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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Boi do Rosário

Breve descrição do impressionante cortejo oliveirense  

Ulisses Passarelli

Na cidade de Oliveira, com pouco mais de 40.000 habitantes, que encabeça uma das microrregiões do Oeste de Minas Gerais, já fora do Campo das Vertentes, mas na vizinhança imediata, compartilhando elementos culturais mutuamente, a Festa do Rosário é um marco notório da fé popular e das tradições folclóricas de base histórica afro-brasileira. 

Tais festas são muito arraigadas no Estado e na zona oeste alcançam muita popularidade, mas em Oliveira ganham uma relevância pela extensão (levantamento de mastros um mês antes dos festejos) e a festa propriamente dita mobiliza uma semana completa de reinados, capazes de mobilizar os congados da terra, entre vários moçambiques e catupés e um vilão, ao todo, algo em torno de uma quinzena de grupos culturais (guardas ou ternos). Poucos são os grupos visitantes, entretanto, a grande quantidade de guardas locais já faz uma festa de elevada qualidade. É tudo cuidadosamente pensado e cuidado: coreografias, ritmos, uniformes, cantos, fardamento, identidade cultural. O reinado tem sua passagem de forma marcante. Os coroados com toda postura e respeito, vem munidos de fato de muita legitimidade para os papéis sagrados, com trajes primorosos, zelo com penteados e adereços, marchando com postura majestática sob as umbrelas. 

Mas nesta postagem o foco recairá sobre o Boi do Rosário. Sob o olhar da folclorística pode-se qualificar esta manifestação cultural como uma forma do bumba-meu-boi, sob o viés de um rancho, sem entrecho dramático evidente, mas obedecendo a uma ritualística sólida. A multidão acompanhante se ocupa muito mais do entretenimento de atiçar o boi e fugir de suas investidas. Mas a equipe organizadora faz o boi cumprir um rito, a rigor. Apesar do aparente caos tudo é muito bem organizado. 

Das informações coligidas in loco o Boi objetiva de forma primária abrir os caminhos da Festa do Rosário. É como se o cortejo gigante fizesse uma abertura espiritual e energética das vias públicas para as passagens dos congados nos dias seguintes, tudo no campo simbólico e sob a égide da fé. Há forte vinculação entre o boi e o congado. Eles não saem juntos, mas estão interligados. A própria música do boi, de natureza percussiva, é marcada por tambores congadeiros (observamos a presença de sete caixas). O boi inicia e termina na Casa dos Congadeiros Geraldo e Conceição Bispo, no Bairro das Graças; muitos congadeiros aliás se envolvem com o cortejo do boi. 

No giro pelas ruas centrais o Boi do Rosário passa junto à Igreja Matriz Nossa Senhora de Oliveira e na lateral da praça, o boi saúda lentamente, com vênias e salamaleques, cada um dos cinco mastros (Rosário, Mercês, Senhora Aparecida, Santa Efigênia, São Benedito), sob guiamento do Candieiro (personagem que munido de uma vara de ferrão conduz o boi). Na porta da Igreja dos Passos o boi vem saudar a entrada da casa santa reverenciando as ombreiras da portada com movimentos da cabeça. Vimos o Boi do Rosário visitar no Alto de São Sebastião a casa do Rei Congo, onde o Carregador da Balaieira (o homem que vai dentro da armação do Boi), a Comissão Organizadora, os caixeiros, são recebidos com comes e bebes e o cortejo estaciona um pouco. Na sequência o boi desceu até a Casa Azul, sede do Moçambique Nossa Senhora das Mercês, da Capitã Pedrina, onde foram também recepcionados com toda gentileza e protocolo. 

Marcado para sair às 19h e 30 min, o Boi saiu quinze minutos depois, e só encerrou o giro pelas ruas meia noite e meia (zero horas e trinta minutos). Até o encerramento o movimento era frenético, os acompanhantes não esmoreceram o ânimo. Caixas zoando fortemente os couros, canto do povo a repetir com insistência o refrão tradicionalíssimo "Êh, boi!". E se o boi passa um tempo sem correr atrás do povo, se ele fica um prazo curto só no movimento de balanceio e passinhos curtos, logo o instigam: 

"E solta o Boi!

_ Êh, Boi!

E solta o Boi!

_ Êh, Boi!"

De repente o batido das caixas muda para um rufado e neste instante o boi dispara sobre o público, em correria, giros, pinotes, cabeçadas. Logo para e a percussão retoma o batido padrão e a marcha pelas ruas também, mas sempre neste momento, sob os apupos frenéticos dos acompanhantes. Muitos estendem as mãos acariciando seu focinho e testa, como se de fato fosse vivo, tivesse alma. Com a longa caminhada e o passar das horas os integrantes diminuem em quantidade. Mas os muitos que ficam não esfriam os ânimos. Chega a ser bastante difícil aproximar-se do boi para vê-lo em detalhes ou fotografá-lo. 

