Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 14 de janeiro de 2018

Romaria dos foliões

Aconteceu este final de semana em Aparecida / SP (13 e 14 de janeiro) a 15ª edição do Encontro Nacional de Companhias de Reis. Mesmo sendo totalmente fora da área geográfica focada por este blog, o assunto mereceu atenção em razão do crescente interesse participativo de folias do Campo das Vertentes.

O evento tem elevado potencial para ampliar o seu desenvolvimento e o interesse turístico, como aconteceu com a Festa de São Benedito (em abril), naquela cidade do Vale do Paraíba (*). 

Já o encontro de folias é relativamente recente; contudo, é tradicional a visita das folias de diversas regiões a Aparecida, de forma aleatória em outras épocas do ano. O encontro congrega esta atividade espontânea e dá-lhe impulso. O presente texto não objetiva descrever a festa como faz este blog de costume acerca do eventos que comenta. A tônica é outra: é indispensável pontuar que no encontro de Aparecida os foliões de Santos Reis são legitimamente romeiros; não é um encontro como os outros. As companhias reiseiras empreendem a viagem que é esperada e planejada o ano todo, atravessando o sul mineiro e as gargantas escarpadas da Mantiqueira, via Cruzeiro ou Piquete. Em Aparecida visitam a Igreja de São Benedito e o Santuário Nacional; cantam pelas ruas, praças, comércio, presépios. Costumam inclusive se hospedar.


Folias atravessam a passarela entre as catedrais antiga e nova,
cantando os reis. Em primeiro plano uma companhia mineira,
de Santana de Pirapama. 

A participação inclui uma troca significativa de experiências com outras folias: cantar e ouvir, ensinar e aprender. Grupo a grupo, os mestres expõem o seu saber, absorvido por outros que os observam, evoluindo na prática e vivência. Tanto mais, o encontro é oportuno aos foliões na aquisição de novos instrumentos musicais nas lojas locais; medalhas de santos, imagens, terços e outros objetos sagrados, que fazem parte de seu universo ritualístico e de seu cabedal de crenças.

Além desses aspectos gerais alguns detalhes chamam a atenção. Talvez o mais proeminente e digno de parabenização seja a entrada conjunta das folias de Reis no Santuário Nacional, após um concorrido cortejo desde a Catedral velha, via passarela. Os demais visitantes, outros romeiros que não são das folias, demonstram entusiasmo e curiosidade, prestigiando os grupos com salvas de palmas, ou proliferando sua imagem por incontáveis fotografias e filmagens.


Aspergindo água benta sobre as folias que deixam o Santuário 
após a celebração da missa.
 

Essa recepção se reveste da maior importância para os grupos enquanto estímulo à sua continuidade, reconhecimento de seu valor cultural e essência religiosa e ainda pelo prestígio que lhes confere a visibilidade ante a atenção midiática e através da imensa assistência.

Grupo de Pastorinhas de Sete Lagoas/MG adentra o Santuário.

Destaca-se também a Procissão de Santos Reis, que conta com um andor de ornamentação primorosa e a participação de vários grupos de folias em cortejo.

O encontro de Aparecida proporciona a ambientação de uma romaria aos foliões. O contexto transcende o de outros encontros. 

Finalizando, registra-se a presença no encontro da "Embaixada do Bom Pastor", folia de Reis oriunda de São João del-Rei, da comunidade do Bom Pastor, Bairro de Matosinhos, sob o comando do experiente Mestre "Didinho".


Bandeireiro e bandeira da folia de Cordisburgo/MG.
Presença de retratos 3 x 4 e fita com inscrição, configurando graças
alcançadas (ex-votos).

Bandeira de uma folia de Alfenas/MG.
Os nós nas fitas indicam pedidos de devotos. 

Observando a cantoria da folia de Nova Resende/MG.

Folia de Itaguara/MG atravessando a passarela. 

Palhaços ou marungos, de Machado e Santo Antônio do Monte/MG
entrando abraçados no Santuário em gesto de irmandade e respeito.

Prestigiando a entrada das folias no Santuário:
jovens marungos de Ibirité/MG.

Um dos pitorescos mascarados da folia de Juruaia/MG,
assemelhando-se a uma Catirina.

Um dos palhaços da folia de Serrania/MG.
Ao fundo, público prestigiando a saída das folias do Santuário. 

Agradecendo uma oferta, os foliões de uma companhia de Barrinha/SP
cantam para devotas que seguram sua bandeira. 

