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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 29 de outubro de 2013

Folclore dos Pássaros

Por todas as regiões nacionais existem crenças acerca das aves. Algumas se estendem por vastidões geográficas, outras se mostram restritas. 

Perscrutando as obras dos estudiosos vamos encontrar diversas referências a superstições sobre pássaros ou sua presença inspiradora nas trovas populares, mormente as aves canoras, como sabiás e canários. Eurico Santos em sua vasta obra zoológica, notadamente em "Pássaros do Brasil" e "Da Ema ao Beija-flor", registrou soberbamente uma vasta galeria desse folclore. Helmut Sick, na monumental obra "Ornitologia Brasileira - uma introdução", também nos brindou com amostras significativas das tradições populares sobre as aves. E mais especificamente na folclorística, destacamos a obra de Hitoshi Nomura (Avifauna no Folclore), de uma grande amplitude nesse tema. 

Quem não conhece a lenda setentrional do célebre uirapuru, que quando canta todas as demais aves da floresta se calam para ouvi-lo? 


Garrincha sobre um mandacaru em São João del-Rei. 

Por aqui não seria diferente a impressão sobre as aves. Algumas tem voz agourenta, como o pio lúgubre das corujas (stringiformes) e ou canto macabro do acauã, nome onomatopaico do gavião Herpetotheres cachinnans, interpretado outrossim por "Deus quer um...", que teria o poder de anunciar uma morte. Outros pássaros dão azar a quem matá-los, como a garrincha (passeriformes, troglotidae, Troglodytes musculus), a lavadeira (passeriformes, tyrannidae, Fluvicola nengeta) ou a saracura (gruiformes, rallidae, Aramides sp.). O caso dessas duas últimas liga-se à devoção mariana. Dizem em São João del-Rei que quando Nossa Senhora fugia para o Egito com muito medo da perseguição de Herodes, foi ajudada pela saracura, que ciscando pelo caminho, apagava as pegadas da Sagrada Família para não ser rastreada pelos centuriões. Já a lavadeira, que gosta de ficar na beira da água, foi o passarinho que carinhosamente lavou para a Virgem Maria os paninhos do Menino Jesus, na beira do rio. Por isto foram abençoados por ela. Sobre a saracura, também se diz, que, quando canta com insistência é sinal que vai chover, principalmente Aramides cajaena, cuja interpretação onomatopaica soa como "quebrei três potes".


Uma lavadeira na zona rural de São João del-Rei.

Gavião-acauã, Serra de São José, Santa Cruz de Minas / MG. 

Sabiá (passeriformes, turdidae, Turdus sp.) cantando muito durante o dia, na hora de sol quente, chama chuva. Isto porque de hábito prefere cantar nos extremos do dia, pela aurora e ao crepúsculo. Inspira muitos versinhos do folclore, como: 

"Sabiá cantou, 
lá na laranjeira, 
vamos levantar
a nossa bandeira!"
(Marujos, Barbacena/MG, 2002)

Outro que chama chuva é o joão-bobo (galbuliformes, bucconidae, Nystalus chacuru), teimosamente pousado nos galhos do cerrado, segundo perspicaz observação dos boiadeiros. Seu canto é considerado infalível. Ao menos anuncia uma mudança rápida do tempo. 

Saracura se banhando no Ribeirão da Água Limpa, Bairro Matosinhos, São João del-Rei.



Saracura na margem do Rio das Mortes, São João del-Rei.

Urubu (cathartiformes, cathartidae, Coragyps atratus) se pousar sobre o telhado ou lage de uma casa indica que breve alguém dali vai morrer. Na magia negra a pena do urubu é usada para feitiçarias capazes de matar a pessoa a cujo nome for amarrada. Um senhor conterrâneo, cujo nome me abstenho de anunciar, dizia-me a mais de dez anos atrás que este trabalho espiritual mata porque o urubu é a ave que voa mais alto, perto do céu, levando embora a alma da pessoa. Não é porque tem hábito carniceiro... Dizem ainda que a longevidade do urubu é extraordinária e que sua franga só começa e botar ovos aos cem anos de idade! Acredita-se que o urubu tenha uma defesa orgânica excepcional, para resistir aos alimentos putrefatos que ingere. Suas fezes dão sorte se acaso defecar sobre alguém por acidente. Dá azar matar urubu. O Código Municipal de Posturas de São João del-Rei, de 1887, no art.48, sob pena de 15$000, proibia a matança de urubus. 

Urubus aninhados na Serra de São José, Santa Cruz de Minas/MG. 

Porém o presente texto reservou um momento particular para os cucos do Brasil, digo, os seus parentes próximos, cuculiformes, aves de sua família, cuculidae, que abaixo estão discriminadas.

