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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 23 de setembro de 2014

O folclore dos dentes - parte 4


Os dentes na poesia popular

A música e o canto estão profundamente agregados à vida humana e o brasileiro não foge à regra. Nossos povos formadores eram muito afeitos ao canto e à dança, observava Mestre Cascudo (*): 

"filho de raças cantadeiras e dançarinas o brasileiro, instintivamente, possui simpatias naturais para essa atividade inseparável de sua alegria. Canto e dança  são as expressões de sua alegria plena. É a forma de uma comunicação mais rápida, unânime e completa dentro do país."

De fato não seria compreensível que os dentes, que tanto significam no panorama da cultura popular, ficassem de fora da poesia cantada ou recitada no Brasil. Um estudo neste sentido nos estados revelaria precioso material folclórico.

Em virtude da imensidão que tal pesquisa representaria, não obstante sua relevância, ora limita-se esta página a expor uma pequena coleção de versos populares que colhi em São João del-Rei na década de 1990, salvo indicação em contrário. 

Figuram os dentes em peças soltas do cancioneiro folclórico: 

Eu tô doente, morena!
Doente, eu tô, morena!
Com uma dor de dente, morena!
Vou no doutor, ôh!

Eu tô doente, morena!
Doente, eu tô, morena!
Com uma dor de dente, morena!
Tô! E tô! E tô!

"Tô" é corruptela comum de "estou", por contração, assim como "doutor" é pronunciado "dotô". Correm variações destes versos. Alguns grupos folclóricos de catupé os absorveram e congadeiros de São João del-Rei e Santa Cruz de Minas os cantam.

Ainda entre congados tem-se outros exemplos, mesmo nos catupés destas cidades (**): 

Dentin' de ôro ...
Dentin' de ôro, adornado de marfim!
Nêgo véio gosta de toco, 
morena gosta de mim, ai, ai!

No congo do distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno é corrente esta cantiga em ritmo de caixa corrida, uma homenagem ao reinado: 

Ela é bonitinha,
ela é engraçadinha,
tem dentin' de ôro,
ô senhora rainha!

O uso do dente de ouro foi muito comum. Nos tempos idos era representativo de fartura, ostentação de posses. Depois, elemento estético, favorecido pela abundância em Minas Gerais e excelência do metal nobre para trabalhos protéticos. Coroas, facetas e incrustações usando o nobre metal marcaram época e se disseminaram. Grupos ciganos ainda o conservam a tal ponto de ser-lhes característico nesta região, daí, o povo dizer, que, quando alguém tem vários dentes com aplicação de ouro, parece um cigano. Não é de espantar que o dentinho de ouro marcasse a poesia folclórica. 

Houve mesmo um facínora nos sertões alcunhado "Dentinho de Ouro", de quem restou parca informação, fragmentada nos versos de um velho romance. Colhi ainda duas quadras originárias de Bias Fortes, nos limites culturais entre as Vertentes e a Zona da Mata mineira: 

Num sabe o que aconteceu,
lá na zona do sertão:
mataram Dentin' de Ôro,
era o rei dos valentão!

No dedo dele tinha
um anel tão grande!
Tinha um anel de ôro,
com duas pintas de sangue... 

Ainda mais um exemplo, como uma quadrinha de amor procedente do Elvas (Tiradentes/MG) (***)

Você está rindo pra mim
vi seus dentes lumiar.
Os meus eram de ouro,
eu arranquei para te dar. 

Nas brincadeiras infantis o dente também é lembrado, como neste terceto recitado dos meus tempos de molecagem:

Vicente Cachorro-quente,
caiu na enchente,
quebrou dois dentes!

Os dentes deixaram uma forte influência na criação cultural do povo. Em muitas direções pode ser rastreada, com contribuições em todos os estados da federação. Nossa região, de velha colonização desde o ciclo do ouro pela força bandeirante e emboaba não poderia ficar de fora. Na próxima parte do "Folclore dos Dentes" serão abordadas as ações curativas sobre as afecções dentárias. 


Notas e Créditos

* CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1984. 435p. p.37. 
** Esta quadra do "dentinho de ouro" tem esta variante como trova, informada em Santa Cruz de Minas pela Sra. Elvira Andrade de Salles:

"Tenho o meu dentin' de ôro,
adornado de marfim;
os moço nas pras moça, 
as moça nasceu pra mim."

*** Gentilmente cedida por Luthéro Castorino da Silva, a quem agradeço. 
****Texto: Ulisses Passarelli

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