No grande presépio dos jardins do Santuário Nacional, folieiros de Sete Lagoas / MG
respeitosamente reverenciam após o canto ritual.
 

Folia de São Tomé das Letras/MG cantando no presépio da praça da catedral
antiga. Os marungos, de joelho, suspendem a máscara. 

Notas e Créditos

* Em tal festa, uma multidão de romeiros desembarca no Santuário Nacional, incluindo um número enorme de congados, sobretudo mineiros e inclusive do Campo das Vertentes, em demanda para a igreja do popularíssimo santo. Essa Festa de São Benedito já é centenária, firmada na tradição.
**Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 13/01/2018
**** Agradecimentos especiais ao folclorista Affonso Furtado e ao pesquisador de música Daniel William Dias Nascimento, que possibilitaram nossa presença nesse festejo. 


sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Na minha terra se fala assim - parte 15

Alto -  bêbado, embriagado.

Aluir – bambear, dar uma folga, aliviar algo que está justo, soltar o que está fixo.

Andaço – qualquer virose que atinge muitas pessoas, favorecida por condições climáticas específicas de certas épocas do ano. Infecção que se transmite pelo ar, atingindo muitas pessoas. Contaminação por rotavírus.

Arregaçar as mangas – agir, tomar providências, tornar-se ativo.

Cabreiro – cismado, preocupado com algo, com pensamento fixo em problema, com mal pressentimento.

Cabrito – gíria aplicada sobre um objeto obtido por roubo ou furto. Qualquer objeto tomado de outrem.

Cangote - a nuca, região occipital, parte posterior do pescoço.

Canjerista - Praticante ou adepto do Canjerê. Por extensão e pejorativamente é sinônimo de feiticeiro.[1]

Cara dura – O mesmo que cara de pau. Pessoa que não se envergonha em cometer ilícitos. Mau caráter. Indivíduo que obtém vantagens sobre outros sem se envergonhar do procedimento indevido. Sujeito inconveniente, invasivo na privacidade alheia.

Casar o Chico com a Chica – expressão que indica a similitude ou sintonia de duas pessoas pelo caráter e personalidade, que se unem numa dada situação (casamento, amizade, negócios, trabalho).

Chaleira – bajulador, puxa-saco.

Chapado – bêbado, embriagado.

Chorar a pitanga1- lamentar insistentemente; 2- agredir, bater.

Chutar o pau da barraca – aloprar, dar um surto de nervosismo, perder a paciência, perder a calma, descontrolar-se, perder as estribeiras.

Culé-culé, tudo é porco – expressão usada para indicar que certo grupo de pessoas se irmanam pelo péssimo caráter e personalidade réproba. O mesmo que “Farinha do mesmo saco”.

Cumba – Mandingueiro. Homem que mexe com magia negra (São João del-Rei, 1995; Tiradentes, 1998). Também pronuncia-se “cuba”. Grande conhecedor de segredos místicos. Africanismo. Sendo um feiticeiro muito forte e perigoso acrescem que é um “cumba do papo amarelo”. Registrado também entre os dançantes de caxambu, no Estado do Rio de Janeiro, como o mais elevado cargo hierárquico.  [2]

Cupicho1- subordinado por bajulação, não por hierarquia. Capacho. 2- Indivíduo amasiado.

Currião - Correia, cinto, cinturão. Corruptela de “correião”, correia grande. Na zona rural é costume fazê-lo de couro cru, com ou sem pelo, cortando-o a canivete. Símbolo de firmeza espiritual na linha dos boiadeiros e de força patriarcal, domínio familiar. A correia do pai dentro de uma casa é objeto de grande respeito e ninguém a usa senão o próprio dono. Eram comuns outrora as surras que os pais davam nos filhos valendo-se de lambadas de currião. Uma expressão popular comum é “apertar as correias”, usada diante de uma grande dificuldade, no sentido preventivo.

Cuspindo marimbondo – expressão indicativa de estado de extremo nervosismo. Diz-se de quando alguém esbraveja, xinga muito, lança impropérios.

Dar na telha – ter uma ideia repentina; tomar uma decisão súbita, inesperada.

Dar pau – reprovar.

De primeira – imediatamente, de maneira instantânea, sem pestanejar.

Deixa abóbora lastrar! – expressão indicativa de libertação total de preocupações ou cuidados numa situação; dê o que der; aconteça o que acontecer.

Desvestir um santo para vestir outro – substituir um apoio por outro; tirar de um para dar a outro.