A chegada na Casa do Congadeiro marca o fim para os acompanhantes. A Comissão adentra, há cerimônia interna com preces, janta e bebidas num momento de confraternização. O boi só sai às ruas nesse dia, durante todo o ano, apenas uma vez. 

No interior de Minas Gerais há uma diversidade de grupos de bois. Um número acentuado deles floresceu no Ciclo do Carnaval, sob várias denominações. Oliveira mesmo também possui um, intitulado Boi da Paz. Outros mais surgem na quadra natalina, mormente no norte mineiro e Vale do Jequitinhonha, batizados Reis de Boi ou ainda Boi-janeiro. Em alguns lugares os Bois se desenvolveram conectados a festas locais. Nesta última categoria está o Boi do Rosário. Aliás, sob o nome de Boi do Rosário e igualmente vinculado aos congados, o rancho do boi também acontece na abertura da Festa do Rosário na vizinha cidade de Carmópolis de Minas, também no Centro-Oeste de Minas Gerais.

Não se sabe ou não se tem clareza da data de sua fundação em Oliveira, ou como iniciou. A tradição oral o dá como muito antigo. Encontramos em um canal de vídeos uma filmagem datada de 1991 na qual o Boi do Rosário aparece, cumprimentando uma Rainha Conga com o bater a cabeça sucessivamente no ombro direito dela, no esquerdo e direito de novo, da mesma maneira do cumprimento congadeiro e do cumprimento interno entre irmãos de terreiro. O boi aparece ainda com o rosário em volta do pescoço. Estes elementos deixam claro que tem um sentido sagrado, o que a aparência da multidão em polvorosa pode ocultar. No entanto, o grande volume de gente, se por um lado é relativamente tranquilo e revela um forte senso de pertencimento da comunidade à manifestação, por outro lado, eventualmente pode gerar alguns distúrbios. Vimos na grande ladeira de subida ao Alto de São Sebastião, o embrião de uma briga entre jovens, que felizmente não foi adiante, porque as próprias pessoas da comunidade separaram a contenda afirmando: "parem com isto! o Boi vai subir!" Ouvimos relato de que alguns indivíduos extrapolando a brincadeira, há alguns anos tentavam derrubar o boi ou ainda, batiam com força em sua carcaça, ou ainda surgiam inícios de brigas. Por esta razão o boi chegou a ficar dois anos sem sair e ainda, o itinerário no Alto foi encurtado, razão pela qual o boi já não chega mais tão tarde à Casa dos Congadeiros como antes (duas a duas e meia da madrugada). Ao mesmo tempo os organizadores tem trabalhado fortemente no aspecto da conscientização, repetindo o valor sagrado do Boi. Estas medidas para reduzir a profanização tem trazido o equilíbrio à prática cultural, minimizando os eventuais distúrbios. 

Uma nota jornalística local destacou: "O capitão mor  do estado maior, órgão da festa responsável pela organização dos reinados, Geraldo Bispo dos Santos Neto, disse que o Boi do Rosário tem grande importância espiritual e religiosa, para os congadeiros e, por isso, o desfile deve acontecer com respeito e admiração." (GAZETA DE MINAS, 2024)

Das mudanças mais substanciais verifica-se que a armação (balaieira) era de bambu ou madeira, hoje de ferros encurvados. Era apenas um homem que ia de baixo, em todo trajeto (e dizem que descalço!). Mas ora se revezam na função de cinco a seis rapazes. Havia também mais cantoria, desenvolvida sob o refrão "Êh, boi!", como se observa em vídeos antigos e também se refere Waldyr Bernardino (1987). Este autor mencionou que "há sob a armação uma pessoa muito simples que o leva desde o reinício da Festa do Rosário em Oliveira, em meados de 1953, 54, por aí", atribuindo este papel então a Geraldo Tertuliano da Silva ("Geraldo Brasilino"), que "também em Divinópolis, Carmo da Mata e Carmópolis já organizou Boi". Mas o Boi não foi criado por esse Geraldo, pois diz o autor "Geraldo lembra-se da festa desde os 8 anos de idade, quando corria e tinha medo do boi.". 

