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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

As Testemunhas

Nesta postagem o blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES expõe mais um conto no qual um elemento da natureza denuncia algo oculto, em geral um crime. A presença das moscas nesse caso específico pode abrir caminhos para interpretações, que ora não serão perscrutados.

Fato é que as moscas desde antiga tradição são símbolos do mal, da negatividade, ligadas a coisas podres, obscuras. Na crendice, presença de muitas moscas numa casa é sinal de más influências espirituais, atraídas pela sujeira, ciscos, trastes velhos. Quando uma mosca-varejeira entra numa casa logo se imagina um mal presságio e se cuida de matá-la ou expulsá-la, esconjurando-a com o sinal da cruz.

Um canto de moçambique coligido em Passos/MG, dizia:

Êêê mata o boi!
Sangue tá taiado,
Tira o couro,
Mosca tá danado...


O capitão dizia-me que era um ponto "muito pesado"... o que é sintomático. Belzebu, divindade dos filisteus e cananeus recebe o título de "Senhor das Moscas", que o processo de cristianização colocou como Príncipe dos Demônios. 

Uma variante deste conto que será narrado a seguir, ouvi em São João del-Rei na mesma época, do saudoso Luís Santana, desenvolvia-se de forma igual, com o detalhe que a testemunha que fora assassinada era um homem negro e em vez das moscas, um urubu perseguia o assassino por toda a parte, dando gargalhadas. Tanto a mosca quanto o urubu são criaturas ligadas à morte, pois atacam cadáveres. 

A cultura popular encontra curiosos caminhos simbólicos para revelar a sua coerência e defender os valores morais e religiosos a que dá crédito.

*  *  *

Um homem cometeu um assassinato e um tempo depois matou outra pessoa, desta vez uma testemunha do crime anterior. Pela gravidade do que fez, outras pessoas, inocentes, estavam sendo incriminadas. 

Desde aquele dia que "apagou" a testemunha, por toda parte onde andava, uma nuvem de moscas o acompanhava. Onde quer que ele fosse, mesmo que bem asseado, perfumado, as moscas o atormentavam. 

Como nada resolvia o incomodo problema, resolveu ir se confessar com um padre. Ajoelhou-se aos pés do confessionário e os insetos ao redor... 

Após ouvi-lo, o sacerdote o aconselhou a procurar a polícia e confessar os seus crimes, pois as moscas eram as testemunhas de sua maldade e não o deixariam em paz enquanto não se entregasse à autoridade. Assim fez e os insetos o deixaram imediatamente. 

Confessionário. Fotografia meramente ilustrativa.
Peça do acervo da Igreja de Nossa Senhora das Mercês.
Mercês de Água Limpa (São Tiago/MG).


Notas e Créditos


* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S.Passarelli, 26/01/2014.
*** Informante: Elvira Andrade de Salles, 1995 (natural de Bias Fortes, mas residente em Santa Cruz de Minas).
**** Para ter acesso a outro conto do tipo "natureza denunciante" clique no link: Favas Contadas.

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