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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 22 de junho de 2014

As abelhas na tradição popular

Algumas vezes este blog tem se dedicado a explanar sobre elementos da natureza que despertam o surgimento de manifestações culturais. Neste rumo já tivemos postagens dedicadas aos pássaros, aos bratáquios, cobras, além de outras ocorrências mais eventuais. Agora é a vez das abelhas. 

Ainda é incipiente no país a exploração comercial das abelhas nativas (tribo meliponini), ditas abelhas indígenas ou abelhas sem ferrão, espécies de ferrões atrofiados, de pouca agressividade e mel valorizado. A apicultura se desenvolveu sobre a criação de espécies do Velho Mundo. SANTOS após meticulosas explicações sobre as características das nossas espécies, desenvolveu largamente o tema da sua criação racional. FARIA e GALVÃO já notavam o escasseamento das espécies silvestres no nordeste do país (Rio Grande do Norte) e cá nas Vertentes o quadro é o mesmo. GALVÃO afrontava a voz popular que atribuía o desaparecimento ao ataque das agressivas abelhas-africanas (Apis mellifera) dizendo que na realidade era o desmatamento a causa, afetando a flora necessária ao equilíbrio da população de abelhas: "Já não há mais abelhas. Penso que a causa principal é o contínuo desmatamento e o consequente desaparecimento de flores". CASCUDO nos dá magistral aula sobre a universalidade e antiguidade do consumo do mel pelos humanos, recuando-o ao período neolítico. Tal sua popularidade que referencia o costume da "melança", um antigo lazer do sul paulista, quando grupos de amantes do mel partiam aos fins de semana para as matas em coletiva procura por colmeias, sob o comando de guias de muita prática. FARIA também dá conta dos "rastejadores de mel", indivíduos especializados na procura dos enxames, a partir da visita das abelhas aos barreiros. Identificando as espécies e acompanhando a direção do voo, se mais baixo ou mais alto, direcionavam a colmeia e iam parando pelo caminho para confirmar a rota do esvoaçar daqueles insetos, até encontrar o objetivo. No grupo de caiapós (*) de Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, no registro de LIMA, um dos personagens é ou era o "meleiro", usando camiseta e calça comprida cobertas de penas de galinha, tendo na cabeça um gorro enfeitado de penas. Com uma enxada e uma cabaça fingia cavar o chão à procura de uma colmeia subterrânea. Achava um suposto mel, que depositava na cabaça. Obviamente esta dramatização reflete a popularidade do costume. CASCUDO ensinou: "meleiro, homem tirador de mel de abelhas ou apenas o vendedor." 

Que não se considere redundante a expressão "mel de abelhas", posto que no nordeste do país é vulgar o termo "mel de engenho", que noutras áreas geográficas ao sul se chama "melado", produto da fervura do caldo da cana, ou ainda, o "mel de furo", caldo escorrido das formas de açúcar. Nos Campos das Vertentes corre a expressão "mel de fumo", referente à substância espessa que goteja da "pindoba" (**).

Entre as espécies regionais, um indivíduo, habitual coletor de mel na natureza, informou-me a presença das seguintes espécies na região, segundo seus nomes populares: abelha-europa (abelha do reino, tribo apini, gênero Apis, espécie exótica), abelha-jataí, abelha... irapuá, limoeiro (Trigona limao), mandaçaia (Melipona anthidioides), vamos'imbora, caga-fogo, pé-de-pau (Melipona nigra), cu-de-burro e a porta-de-barro. Segundo me disse o informante, a "vamos'imbora", quando tem a colmeia remexida abandona às pressas o local _ todo o enxame se põe em debandada; a caga-fogo tem seu nome graças a uma substância cáustica que secreta sobre a pele, de ação dolorosa, que arde muito; a pé-de-pau faz a colmeia junto à base das árvores, rente ao chão, próximo às raízes; a cu-de-burro tem a entrada de sua casa com abertura que por analogia comparam ao ânus de um muar; a porta-de-barro esculpe a entrada da colmeia em barro em vez de cera; limoeiro secreta cheiro forte, como o da casca do limão; irapuá (por vezes chamada também irapuã, arapuá, arapuã e abelha-cachorro), faz grandes casas arredondadas (daí o designativo indígena: ira = mel + puã = redondo) em volta dos galhos e é muito agressiva, atacando em conjunto com a característica de juntar nos cabelos, que embola torcendo. Uma vez morta, exala cheiro nauseabundo, que pode ser percebido em seu mel, desvalorizado para consumo humano. Claro que a identificação de cada uma só por esta pitoresca nomenclatura é cientificamente inadequada e está sujeita a dúvidas.