Deus e o mundo – expressão indicativa de totalidade das pessoas; todos.

Encher o cu d’água – alegrar-se ao extremo; estado de satisfação incontida.

Espírito-de-Porco1- Indivíduo mal visto na sociedade, antipático, sempre aprontando coisas deploráveis. 2- Casta de espíritos malignos, que se apossarem de alguém fazem com que a pessoa se comporte a guisa de um suíno: o possesso se abaixa ficando de quatro e emite grunhidos; não reconhece nem respeita ninguém. O espírito de porco afora os casos de possessão é um obsessor poderoso, que traz desgraça e miséria para a vida da pessoa que ele acompanha.  

Filar – roubar; tomar para si; tirar. Filão: quem se aproveita em vantagens sobre outros.

Garibar – aprimorar, dar acabamento, detalhar, caprichar. “Dar uma garibada”.

Goró – bebida alcoólica: beber um goró; tomar um goró.

Juntar a fome com a vontade de comer – expressão indicativa de que a aproximação de duas pessoas possibilitou o complemento uma ao outro para que acontecesse algo vantajoso para ambos; geralmente tem sentido pejorativo, referindo-se a união de gananciosos.

Largo – pessoa de muita sorte; sortudo: “O largo do Zé ganhou a televisão na rifa”.

Limpa trilho – glutão, quem come demais e com falta de educação.

Língua de trapo – “língua solta”; falador, caluniador, quem fala o que pensa sem medir consequência das palavras; quem levanta falso de alguém.

Mafuá – ambiente bagunçado, sujo, mal frequentado.

Na lata – com absoluta franqueza; cara a cara; sem disfarces. “Falar na lata”.

Não vale um tostão de mel coado – expressão indicativa de falta total de valor humano, pelo caráter e personalidade; não vale nada.

O Filho chora a mãe não vê – expressão que indica local de sofrimento ou situação complexa.

Passar os cinco dedos – furtar; roubar.

Pendenga – pendência, situação mal resolvida.

Perder as estribeiras – esbravejar, xingar. Ação intempestiva.

Picar a mula – sair às pressas, repentinamente; escafeder-se; fugir; viajar.

Poeira – Feitiço. Jogar poeira: enfeitiçar alguém. “Não joga poeira, olha lá! Ai, não joga poeira, olha lá!” (Congado catupé, SJDR, Cap. Luís Santana, 1995).

Ponto de bala – excitação máxima; estado de prontidão.

Queimar campo – contar mentira; avantajar-se sem motivos concretos. “Fulano queima campo debaixo de chuva!”

Renquém – desqualificado; sem valor; de má qualidade. Pronúncia: “renqüém”.

Sobrou – caiu, despencou. “Sobrou do galho da árvore”.

Tanjão – folgado, largo. Quem usa roupas sem ajuste ao corpo.

Tarugo1- pedaço robusto de madeira; 2- qualquer coisa espessa, grossa; 3- pessoa obesa (pejorativo).

Tirar o pai da forca – pressa extremada, afobação, atitude precipitada.

Torosco – pedaço grande e grosso de algo.

Vendendo almoço pra comprar a janta – penúria; miséria financeira.

Vício – cio; desejo sexual incontrolável: estar no vício (com a libido elevada ao extremo).

Zambi-zambi – com tonteira, enfraquecido, cambaleante, desequilibrado: “Saiu da cama zambi-zambi”.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli



[1] - Canjerê - Religião mediúnica afro-brasileira, já praticamente absorvida por outras mais abrangentes, como a Umbanda e a Quimbanda. O Canjerê assemelha-se à Umbanda, contendo porém elementos musicais-coreográficos, danças ao som de atabaques, como os Candomblés. Um ponto de desafio de congado catupé (São João del-Rei, l997) diz: “Êh, canjerê! / Bate palma qu’eu quero vê!” . Luís da Câmara Cascudo no seu “Dicionário do Folclore Brasileiro” registra a palavra como sinônimo de feitiço, prática religiosa afro-brasileira e ainda uma dança folclórica sem cunho religioso. Põe ainda as pronúncias “Canjirê” e “Conjerê”. Termo africano, banto.  
[2] - Ver: FRADE, Cáscia. “Preto quando pinta, tem trinta vezes trinta”: um pequeno estudo sobre os velhos caxambuzeiros fluminenses. In: Estudos de Folclore em Homenagem a Manuel Diégues Júnior. Coordenação de Bráulio do Nascimento. Rio de janeiro: Comissão Nacional de Folclore; Maceió: instituto Arnon Mello, 1991. 306p.il. p.67-77.
Escreveu essa autora: “Cumba – é o que melhor conhece a dança, entende e exerce a magia inerente ao Caxambu. É o mais idoso do grupo.” 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Calango-tango: parte 4

