Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 26 de maio de 2019

Um fio de esperança

A cultura como ferramenta de transformação social


A cultura é um fio de esperança para o futuro melhor. Decerto não é o único caminho, mas indubitavelmente é uma estrada significativa. Por toda parte é possível, direcionar o olhar atento às atividades culturais mais diversas, populares ou eruditas, folclóricas ou não, e observar o seu papel construtivo na formação do ser humano.

A bem da verdade a dinâmica cultural é inexorável... a cada tempo ela vitimiza certas expressões ou manifestações e eleva em voga outras mais; entre esta morte e vida elementos do passado revivescem sob novas cores e interesses, readequam-se e se apresentam sob nova roupagem. Neste processo de adaptação e evolução, a criança e o jovem em geral tem um papel fundamental para revivescer a cultura e dar-lhe novo alento ou impulso.

Cada adolescente que vemos como partícipe interessando e perseverante numa escola de teatro, entremeio uma folia de reis ou congado, integrado a uma banda de música e dando vazão à sua veia artística, enchemos de esperança e alegria. Não é para menos. Diariamente se observa a enxurrada massificante de cultura inútil, gerando legiões de alienados. O jovem atraído pelos saberes e artes se posta além da maioria, tem consigo um diferencial, se encontra em si mesmo, abre possibilidades de crescimento intelectual e equilíbrio interior. Antes ser adotado pela cultura, que arregimentado pelos vícios e criminalidade, como acontece aos milhares!

Diante destas considerações como preâmbulo é indizível a satisfação de ver crianças e adolescentes em empolgadíssima participação nas orquestras presentes no evento "Orquestrando o Sábado" (III Vivências Musicais), realizado neste sábado, 25 de maio na Escola Municipal Professora Luzia Ferreira, em Santa Cruz de Minas. Consta na programação a participação das seguintes corporações musicais: Orquestra Jovem Música Viva (a anfitriã), Orquestra Municipal Fazendo Arte (Jeceaba), Orquestra Ramalho (Tiradentes), Orquestra do Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier (São João del-Rei) e Oficina de Cordas do Conservatório de Alfenas (que apesar de constar na programação não compareceu).

De entrada (a partir das 8 horas), uma recepção com café solidário, seguido da realização de ensaios de naipes com a obra "Ode à Alegria", tema da nona sinfonia de Beethoven. O almoço foi por volta das 12:30 horas, seguido das apresentações individuais às 14 horas. Por fim formou-se um "orquestrão", ao estilo dos "bandões" dos encontros de bandas de música - os grupos se uniram como um só, executando a música ensaiada pela manhã. 

Havia público externo e de parentes e familiares dos jovens músicos, mas de fato, o maior público eram os próprios músicos. Efetivamente foi um evento de vivência e porque não dizer com mais propriedade, de convivência. Ali vimos partilha, troca de experiências, aprendizado em via de mão dupla, observação mútua, aprimoramento de técnica, desafio à evolução. O encontro das jovens orquestras em Santa Cruz de Minas, contribuiu para o fortalecimento da música regional e a formação técnica e humana daquelas crianças. 

Na observação atenta, via-se o olhar de orgulho de cada um pela participação; a admiração da família ao contemplar a capacidade dos filhos. Tal era o clima de envolvimento e positividade, que não havia como não refletir o quanto a cultura é um dos grandes caminhos para um mundo melhor. Pessoas que preenchem assim sua alma dificilmente serão seduzidas pelo mal. Em outras palavras, a cultura gera cidadãos de bem, eleva a autoestima, contribui imensamente para ampliar e fortalecer o sentimento de identidade e pertencimento a uma comunidade. Cultura tem papel social sobretudo. Investir na cultura é gerar melhoria da qualidade de vida, sobretudo nesses tempos difíceis. 



















* Fotos (25/05/2019) e texto: Ulisses Passarelli

quarta-feira, 6 de março de 2019

Bloco do Zumbi: o enterro do carnaval em Santa Cruz de Minas


O fechamento do carnaval de Santa Cruz de Minas se dá desde 2013 com o Bloco do Zumbi, um desfile em espírito de sátira pautado sobre o tema do medo e da morte. Congrega foliões vestidos e maquiados à moda dos filmes de terror: zumbis, caveiras, múmias, bruxas ... sob música desta temática. É o terror tratado com humor; a morte representada com verve!

Início e término se dão na Praça de São Sebastião, na noite da Terça-feira Gorda. Logo ao centro, um caixão postado sobre um carrinho de funeral contribui para a ambientação do bloco. Enquanto os foliões se reúnem, os organizadores com tintas e preparos, fazem maquiagem das pessoas, livre e gratuitamente, tudo com bastante alegria e descontração. O ambiente é bem tranquilo, pessoas da comunidade, muitas crianças no clima da brincadeira, famílias. Daqui e dali alguns estandartes brancos com cruzes pretas. E o largo vai se enchendo de seres do imaginário, figuras do terror humano, mas nenhuma mete medo, apenas nos alegram pela criatividade das fantasias. Crianças e adultos interagem e se irmanam caracterizados em zumbis e seus asseclas em participação espontânea. 

