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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 8 de novembro de 2014

O folclore dos dentes - parte 5

Os dentes na medicina popular


Contra as patologias da boca o elemento popular se vale muitas vezes de práticas empíricas, passadas por gerações através da força da oralidade e da demonstração. O uso está sujeito ao regionalismo e pode-se arriscar, de certa forma, uma generalização de seu uso a nível cosmopolita. Não raro andam de braços dados com fórmulas religiosas, orações e benzeduras.

É mister enumerar algumas “vias de administração”, digamos assim, por analogia: chás, bochechos, gargarejos, aplicações de substâncias, sinapismos e emprego de sumos. As anotações procedem da região de São João del-Rei, salvo indicação em contrário.


- Chás:

Chama-se assim, no linguajar coloquial, ao produto da decocção de folhas, ramos, raízes, sementes, cascas e flores. Os “chás” são usadíssimos  por seus efeitos medicamentosos esperados.


A decocção é uma técnica de preparo que consiste em se por a ferver geralmente em água os materiais básicos de que se quer extrair a parte solúvel, produzindo o chá. Ingerido por via oral, deve fazer efeito por via sistêmica, através da corrente sanguínea, até chegar ao local afetado, agindo de dentro para fora. São bebidos mornos ou frios.

A título de exemplo pode-se enumerar os chás de alho roxo, o de gengibre e o de trançagem (gênero Plantago, família Plantaginaceae) com raiz de salsa de tempero (gênero Petroselinum, família Apiaceae), ao qual se atribui valor anti-inflamatório.



- Bochechos:

Técnica muito mais usada para os males orais que os chás. No geral se faz uma decocção e se bochecha com ela em vez de engolir, fazendo-o passar sob pressão por entre os dentes, banhando os tecidos da boca. A contração da musculatura impele o líquido e depois de algum tempo se cospe. A ação é portanto, local, tópica.


São usados tanto para dor dentária como para afecções das mucosas, tais como úlceras traumáticas, aftas, estomatites em geral. Gozam de popularidade na região de São João del-Rei  os seguintes bochechos contra gengivites, estomatites, alveolites, periodontites, pericoronarites e ulcerações bucais: água extraída do tronco da bananeira; fervura de brotos de goiabeira; decocto de folhas de batata-doce; decocto de três a quatro plantas inteiras de língua de tucano (gênero Eryngium, família Apiaceae), bochechando-se morno, com uma pitada de sal de cozinha diluído.

No Rio Grande do Norte anotei a prática de bochechos de água morna com vinagre, sal de cozinha (NaCl), alho e limão. Do mesmo estado, informes dão conta de alguns bochechos com substâncias puras, tais como água gelada, álcool etílico de uso doméstico (prática condenável, de alto risco) ou cachaça. O uso desta última parece ser generalizado no país, diga-se de passagem, não apenas como bochecho.



- Gargarejos:

Equivalem aos bochechos, com a diferença de se fazer a solução passar abundantemente na orofaringe (garganta) em vez de se fazer apenas, ou de forma predominante, na cavidade bucal. Inclinando a cabeça para trás, a saída forçada de ar dos pulmões a propósito move o líquido em borbulhas.


Gargarejos (“gargulejos”, em corruptela) na verdade são usados para problemas de garganta como simples irritações resultantes de tosses, alergias e gripes, mas também nos casos amigdalite (muito procurada a já citada língua de tucano com sal) e faringites.

As anotações locais apontam para o uso da casca da romã (fruto da romanzeira, Punica granatum, Lythraceae) e das folhas da amora-branca (Rubus imperialis, Rosaceae).



- Aplicação de substâncias:

Também é um uso tópico, mas se diferencia por ser bastante localizado, apenas sobre a área afetada. A literatura registra algumas substâncias curiosas neste mister.


O exemplo mais contundente que se pode citar nas Vertentes é o do cravo da Índia, mastigado pelo dente afetado, de tal forma que seu sumo escorra dentro da cavidade cariosa, o que seria capaz de aliviar a dor. Tal prática se vale na verdade do eugenol, um óleo presente no cravo de largo uso odontológico e de conhecidos efeitos terapêuticos. A técnica de mordê-lo porém pode induzir queimaduras  na mucosa devido à alta concentração.

Ainda mais uma vez confrontando com o Rio Grande do Norte, a sabedoria popular papa-jerimum ensina o uso da seiva leitosa do avelóes (dedo do cão) e da umburana, que parariam muito rápido com a dor de dentes se aplicadas sobre, pelo extraordinário poder que dizem ter de partir o dente ao meio ou fazê-lo em pedaços!



- Sinapismo:

O sinapismo é uma espécie de emplastro que se prende à pele por meio de um pano e que, assim à distância, teria o poder de agir sobre uma parte afetada do corpo.


Um exemplo: uma mistura de alho macerado com azeite de oliva é posta em contato com a pele do braço do mesmo lado do dente afetado. A seguir é coberta por algodão. Sobre o algodão vai casca de laranja. Segurando o conjunto, um pano envolve tudo e ata por um nó.

Em São João del-Rei, uma senhora que usou tal sinapismo na adolescência, relatou que a dor de dente continuou mas passava despercebida porque a do braço foi pior, graças à grande ardência gerada na pele.



- Emprego de sumos:

Certos vegetais são aplicados de forma natural, extraindo-lhe o sumo das folhas e raízes por maceração. Este produto é aplicado sobre a área: raiz de gengibre, folha de saião (Kalanchoe brasiliensis), folha de losna, folha de hortelã, folha de laranjeira.


Não se engole. Teriam valor também contra halitose, naturalmente pela aromatização.


*  *  *

Com esta postagem encerra-se a série “O folclore dos dentes”, adaptação de uma monografia empoeirada, esboçada em 1995, inicialmente datilografada, depois digitada e concluída em 1997. A essência etnográfica da pesquisa foi disponibilizada neste blog. Foram abolidos os elos entre capítulos, as considerações já superadas, as revisões bibliográficas e os elementos biológicos do dente.


Nesta unidade o foco da atenção recaiu sobre métodos da medicina caseira adotados para remediar problemas da saúde bucal. Todas as vezes que este blog aborda questões desta natureza, alerta, como agora reitera, que o registro é de natureza cultural e a prática é desaconselhada pelos eventuais riscos que pode trazer à saúde. Uso de substâncias vegetais como medicamento demanda pesquisa científica aprofundada.


Notas e Créditos 

* Texto: Ulisses Passarelli
** Leia também as postagens anteriores desta série:



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