Coletânea de calangos de Barbacena

Em fevereiro de 1996, numa ida à cidade de Barbacena / MG, foi oportuno conhecer uma senhora de prodigiosa memória, coração pleno de bondade e espírito elevado de humanismo. Isto foi possível graças ao apoio do sr. Luthero Castorino da Silva, que naquele ensejo nos pôs em contato e acompanhou com presença muito positiva o diálogo com a saudosa “Dona Josefina”.

Infelizmente, em alguma reviravolta da vida, as anotações daquele dia se perderam para sempre e já não é mais possível dar outros detalhes.

Não obstante esta observação, ficou-nos como ótima impressão a receptividade daquela senhora de grande conhecimento, que na ocasião, de muito boa vontade, espontânea em plenitude, cantou alegremente e dialogou conosco, revelando um sem-fim de composições do cancioneiro popular. Dentre tantos, bastou ser provocada com um versinho de calango para disparar imensa cantoria de memória, fluente, de melodia firme, canto de grande autenticidade, demonstrando domínio do gênero poético-musical em tela.

Seus calangos obedecem a princípio ao estilo do calango solto. Interpõe de tanto em tanto refrões em ritmo mais acelerado, algo bastante peculiar. Um dos refrões que se repete é "tico-tico tá danado na semente do juá", verso também praticado nos calangos fluminenses, como o mostrou FRADE (1986). É uma referência ao esperto passarinho, assaz conhecido Brasil afora. A composição absorve da cultura popular sua linguagem típica (versos e fórmulas-feitas, expressões). Tanto mais, estão impregnados de elementos do mundo rural, algo bem típico do calango. Mesmo vindo para a cidade, esta manifestação folclórica traz a roça dentro de si.

Como sói acontecer com os calangos em geral, os versos da “Linha do A” terminados em verbos, perdem o “R” ou qualquer outra consoante final: contá (contar), imaginá (imaginar); com muitos substantivos acontece o mesmo: jorná (jornal), lugá (lugar). Se assim não fora a rima estaria comprometida e a principal regra do calango descaracterizada. Com a mesma lógica, palavras oxítonas de sonoridade fechada, são facilmente sujeitas a corruptelas de pronúncia, o que muito genérico no falar do mineiro e no calango não seria diferente: tocadô (tocador), (estou), (senhor), (sou). A necessidade de ajuste à métrica obriga o encurtamento de palavras, seja por contração – n’água (na água), qu’eu (que eu), pra (para) – seja por supressão – (está), paia (palha), rodia (rodilha). A regra mor do bom calangueiro é esta: ajustar qualquer pronúncia para não corromper a rima e a métrica.

Sem mais delongas, segue a exposição dos versos coletados. Para maiores detalhes sobre o calango, ao fim desta postagem estão disponíveis links de acesso a outros números desta série. Resta dizer que foram inseridas notas de rodapé contendo comentários sobre detalhes dos versos.

Meu amigo e companheiro,
Agora eu vou lhe contá:
Você pra cantá imagina
Eu canto sem imaginá...

Falei brincando,
No calango da lilia!
Quando eu tô comendo carne
Não gosto que gato mia!

Meu amigo e companheiro
Agora eu vou lhe falá:
Tabulero tá na cabeça
Como letra no jorná!

Falei brincando,
No calango da lilia!
Quando eu tô comendo carne
Não gosto que gato mia!

Quando eu tô comendo carne
Não gosto que gato mia;
Quando eu tô comendo carne[1]
Não gosto que ninguém espia...

 Filho de Maria Lima,
Neto de sô Zé Limá,
Puxa linha, Antenôre[2],
Puxa linha, sô Antená.

Puxa a linha, sô Antenô,
Qu’eu quero te acompanhá!
Você puxa a linha[3] bamba
Eu puxo pra arrebentá;
Você puxa dali pra’qui
Eu puxo daqui pra lá...

Meu amigo e companheiro
Agora qu’eu vô cantá,
Eu sô nêgo do pé grande
Passo n’água sem molhá.[4]

Coisa qu’eu num tenho canseira
É se eu tô a pelejá!
Arriei o meu cavalo,
Fui no munho busca fubá;
Cheguei na porta do munho[5]
Requebrei pra lá, pra cá!

