mas ainda não chega a ser uma mata típica (de aspecto florestal), dizem "capoeirão". O terreno onde o mato vai crescendo desordenadamente, tampando-o, diz-se que está "encapuerado".

Chapada - vale amplo e relativamente plano ou com inclinação moderada entre duas cadeias montanhosas. Em São João del-Rei exite a localidade da Chapada, junto à Serra do Lenheiro, no distrito de São Gonçalo do Amarante e a ainda a Chapada do Diogo, entre os distritos de Emboabas e São Miguel do Cajuru. 

Chapadão. Serra de São José, em Santa Cruz de Minas e Tiradentes/MG. 23/10/2009. 

Desbarrancado - qualquer vossoroca; área de desmoronamento; terreno com deslizamento de solo. 

Espigão - crista que culmina uma montanha ou sequência de morros. Linha imaginária que tangencia as partes mais elevadas de uma serra. 

Facão - passagem em barreira horizontal entre duas montanhas, mais ou menos escarpada. 

Facão visto ao fundo, entre as montanhas, a partir do Chuveirinho
(Santa Cruz de Minas). Serra de São José, 12/02/2011.

Fervedouro - nascente borbulhante, como se a água estivesse fervendo. Fonte natural onde a emanação de água produz bolhas. Existe um canto de catupé, coligido em São João del-Rei, que diz: 

"Quem nunca viu, vem vê:
caldeirão sem fundo, fervê!"

Dizem os congadeiros que é uma referência o fervedouro, mas na prática se aplica aos momentos festivos de relativa tensão, quando surgem demandas entre os grupos de congado. Diz-se então que a Festa do Rosário está "fervendo"... 

Fio d'água - local onde a água de um rio corre com aspecto linear, devido à interposição de uma pedra submersa, galho, ou ponta de barranco das margens, sendo via de regra mais impetuosa que a água em derredor. 

Garganta - passagem em barreira vertical entre duas montanhas, mais ou menos escarpada, sempre estreita. A forma faz analogia à garganta anatômica (orofaringe).

Grota - abertura estreita numa encosta, maior que a garganta, ou ao contrário dela, sem constituir uma passagem. Vão num morro, coberto de densa vegetação, sombrio, úmido. Quando a dimensão é maior chamam-lhe grotão. Grota tem o sentido de recôndito, selvagem. É neste contexto que os umbandistas cantam o ponto de um célebre guia caboclo, do qual segue transcrito este fragmento:

(...)
Ubirajara,
mora lá nas matas,
lá na grota funda, 
lá no fim do mundo!"

Uma pequena grota na Serra de São José,
Santa Cruz de Minas. 20/02/2017. 

Lagrimal - encosta ou porção de terreno com grande quantidade de nascentes muito próximas da qual a água escoa em vários fluxos que depois se unem. Por analogia, é como se uma lágrima escorresse. 

Loca - pequena caverna; grota entre pedras grandes. Covil, lura. A nomenclatura também é usada para formações semelhantes submersas em rios. 

Mina - nascente; fonte de água natural.

Noruega - brejo de campo ou brejo de altitude, em oposição ao brejo de baixadas. Alagadiço de partes altas ou de encostas, lugar úmido, sombrio. A argila encontrada nas noruegas é em geral acinzentada, preferida como matéria prima para trabalhos de cerâmica popular por sua resistência. Vasilhames feitos com esta argila não deixam gosto de barro, dizem os oleiros experientes, tais como filtros, talhas e potes. Ao contrário, se usarem a argila de brejo comum (de baixada) o gosto de barro não sai e prejudica a qualidade da peça. Não é rara a pronúncia "norôega". Em Minas Gerais há uma antiga cidade do ciclo do ouro chamada Catas Altas da Noruega, nome oriundo desta nomenclatura tradicional. 

Oca - (pronúncia aguda, "óca") barranco ou afloramento de latossolo numa encosta, amarelo ou vermelho (o termo piçarra se aplica mais ao latossolo acinzentado). 

Olho d'Água - nascente; fonte de água natural.

Pirambeira - despenhadeiro, ravina, descida extremamente íngreme e inacessível. 

Praia - córrego de margens arenosas; ribeiro com acúmulo de areia marginal; praia fluvial. Na região tem-se na toponímia o Córrego do Espraiado (São João del-Rei e Ritápolis), Três Praias (São João del-Rei), "Praia" (alcunha do Córrego do Lenheiro em São João del-Rei), Prainha (distrito de Ritápolis). 

Rebojo - área de remanso de um rio onde o fluxo movido por força de águas mais profundas retorna a montante, fazendo um giro das águas. O mesmo que "reboio". Rodeio de águas fluviais.

Vista de um rebojo no trecho do baixo Rio das Mortes, entre a Ponte do Inferno
e Aureliano Mourão (Bom Sucesso/MG). Notar que o canal do rio passa em
corredeira à esquerda da fotografia e à direita, no grande remanso, pedaços de
galhos boiam em giro indicando circularidade das águas. 01/01/2003. 

Restinga - faixa de vegetação alta entre a vegetação baixa. Entremeio de capoeiras num cerrado. 

Saco - volta acentuada de um rio, cuja curvatura simula o reencontro dos extremos do fluxo. Na toponímia fixou-se no Rio Grande num distrito de Carrancas/MG: Capela do Saco. A característica que deu nome ao local está hoje submersa na Represa de Camargos. O saco se diferencia da baía por ter uma faixa de terra interna. Próximo à Capela do Saco existe a localidade denominada Baía, no lado são-joanense. 

Saivá - área de mato ralo e relativamente alto numa pastagem; "pasto sujo" (arborescente). 

Serrote - pequena serra, serrinha, serrota. Pequenos morros com blocos rochosos. 

Serrote, no início da Serra de São José.
Santa Cruz de Minas. 28/11/2011. 