Lá surge um cidadão de terno preto, maquiado também. Fará o papel de defunto. E com ele a viúva chorosa, vestidão escuro, lutuosa. Pelas tantas, o tal deita no caixão, se posta como morto e lá vai o povo o velar! A viúva na cabeceira, fiel e leal. Na saída do féretro o próprio coveiro da cidade empurra o carrinho fúnebre. Na dianteira de tudo vai um carro escrito "funerária", com estandarte amarrado na carroceria. Até a condutora vem caracterizada. Depois seguem os foliões, fazendo daqui e dali gestos bizarros, postura de supostos seres sobrenaturais. No meio deles o caixão. De tanto em tanto o defunto faz menção de se erguer, com as mãos cruzadas no ventre. A viúva e os chorosos ao redor o empurram de volta: "deita, defunto!"; "fica quieto, defunto!".

A música não permite propriamente que sambem, ou que desçam pulando no ritmo. É no balançar do corpo em cadência ditada pela música, que descem em longo cortejo pelas ruas, como num enterro de fato. O veículo de som fecha o desfile. O bloco se estende pelas vias principais, longamente, e agrega bom número de participantes. Apreciar as caracterizações dos participantes é um deleite e um convite à fotografia. 

Pode-se em certa medida fazer um paralelo do Bloco do Zumbi com o Bloco Típico Os Caveiras de São João del-Rei, talvez uma releitura, mas sobretudo há uma certa coincidência temática. Tiradentes também houve época de ter o seu Bloco dos Caveiras e outras cidades mais distantes também possuem blocos com essa temática (Atibaia/SP, por exemplo). No entanto cada lugar trabalha de forma própria e peculiar. Outra linha de aproximação ou paralelo pode ser feita especificamente com a questão do enterro. A bem da verdade o defunto simboliza o próprio carnaval que se encerra. Enterrar o tal defunto é sepultar o carnaval que finda com a chegada das cinzas quaresmais. É o desfecho de um ciclo festivo extravasador para abertura de outro, introspectivo. O enterro do carnaval ou de uma grande festa é a bem da verdade um tema muito antigo e difundido. O bloco em si é novo, mas o tema ou a prática é antiga. Mesmo na vizinha cidade de Ritápolis há o tradicional bloco do último dia de momo chamado Enterro do Zé Pereira (desde 1963), que não se tematiza em monstros do terror, todavia possui como ponto central um caixão levado rua afora ante a assuada dos foliões e dentro, vai um boneco que representa o próprio carnaval que chegou ao fim. Em Ibituruna, ainda no Campo das Vertentes, há a dez anos o Bloco do Difunto (com "i"), igualmente com o caixão e dentro dele um folião fazendo-se de cadáver do carnaval. Prados também faz seu sepultamento, com batidos funéreos da percussão, pelas vias públicas, trazendo para uma grande árvore central a alegoria do capetinha (símbolo da agremiação local UCA) e do gatinho (símbolo da agremiação local Gato Preto), cada qual pelos foliões opostos. Lá ficam pendentes como mortos. Esta temática do enterro é conhecida em Portugal, na região de Trás-os-Montes e procede de práticas muito antigas de catarse coletiva. O modelo ou matriz foi trazido ao Brasil em épocas remotas e aqui se reinventou ao gosto de nossos foliões. Ganhou cor tropical em diferentes épocas. 

A observação superficial que o presente texto faz do Bloco do Zumbi revela seu potencial turístico e capacidade de crescimento. E se tiver de ser, que o seja preservando sua identidade, pois enfim é o que tem de poder para efetivamente atrair visitantes. As cidades do interior mineiro guardam suas pérolas culturais. O organizador do bloco merece parabéns. Saber explorar no bom sentido estas potencialidades é um desafio permanente e uma tendência, rumo à valorização da identidade. Investir sobre carnavais de base comunitária, para o cidadão, é tratar com zelo os detalhes de infra-estrutura, trazer as bandas de marchinha, as baterias, ofertar suporte aos blocos, disponibilizar bons veículos de sonorização, garantir tranquilidade nas ruas e fazer uma divulgação a contento. Este bloco não é o do carnaval de multidão, que impressiona pelo volume de pessoas, mas com certeza também impacta positivamente. É o carnaval da identidade e da qualidade para o morador. Muitos bons turistas, cansados das massas, acabam sendo atraídos por este jeito simples e cuidadoso de fazer a festa do momo.




















