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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 24 de abril de 2014

O Boi-malhado e a Queima do Judas

Um Festejo Popular em São Gonçalo do Amarante

Por muitas regiões do Brasil é bastante arraigado o costume de queimar, explodir ou malhar a varas e porretes um boneco grotesco chamado Judas, personificação do Traidor de Jesus. Este evento de ordinário acontece arrematando o ciclo quaresmal, em alguns lugares no Sábado de Aleluia, noutros pela páscoa, como o caso em questão. 

No distrito de São Gonçalo do Amarante (ex-Caburu), em São João del-Rei, a queima do Judas é uma tradição muito antiga, que conheceu tempos de ocaso. Informações de campo indicaram que a última vez que aconteceu foi em 1999, já simplificada. Relatos de informantes mostram que anteriormente o costume era mais animado e contava também com a participação de um folguedo de bumba-meu-boi, localmente chamado "boi-malhado", que a cerca de vinte anos segundo uns, trinta segundo outros, não saía às ruas. 

Felizmente porém, neste Domingo da Páscoa, 2014, o festejo transcorreu novamente, revestido de grande animação graças à junção de esforços de lideranças comunitárias como Miro, Sininho e outros, além do Mestre Vavá, que não mediu esforços para por o boi de volta na brincadeira. 

Confeccionado sobre um grande balaio emborcado, debaixo do qual se mete o homem que lhe dá vida em movimento de avanço e recuo, se faz acompanhar de vários tocadores locais, de pandeiro, caixa, violão, bandolim, sanfona e xique-xique , todos congadeiros do lugar. 

O boi-malhado faz a alegria da criançada. Com seus pegas rua afora, põe os pequenos a correr, mas que logo voltam para puxar o rabo do bicho ou fazer-lhe negaças na dianteira, fingindo-se pequenos toureiros.  

Na praça da matriz outro brinquedo chama a atenção: o pau de sebo. Pequenos e grandes fazem a farra no escorregadio madeiro, pelejando grimpá-lo em escalada para alcançar no topo o prêmio tão cobiçado. 

O sistema de som instalado no coreto toca músicas nos intervalos do boi e logo se fazem animações com as crianças. Do lado oposto foi fincada uma árvore de embaúba, símbolo da forca do Judas, patíbulo improvisado. O boneco é trazido e pendurado. Vestido de roupas velhas é recheado de bombas interligadas por um pavio. Entre o coreto e a embaúba, um arame liso é esticado e nele se prende um artefato pirotécnico em forma de avião. Na hora certa será ele a acender o pavio do Judas. 

Logo o povo se agita. Vai começar a leitura do testamento do Judas, um pasquim anônimo que alguém do lugar escreve deixando em nome do Judas um herança indesejável para várias pessoas do lugar. Em tom de brincadeira mas também crítica, vai o boneco em versos distribuindo heranças indesejáveis, por vezes oferecidas em tom crítico e chulo, mas que faz as alegrias do povo: 

"Deixo para aqueles que não ajudô,
um pinico de cocô..."

Concluída a leitura é hora do clímax. O aviãozinho recebe fogo e corre cuspindo fagulhas pelo fio de arame rumo ao Judas. A ansiedade é enorme e se escuta o burburinho das pessoas. As crianças ficam agitadíssimas. Adoram esta festa. 

O fogo sobe pelo pavio do boneco e logo lhe atinge a primeira bomba, que arrebenta uma perna com grande estrondo; depois a outra e assim membro a membro, a cabeça e por fim uma mais forte lhe explode por completo o tronco, sob vaias, aplausos, gritos, vivas, xingamentos, gargalhadas, cachorros latindo, crianças agitadas. 

Um foguetório explode no ar, marcando o fim da festa. O boi-malhado volta ao recolhimento, tocando rua afora, até para o ano se Deus quiser. O povo vai embora, cada um para sua casa, alegre, comentando as heranças, satisfeito com a festa e sentindo justiça feita pelo destino do mal apóstolo. 

O boi-malhado brinca com as crianças na Praça da Matriz.

Os músicos que acompanham o boi-malhado.
Tentando subir o pau-de-sebo. 

O aviãozinho.

O Judas.
Assista ao vídeo desta festa em: BOI & JUDAS

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S. Passarelli, 20/04/2014. 

Um comentário:

  1. A festa, a farra, a galhofa, a brincadeira, a zombaria, pura alegria. A queima do Judas era isso tudo, trazendo de novo a vida ao normal, depois de pesarosa quaresma. Me lembro de ter visto alguns de cima da Ponte do Rosário, no começo do Tejuco, nas beiras do Córrego do Lenheiro.

    Bom saber que nos distritos, auréola de São João del-Rei, este modo de celebrar a vida, pavio da ressurreição, ainda está vivo. Ulisses, obrigado por mais esta revelação! Grande abraço.

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