Sumidouro - desaparecimento de um fluxo d'água sob a terra; passagem subterrânea de águas fluviais; poço de grande profundidade num rio onde o torvelinho puxa para o fundo, gerando muitos afogamentos. 

Tijuco - brejo, pântano, atoleiro, paul. É também corrente a grafia "tejuco". Tem outrossim a variante no feminino. Em São João del-Rei existe o Bairro do Tijuco, às margens do Córrego do Lenheiro, outrora obrigando o Caminho Geral do Sertão a passar na parte mais alta (atual Rua Santo Antônio), para sair da área alagada de suas margens; há também o pequeno povoado do Tijuco, no distrito de São Sebastião da Vitória, antiga passagem junto ao atalho do mesmo caminho, surgido no começo do século XVIII a partir de Encruzilhada (hoje Cruzília, no sul mineiro). 


Notas e Créditos



** Restinga: igualmente acontece com a palavra "mangue", aqui aplicado a uma espécie arbórea que nasce junto aos cursos de água. Na Serra de São José existe inclusive a "Cachoeira do Mangue", referência a este vegetal. No litoral é uma árvore completamente diferente, que domina áreas salobras sob influência das marés e constitui o elemento preponderante do bioma manguezal. 

*** Vaca moira: bovino com pelagem branca, intermediada por malhas largas em preto e entre elas, salpicados escuros difusos, maculando o fundo branco. Para consultar outras denominações de cores de animais leia neste blog: CARACTERÍSTICAS DOS ANIMAIS

**** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Folia de Ritápolis

Em data incerta dos setecentos surgiu a povoação de Santa Rita do Rio Abaixo. BARREIROS (1976) estimou que tenha surgido na terceira década do século XVIII. Emancipou-se de São João del-Rei em 1962, por força da lei nº 2.764, de 30 de dezembro sob o novo nome de Ritápolis. 

A cidade de Ritápolis, no trecho médio do vale do Rio das Mortes, Campo das Vertentes de Minas Gerais, conserva ainda seu grupo de folia de Reis e de São Sebastião (*), com excelente qualidade da composição dos verso. A folia traz a experiência dos irmãos Marinho na liderança. O vídeo a seguir lincado retrata um pequeno trecho de sua apresentação durante o 17º Encontro de Folias de Mercês de Água Limpa (antiga Capelinha), distrito de São Tiago/MG, no dia 31 de janeiro de 2016.  





Notas e Créditos

* Além da folia da sede do município, Ritápolis também possui grupos tradicionais na zona rural, como o da Restinga de Cima e o da Restinga de Baixo. Noutros tempos, também as teve no Ramos, Glória, Penedo e Prainha. Congados tem na sede municipal e na Restinga. Queimas de judas na cidade e distritos. Em Ritápolis é muito tradicional o Enterro do Zé Pereira, no último dia de carnaval. 
**Texto, vídeo, edição e acervo: Ulisses Passarelli
*** Referência bibliográfica: BARREIROS, Eduardo Canabrava. As Vilas del-Rei e a Cidadania de Tiradentes. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1976. 128p. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Na hora da Ave Maria

As senhoras católicas desse interior imenso guardam ainda consigo o velho costume da prece às "seis da tarde" (18 horas). É um compromisso sagrado. É o horário limite entre o dia e a noite. Hora da Ave-Maria, quando se deve fechar a casa para impedir a entrada do “Ar da Noite”, que traz as forças malignas para dentro de casa. É horário consagrado a Nossa Senhora e às almas. 

Nossa população costuma rezar neste momento a Ave-Maria e o “Angelus Domini” ou o “Regina Coeli”. É costume ligar o aparelho de rádio neste momento para ouvir o canto da Ave Maria de Gounod. Na beirada da cozinha à lenha, sentado na varanda, ou na borda da cama, escutar o velho rádio de pilhas nessa hora é algo inquebrantável. Nem que seja o nome do pai se deve fazer. É hora aberta. O corpo está vulnerável, a residência também. A prece ajuda a fechar e busca as proteções divinas. 

É inegável a força e a expressão devocional à Virgem Maria na região das Vertentes. Nos primórdios da colonização, quando se intencionou construir a primeira igreja no núcleo que daria mais tarde origem a São João del-Rei, a escolha recaiu sobre Nossa Senhora do Pilar. Isto foi em 1703, no Porto Real da Passagem, hoje sito no perímetro do grande bairro de Matosinhos. 


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli

domingo, 29 de janeiro de 2017

Encontro de Folias da Capelinha

Janeiro se faz por derradeiro e com ele encerra-se o período de ação das folias. Em verdade, a jornada de visita às casas concluiu-se no dia de São Sebastião (20 de janeiro). Contudo, os dois finais de semana seguintes do mês propiciam a participação das companhias em encontros de folias e festas religiosas ainda dedicadas ao mesmo santo, nos subúrbios e vilas. 

Temos dito e vivenciado que a manutenção das folias passa por grandes dificuldades que as põe em risco. Não é sem motivos que numericamente tem diminuído muito e ainda, que muitos grupos em si minguaram o número de componentes. Em essência ou no geral pouco atrai a atenção participativa dos jovens. Pelo menos na região das Vertentes... Aqui a faixa etária de participação é bem mais elevada, de meia-idade para terceira idade. Isto põe uma sombra no mecanismo de transmissão do saber. Em outras áreas do estado a realidade é diferente e existem locais que o jovem e a criança aderem sem maiores dificuldades e sobretudo se aproximam da função de marungo (*), que acaba lhes sendo especialmente atrativa. 

Lamúrias à parte, ainda podemos regozijar com o retorno às ruas desde dezembro último de duas folias que estavam paralisadas a alguns anos: a de César de Pina e a da Caieira ("Embaixada Santa"), de São João del-Rei, ambas graças a esforços de antigos participantes. 