 




Notas e Créditos

* Fotografias (05/03/2019) e texto (06/03/2019): Ulisses Passarelli
**Sobre o tema do enterro do carnaval leia também: O ENTERRO DO ZÉ PEREIRA

terça-feira, 5 de março de 2019

O Bloco do Boi de Caiado: uma ferramenta do resgate do tradicional carnaval de Coronel Xavier Chaves

Faz certo tempo surgiu na cidade de Coronel Xavier Chaves um evento pré-carnavalesco, que muito se afamou e cresceu. A proposta de tal evento acertou em cheio na visibilidade e atrativo de visitantes, tornando-se um dos grandes momentos do ciclo do momo na região das Vertentes. Não obstante este aspecto e a diversão que proporcionava, logo a expansão trouxe consigo os problemas de um carnaval de massa.

Neste ano contudo, a municipalidade apostou de forma arrojada numa outra forma de carnaval. O tradicional. Não que ele não existisse, mas focou-se nele em detrimento do evento massivo. A proposta foi de um carnaval para dentro e não para fora; para o xavierense, com o que ele tem de melhor e assim o vimos claramente in loco. É de se imaginar o dilema de tal decisão, que decerto não agrada a todos, mas certamente beneficiou aos milhares de moradores. Foi visto um verdadeiro resgate do carnaval tradicional, da cultura popular autêntica, não só um mero ato de economia, mas efetivamente de ação planejada de valorização do que há no município. 

Entendemos como atitude de coragem, que também abre discussões. Entretanto é sempre bom perguntar que tipo de turismo se quer, chamar isto à reflexão. Por toda parte há inúmeros exemplos que os eventos gigantes trazem consigo problemas gigantes e chega a hora de rever se de fato isto é bom ou é o que se quer.

O carnaval típico, tradicional, tem também o seu potencial turístico, atraindo não volume de visitantes, mas qualidade dos visitantes. O próprio povo fez o seu carnaval, de corpo e alma, com plenitude de sua criatividade e lavor artístico. No palco, os artistas da terra tiveram voz e vez, com toda capacidade e sucesso. Na grande tenda, moradores e visitantes se irmanaram indistintamente dançando com alegria e relembrando os carnavais dos velhos tempos, com muita tranquilidade. O boi-de-caiado, manifestação folclórica de raízes muito antigas e típicas do lugar ganhou as ruas sob a liderança do grande Mestre Zé Carreiro, verdadeiro ícone da cultura local. A comunidade mostrou seu valor afro pelas danças, vestimentas e pela afirmação de identidade na participação conjunta e harmônica, demonstrando empoderamento do território onde está inserida. O bloco veio bem mais forte que no ano anterior, por exemplo, conforme observamos. 

Ruas limpas, seguras, bem cuidadas, praças impecáveis, patrimônio cultural preservado, gente receptiva, pacífica e alegre. Carnaval típico do interior mineiro. Boa infra-estrutura de evento. 

A opção de olhar para si e enfrentar as adversidades é uma atitude de responsabilidade social e de amor à cultura. Apostar na raiz de saberes do lugar e no potencial dos moradores é uma proposta louvável para uma administração pública, mesmo que não agrade por unanimidade.









* Neste blog, leia também: BOI DE CAIADO: O BLOCO DO BOI EM CORONEL XAVIER CHAVES     
** Fotografias (04/03/2019) e texto (05/03/2019): Ulisses Passarelli

Lesma Lerda: o bloco gigante, que não é lerdo!

São João del-Rei ao longo de muitas décadas se celebrizou pela excelente qualidade de seu carnaval, o número de agremiações, pelos sambas e sambistas, pelos foliões e carnavalescos, tudo isto inserido em um cenário de beleza da cidade histórica e no seio acolhedor de seu povo. É bem verdade que teve altos e baixos. No entanto segue firme, atraindo milhares de visitantes. 

Pois bem, neste ano, cerca de 65 agremiações acorreram às ruas são-joanenses, vias urbanas e rurais. Dentre elas, antigas ou recentes, pequenas ou gigantes, ora este blog se debruça sobre o Bloco do Lesma Lerda, esse quarentão, que escoa lentamente com milhares de foliões pela Avenida Oito de Dezembro abaixo. 

Quando surgiu, aparentava ser apenas mais um bloco, mas o tempo mostrou que seria o bloco. Ainda na recordação vem à cena uma alegoria saudosa de uma grande lesma de pano, movida por foliões abnegados metidos debaixo de sua armação arqueada. A lesmona colorida e de carinha alegre e antenas saliente, serpenteava entre os participantes, qual um símbolo, assim como o boi o é para o bumba-meu-boi. Tal figura desapareceu no tempo. Mas aquela característica satírica inicial, a verve política com a situação focal da vez, o alerta de atenção sobre alguma situação imperativa no momento nacional... isto, o Lesma nunca perdeu! E com muito bom humor. 

Ainda agora o vemos, esse bloco "coroa", coroado, experiente, elegante, lotado (e muito lotado!) de jovens, afoitos para expor suas fantasias. O Lesma Lerda é de longe o bloco são-joanense que mais reúne fantasiados de toda estirpe. Se fosse só para apreciar essas fantasias já valeria a pena ir no desfile do Lesma Lerda. Para admirar a alegria e responsabilidade de Tutti Fonseca e parceiros de luta na organização, tanto mais vale a pena. 