***

Peixe-frito – Nome popular da Tapera naevia, que acreditam encantado, posto que, supostamente, se faz invisível. Só se houve seu canto repetitivo e de tempo bem marcado, de dois assobios, que interpretam nas Vertentes como a expressão “peixe-frito”. Em outras regiões a onomatopéia soa como “sa-ci” ou “sem-fim”. Em muitos lugares é chamado saci, aproximação ao mito do saci-pererê, que acreditam ser o responsável por assobios misteriosos. Não se vê a ave na ramagem mesmo quando canta bem perto da gente. Por isto, no sul, o chamam “mandrião”. Ocorre que sendo muito dissimulado, vale-se de excelente mimetismo.



Alma de gato. Glória (Ritápolis/MG).

Alma-de-Gato - Ave da espécie Piaya cayana, conhecida desde o México até a Argentina. Na área Amazônica há outras duas espécies congêneres. Também chamada rabo-de-palha, chincoã, tincoã e coã. De hábitos esquivos, raramente é vista. Trai a sua presença pelo vôo de uma árvore à outra, balançando o longo rabo, piando matraqueado. Tem fama de ser debochada, seja por imitar outras aves seja por se esconder muito bem. O nome vem do gosto em assaltar ninhos de outros pássaros, comendo os filhotes, como um felino. Seu ninho é muitíssimo escondido, de tal sorte que a ornitologia pouco lhe conhece dos hábitos reprodutivos. O povo logo esclarece o mistério: o ninho é tão escondido porque entre os ovos há uma pedrinha de ouro, que deve guardar a todo custo. No Nordeste origina crenças agoureiras com sua presença e canto. No boi-calemba (= bumba-meu-boi) do Rio Grande do Norte, motivou uma cantiga com refrão e quatro quadras, na série dos “bailes de sala”, entoados para entrar na casa do anfitrião. 

Anu(m) - Nome de algumas aves cuculiformes: Crothophaga ani ani, Crothophaga ani sulcirrostris (ambos chamados anu-preto), Crothophaga major (anu-de-enchente, anu-coroca, anu-guaçu ou anu-peixe, também de plumagem negra) e Guira guira (anu-branco). Acredita-se darem grande azar a quem os mata, tal como levar um coice de cavalo (que não se levaria se não tivesse matado o pássaro...), ser reprovado numa avaliação escolar, tomar uma queda, etc. A restrição de não matá-lo ligar-se-á talvez ao fato dos anus serem queridos dos criadores de gado, por andarem sempre junto destes animais, catando-lhes parasitas. Seria uma crendice educativa. Matar anus aumentaria a população de carrapatos. Lembro de um verso do boi-de-mamão ( = bumba-meu-boi), de Sambaqui (Florianópolis/SC, 1996),  durante o entremeio do urso (um dos personagens), dizendo: 

“Nosso urso vem dançando, 
vem dançando devagarzinho, 
vem pedir pra todo povo  
pra não prendê passarinho.” 

É possível por outro lado que se prenda ao fato dos cuculídeos no Brasil serem pássaros motivadores de várias superstições. Tem uma mesma silhueta corporal, semelhante à do cuco europeu (Cuculus canorus), ave que deu nome ao grupo, já mencionada na famosa carta de William John Thoms, de 1846, onde criou a palavra folclore, exemplificando-o para dar melhor entendimento ao seu então neologismo. Nos Estados Unidos há a seguinte sentença meteorológica popular: “Cuco cantando todo dia, ano frio anuncia.” [1] Será que o colonizador branco, trazendo as superstições sobre o cuco europeu, ao ver o cuco americano (anu, etc.) lhe transferiu tais crendices? Com o tempo outras faces foram se agregando. É corrente em São João del-Rei a crença espiritualista que a chegada de um grupo de anus diante de uma casa indica ali a presença de eguns (almas penadas). No sul e sudeste do Brasil é o nome de uma das muitas danças que compõe as suítes folclóricas chamadas fado e fandango. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: alma de gato, saracura, lavadeira e garrincha - Iago C.S. Passarelli; urubu e acauã - Ulisses Passarelli
*** Leia também neste blog: TICO-TICO: PASSARINHO ATREVIDO  



[1] In: Entre o Rifão e o Trovão. O Correio, UNESCO, n.10-1, out. / nov. 1973. 

3 comentários:

  1. No norte do Paraná, quando criança, morávamos em uma zona ural, e, por lá, os meninos diziam que se pegássemos o bico do anú, torrássemos o mesmo, e, de alguma forma, déssemos para uma garota ingerir (comer, ou beber com algo), ela "dava pra gente". KKK. Mas a lenda corria por lá mesmo.

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  2. No norte do Paraná, quando criança, morávamos em uma zona ural, e, por lá, os meninos diziam que se pegássemos o bico do anú, torrássemos o mesmo, e, de alguma forma, déssemos para uma garota ingerir (comer, ou beber com algo), ela "dava pra gente". KKK. Mas a lenda corria por lá mesmo.

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