Porta do munho,
Requebrei pra lá, pra cá[6];
Na moega não tem milho,
No caixão não tem fubá.

Na moega não tem milho,
No caixão não tem fubá;
Na falta de peneira fina
Meu chapéu coa fubá.

Joguei meu chapéu pra riba,
Meu chapéu parou no ar[7];
Eu sou nêgo da dindinha[8],
Sô criôlo da nhánhá[9];
Sô nêgo da demanda,
Sô duro de demandá;
Qué cantá comigo,
Tá duro de pelejá...

Num sabe o que assucedeu[10]
Lá na raia[11] no sertão:
Tava dentro de uma venda,
Encostado no balcão.

Numa venda,
Encostado no balcão,
chegou quarenta pessoas
todas de arma na mão.

Todos me cumprimentô,
Todos me pegou na mão;
Me deram voz de prisão
Disse, não tô preso não!

Eu não tenho pai nem mãe,
Nem parente, geração,
Tô longe da minha terra,
Morro não deixo paixão...

Da minha terra,
Morro não deixo paixão,
Se eu apanhar eu sou perrengue[12],
Se batê sô valentão!

Todas cobra-carijó
Vive sempre de porfia;
Cascavel anda de rastro,
Caninana de rodia.

Falei brincando,
No calango da lacraia!
Tico-tico foi na roça
Comeu milho, deixou a paia.

Eu sou filho do pau-pereira,
Neto do jacarandá;
A casca do pau-pereira
Só serve pra fazer chá.

Se perguntá como eu me chamo
Não sei não, minha sinhá;
Sô nêgo da dindinha,
Sô criôlo[13] da iáiá!

Sô nêgo da dindinha,
Sô nêgo da iaiá,
Se jogá pra baixo deu
Se jogá pra cima dá.

Jogá pra baixo deu,
Jogá pra cima dá;
Isso tudo não é muito
Eu consigo carregá!

Perguntá como eu me chamo
Não sei não minha sinhá,
Eu chamo sô Lutero,
Binidito Valadá![14]

Sô Lutero,
Binidito Valadá,
Você vei cantá comigo
Você não veio me ajudá.

Ô sô Lutero,
Você diga porque não canta:
Você tem tão belos versos
Tendo tão boa garganta...

Meu amigo e companheiro
Um caso eu vô te contá:
Subo morro, faz cansêra[15],
Eu tô querendo alcançá.
Se você veio de longe
Para me desafiá...

Tabuleiro na cabeça[16]
Como letra no jorná;
Olha lá, olha lá,
Olha lá, olha lá!

Imbaúba é pau do mato,
Aruêra é do sertão;
Dei um tapa no caixote
Esfolei a minha mão.

No caixote,
Esfolei a minha mão,
Vou chamar o meu irmão,
Um chama Pedro
Outro chama Sebastião.

Meu irmão chamava Pedro,
Outro chama Sebastião,
A imbaúba é pau do mato
Aruêra do sertão[17],
Vocês pensa que eu tô perdido
Eu não tô perdido não...

Eu subi de pau arriba
Eu subi arreparando:
Aprígio tava durmino,
Malaquias cochilando.

Tava dormindo,
Malaquias cochilando,
Valha-me, Nossa Senhora,
Ôh, minha Santa Germana.

Valha-me, Nossa Senhora,
Ôh, minha Santa Germana,
Eu num o que é de fazê
No meio dessa semana...

Falei brincando,
No calango da lacraia!
Tico-tico foi na roça,
Comeu milho, deixou a paia!

No tempo que eu era bobo,
Tempo da minha bobage,
Beijava toco na roça,
Pensava que era image.

No que eu era bobo,
Tempo da minha bobiça,
Comia toicinho assado
Pensava que era linguiça.

Dia qu’eu aqui cheguei
Me mandaram trabalhá,
A enxada é meu remédio[18]
Capino massambará[19].

Eu en’vinha
Capiná massambará;
Eu sô coco da baía,
Sô castanha do Pará![20]

Na minha porta não passa,
Cabra do chapéu tombado;[21]
Se passá de manhã cedo,
De tarde tá derrubado...

Falei brincando,
No calango da lacraia!
 Macaco vai na roça,
Come milho, deixa a paia.

Tocador dessa sanfona
Merece comer galinha,
Casar com uma das moça
Falar das outras com Aninha.