Folia "Embaixada Santa", em jornada de visita a casas com a bandeira de São Sebastião. 

Hoje acontece em Mercês de Água Limpa (São Tiago/MG), a antiga e popular "Capelinha", um dos mais significativos encontros regionais de folias. Desde cedo os grupos chegam com bandeiras de Reis e de São Sebastião e eventualmente do Divino Espírito Santo, de vasta área do Campo das Vertentes e do Oeste de Minas. Já em sua décima oitava edição, firmou-se como um evento sólido, graças sobretudo aos esforços de coordenação do senhor Jorge Geraldo Canaan, popularmente conhecido por "Jorginho" _ justiça lhe seja feita _ pessoa afeita à cultura e que trata as folias com imensurável respeito e carinho, motivo natural que tornou o Encontro de Capelinha tão concorrido. Obviamente que isto só foi possível graças ao apoio forte da comunidade local, a parceria com o poder público e aos patrocinadores. Em conjunto construíram um encontro atrativo e firme, de uma formatação que deixa as folias muito à vontade. 

O curto vídeo abaixo lincado é uma montagem com fotografias do Encontro da Capelinha do ano passado. Em efêmeros fragmentos revela um pouco do encanto proporcionado pelas folias e a força do evento em foco. O áudio colhido na ocasião procede da folia de Desterro de Entre Rios. 


Notas e Créditos

* Marungo: personagem mascarado das folias, de caráter cômico. Também conhecido por palhaço, bastião, matias, alferes, guarda, másca e outros nomes, conforme a região.
**Texto e vídeo: Ulisses Passarelli
*** Fotografia: Maria Aparecida de Salles, 12/01/2017

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Festa de São Sebastião em São Gonçalo do Amarante

Nesta postagem o Blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES apresenta mais um vídeo, que testemunha a tradição regional das folias, desta vez no distrito de São Gonçalo do Amarante (ex Caburu), em São João del-Rei, onde é muito tradicional o festejo em honra a São Sebastião, coroado com a procissão, foco deste vídeo. 

Folia de São Sebastião do distrito de São Gonçalo do Amarante
(São João del-Rei/MG, Brasil), durante a procissão dedicada a este santo
na sua própria comunidade, a 25 de janeiro de 2015. 


Já em outra oportunidade este blog dedicou uma postagem ao referido festejo, cuja consulta aconselhamos para acesso a maiores detalhes a respeito. O link encontra-se ao final desta. 

O primeiro vídeo mostra o encontro da folia da sede distrital com a folia visitante da Colônia José Teodoro, no mesmo município, conhecida por "Folia do Carlão", mas cujo nome real é "Mensageiros do Paráclito", sob a bandeira do Espírito Santo, o comando do folião Carlos Leandro de Oliveira e a voz do Embaixador Antônio Francisco dos Santos.

No segundo vídeo aparece a procissão, em imagens que privilegiam a participação da companhia folieira do Mestre Lourival Amâncio de Paula, popularmente chamada "Folia do Vavá" (alcunha carinhosa do folião e embaixador) e "Folia do Caburu" (referência ao nome anterior do lugar). Assim como acontece com outras tantas folias regionais, esta também se desdobra na atuação em folia de Reis, folia de São Sebastião e folia do Divino, conforme a época do ano, praticamente com os mesmos participantes. No caso em questão segue a folia de São Sebastião, cantando durante o itinerário da procissão em 2015.




Notas e Créditos

* Vídeos: Iago C.S. Passarelli, 25/01/2015
** Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli
*** Leia também: CABURU FESTEJA SÃO SEBASTIÃO

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Encontro de folias na Restinga

Estamos em plena temporada das folias. Pela região das Vertentes os diversos grupos ativos estão em jornada de visita às casas, capelas, grutas e cruzeiros. O prazo expira no dia do "Santo Mártir Guerreiro", titulação ofertada livremente pelo povo ao queridíssimo São Sebastião, festejado oficialmente a 20 de janeiro. Contudo, em razão de haverem muitas festas dedicadas a ele em várias comunidades, devido à coincidência das datas e pela própria necessidade logística, em algumas capelas a festa recai sobre o primeiro ou segundo domingo subsequente. 

É o caso abaixo retratado, da Restinga de Baixo, distrito de Ritápolis/MG, cujo festejo é muito tradicional, já documentado por este blog em postagem publicada. Na Restinga a festa conserva muitos elementos típicos, tradicionais, entre os quais um encontro de folias. A companhia local é a anfitriã e encontra no respeitado Mestre Folião Sebastião Ezequiel um baluarte da sua manutenção. Nas imagens abaixo e no vídeo anexo, todos da mesma data, observa-se também a participação da folia da cidade São Tiago, e ainda, a da Colônia José Teodoro (São João del-Rei). 

O encontro é de paz, à sombra das grandes árvores do largo. Cada companhia saúda a bandeira e os foliões da outra e juntos louvam a Deus em seus versos e entoam a veneração ao santo festejado na ocasião. É uma celebração da harmonia, da união e da fé. 




Assista a seguir ao vídeo deste encontro realizado em 24/01/2016:



Notas e Créditos

* Texto, fotografias, edição, vídeo e acervo: Ulisses Passarelli
** Para maiores detalhes leia neste blog: A FESTA DE SÃO SEBASTIÃO NA RESTINGA 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Vinte e cinco rezas fortes benzeções

(Texto revisado, atualizado e ampliado. A postagem original pode ser acessada clicando no seguinte link: VINTE E CINCO REZAS FORTES E BENZEÇÕES)

*  *  *

Este texto é dedicado à exposição de algumas preces e benzeduras populares consideradas fortes, coletadas na Microrregião Campos das Vertentes, no centro-sul de Minas Gerais. Friso a palavra “populares” no sentido de extra-oficiais, ou seja, em geral sem autorização eclesiástica ou ainda, fora da liturgia católica. Restringem-se ao uso caseiro, individual, ou no máximo comunitário, surgindo quando das rezas coletivas junto aos cruzeiros, nichos, grutas, salões, ermidas, etc., na ausência do sacerdote.