Uma outra espécie local, que bem se poderia confundir com as já citadas jataí (talvez Trigona jaty) e pé-de-pau, é a inofensiva mirim-preguiça (Trigona schrottkyi) uma abelhinha terrestre cujo ninho subterrâneo abre à tona por um tubo de cera, que a todo crepúsculo é fechado por mais cera e aberto pela manhã. Ocorre que a jataí utiliza o mesmo estratagema de obstrução da passagem mas abre logo cedo. Já a mirim abre-o mais do meio ao fim da manhã, quando o sol já esquentou o ambiente. Diz então o povo que ela dorme até tarde e carimbou-lhe esta fama de preguiçosa. Mas se é molestada, não tem preguiça e célere oblitera a entrada de sua casa. 

Nos meios populares as abelhas indígenas são queridas. Além do trabalho de polinização como parte importante do equilíbrio ecológico, fornecem mel mais fácil de coletar que as abelhas do reino. Embora que em menor produtividade, goza de melhor preço pelo sabor excepcional como o caso do mel da mandaçaia ou pela fama medicinal, como ocorre com o da jataí, procurado pelo povo contra rouquidão, afonia, pneumonia e anemia. 

Disso resulta a criação doméstica em artifícios conhecidos como cortiços: são receptáculos feitos em caixas próprias de apicultura, adaptadas à biologia das espécies nativas, ou improvisadas com bambu, telha, cabaça. A colmeia capturada (a rainha tem de estar junto) é posta dentro de duas metades de um gomo de bambu-gigante (fechado nos extremos pela divisória do próprio gomo), com uma abertura broqueada para dar lugar ao tubo de cera de entrada/saída. Senão, cabe bem entre duas telhas curvas postas e presas de encontro pelas concavidades. O cortiço é pendurado por um arame no beiral do telhado, onde sol, chuva e ventania não maltratam. Vez em quando é aberto para a colheita caseira. E ainda polinizam as flores do jardim ...

A espécie odiada pelo produtor rural é a irapuá que além de enroscar o cabelo, na sua faina alimentar, corta botões florais de frutas cítricas e destrói flores de valor comercial tirando pedaços. Seu enxame é por isto alvejado pelo fogo, queimando-se a "caixa" (colmeia), como o povo diz. A caga-fogo (possivelmente espécie Trigona tataira) sofre a mesma perseguição pela dor que provoca. 

Abelha-irapuá (Trigona ruficrus) cortando uma pétala de rosa.

Na poesia popular a abelha também voeja. Pousa em versos do calango:

Não mexe com marimbondo
sem ter palha pra queimar,
abelha é quem faz o mel, 
marimbondo só faz zoar...

Congado...

Lá no chão tem, 
lá no chão tem!
Abelha miúda, 
formiga-quenquém ...

Trova:

Eu queria ser uma abelha,
daquelas que faz o mel,
para eu fazer um favo
na pedra do seu anel.

Em São João del-Rei este inseto já rendeu título para um boletim escolar, informativo de mais de meio século atrás da Escola Estadual Aureliano Pimentel: "A Abelha".

Cabeçalho do jornal "A Abelha", nº1, maio de 1957, da Escola Estadual Aureliano Pimentel, São João del-Rei.

Na medicina popular o mel é ingerido in natura contra rouquidão, tosse, gripe, anemia, convalescença. Tem mais efeito se for consumido em jejum, na medida de uma colher das de sopa, deixando-se dissolver lentamente na saliva para ser engolido aos poucos. Mel para remédio tem de ser puro, diz o povo, referindo-se à suposta desonestidade de certos apicultores que adicionam substâncias ao mel para fazê-lo render de volume, em busca de lucros fáceis. O mel entra ainda na composição de xaropes caseiros, principalmente à base de agrião. É hábito comê-lo sobre a banana e o mamão. Cachaça com mel é aperitivo querido nesta área geográfica, quiçá noutras. 

Em local da pele ofendido por picadas de abelha (e também de vespas) usa-se um emplastro de barro por alguns minutos ou o esfregaço de extrato alcoólico de arnica (espécies do gênero Lychnophora, asteraceaeou de melão de São Caetano (Momordica charantia, cucurbitaceae). 

Ninho do pássaro furnarídeo joão graveteiro (Phacellodomus rufifrons)
alojando em sua parte média uma colmeia ativa, aparentemente de irapuá.
Colônia do Bengo (São João del-Rei/MG), 01/11/2016. 

Diz a crendice que a presença de uma abelha zumbindo dentro de casa é prenúncio da chegada de uma visita. 