Tocador dessa sanfona,
Tem o dedo de papel,
Quando ele pega a tocar,
Parece um favo de mel!

Dona mais da falsa,
Também sabe que ele tem,
Quando ela me vê chorando,
Chora comigo também.

Como Chiquinha não tem,
Como Totonha não há;
Chiquinha não quer qu’eu dê,
Totonha vem e me dá.
Chiquinha não quer qu’eu dê
Totonha compra e me dá.[22]

A Chiquinha tá doente,
E eu tô passando má,
Chiquinha me deu veneno
Na colher de tomar chá.

Ai, fui rodando,
Fui rodando;
Fui rodando
E fui no fundo.

Fui rodando,
Eu fui rodando;
Fui rodando
E fui no fundo.
Que aconteceu com o Lutero,
Me deixou sozinho no mundo!

Coitadinho do Lutero,
Todo mundo fala dele,
Ele é muito pequenino,
Mas eu gosto muito dele!

Levantei sozinho,
Sozinho sem mais ninguém;
Quem não me conhece chora,
Que dirá quem me quer bem.

Conhece chora,
Que dirá quem me quer bem;
Pelo jeito qu’eu tô vendo,
Comigo, não vai ninguém!

Levantei de manhã cedo,
Sem ter nada pra almoçá,
Passei a mão na espingarda
Bati pro mato caçá.

Caçá fruta,
Pra matar a minha fome;
O mato arrespondeu
Fruta verde não se come!

Quem quiser cantar comigo,
Passa banha no topete.

Cantar comigo,
Passa banha no topete,[23]
Você não é dos primeiro
Passa perto do papai
Toma bênção do seu mestre!

Quem quiser cantar comigo,
Dê um, dois, pulo na rua,
Você não é dos primeiro
Qu’eu tiro a carapuça.[24]

Falei brincando,
No calango da lacraia!
Periquito vai na roça,
Come o milho, deixa a paia.

Filho do pau-pereira,
Neto do jacarandá,
Dei um pulo pra cima,
Caí no mesmo lugá.

Dei um pulo pra cima,
Bati no mesmo lugá,
Meu amigo e companheiro,
Um caso eu vou te contá.

Meu amigo e companheiro
Um caso eu vou te contá,
Tico-tico come verde,
Não espera madurá.
Tico-tico tá danado
Na semente do juá.

Quando eu canto,
Canto certo na toada,
Eu acompanho a volta toda
Da sanfona pianada[25].

Canto certo,
Canto certo na toada,
Eu acompanho a volta toda
Da sanfona pianada.

Senhores que estão aqui
Um favor eu vou pedi
O verso qu’eu tô cantando,
Tô tornando a repeti.

Valha-me, Nossa Senhora,
Santo Antônio Livradô,
Fico triste, apaixonada,
Quando morre um cantadô.

Você diz que vai embora,
Eu começo chorá,
Eu tiro sangue da veia
E o coração do lugá...

Valha-me, Nossa Senhora,
Ai, meu Deus, o que será?
O Lutero vai embora
Eu começo chorá!

Estou cantando,
No batido da correia,
Quem quiser cantar comigo,
Se não for forte bambeia!

Cantar comigo,
Se não for forte bambeia,
Quando eu tô fazendo a barba,
Meu bigode balanceia!

Não tenho medo da chuva,
Nem também do trovão,
Tomara que chova muito
Pra lavar meu coração.

Onde está o Lutero,
Por ele pergunto eu;
Enfiou a unha no barro,[26]
Nunca mais apareceu...


Notas e Créditos

*Texto, notas, acervo e pesquisa: Ulisses Passarelli
** Agradecimentos especiais ao sr. Luthero Castorino da Silva, pela gentileza do apoio irrestrito a esta pesquisa. Igualmente manifestamos inolvidável gratidão à informante. 
*** Para saber mais sobre o calango leia as outras partes desta série:
CALANGO-TANGO: parte 1 (Fundamentos do calango)
CALANGO-TANGO: parte 2 (Fundamentos do calango: continuação)
CALANGO-TANGO: parte 3 (Linha do Bicharão: um calango diferente)

Referências bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. Verbetes: Cabra; Calango

FRADE, Cáscia. (Coordenação). Cantos do Folclore Fluminense. Rio de Janeiro: Presença / Secretaria de Estado de Ciência e Cultura / Departamento de Cultura / INEPAC / Divisão de Folclore, 1986. 234p. 