No Lesma, a juventude se transfigura em personagens heroicos tão em voga, ou em anti-heróis que são os verdadeiros heróis, como as figuras da Turma do Chaves; políticos em tela na mídia; o mosquito da dengue; o Presidente de cada período; personagens das novelas e filmes; das estórias em quadrinhos e fabulário em geral, dos contos de fadas (quantas Brancas de Neve este ano!), fantasia de água, árabes, marujos, cowboys, etc. Um dos mais velhos blocos atrai a moçada da cidade e turistas, para se expressarem como quiserem, livremente... sadiamente! No Lesma interagem veteranos e calouros, diversas gerações, que se complementam na arte de bem viver o carnaval. Eis o Lesma, sempre tão aguardado e querido. Um verdadeiro gigante do carnaval de São João del-Rei. 

Aspecto geral do Bloco Lesma Lerda, com apresentação de capoeiristas no momento que dançavam o maculelê. 


* Fotografia (27/02/2019) e texto (05/03/2019): Ulisses Passarelli

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A dama de pedra

(mais uma lenda da Serra do Lenheiro)


De longe, parece ser só mais uma pedra na Serra do Lenheiro, nem tão distante da cidade de São João del-Rei. Entremeio matas e campos e grandes afloramentos rochosos, um rochedo comum traz quase ao rés do chão a escultura de uma face feminina de perfil, coberta a cabeça por um pano, tudo entalhado na pedra dura.

Ao caminhante desatento ou ao afoito passa despercebida a obra de arte. Ao coração poético logo ela chama à atenção. Ninguém sabe sua data exata, ou quem a fez, ou porque entalhou. Tudo reside no campo lendário. Entretanto, onde o fato histórico se perde nas longuras do tempo, ou está obscurecido no esquecimento de algum velho relato, ou talvez perdido nas memórias coletivas, então... a lenda se torna verdade. 

Contam-se algumas narrativas da origem, por vezes discrepantes no conteúdo ou até inverossímeis. Mas tem uma versão mais repetida que abaixo reproduzo. Ante a fisionomia tristonha da dama de pedra, encoberta por um pano na cabeça à moda antiga... quiçá é a que de fato remete à verdade perdida! Ou será que não? 

Dizem que foi no tempo colonial, no auge do ciclo do ouro. O Canal do Ingleses escoava água em abundância até o grande mundéu ao sopé do Morro do Caititu. Ali os escravos em labuta interminável apuravam o ouro para a riqueza cada vez maior do proprietário das terras. O sinhô branco era como de costume ou modelo daquele tempo, sisudo, ganancioso ao extremo, tendo o status social como maior premissa. Escravo para ele era mero objeto de produção e a esposa, sinhá muito humana, de espírito iluminado, era destratada com a grosseria inexplicável. 

Vivia a pobre mulher infeliz, ciosa de um amor que sonhou e nunca teve, posto que seu casamento era um inferno de desventuras. Entre a riqueza, preferia a simplicidade da senzala, para onde sempre fugia, visitando as vovós africanas, de quem ouvia as histórias de seu povo, ou para junto das minas, observar o trabalho braçal dos escravos, luzidios ao sol, com as costas suadas de tanto esforço. Se um escravo ia ao tronco, ela vinha curar-lhe as feridas. 

Não demorou que um lhe ressaltasse aos olhos. Para além de seu conjunto físico musculoso, era o sorriso daquele escravo que iluminava sua alma. Reconhecia a sinhá em tal sorriso um velho conhecido. É como se fosse alguém que já conhecera. Mas era apenas mais um escravo. Ele, por outro lado, reconhecia no olhar dela igualmente algo familiar, que não podiam entender, senão mesmo, dava medo... mas o desejo era bem maior. A aproximação não tardou. A sinhá ia para o mundéu vê-lo em trabalho. Até que, sinalizando-lhe com os olhos, chamou-o a um canto. E ele foi. 

Se esgueiraram entre as pedras, buscaram a camuflagem dos matos. A barra da longa saia se molhou na água do aqueduto. Riam. Conversavam. Se entreolhavam... e se amaram ali entre as rochas, a natureza por testemunha. 

A paixão se apoderou deles e a aventura perigosa mas irresistível tornou-se um costume. Sempre que oportuno fugiam para detrás das pedras onde seus corpos ardentes se tornavam um só. Não faltou quem os alertasse do perigo, mas era inútil. O amor em verdade impossível para o contexto daquela época, machucava pela impossibilidade de uma união permanente ou estável. O escravo registrou essa tristeza em pedra, talhando o rosto sofrido da amada numa rocha. 