Por “reza forte” se entende aquela capaz de pela força das palavras livrar o devoto de um mal terrível, iminente, vencer inimigos, alcançar prodígios. Não é uma prece comum. A sonoridade da pronúncia, muitas vezes rimada confere-lhe como que um poder mágico. Por isto as palavras não devem ser substituídas, pois nelas reside a força vital, anímica e energética, que gera no plano espiritual a concretização da graça esperada.

Por toda a parte do país correm orações desse tipo, evocando santos muitas vezes não reconhecidos pela Igreja, mas que para o fiel são tão santificados quanto aqueles agraciados pelo processo de canonização do Vaticano. Outras se dirigem a santos oficialmente instituídos pelo catolicismo, mas orando de forma que destoa dos padrões que constam nos breviários.

Algumas dessas rezas mostram-se eivadas de superstições e espiritualismo e por isso mesmo são renegadas pelos carolas. Mas tem grande interesse para a folclorística. Podem surgir apenas decoradas na memória de um devoto, ou escritas à mão num caderno de preces, ciumentamente preservado. Outras se difundem pelos jornais no setor de classificados ou ainda, em pequenos panfletos volantes (“santinhos”), distribuídos aos milheiros, deixados pelos fiéis sobre os bancos de igrejas, velórios, capelas de cemitérios e balcões comerciais ficando assim dispostos ao público em geral. Excluí desta coletânea as orações tipo “corrente”, motivo para outro texto.

Como se trata de uma mera coletânea não houve preocupação analítica. Limitei-me a tecer breves comentários.

* * *

1) Oração Positiva

"Sou perfeita, alegre e forte, tenho amor e muita sorte!
Sou feliz e inteligente, vivo positivamente.
Tenho paz, sou um sucesso, tenho tudo que eu peço.
Acredito firmemente no poder da minha mente,
porque tenho Deus no subconsciente."

Obs.: oração considerada consagrada a São Cosme e São Damião, embora não sejam citados entre suas palavras.

Inf.: Édila Santos Passarelli, mãe do autor. Encontrei um exemplar manuscrito por meu avô materno, Aluísio dos Santos e outro publicado nos classificados de um jornal.

2) Prece de Nhá Chica

Nhá Chica é cognome de Francisca Paula de Jesus, documentalmente nascida em São João del-Rei. Atribui-se que sua natividade tenha sido na Fazenda Porteira dos Vilelas, no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, comunidade do Atalho, em 1810. Esta fazenda situava-se na margem da Estrada Real (Caminho Velho ou Caminho Geral do Sertão), entre o citado distrito e a cidade. O local é atualmente marcado por uma ermida. Seu documento de batismo diz que ela foi batizada na Igreja (velha) de Santo Antônio, a muito inexistente, substituída pela nova no centro da vila. Mudou-se jovem para Baependi, no sul mineiro, onde viveu, ganhou fama por suas virtudes e conselhos e onde construiu uma igreja em honra à Virgem da Conceição. Naquela cidade faleceu a 14/06/1895.

Dia 14/01/2011 o Papa Bento XVI reconheceu Nhá Chica como virtuosa, primeira vitória de seus fiéis no processo de canonização [1]. Recebeu assim o título de Venerável. Em 04/05/2013 ocorreu a cerimônia oficial de sua beatificação [2].

Recentemente foi localizado o livro de registro de batismos que comprova sua naturalidade são-joanense, passo inicial para se fazer o registro civil tardio da ilustre católica [3].

Prece coletada sobre o lavabo da sacristia da Igreja de São Gonçalo Garcia, São João del-Rei, em janeiro de 2008, deixada por devotos para divulgação. Papel impresso do tipo “santinho”,  em formato 19 x 8 cm, tendo numa face a estampa da Beata e no verso a seguinte prece:

"Oração a Santa Nhá Chica – comemora-se todo dia 14 de junho. Entrega teu problema nas mãos da Serva de Deus Nhá Chica, a Santa Mineira que concede favores impossíveis. Oração (Credo Franciscano Leigo).

Creio em Deus Pai Todo Poderoso e em Jesus Cristo, seu único filho, Nosso Senhor. Creio na Santa Igreja Católica e em Maria Imaculada, Nossa Senhora, que levantou entre nós Francisca de Paula Isabel que de menina órfã tornou-se serva de Deus. Não lia mas conhecia a verdade. Andava com a imagem da virgem e sempre com o terço na mão. Seus olhos olhavam Maria, sua boca falava com a Mãe e fez uma igreja para Ela. Curou doentes do corpo, alimentou os famintos e cuidou de crianças sem lar. Creio na intercessão de Nhá Chica que orou e o trem parou, achava objetos perdidos, via no escuro o futuro, ficava suspensa do chão, soltou perfume ao morrer e morta operou milagres: um deles do grão de arroz. Maria pedia-lhe coisas: igreja, órgão e missas, chamando: “Nhá, Nhá, minha filha!” E levantada, Francisca tornou-se modelo de fé, de caridade e devoção à igreja e era apegada a Maria. O povo pedia-lhe graças e Deus lá do Trono atendia com chuvas de bênçãos do céu. E fez-se assim poderosa a intercessão de Nhá Chica. Portanto eu creio com fé nos santos favores celestes da piedosa e bem aventurada Francisca para curar, benzer e alcançar todo tipo de graça, principalmente a que estou precisando neste momento! Amém."

Rezar 1 Pai Nosso, 1 Ave Maria, 1 Salve Rainha e fazer o sinal da Cruz. Mandei publicar um milheiro desta oração em reconhecimento pela graça que recebi e para divulgar a obra de Nhá Chica. Faça você o mesmo após pedir uma graça. (Esta instrução originalmente acompanha a oração na mesma folha).