Por esta breve descrição se observa a significação emblemática do boi no cenário cultural oliveirense. Oliveira que é uma cidade culta, destaca na arte musical, reconhecida no animado carnaval, com destaque para a tradição dos mascarados ("Cainágua"); os casarões e mais casarios imponentes que rememoram o fausto de sua economia nos meados do século XIX, como entreposto comercial. Oliveira que surgiu em meados setecentistas junto ao fluxo ao longo da Picada de Goiás, à época movida pela força agropecuária, hoje encontra no serviço terciário o principal ponto de sua economia. 

Vídeo: Ulisses Passarelli, 07/09/2024








Fotos: Ulisses Passarelli e Betânia Nascimento Resende, 07/09/2024. 


REFERÊNCIAS:  

BERNARDINO, Waldyr. Boi de Congo. In: Gazeta de Minas, Oliveira, 31 out. 1987 

Boi do Rosário abre a Festa do Congado: evento afro-brasileiro é um dos mais tradicionais de Oliveira. In: Gazeta de Minas, Oliveira, 08 set. 2024


VÍDEOS:

Boi do Rosário, Oliveira, 2024. In: YouTube, @up72folk, 09 set. 2024. Disponível em: https://youtu.be/Jeg1ROsBo5Q 

O Boi de Oliveira. In: You Tube, Saberes Tradicionais, 20 nov. 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dqcsdF3GvMM 

Festa de Nossa Senhora do Rosário - 1991. In: YouTube, Sidney de Almeida, 18 mar. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GexSDd60vEs


AGRADECIMENTOS: 

A Robert Henrique Silva e Isadora Queiroz Ribeiro Leite, pelo inestimável acolhimento e grande apoio à realização desta visita a Oliveira e concretização da postagem. 

Ao folclorista Affonso Furtado e ao historiador Filipe Calil Abrão, pela disponibilização das matérias jornalísticas, respectivamente de 1987 e 2024. 






terça-feira, 20 de agosto de 2024

Boi do Major: tradição do carnaval dorense

Na Mesorregião Campo das Vertentes, situada no centro sul do estado de Minas Gerais, na Microrregião de São João del-Rei situa-se o município de Dores de Campos, muito conhecido pela forte tradição ligada ao tropeirismo, o artesanato em couro e sobretudo pela arte da selaria, que o faz se destacar. Assim, com muita razão, o município de Dores de Campos foi reconhecido como Capital da Selaria e teve o ofício de seleiro registrado como patrimônio cultural imaterial (Lei Municipal nº 1.267, 03/10/2015). Além disto é Capital Estadual da Selaria (Lei nº22.951, 08/01/2018) e pleiteia a condição de Capital Nacional da Selaria, ainda não consolidada (Projeto de Lei Federal nº 9.820-A/2018). No texto desta última, consta informação que o número de selarias no município se aproxima de uma centena.

O histórico disponível na página do IBGE (cedido pela prefeitura local) informa que no início do século XIX:  

"Bernardo Francisco da Silva adquiriu terras em nossas plagas, visando exploração da indústria agropecuária e veio a ser o fundador do povoado. Seus filhos introduziram o trabalho industrial variando no lugar em formação, que cresceu, atraindo pessoas de fora que, não raro, se mesclam à família local."

O terreno em que se assenta a cidade de Dores de Campos era chamado Pasto do Corredor, de propriedade de José Justino da Silva, que o herdou de sue pai, Manoel Justino da Silva. Primitivamente as casas foram construídas à margem da estrada. Ocorreu o falecimento, em Maio de 1899, do Senhor José Justino da Silva, ficando sua viúva e herdeira, a senhora Domitildes Teixeira da Silva que fez doação de todo o terreno ainda vago à paróquia, que vende ou afora os lotes.

Nos seus primeiros tempos, a cidade de Dores de Campos chamou-se Povoado do Patusca, depois, com a construção da Capela de Nossa Senhora das Dores, hoje Igreja Matriz, e criação do distrito de Dores de Patusca, passou a ter este nome e, finalmente, tendo sido o distrito anexado ao Município de Prados, desmembrando-se de Tiradentes, a que pertencia, foi-lhe dado, bem como ao distrito, o nome atual de Dores de Campos. A dois quilômetros da estação de Prados, da Rede Mineira de Viação, existente uma tapera situada nas proximidades da confluência do Ribeirão do Patusca com o Rio das Mortes, bem perto da Ponte do Patusca na margem esquerda do Ribeirão. Esta tapera foi, pelos anos de 1830, uma fazenda de propriedade e residência de um português, rancheiro, que entretinha animado comércio com os inúmeros tropeiros que ali passavam, pois a sua fazenda ficava a margem de uma estrada de rodagem, ainda hoje existente e por onde então transitavam as tropas vindo de vários lugares dos atuais municípios de Prados, Oliveira, João Ribeiro, Lagoa Dourada, Rezende Costa, Tiradentes, etc. Este fazendeiro era o gênio folgazão, pelo que os tropeiros apelidaram de 'Patusca'. Essa, a origem dos nomes do Ribeirão do Patusca, o curso d'água que banhava a sua fazenda, e do Povoado de Patusca, a localidade que então formava daí a quatro quilômetros, na margem esquerda do referido Ribeirão e que hoje é Dores de Campos.