E foi ocasião que o senhor descobriu o amor dos dois. Enfurecido, logo idealizou vingança sangrenta. Queria lavar sua honra. Prendeu o escravo, humilhou-o o quanto pode e não se contendo, matou-o de forma horrenda: meteu-lhe fogo no corpo, queimando-o por completo. A sinhá em prantos e gritos tentava impedir... mas em vão. O desespero da sinhá era incontido e a dor e sofrimento do escravo que ardia era infinito! O sinhô a tudo observava impassivo, com ódio.

Os escravos cuidaram de seu corpo esturricado. O cobriram de folhas úmidas e frescas, que contribuíram para refrescar seu cadáver carbonizado e com preces em seu favor a alma deixou aquele corpo.

Dali para frente, a vida da sinhá foi só tristezas, lembranças... E na verdade durou muito pouco. A tragédia não acabara: certo dia, não suportando mais a dor da ausência de seu amor, a sinhá saiu por sobre as pedras, galgando-as, olhando infinitamente o horizonte profundo, como se o procurasse. Dentro de si carregava o fruto daquele amor proibido e censurado. Apesar de já amar imensamente aquele rebento, pois era o símbolo de todo o sentimento que nunca tivera antes na vida, seu coração doía e se desesperava ao pensar no destino cruel que lhe era reservado. Seus olhos se perderam na imensidão e seu coração saudoso a impulsionou dali para baixo. Suicidou-se pulando dos Três Pontões. O amor de fim trágico eternizou-se. A busca um pelo outro fora do corpo humano prosseguiu na espiritualidade. 

A dama de pedra. Serra do Lenheiro.
São João del-Rei/MG. 


"Serra do Lenheiro, Morro de São João, 
escalavrado pelo braço forte do escravo,
faiscando o brilho dourado da paixão;
testemunho de amores mal resolvidos. 

Na rocha bruta o escravo entalhou, 
com rudes ferramentas o rosto marcante,
daquela sinhá tristonha pelas injustiças
sinhá que tanto... ele amou. 

Onde prospera a cobiça não cabe o amor;
a chama ardente do mal rompeu o enlace,
do alto da pedreira um grito de horror,
em vertiginosa queda a sinhá se prostrou. 

A mesma chama ainda tosta o cerrado. 
Mas o sonho renasce, esperança de vida, 
pois o espírito pela verdade marcado
retorna ao cuidado donde é guardião!"


Notas e Créditos

* Texto (10/10/2018), fotografia (09/09/2018) e poesia (22/09/2018): Ulisses Passarelli
** Revisado e ampliado em 04/02/2019

sábado, 7 de julho de 2018

Violas: de Portugal aos sertões



                As violas são instrumentos musicais cordofones dedilhados, de procedência ibérica, derivadas da vihuela medieval, que por sua vez procede de primitivos instrumentos de cordas do oriente médio, notadamente de antigos alaúdes, da época do império árabe, de quando os mouros dominaram a Península Ibérica.

                Em Portugal desenvolveram-se várias modalidades de violas, distintas por algumas características e agrupadas em dois conjuntos, com maior ou menor curvatura do corpo (enfranque). Assim, no território insular surgiram as “violas de arame”, ganhando peculiaridades na Ilha da Madeira (viola madeirense) e no Arquipélago dos Açores (viola micaelense e viola terceirense). Igualmente na parte continental daquele país: viola campaniça ou de Beja, típica do Alentejo; viola braguesa, da região do Minho; viola beiroa, da Beira Baixa; viola toeira, da região da Beira Alta, sobretudo Coimbra; viola amarantina, do Douro Litoral, que evoca em seu nome a cidade de Amarante, terra do célebre São Gonçalo, protetor dos violeiros.

Chegaram ao Brasil no princípio da colonização portuguesa, ainda no século XVI. Das caravelas desembarcaram e os padres jesuítas as usaram para os trabalhos de catequese dos índios nos aldeamentos ao longo da faixa litorânea. Logo o instrumento caiu no gosto popular e passou ao uso da população comum, na mestiçagem cultural de tantas etnias formadoras da nacionalidade brasileira.

                Então a viola original portuguesa passa a ser feita aqui, com madeiras tropicais, que lhe conferiram outra sonoridade. A adaptação de formas e curvaturas possibilitou o ajuste de novas madeiras. As facilidades ou dificuldades de toques, as experiências de execução das músicas, as características regionais de cada cultura, contribuíram para o surgimento de muitas afinações diferentes, que ganharam nomes pitorescos: rio abaixo, rio acima, cebolinha (simples e ré acima), cebolão (em ré e em mi), natural, paulistinha, paraguaçu, cana verde, boiadeira, riachão, repentista e outras.

                Essa adaptação da viola portuguesa à realidade brasileira gerou a viola caipira, tipicamente nacional, também conhecida por viola sertaneja. Uma de suas variações, no nordeste brasileiro, alcançou grande popularidade a partir da década de 1940, a chamada viola dinâmica, característica pelo som melódico, de timbre metálico, graças à presença estrutural de um disco metálico contido no bojo do instrumento, cuja vibração se reverbera por pequenos amplificadores na caixa. A viola dinâmica é características do uso dos poetas repentistas nordestinos.