[1] - Outrora, a alimentação cotidiana poucas vezes incluía carne. Como um artigo de luxo, a carne aparecia no prato somente aos domingos, sob a alcunha de “mistura”. Comprar uma mistura: comprar carne num açougue. Nas roças no Campo das Vertentes o costume era matar uma galinha da criação caseira no domingo para a família comer. Fartura de carne acontecia quando se matava um porco, conservando-se pré-cozida imersa em gordura numa lata. Carne bovina era raríssima, só quando se matava uma rês, por ter caído num buraco e quebrado uma perna, por exemplo. O complemento nas zonas rurais vinha de alguma eventual pescaria ou caçada. Para substituir a carne o hábito era comer um ovo frito. Esta exiguidade decerto inspirou o verso divulgadíssimo de calango: “quando eu estou comendo carne / não gosto que gato mia”.
[2] - Antenôre: Antenor. Não é raro na pronúncia popular regional, mormente na rural, o acréscimo de uma letra “e” ao final de algumas palavras: sole (sol), sale (sal), etc.
[3] - Puxar a linha: a linha do calango, a rima dos versos, a sequência das estrofes.
[4] - Quadra muito difundida nos calangos regionais, por vezes admitindo pequenas variações (Conceição da Barra de Minas, São João del-Rei, etc).
[5] - Munho: moinho de moer milho para fabricação de fubá. Sobre este mecanismo e suas tradições, consultar a postagem: MUNHO ASSOMBRADO: O FOLCLORE DOS MOINHOS DE FUBÁ
[6] - “Requebrei pra lá, pra cá”: verso-feito.
[7] - “Meu chapéu parou no ar”: verso-feito.
[8] - Dindinha: forma carinhosa e intimista usada para se referir à madrinha. Sobre as madrinhas e padrinhos, consultar a postagem: APADRINHAMENTO
[9] - Nhánhá ou iaiá: forma carinhosa e intimista usada para se referir à senhora, sinhá, nhá. O masculino correspondente é nhônhô ou ioiô (senhor, sinhô, nhô), uns e outros reconhecidos popularmente como linguajar típico dos antigos escravos africanos.  
[10] - Assucedeu: pronúncia usual de “sucedeu”.
[11] - Raia: neste sentido, qualifica uma região geográfica sem definição exata, implícita a distância acentuada e o aspecto ermo. Raia do sertão: região do sertão, banda do sertão, área do sertão.
[12] - Perrengue: fraco, doente, debilitado. Aperrengado: adoentado. Perrenguice: prostração.
[13] Criôlo: crioulo. No vocabulário do período escravocrata identificava os negros nascidos no Brasil, em oposição aos chamados “negros da costa”, que eram os nascidos na África. Ao longo dos anos, ganhou conotação pejorativa, sendo atualmente entendida como uma palavra execrável. Aparece em muitos versos folclóricos antigos como sinônimo de negro, sem o sentido depreciativo. A palavra “crioulo” admite outros usos. Ver a respeito: APONTAMENTOS SOBRE PORTUGUÊS CRIOULO
[14] Binidito Valadá: possível referência ao ex Governador do Estado de Minas Gerais, Benedito Valadares Ribeiro, da era getulista (1933-1945), cujo nome alcançou popularidade.
[15] - Subo morro, faz canseira: verso-feito. No congado de Coronel Xavier Chaves, aparece sob variante: “Sobe morro, faz canseira; / descer morro, corre perigo...” (Capitão Zé Carreiro, 1998).
[16] - Tabuleiro na cabeça / como letra no jornal: variante de uma versão difundida nos calangos regionais (e conhecido mesmo em outras regiões): “Tenho verso na cabeça, / como letra no jornal”. O verso afirma que o cantador tem um cabedal de inúmeros versos disponíveis, comparando-se ao volume de letras de um jornal. Em outra ocorrência o jornal aparece assim no calango: “Calango tango, / no calango dessidá / aonde não tem mestre / pernilongo lê jorná.” (Elvira Andrade de Salles, Bias Fortes/MG, 16/02/2000)
[17] - Imbaúba: embaúba ou árvore da preguiça, vegetal da mata atlântica e amazônica, da família das urticáceas, gênero Cecropia (várias espécies), conhecida pela madeira fraca, oca. Aroeira do sertão: Myracrodruon urundeuva, antiga Astronium, árvore anacardiácea do cerrado e da caatinga, conhecida pela extrema rigidez de sua madeira. Na linguagem simbólica da cultura popular é habitual se comparar o oponente ou desafiante a uma madeira pouco resistente (embaúba) ou a um peixe miúdo (lambari) e o próprio cantador se apresenta como madeira resistente (aroeira, jacarandá) ou aparentado a animais perigosos (serpente). É uma forma figurada de simbolizar a fraqueza e a força. Sobre as aroeiras veja a postagem: AROEIRA, ÁRVORE BRAVA