3) Oração de Santa Sara de Kali

"Sarah, Sarah, Sarah, fostes escrava de José de Arimatéia, no mar fostes abandonada (pedir para que nada te abandone: amor, dinheiro, felicidade, saúde). Teus milagres no mar se sucederam e como sua protetora e como santa te tornaste, à beira do mar chegaste e os ciganos te acolheram. Sarah, Rainha, Mãe dos Ciganos, ajudastes e a ti eles consagraram como sua protetora e mãe vinda das águas. Sarah, Mãe dos aflitos, a ti imploro proteção para o meu corpo, luz para os meus olhos enxergarem até no escuro (pedir força para seus olhos, vidência), luz para o meu espírito e amor para todos os meus irmãos: brancos, negros, mulatos, enfim a todos que me cercam. Aos pés de Maria Santíssima, tu, Sarah, me colocarás e a todos que me cercam para que possamos vencer as agruras que a terra nos oferece. Sarah, Sarah, não sentirei dores nem tremores, espíritos perdidos não me encontrarão e assim como conseguistes o milagre do mar, a todos que me desejarem mal, tu com as águas me fará vencer (quando a pessoas não está bem e querendo resolver algo muito importante, deve beber três goles de água). Sarah, Sarah, Sarah, continuarei caminhando sem parar, assim como as caravanas passam, no meu interior tudo passará e a união ficará; e sentirei o perfume das caravanas que passam deixando o rastro de alegria e felicidade. Teus ensinamentos deixarás. Amai-nos Sarah, para que eu possa ajudar a todos que procuram, ajudados pelos poderes de nossos irmãos ciganos. Serei alegre e compreensivo com todos os que me cercam. Corre no céu, corre na terra, corre no mundo e Sarah, Sarah, Sarah estará sempre na minha frente. Assim como os ciganos pedem, Sarah fique sempre na minha frente, sempre atrás, do lado esquerdo, do lado direito. E assim dizemos: somos protegidos pelos ciganos e pela Sarah que me ensinará a caminhar e a perdoar. Amém.

Preparar um altar com a imagem de Santa Sarah Kali e acender uma vela azul. Colocar flores, frutas (uvas, maçãs, peras) e um pouco de arroz cru em um copo. Rezar 3 ave-marias – a primeira para Sarah, a segunda para os ciganos e a terceira para você”. (Esta instrução originalmente acompanha a oração na mesma folha).

Obs.: prece umbandista, para evocar a falange cigana da linha do oriente. Surge também a grafia Santa Sara Kalli ou de Kalli.

Inf.: Damião Guimarães, 2001.

4) Oração ao Anjo da Custódia

"_ Amigo Custódio!
_ Custódio, sim; amigo, não!
Das treze palavras ditas, me diga a uma ...
_ Uma é o poder de Deus, que é maior!
As duas são as duas tábuas de Moisés!
As três são as três palavras ditas pelo Cordeiro do Monte Sinai!
As quatro são os quatro anjos que suspenderam a pedra da sepultura de Jesus Cristo!
As cinco são as cinco chagas de Nosso Senhor, Jesus Cristo!
As seis são as seis velas que alumiou Jesus Cristo!
As sete são os sete dons do Divino Espírito Santo!
As oito são as oito moças donzelas!
As nove são os nove coros de anjos!
As dez são os dez filhos abençoados que são herdeiros do Monte Sinai!
As onze são Moisés sobre as montanhas esperando com os braços abertos!
As doze são os doze apóstolos de Jesus Cristo!
As treze são os raios do sol e da lua e da estrela, que arrebente na testa dos meus inimigos e que os poderes de Jesus Cristo e Nossa Senhora Aparecida seja maior e me defenda dos inimigos.
Amigo Custódio!
_ Custódio, sim; amigo, não!
Das treze palavras ditas e retraídas, me diga a treze ..." (repete tudo de trás para frente, em ordem decrescente)

Inf.: Elvira Andrade de Salles, jul./1997. Santa Cruz de Minas.

Obs.: considerada oração muito forte. Não deve ser ensinada a não ser aos filhos. Não pode ser rezada de forma cotidiana. É reservada a situações emergenciais, de muita angústia, diante de encostos, possessões, assombrações, perigos iminentes.

5) Oração contra a pisadeira

"Pisadeira da mão furada, do pé escarrapachado: vá pular o mar trezentas mil vezes de costas enquanto o dia não amanhece... Vai!" (3x)

Inf.: Elvira Andrade de Salles, jul./1997. Santa Cruz de Minas.

Obs.: Rossini Tavares de Lima [4] registrou esta versão de Taubaté / SP: “São Bento lá mesmo me disse / que não tivesse medo de nada, / nem da pisadêra da unha torta e revirada. / Cada canto desta casa / meu anjo da guarda me valha.” A pisadeira é um mito que personifica o pesadelo. Descrita como um espírito mau, de uma mulher gorda, dos pés imensos, que assombra o sono pisando com seu pé largo sobre a barriga de quem dorme sem rezar ou comete o pecado da gula antes de dormir. Causa o pesadelo e a angustiosa sensação de sufocação. Sua curiosa fórmula expurgatória alude às suas deformidades: mão furada (em alguns lugares creditada ao saci-pererê), pé escarrapachado (de prancha, largo), unha revirada (voltada para cima), medonhos atributos herdados de Portugal onde se acreditava pertencesse a alma de um religioso encapetado, mito conhecido como “Fradinho da Mão Furada” [5]. Alceu Maynard Araújo registrou em fotografia uma escultura em barro representando a pisadeira, de autoria do artesão Lourenço Ceciliato, de Tatuí/SP [6].