                Em outras regiões nacionais a viola se firmou na tradição musical folclórica, desde as danças populares como as catiras, curraleiras, fandangos, dança de São Gonçalo, até as congadas e folias de Reis, do Brasil central e sudeste ao sul. Para o norte, em terras amazônicas, entrou a viola como acompanhamento de certas danças típicas e no aparato musical religioso de benditos e ladainhas.

Para mais, Brasil afora, acompanhava modinhas e lundus, colaborando intensivamente para a construção do universo da música popular brasileira. Mas foi sobretudo nas modas e toadas de violas, ponteios e rasqueados, na mão hábil e trabalhadora do homem rural, que a viola se despontou na composição das chamadas duplas caipiras e se popularizou imensamente no centro-sul brasileiro. Em oposição, o violão era um instrumento desde sempre mais urbano, ligado aos poetas e literatos, música de boemia e das canções. Mas na formação das duplas, viola e violão se casaram em perfeita harmonia, aquela com dez cordas, este com seis.

Por toda parte a cultura tradicional a envolveu em lendas. Desenvolveram-se simpatias ao seu redor e um universo cultural próprio se estabeleceu sobre a viola, se configurando como um dos instrumentos mais importantes da música brasileira.

                Assim a viola participou como elemento estruturante e simbólico da música sertaneja, vista sempre pelo aspecto poético, bucólico, evocador de brasilidade, trazendo à tona a nostalgia da roça.

Depois de longo período de ocaso, a viola experimenta desde meados dos anos 80 ou começo da década seguinte um soerguimento e agora um período de efervescência musical, graças ao virtuosismo de grandes músicos solistas ou de conjunto, que trabalhando na mídia e na educação patrimonial, nos revelam o valor incomensurável deste instrumento, tão afeito aos cantares brasileiros, de caráter identitário à própria cultura nacional. A viola hoje galga os rumos da música profissional, em franco crescimento.

Violeiro - Lourival Amâncio de Paula, folião e capitão - São Gonçalo do Amarante (SJDR-MG).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (básicas)

ANDRADE, Mário de. Danças Dramáticas do Brasil. São Paulo: Martins, 1959.
ARAÚJO, Alceu Maynard Araújo. Folclore Nacional. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1964.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário de Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: EDIOURO, [s.d]. 930p.
HINDLEY, Geoffrey. Instrumentos musicais. São Paulo: Melhoramentos, 1981. Coleção Prisma.

REFERÊNCIAS NA INTERNET (básicas)

Violas portuguesas. Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Violas_portuguesas (acesso em 04/07/2018, 15:53 h)
As afinações da viola. Casa dos Violeiros: http://casadosvioleiros.com/homolog/index.php/a-viola/9-a-viola-caipira/13-afinacoes-da-viola (acesso em 04/07/2018, 15:54 h)
Viola caipira: por que uns usam afinação em Mi e outros em Ré? Curso de Viola: http://auladeviola.com/viola-caipira-por-que-uns-usam-afinacao-em-mi-e-outros-em-re/#sthash.pXLhruvE.dpbs  (acesso em 04/07/2018, 15:56 h)
Viola dinâmica. You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=Z2IrbScNy44  (acesso em 04/07/2018, 15:56 h)    
 


Notas e Créditos

* Texto (04/07/2018) e fotografia (2010): Ulisses Passarelli

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Pentecostes em crônica: a Festa do Divino em São João del-Rei

Certas sutilezas acontecem no jubileu pentecostal de Matosinhos, em São João del-Rei. Na correria da grande Festa do Divino, na agitação de cores e sons, movimentos coreográficos e gente, celebrações e reencontros... agente não percebe alguns detalhes. 

Moçambique de Passa Tempo: presença sempre marcante. 

Assim, por exemplo, o zelo dos congadeiros em levantar o mastro na abertura da festa - a forma como olham ao céu, vislumbrando a bandeira que sobe - é um olhar de esperança, de expectativa, que não se pode descrever, mas apenas sentir pelo convívio ou pela observação com vista clínica. A imagem transcende ao plano material. É telúrica. Esperança de uma grande festa, equilibrada, feliz. O instante imediato do levantamento, a inclinação do madeiro, se reveste de certa tensão, que logo se esvai quando o mastro se verticaliza na posição final. Se o dançante beija o mastro e bate-lhe a fronte para buscar forças, logo, gente da assistência, sem saber por qual razão, repete o gesto. A descida dos mastros é entusiástica, concorrida. Muita gente aglomera em derredor, gerando preocupação aos responsáveis de algum contratempo. Na sonorização se pede guardar distância de segurança. Mas o povo junta, parece magnetizado, e aguarda com ansiedade especial a descida do mastro do Espírito Santo, o mais alto. Querem ver como vai ser, mesmo já sabendo como acontece. É como uma aliança sagrada que é benta de novo, uma promessa que se renova. 