No ano de 1856, o antigo povoado achava-se em estado embrionário pois contava com apenas cinco casas. O primeiro morador foi Bernardo Francisco da Silva, fundador do lugar. Os outros quatro moradores foram seus filhos Francisco da Silva Sena, Antônio da Silva Sena, Manoel Justino da Silva e Luiz Joaquim da Silva. Havia ainda a casa de José Cajuru, nos fundos da de Bernardo Francisco, as famílias do Capitão Vicente Teixeira de Carvalho e de João Francisco."

Ainda segundo o IBGE a formação administrativa se baseia no Decreto n°41 (15/04/1890) que determinou o seu desmembramento do território tiradentino e incorporação ao pradense; e o Decreto-lei nº148 (17/12/1938), que conferiu a Dores de Campos a emancipação político-administrativa. 

Dores de Campos se destaca também pela forte tradição musical, representada por suas corporações registradas como patrimônio do município em 2011: Lira Nossa Senhora das Dores e Sociedade Musical São Sebastião (Prefeitura Municipal, Lista de Bens Protegidos).

Entre as festas religiosas, destaca-se principalmente a Semana Santa. Nossa Senhora das Dores é a padroeira e concentra grande devoção entre os católicos da cidade. Há também a festa de Nossa Senhora do Rosário, com participação do congado local, mais especificamente da tipologia "marujos", agregando também grupos visitantes de outros lugares. Na zona rural do município é tradicional a festa do padroeiro do distrito de São Sebastião das Campinas.

É muito típica a folia de Reis, na comunidade do Caxambu de Cima, com fama de centenária.

Além da comida mineira, comum à região, em Dores de Campos um biscoito assado é o carro-chefe das quitandas, afamado sob o nome de curruscuba, iguaria de seu patrimônio imaterial.

Dores de Campos tem um carnaval bastante animado, impulsionado por agremiações muito ativas, sendo igualmente um bem patrimonial reconhecido e protegido. Além de blocos e escolas de samba, um grupo cultural muito querido é o Boi do Major. Embora na prática se apresente na avenida central da cidade como um bloco é uma modalidade ainda que simplificada do tradicional folguedo do Bumba meu Boi, de ocorrência nacional, que localmente ganha este nome em homenagem ao saudoso Dácio Silva (1942-2009), músico e folião, alcunhado carinhosamente por "Major", trombonista lembrado atenciosamente pela grande dedicação às manifestações culturais ao longo de sua vida, às quais foi um dedicado organizador e incentivador.

Sobre ele, diz um trecho de matéria jornalística: "começou quando o Boi ainda era feito pelo senhor Doca Ferreira. Mas efetivamente ele começou a participar quando o senhor José Amâncio assumiu o Zé Pereira." (AGORA, 2005). Por esta transcrição se deduz que Major não criou o Boi, mas ingressou e depois abraçou a manifestação. Daí é interessante observar que mesmo após seu falecimento o folguedo permanece chamado Boi do Major, o que demonstra a vitalidade dos trabalhos impulsionados pelo sr. Dácio Silva e seus amigos, tornando-se icônico. Mas disso resulta uma indagação: antes do sr. Dácio, que nome o Boi teria? Diz a mesma fonte que "Major" introduziu no Boi outros personagens (girafa, mulinha e boneco Zé Maria) e que seu apelido foi dado na infância, pela semelhança física com um palhaço circense que usava o nome artístico de "Major", que fez sucesso na temporada de uma companhia de circo na cidade. Em tal matéria constam relatos sobre as dificuldades financeiras para conservação do Boi e pouco reconhecimento do poder público. Relatos da mesma ordem ressurgem em matérias veiculadas em 2017 no Portal Dores de Campos, citadas nas referências desta postagem. Tais recursos são usados para fazer reparos no boi, custear os músicos da banda e o pessoal de carregação do boi (ORGANIZADORES DO BOI DO MAJOR ESTÃO PEDINDO AJUDA AOS DORENSES, 2017). Com as ajudas arrecadadas, auxílio da Prefeitura Municipal e comércio local, o Boi foi então revitalizado (PARA A ALEGRIA DA CRIANÇADA DORENSE, O BOI DO MAJOR ESTÁ DE VOLTA, 2017).