6) Oração contra ameaça de morte

"Atire inimigo, atire,
Mas não atire em mim;
atire nos três pingos de Nossa Senhora!
Jesus nascido, Jesus nascido é.
Abrandai o fogo de toda arma que vier contra mim,
Meu Bom Jesus de Nazaré.
A cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo
Anda adiante de mim!
Quem nela morreu responda por mim,
Os meus inimigos não toquem em mim!"

Inf.: Édila Santos Passarelli, nov./2007

Obs.: prece ensinada por um benzedor de São João del-Rei.

7) Pai Nosso Pequenino

1ª versão:

"Padre Nosso Pequenino,
Deus me guie em bom caminho.
Nosso Senhor é meu padrinho,
Nossa Senhora é minha madrinha.
Nada ruim vai me atentar,
Nem de dia nem de noite,
Nem na hora d’eu andar.
Jesus, São Clemente,
a cobra quebra o dente!
Assim como Deus não dorme e não mente,
Este mal não vai pra frente."

2ª versão:

"Padre Nosso Pequenino,
Deus me guie em bom caminho.
Nosso Senhor é meu padrinho,
Nossa Senhora é minha madrinha.
Vou fazer uma cruz na testa,
Pro diabo num atentar;
Nem de dia nem de noite,
Nem no ponto da meia-noite...
Jesus Cristo, Rei do Mundo,
Que governa o mundo inteiro,
Me livrai dos inimigos
E também dos feiticeiros."

3ª versão:

"Padre Nosso Piquinino,
Deus me guie em bom caminho;
Rosa divina, cravo de amor,
Me dê juízo em minha memória
E entendimento pra mim receber
O Santíssimo Sacramento."

4ª versão:

"Padre Nosso Pequenino
Deus me crie um bom caminho.
Jesus Cristo no altar
Com seu sangue a pingar,
Com a Santa Madalena
Com seu lenço a limpar;
_ Sai daqui, ó Madalena,
Não me acabe de matar
Que isso são a cinco chagas
Que por ti hei de passar."

Inf.: 1ª versão - Édila Santos Passarelli, nov./2007, São João del-Rei; 2ª versão - Capitão de Congado José Camilo da Silva, 1992, Bairro São Dimas, São João del-Rei; 3ª e 4ª versões - Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1995.

Obs.: rezar três vezes. Fazer com o polegar um sinal de cruz na testa ao dizer “Nossa Senhora é minha madrinha” (referente à 1ª versão). A 4ª versão termina com essa jaculatória:

"Paz na alma, sossego no coração,
Não quero meu corpo morto
Nem meu sangue derramado;
Com as chagas de Jesus
Para sempre amém!"

Existem muitas versões desta oração. O saudoso professor José Santana coligiu num dos números do Anuário do Folclore de Olímpia (estado de São Paulo) um interessante estudo a respeito.

8) Oração de Santo Onofre

"Santo Onofre quando andava pelas montanhas encontrou com Jesus e a Ele fez três pedidos: ‘Oh, Jesus! Ao Senhor faço esses pedidos – dinheiro para meu bolso, pão para minha boca, roupa para meu corpo...’ Aquele que quiser alcançar faça esta oração por três dias, no final dos quais obterá a graça."

Inf.: Édila Santos Passarelli, São João del-Rei.

Obs.: as estampas e imagens representam-no tendo a tiracolo uma cabaça a guisa de cantil, que o povo supõe cheia de pinga. Daí ser considerado padroeiro dos alcoólatras. A firmeza de Santo Onofre inclui sua imagem em liga metálica, de pequeno tamanho, completamente submersa num copo cheio de cachaça, que tem no fundo algumas moedas para trazer fartura. Na linha espiritual é sincretizado com o orixá Ossãe (Ossaim, Osanha), com domínio nas plantas medicinais da mata, senhor das folhas sagradas e remédios vegetais.

9) Orações contra bichos venenosos

"Deus adiante, sinhô São Bento,
senhor São Quelemente,
Jesus Cristo no artá:
arreda todo bicho mal do caminho
pro filho de Deus passá!
Deus adiante,
Jesus Cristo na água benta.
Deus adiante, sinhô São Bento
Deus que nos livra de todo bicho peçonhento."

Inf.: Júlio Prudente de Oliveira, Santa Rita do Ibitipoca, 1997.

Obs.: existe nas Vertentes variantes desta oração que não citam São Clemente.

"Meu sinhô São Bento,
dentro d’água benta
com seu livro bento,
livrai das cobra
e dos bicho peçonhento!"

Inf.: idem.

"São Bento, água benta,
Jesus Cristo no altar;
tira as cobras do caminho,
para eu poder passar!"

Var.: (...) "bicho mau baixa a cabeça / pro Filho de Deus passar!"

Inf.: versão repetida pelas crianças do meu tempo de infância (década de 1970), no bairro Caieira, São João del-Rei, ensinadas pelas mães para que pudéssemos brincar no mato sem ser ofendido por cobra. Minha mãe ensinava-me pedir para o espírito de João Congo com o mesmo objetivo.

"Meu Senhor, meu São Bento,
meu Santíssimo Sacramento:
livrai-me das cobras
e dos bichos peçonhentos!"

Inf.: Rodrigo de Oliveira Lima, São João del-Rei, 2004.

"Virgem Maria,
Senhor São Bento:
livrai-me de cobra, aranha, escorpião, percevejo,
todo bicho malfazejo!"

Inf.: Édila Santos Passarelli, em minha infância.

10) Oração para o repouso:

"Deito-me com Deus,
com o Senhor Crucificado.
Livra meu corpo do perigo,
minha alma do pecado.
Meu Senhor Crucificado,
Filho da Virgem Maria,
guardai o meu corpo,
de noite e de dia.
Meu Senhor Crucificado,
seja minha companhia.
Se vier algum perigo, Senhor,
acordai-me.
Na hora da minha morte, chamai-me."