[18] - A enxada é meu remédio: nos meios rurais a preguiça é considerada a mãe de muitos males. Na visão popular do folclore o ócio favorece mesmo o surgimento de doenças. Nesta ótica, o trabalho enrijece os músculos, ativa a mente, estimula a circulação sanguínea e o funcionamento dos órgãos. Eis o sentido da composição.
[19] - Massambará: planta da família das gramíneas, espécie de capim, Sorghum halepense.
[20] - Sou coco da baía: na linguagem popular se comparar ao coco é se dizer rijo, duro, tenaz, forte, resistente: “fulano é coco!” Por outro lado, a questão comparativa do sabor (coco, castanha), figura qualidade, excelência. O Capitão de Moçambique sr. Luís Maurício, de Passa Tempo / MG, certa feita se saiu com essa quadra numa festa congadeira: “Quando eu vim de Passa Tempo, / subi morro e desci serra; / melancia, põe sentido... / coco doce está na terra!” A linguagem cifrada confronta a melancia (insonsa) com o coco (saboroso), simbologia entre falta e presença de qualidade, obviamente se referindo a um demandista, opositor.
[21] - Cabra do chapéu tombado: trazer o chapéu inclinado sobre a cabeça, pendente para um dos lados, é um símbolo popular de malandragem, velhacaria, esperteza em trapacear. Daí o repúdio. Cabra: “Quarteirão de mulato com negro; cabrocha, cabrito, cabriola. Mulato escuro. Um plural curioso é cabroeira, reunião de cabras. Há longa criação no adagiário contra o cabra.” (CASCUDO, p.212). Contudo, afora esta acepção específica, cabra tornou-se apenas sinônimo de gente, homem, independente da tez: cabra bom; cabra ruim; cabra trabalhador; cabra educado; cabra prestativo.
[22] - Sextilha bastante conhecida Brasil afora, com algumas variantes. Uma delas, coligida em 1996 de outra grande conhecedora de calangos, D. Elvira Andrade de Salles, procedente de Bias Fortes / MG, dizia: “Como a Chiquinha não tem, / como a Totonha não há; / Chiquinha na Pedra Grande, / Totonha na beira má (mar) / Chiquinha não quer qu’eu beba, / Totonha compra e me dá!” Ainda a mesma informante, de outra oportunidade, soltou a variante do terceiro verso: “Chiquinha mora no Cumba”, mantendo idêntico o restante. Chiquinha e Totonha são alcunhas carinhosas, respectivamente para os nomes próprios Francisca e Antônia.
[23] - Passa banha no topete: expressão popular – seja humilde, abaixe o ímpeto. Outrora passava-se gordura no cabelo, como se fosse um creme para pentear e hidratar. Topete: cabelo volumoso na franja ou pena alta (penacho), elevados sobre a cabeça. Símbolo de atrevimento, empáfia: sujeito topetudo – indivíduo arrogante. A expressão “te arranco o topete” ou “te corto o topete” significa que se cortará a valentia e ingressa no vasto universo do folclore do cabelo. Sobre este assunto ver a postagem: O CABELO NA TRADIÇÃO POPULAR
[24] - Tirar a carapuça: expressão popular - tirar a força, remover a magia; descobrir os mistérios, tornando-os inócuos. O conhecido mito do saci-pererê admite esta situação. Retirar a carapuça do saci remove-lhe os poderes sobrenaturais, trazendo-o sob controle, como se fosse um espírito escravo, que faz tudo quer lhe pedirem na esperança de ter de volta sua carapuça mágica. Sobre este mito ver: SACI-PERÊRÊ: MITO OU ESPÍRITO?
[25] - Sanfona pianada: o acordeon; sanfona que tem teclas em vez de botões de um dos lados, semelhantes ao teclado de um piano. Sobre este instrumento ver a postagem: SANFONAS & SANFONEIROS
[26] - Enfiou a unha no barro: expressão popular – intimidou-se, perdeu a coragem. Quando alguém clama que outrem se acalme, costuma dizer: “guarda as unhas!” Ao contrário, “por as unhas de fora” representa atitude de iminente agressividade, desafio, prontidão para a contenda.