Moçambiqueiro de Pedra Negra entoa seu canto, lamento, louvor, prece!

A cavalgada traz à tona as origens rurais, o ruído característico de cascos no asfalto; o cheiro do estrume. A imagem urbana do casario, o comércio cheio de engenhos publicitários, tudo se contrapõe à vermelhidão dos estandartes e flâmulas, alvejadas ao centro pela clássica figura da pombinha milagrosa. A sua passagem anuncia a proximidade da festa. O povo o diz: olha a festa chegando, a cavalgada passou! Já se formou o vínculo da imagem dos cavaleiros à chegada do festejo. Ou seja: o objetivo anunciatório é cumprido de maneira natural, espontânea. 

Experiência e sabedoria: moçambiqueiro de Ibituruna. 

Quanto às folias no sábado, véspera do dia maior, o povo fica estático diante do coreto, hipnotizado, ouvindo uma a uma, todos os anos, comparando os estilos (toadas), evocando saudades da roça dos avós quando viam em tenra infância a chegada dos foliões; rememoram os pais que acolhiam as bandeiras e músicos folieiros dobrando o joelho ao chão, coando o café saboroso para servir com quitanda e queijo. Muitos vão à emoção. Folia mexe com as pessoas. Quem gosta, gosta! As folias carregam uma simbologia de um mundo rural, um elo perdido na modernidade, que a melodia resgata na memória, renovando a aliança com as raízes. (De novo as alianças...) No salão do café, há mais que broas, pães e biscoitos. A ornamentação é toda em branco e vermelho (tecidos, fitas, flores, bexigas de ar, bandeirolas). O quadro negro traz mensagens escritas saudando o Espírito Santo. O bolo tem uma pombinha em cima. É carinho, zelo. Bastaria o lanche, mas o tempero é amoroso. O ornamento aclimata os folieiros. Ali se confraternizam, dialogam, membros de uma e outra folia. Amizades se selam e renovam. 

Capitão Tadeu, congado anfitrião de Matosinhos. 

Alvorada é sacrifício de poucos. Tradição. Madrugadinha o caixeiro acorda, pois o despertador zoa irritante. A missão chama: "Quando chega a hora é hora, vamos com Deus e Nossa Senhora!". Um desjejum rápido e já basta. Muito frio nessa época. Lá fora o vento gelado não é receptivo mas é preciso bater caixa às 6 horas no Santuário. O sino já chama no bronze. Este ano foram dois grupos de caixeiros, com cerca de quatro caixas cada, um de Matosinhos, outro de Santa Cruz de Minas. É coisa rara de se ver. Em verdade quase ninguém vê e nisso reside a mágica do ato. Não se faz para público, não é para aplauso. É para o Divino. Ele o vê e isto basta ao caixeiro. Isto lhe é suficiente estímulo para sair de seus cobertores ao frio da aurora. Alvorada é saudação ao dia maior. É pedir forças para a tarefa imensa que se seguirá ao longo do dia. E o fazem com tamanho vigor e dedicação como se uma multidão os assistisse; multidão que não passa de meia dúzia´de aventureiros que se dignaram acordar tão cedo em gélida manhã. Alvorada é para Deus; não para plateia. Se canta, se reza, se louva. 

Capitães de Barbacena. 

Congados vão chegando pelas oito e meia, nove... O largo se engalana em festa. A Deusa Ceres assiste a tudo estática, impassível, imponente. Em verdade ainda mais bela nesse dia. 

Devoção à bandeira, com o congado do Bairro São Dimas. 

As pessoas acorrem para apreciar. Se socializam, reencontram, dialogam. Fazem comentários elogiosos sobre a desenvoltura de um sanfoneiro, a expressividade de um capitão, o bailado de um catupé animado, a marcialidade de um congo, o zunir das gungas de um moçambique, o bater idiofônico das manguaras de um vilão. Alguns devotos beijam bandeiras e se persignam. Capitães se saúdam ritualisticamente. Há uma forma de fazê-lo. Não basta acenar ou pegar nas mãos. Se dois grupos se encontram frente a frente podem trocar de bandeiras, cada uma beijando a do outro, como cortesia e respeito. Praxe. 

Congo de São Gonçalo do Amarante. 

No salão Rainha aguarda ansiosa a passagem do congado predileto, elogiando seu vestido abalonado. E sai toda ciente de sua majestade que é real de fato. Na retaguarda do terno de dançantes caminha solenemente. Sinhô Rei vai também... 

Moçambique de Ibituruna em marcha. 