Inf.: Elvira Andrade de Salles, jul./1997, Santa Cruz de Minas

"Na porta da sala,
meu Jesus na cruz;
na porta da cozinha,
meu Coroado de Espinho;
na porta do quarto e nas janelas,
meu Jesus atado;
comigo e a família deitado,
meu Senhor Crucificado,
que esteja ao meu lado."

Inf.: idem.

"Graças a Deus me deitei e levantei e achei-me acompanhado por sete santos bentos de Deus: três nos pés, quatro na cabeceira, Jesus Cristo na dianteira, com duas chaves na mão. As portas do céu para mim abrirão e do inferno fecharão."

Inf.: ibidem.

11) Oração para proteção

"Paz na alma, sossego no coração
nem quero meu corpo morto,
nem meu sangue derramado
com as Chagas de Jesus,
para sempre, amém!"

Inf.: Elvira Andrade de Salles, jul./1997, Santa Cruz de Minas.

12) Oração de Santa Catarina de Alexandria

"Minha Santa Catarina, clara e digna, vós fostes aquela senhora que passou pela porta de Abraão, achastes quatrocentos homens tão bravos como leão e vós, com as vossas santas palavras, abrandastes seus corações. Assim, minha Santa Catarina, abrandai os corações de meus inimigos; se tiverem pés, que não me alcancem, se tiverem mãos que não me agarrem, se tiverem olhos que não me vejam, e se verem estarão acorrentados de pés e mãos como nosso sr. Jesus Cristo se viu na cruz, para todo sempre, amém, Jesus."

Obs.: rezar 3 pai-nosso, 3 ave-maria, 1 salve-rainha e oferecer pela Sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Inf.: Silvério Januário das Neves, Santa Cruz de Minas, 2002.

13) Oração de Santa Catarina de Alexandria

"Minha Santa Catarina, minha Santa Colondrina, vós foste aquela senhora que passaste em casa de Adão e Eva Sexta-feira da Paixão, sete mil homens encontraste, bravo como leão e amansou todos eles. Assim eu vos peço, minha Santa Colondrina, amansai o coração de ... (fulano) e deixai brando e frio como as névoa do rio."

Var.: Colondina, Colodina.

Inf.: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, por intermédio de sua filha, Maria Aparecida de Salles, 16/02/2011.

14) Oração do Peregrino

"Oração de Pelengrino,
Quando Deus era menino
Que andava pelo mundo
Com sete candeias acesas
E sete livros a ler;
Feiticeiro, mandingueiro,
Comigo não tem poder,
Nem de dia, nem de noite,
Nem hora nenhuma, amém!"

Inf.: Elvira Andrade de Salles, 2005, Santa Cruz de Minas / MG.

Obs.: oração muito forte para livrar de males espirituais.

Var.: por sua filha, Maria do Carmo de Salles, diz: “feiticeiro, mandingueiro, canjeirista”. Canjeirista: praticante de canjerê, antigo culto africano banto no sudeste brasileiro.

15) Oração do Bom Jesus do Carvalho

"Senhor Bom Jesus do Carvalho
Vós cruz é de oliveira,
Voz seja o mais lindo cravo
Que apanhei nesta roseira.

O vosso sagrado nome
Meu Jesus de Nazaré
Eu prometo morrer
Na vossa santa fé.

O vosso sagrado pescoço
Amarrado por uma corda,
Quando arrastado pela rua,
Senhor Deus, misericórdia!

Vossa sagrada cabeça,
Pregada com duros cravo,
Nosso Senhor,
Me livra do diabo.

Vossa sagrada mão,
Pregada com duros cravo,
Senhor me dê licença,
Me livra do pecado.

Vosso sagrado pé
E amarrado pela cintura,
Senhor me dê licença
De entrar em vossa ternura.

O vosso sagrado peito
Ultrapassado por uma lança
Por ele entra nossa alma
Nas bem aventurança.”

Inf.: Elvira Andrade de Salles, 30/04/1997, Santa Cruz de Minas / MG.

Obs.: Carvalho é possível alteração ou aproximação de calvário, “carváio”. Por outro lado, carvalho é conhecido nome de uma árvore, supostamente da qual se tirou madeira para fazer a cruz. 

16) Oração de São Jorge

"En’vém o Jorge com seu cavalo rus’pomba,
Passou na porta de Jesus e Jesus perguntou a ele:
_ O que queres, Jorge?
_ Quatro coisas: força, alma, espírito e valor.
_ Jorge, não tenho nada pra te dar,
Trague em vossa companhia São Miguel Arcanjo;
Se vier arma de fogo, sairá água pelo cano,
E a faca envergarão,
Assim como Nossa Senhora quebrou os gravetos
Vale Jorge de todos os perigos."

Obs.: russ’pomba: russo-pomba, referência à pelagem aloirada e o peito estofado, saliente.

Inf.: Mariana Santos Figueiredo, Santa Cruz de Minas

17) Oração Sentido

"Santa Pedra d’Ália
Que no mar foi achada,
Pelos anjos foi colhida
Assim como o padre não celebra missa sem essa Santa Pedra d’Ália,
Assim também (... fulano)  não há de ter poder de vingar ou fazer mal algum."

Inf.: Elvira Andrade de Salles, 1998, Santa Cruz de Minas / MG.

Obs.: d’Ália – corruptela de “de Ara”, “d’Ara”. Pedra de Ara: a da mesa do altar, onde se processa o santo sacrifício da missa, herança cristianizada das antigas pedras de sacrifício sangrento.

18) Oração de Nossa Senhora da Piedade

"Fica-te, Virgem, Virgem,
Oh Virgem da Piedade!
Que tivesse um Deus e homem
Pela vossa virgindade.
Assim eu peço, ó Virgem da Piedade,
Se tiver de acontecer uma má sina ou má sentença,
Em mim ou minha família,
Pela dor do Filho Sagrado será revogado."

