Os dentes na poesia popular
A música e o canto estão profundamente agregados à vida humana e o brasileiro não foge à Os povos formadores eram muito afeitos ao canto e à dança: "filho de raças cantadeiras e dançarinas o brasileiro, instintivamente, possui simpatias naturais para essa atividade inseparável de sua alegria. Canto e dança são as expressões de sua alegria plena. É a forma de uma comunicação mais rápida, unânime e completa dentro do país." (CASCUDO, 1984).
De fato não seria compreensível que os dentes, que tanto significam no panorama da cultura popular, ficassem de fora da poesia cantada ou recitada no Brasil. Um estudo neste sentido nos estados revelaria precioso material folclórico.
Em virtude da imensidão que tal pesquisa representaria, não obstante sua relevância, ora limita-se esta página a expor uma pequena coleção de versos populares que recolhemos em São João del-Rei na década de 1990, salvo indicação em contrário.
Figuram os dentes em peças soltas do cancioneiro folclórico:
"Eu tô doente, morena!
Doente, eu tô, morena!
Com uma dor de dente, morena!
Vou no doutor, ôh!
Eu tô doente, morena!
Doente, eu tô, morena!
Com uma dor de dente, morena!
Tô! E tô! E tô!"
"Tô" é corruptela comum de "estou", por contração, assim como "doutor" é pronunciado "dotô". Correm variações destes versos. Algumas manifestações culturais de congado, do tipo catupé, os absorveram e assim, congadeiros de São João del-Rei e Santa Cruz de Minas os cantam. Ainda entre congados tem-se outros exemplos, mesmo nos catupés dessas cidades [1]:
"Dentin' de ôro...
Dentin' de ôro, adornado de marfim!
Nêgo véio gosta de toco,
morena gosta de mim, ai, ai!"
No congo do distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno é corrente esta cantiga em ritmo de caixa corrida, uma homenagem ao reinado:
"Ela é bonitinha,
ela é engraçadinha,
tem dentin' de ôro,
ô, senhora rainha!"
O uso do dente de ouro foi muito comum. Nos tempos idos era representativo de fartura, ostentação de posses. Depois, elemento estético, favorecido pela abundância em Minas Gerais e excelência do metal nobre para trabalhos protéticos. Coroas, facetas e incrustações usando o nobre metal marcaram época e se disseminaram. Alguns povos ciganos ainda o conservam o hábito de usar ouro nos dentes, a tal ponto de ser-lhes característico nesta região, daí, o povo dizer, que, quando alguém tem vários dentes com aplicação de ouro, "parece um cigano". Não é de espantar que o tema do dente de ouro marcasse a poesia folclórica.
Houve mesmo um facínora dos sertões alcunhado "Dentinho de Ouro", de quem disse o folclorista que "não conheço versos narrando as aventuras dos criminosos do sul do país, um Dente de Ouro, com o romance de menotti Del Picchia (S. Paulo, 1923)" (CASCUDO, 1982, p.15); no entanto, dele colhemos fragmentos de um romance: duas quadras originárias de Bias Fortes, na Zona da Mata mineira, mas região de intercâmbio cultural com o Campo das Vertentes, dada a proximidade física.
"Num sabe o que aconteceu,
lá na zona do sertão:
mataram Dentin' de Ôro,
era o rei dos valentão!
No dedo dele tinha
um anel tão grande!
Tinha um anel de ôro,
com duas pintas de sangue..."
Ainda mais um exemplo, como uma quadrinha de amor procedente do Elvas (Tiradentes/MG) [2]
"Você está rindo pra mim
vi seus dentes lumiar.
Os meus eram de ouro,
eu arranquei para te dar."
Nas brincadeiras infantis o dente também é lembrado, como neste terceto, uma estronice recitada ainda nos anos 1970:
,
"Vicente Cachorro-quente,
caiu na enchente,
quebrou dois dentes!"
Os dentes deixaram uma forte influência na criação cultural do povo. Em muitas direções pode ser rastreada, com contribuições em todos os estados da federação. Nessa região, de velha colonização desde o ciclo do ouro pela força bandeirante e emboaba, não poderia ficar de fora. Na próxima parte do "Folclore dos Dentes" serão abordadas as ações curativas sobre as afecções dentárias.
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Incrustação em ouro entre os incisivos centrais. São João del-Rei/MG. |
Referências
CASCUDO, Luís da Câmara. Flor de romances trágicos. 2.ed. Natal: Fund. José Augusto; Rio de Janeiro: Ed. Cátedra, 1982.189p.
CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed.USP, 1984. 435p. p.37.
Créditos
-Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 2014
Notas
[1] Esta quadra do "dentinho de ouro" tem esta variante como trova, informada em Santa Cruz de Minas, pela Sra. Elvira Andrade de Salles (c.1997):
"Tenho o meu dentin' de ôro,
adornado de marfim;
os moço nasceu pras moça,
as moça nasceu pra mim."
[2] Gentilmente cedida por Luthéro Castorino da Silva, de São João del-Rei, a quem o Blog agradece.
- Revisão: 17/01/2026.
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