A passagem de tão álacre cortejo suscita a saudação da vizinhança que o aplaudi das janelas e sacadas. Na porta acorrem; na calçada se postam. Dos peitorais das janelas toalhas de cor ornam as fachadas; vasos floridos e imagens são postas. A rua se sacraliza. Não se vê isso todo dia. Festa do Divino mexe com o sentimento. Os dons se esparramam como uma brisa que sopra. Não é raro ouvir comentários que "essa festa é linda!" ou "é minha festa preferida!" ou ainda... "eu lembro da minha mãe..."

Nossa Senhora do Rosário, a grande Mãe, estampada na bandeira do catupé de Cláudio. 

Como descrever tanta emoção? Será mesmo possível? Vai vendo... No adro o povo forma corredor. Congados passam pelo meio. Na porta o imperador está postado, como anfitrião maior. De cetro em riste saúda e cumprimenta. Presenteia com uma lembrança artesanal, uma pombinha. O congado passa o portal sagrado e entra no céu simbólico, assim tratada a nave do templo. Diante do altar é de ver e não esquecer a respeitabilidade extremada dos congadeiros ao altar com suas imagens. Que exemplo eles deixam! Rezar com alegria!!! Pra todo lado é gente filmando dos celulares e fazendo selfs. Todos querem uma lembrança. 

Moçambiqueiro são-joanense toca um pantagome feito de calotas de carro. 

Almoço é alarido. Comida boa, de muita fartura, limpinha, cheirosa. Bom tempero. A equipe da cozinha é admirável. Trabalho árduo, dificílimo. Aquilo sim é abnegação! Cozinheira não vê festa, mas festa sem ela não existe. 

Esperança de futuro com jovens e crianças no congado de Resende Costa.  

O Imperador já está agora lá na Igreja de Santa Terezinha. Nossa Senhora do Rosário também. É preciso escoltar seu andor ao santuário. Um imenso cortejo se forma, serpenteante. Escoa em sons e cores pelas ruas, maciço, uniforme, gigante. O pessoal do Departamento de Trânsito e da Guarda Municipal se empenha de corpo e alma para que tudo dê certo; e dá. Sem eles vira uma esculhambação. A chegada ao Santuário é apoteótica. Quem o viu não esquece. Quem não o viu não sabe o que perdeu... 

Moçambiqueiros de Itaguara escoltam o andor de Nossa Senhora do Rosário. 

Curioso também é a indagação constante das pessoas sobre quem é o novo imperador. Todo ano é a mesma pergunta: "Quem vai ser coroado?" A cerimônia em si todos querem ver em detalhe, esticam pescoço, saem dos assentos. O Imperador vira o foco. Quando um deixa a coroa, é logo acolhido pelos dos anos anteriores, como membro de uma fraternidade. E de fato o é. Deveria aliás haver um "Conselho dos Imperadores", agregando como membros natos todos (e apenas) os imperadores de cada ano, para com sua experiência ser o braço direito do Presidente da festa. 

Carrancas também esteve presente com sua congada. 

O imperador que deixa a coroa parece leve, sorri aliviado. O outro está tenso, fisionomia carregada. É o peso da responsabilidade. A coroa pesa. Senhor Bispo o coroa e o apresenta aos fieis sendo então ovacionado. Muitos querem cumprimentá-lo fotografar ao seu lado. O imperador é uma autoridade simbólica. 

Coronel Xavier Chaves, sempre presente com plena autenticidade. 

A procissão é um momento sagrado que a multidão se envolve como uma massa humana focada num só objetivo. Seguindo a liteira de Santo Antônio e os andores de Nossa Senhora da Lapa seguem congadeiros, imperadores e mais devotos, em preces e cantares. Gente precisando de graças especiais "disputa" oportunidade de carregar o andor. É hora de um sacrifício que vale o pedido especial. Quem precisa mais quer entrar com o andor nos ombros pela igreja. É como se o pedido estivesse entrando no céu. Assim o povo o vê. 

No sorriso a fé! Capitão Ganair, de Conselheiro Lafaiete, presença contínua desde 1998. 

Que mundo de detalhes há para observar! Quanta riqueza humana quebrando a rotina escravizadora. A Festa do Divino se faz jubilar na satisfação coletiva que gera. É festa que emociona. É festa que fluidifica a fé na cultura inseparável. 

De antigas raízes no rosário o congado de Ritápolis marca presença. 
  
As mulheres do Pilão de Nhá valorizam a cultura rural. Caquende. 
  
Como uma onda azul, chegam os marujos de Congonhas. 

Tradicional guarda de catupé de Santa Cruz de Minas, sob a bandeira de São Miguel. 
    
Marujos de Senhora das Dores se apresentam ao Imperador.  

Capitão do congado de Santana do Garambéu. 

Congado de Itutinga durante o Cortejo Imperial. 

Congado de Resende Costa chega no adro do Santuário. 

O cortejo adentra o adro do santuário. 

Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 20/05/2018
*** Obs.: a disposição das fotografias no texto é aleatória e de caráter meramente ilustrativo, sem ligação exata com os parágrafos.