Inf.: Elvira Andrade de Salles, 1998, Santa Cruz de Minas / MG.

19) Benzeção para dor de cabeça:

"Jesus Cristo andando pelo mundo 
encontrou São Clemente sentado numa pedra se lastimando. 
- O que sente, Clemente? 
- Dor de cabeça, Senhor! 
Assim como São Clemente não mente, 
essa dor de cabeça não há de ir em frente!"

Inf.: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 1997.

Obs.: variante informada por Luís Santana, na mesma cidade – “essa dor de cabeça não há de ir adiante”. O referido santo tinha por nome Clemente Maria Hoffbauer, foi missionário redentorista austríaco, nascido em Tasswitz a 26/12/1751 e falecido em Viena a 15/03/1820. 

20) Benzeção para limpeza uterina:

"Valei Santa Margarida! Que ela num tá prenha nem parida! Pra onde? Sai!..."

Inf.: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 2002.

Obs.: Santa Margarida é invocada pelas benzedeiras para ajudar no parto, especialmente para favorecer a saída dos restos da placenta (“madre”). Essa benzeção pode ser usada para vacas que ainda não “limparam” (expeliram a madre) ou mesmo para mulheres que sofreram aborto. Quando diz “sai” gesticula-se com as mãos como que expulsando e assim o organismo vai expelindo os restos placentários até ficar “limpo”. Para mulheres a simpatia consiste em rezar para a santa e a seguir engolir um caroço cru de feijão e soprar três vezes dentro de uma garrafa. Há cinco ou seis santas chamadas Margarida e não está claro qual delas é invocada para estas questões da "obstetrícia" popular. Contudo, Santa Margarida de Antioquia (festejada a 20 de julho) é considerada pela Igreja como santa auxiliar em questões do parto [7]. É possível, porém, que no imaginário popular, tenha se somado a influência da devoção a Santa Margarida de Cortona, que antes de ingressar na vida religiosa, foi dissoluta e plausivelmente conheceria as técnicas populares para tratar o corpo feminino, quando de um aborto, por exemplo. Na tradição popular fixou-se como protetora dos órfãos, mães solteiras e prostitutas [8]. Franciscana é festejada a 22 de fevereiro.

21) Benzeção para seio inflamado:

"Homem bom me deu pousada,
mulher má me fez a cama;
quarto escuro, esteira rôta,
entre os ciscos e a lama.
Senhora Santana benza esse peito
onde essa criança mama."

Inf.: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 2002.

22) Benzeção para dor de dente:

"Dente tente em ti, como Jesus Cristo teve em si!
Dente tente na veia, como Jesus Cristo teve na areia!
Dente tente no corpo, como Jesus Cristo teve no horto!
Assim dente, fica preso, atado, amarrado, 
com o suor de Nosso Senhor Jesus Cristo, 
Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, amém."

Inf.: Manoel Messias do Carmo (“seu Baiano”), São João del-Rei, 19/04/1999.

Obs.: o informante era natural da Bahia. Em São João del-Rei residia à Rua Santo Antônio, onde era muito procurado pelas pessoas graças às suas orações. Foi membro da Irmandade de São Miguel e Almas nesta cidade.

23)Benzeção para destroncamento e mal-jeito

"Quê que eu coso? Junta desconjuntada, nervo rendido, carne ofendida, veia magoada, assim mesmo eu coso."

Inf.: idem.

Obs.: coser num pano novo, usando agulha virgem. Esta benzeção combate mialgia e contusão muscular.

24) Benzeção para destroncamento e mal-jeito

"O quê que eu coso?
Carne quebrada, osso rendido, nervo torto, veia magoada,
Em louvor de São Furtuoso,
Assim mesmo eu coso."

Obs.: reza um Pai Nosso e uma Ave Maria. Repete tudo três vezes ao todo. Enquanto benze vai cosendo, ou seja, costurando um pedaço de pano sobre o lugar afetado, como se na verdade estivesse fazendo no próprio tecido vivo da pessoa. Depois que acaba guarda o pano com a agulha. Ninguém pode pegar. Aquela agulha e aquele pano não podem ser usados para mais nada.

Inf.: Maria Aparecida de Salles, 30/07/1997, Santa Cruz de Minas. Aprendido com sua mãe, Elvira Andrade de Salles.

25) Prece para sair de casa:

"Deus na frente em paz na guia, encomendo a Deus e a virgem Maria e as vozes do céu, a luz do dia. Todos que comigo encontrar me tenha amor e alegria, como Deus tem à Virgem Maria."

Obs.: possui variante em São João del-Rei – “Deus na frente, Pai na guia! Vamos com Deus e a Virgem Maria” (Capitão de Congado Luís Santana, 1996).

Inf.: Maria Aparecida de Salles, 1997, Santa Cruz de Minas / MG

Notas e Créditos

*Texto e coletânea: Ulisses Passarelli

** Observação: as referências bibliográficas e de internet foram inseridas nas notas de rodapé. 


[1] - Nhá Chica. In: Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Nh%C3%A1_Chica (acesso em 10/01/2017, 08:20h)
Ver também a matéria correspondente no jornal: Gazeta de São João del-Rei, n.647, 22/01/2011.
[3] - Gazeta de São João del-Rei, n.657, 02/04/2011.
[4] - LIMA, Rossini Tavares. Algumas orações populares. Rio de Janeiro: Comissão Nacional de Folclore. Documento n.205, 06/10/1950.
[5] - Ver: CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1983.
[6] - ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional. São Paulo: Melhoramentos, 1964.  
[7] - Jorge: o Santo Guerreiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2016. 96p. pp.64-68.
[8] - Margarida de Cortona. In: Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Margarida_de_Cortona (acesso em 10/01/2017, 08:02h)