Na religiosidade popular brasileira, sob influência dos terreiros de matriz religiosa africana, as abelhas são animais votivos dos caboclos (espíritos indígenas), enquanto que as vespas (marimbondos) o são dos exus. Daí, quando uma abelha entra dentro de casa é sinal de uma bênção, influência positiva. Já o marimbondo indica demanda, inimigo agindo, mau augúrio (***). Ouvir o zumbido de abelhas sem que haja abelha por perto ou sentir o cheiro de mel repentinamente sem que exista mel no local, é indicativo da presença dos caboclos em redor, espíritos de indígenas. Mas sonhar com ataque de abelhas pode indicar uma dívida espiritual com a linha dos caboclos, um descontentamento por parte deles, que deve ser abrandado com alguma oferenda em sinal de pedido de agô, malême (perdão). O mel é componente de certos ebós. Um deles, consagrado a Oxalá, consiste em ofertar canjica cozida (escorrida a água de cozimento com a qual se deve tomar um banho da cabeça para baixo ****), dentro de uma tigela branca virgem. A canjica é besuntada de mel por cima e encoberta por algodão completamente. Uma vela branca é firmada no meio da tigela. Se oferta no congá, no peji, ou sobre a laje da casa e assim garante paz, serenidade e equilíbrio ao lar.

Uma simpatia usual nesta região é escrever o nome de uma pessoa num pedaço de papel, por dentro de um pires e cobri-lo de mel. O objetivo é "adoçar" a índole da pessoa, tornando-a calma, mansa, dócil.

Por fim assista aos vídeos seguintes, curtos flagrantes do entra e sai das abelhinhas nativas (*****) em suas colmeias.

Abelha mirim-preguiça, São João del-Rei, Bairro Caieira.


Abelha-jataí, São João del-Rei, Bairro Caieira.


Abelha cu-de-burro, Atalho, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei).

Referências Bibliográficas

CARVALHO, Rodrigues de. Cancioneiro do Norte. 3.ed. Rio de Janeiro: Instituto Nacional Livro, 1967. Fac-símile, João Pessoa, out./1995. 411p. p.313.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p.Verbete: mel. 
FARIA, Oswaldo Lamartine. Rastejadores de Abelhas. In: Tipos e Aspectos do Brasil. 10.ed. Brasília: IBGE, 1975. 506 p.il. p.244-247. 
GALVÃO, Hélio. Derradeiras Cartas da Praia & Outras Notas sobre Tibau do Sul. Natal: Fundação Cultural Hélio Galvão, 1989. 160p. Carta nº9, p.33-37.
LIMA, Rossini Tavares de. Folclore de São Paulo: melodia e ritmo. 2.ed. São Paulo: Ricordi. 
SANTOS, Eurico. Os Insetos, v.2. Belo Horizonte: Itatiaia, 1985. Coleção Zoologia Brasílica, v.10. 243p.il. p.121-161. 
Notas Finais

* Folguedo, grupo de dança folclórica registrado no Rio de Janeiro (Parati), São Paulo e sul de Minas Gerais, ora em ocaso, com figurantes trajados à indígena. Leia a respeito em: Os Caiapós
** Pindobajirau ou estrado, feito de taquara ou varas, suspenso no alto de um cômodo, para pendurar folhas de tabaco à secagem. 
***Contudo, se o marimbondo faz ninho em casa é bom sinal e sua caixa não deve ser retirada pois indica fartura para a residência.
**** Da cabeça para baixo: o banho é despejado no alto da cabeça. Só pode ser feito assim com banhos de Oxalá, com banhos das ervas do orixá de cabeça do médium (do qual ele é um filho espiritual), ou com água energizada (água de mina, água de cachoeira, água com sal grosso, qualquer água limpa colhida na noite de São João). Outros banhos de descarrego e firmeza devem ser "do pescoço para baixo", ou seja, não se despeja na cabeça, sob pena de desorientar o médium devido ao cruzamento de linhas espirituais e suas falanges de mensageiros.
***** Rodrigues de Carvalho registrou o desafio entre dois violeiros nordestinos, Nogueira e Nicandro, no qual em uma das estrofes este último cantou as variedades de abelhas sertanejas:

"A tubiba, a jandaíra,
moça-branca, manduri, 
cabeça-branca, jati,
sanharó e tataíra,
mumbuca, uruçu, cupira,
o zangado mangangá
o valente aripuá,
o venenoso capuchu
canudo, pimenta, enxu
para semente não há." 


Créditos e Notas

* Texto, vídeos, fotografia do jornal "A Abelha" e ninho: Ulisses Passarelli
** Fotografia abelha-irapuá: Iago C.S. Passarelli, 14/10/2012
*** Principais informantes: "Tião Abelha", 05/02/1998, Santa Cruz de Minas (sobre espécies regionais); José Francisco Sales, 1999, São João del-Rei (calango); Luís Santana, 1993, São João del-Rei (congado - catupé); Maria Aparecida de Salles, 1995, Santa Cruz de Minas (trova). 

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