Na ficha patrimonial dessa manifestação tem-se a informação que há mais de três décadas antes (anos 70) o grupo era formado por José Amâncio, que carregava um pequeno boi e Antônio Lima ("Tiro") que carregava um gorila. Foi quando o sr. Dácio Silva começou a participar com seu trombone e alguns percussionistas tocavam tarol e bumbo. Com a morte dos dois primeiros, Dácio Silva deu continuidade, ainda por bom tempo com o boi pequeno. Foi quando, certa vez, veio se apresentar na cidade o Boi Mofado, da vizinha cidade de Prados, que usa um boi grande, que fez sucesso. O então prefeito, Antônio Alves Moreira ("Totinho"), deu um boi grande ao Dácio, que também ganhou uma girafinha e uma mulinha, feitas pelo sr. Zé da Vila. O boi, por ser pesado, difícil de manusear, logo quebrou. Então, o artista plástico Tuta do Zé Lucas fez outro boi grande para Dácio, e em 2005 fez também uma girafa. O ano de 2005 foi também o do registro cartorial, com constituição sob a forma de associação civil. O inventário contém uma fotografia do bloco datada de 1965 (IPAC, 2011).

No desfile do Boi do Major que assistimos em 2024 não vimos a bandeira, bichos e bonecos mencionados na ficha de inventário. Havia apenas o boi e a banda acompanhante.

O Boi do Major replica no município a tradição regional do Bumba meu Boi, em grande parte já perdida em municípios próximos, conhecida sob outros nomes na região e por vezes com outras características (PASSARELLI, 2024): é tipicamente carnavalesco, constituído de um desfile de rua, bastante espontâneo, animado por uma banda de metais e percussão formada pelos músicos da cidade. Eles tocam marchinhas carnavalescas e saem à rua movimentando uma grande quantidade de pessoas da cidade e visitantes, sendo bastante característica a presença inclusive de famílias. É possível ver entre os foliões pessoas de todas as faixas etárias, desde avós com netinhos, casais, jovens e também turistas. O boi promove uma grande correria pelas ruas, brincando com as crianças de pega. Ele cerca e avança, recua, agita, mas não fere ninguém. É só alegria e brincadeira. A banda vem na retaguarda e a multidão de foliões adiante. O boi em correrias não tem lugar fixo, sempre instigado pelas crianças. A criançada, em grande parte fantasiada, fica em polvorosa e apronta grande correria e alarido, ora provocando ora fugindo do boi. Algumas crianças usam pequenas alegorias de boi, refletindo a popularidade do rancho carnavalesco. Como um carnaval de ambiente familiar, tudo transcorre com plena tranquilidade. De criancinhas a idosos, as diferentes gerações prestigiam e se esforçam por manter a tradição.

Uma peculiaridade interessante é que quando o dançante que está debaixo do boi para um instante para descansar, sai de baixo da alegoria do boi e vai tomar um fôlego, o boi fica parado no chão, deitado no asfalto. Então, as crianças cercam esse boi e brincam com ele: passam a mão, acariciam, riem, querem tirar fotos com o boi, intencionam subir sobre a alegoria. Isto demonstra um carinho especial por ele e então fica muito evidente em Dores de Campos o sentimento de identidade cultural envolvendo esta manifestação legítima da cultura popular.

Contemplar o Boi do Major é uma oportunidade de vislumbrar uma manifestação identitária com a cultura popular dorense, que nitidamente desperta um elevado senso de pertencimento nas pessoas participantes.






Cartaz para divulgação digital do carnaval de Dores de Campos, 
vendo-se no primeiro item a participação do Boi do Major (16/02). 


Agradecimentos:

pela prestimosa colaboração para a pesquisa que resultou nesta postagem agradeço a gentileza de Paula Maria Nascimento Moreira e ao historiador Wellington José Tibério Silva.

Vídeo:

Boi do Major, Dores de Campos, 2024. In: YouTube, 11 ag. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yKftcFNsBlg


Sobre o folguedo do bumba-meu-boi nesta região ver:

O folguedo do boi no Campo das Vertentes. In: Tradições Populares das Vertentes, 11 mar. 2024. Disponível em: https://folclorevertentes.blogspot.com/2024/03/o-folguedo-do-boi-no-campo-das.html

A Festa de Ogum e o Boi de Ronda: breve relato. In: Tradições Populares das Vertentes, 07 maio 2024. Disponível em: https://folclorevertentes.blogspot.com/2024/05/a-festa-de-ogum-e-o-boi-de-ronda-um.html


Referências:

Bloco Carnavalesco o "Boi do Major". IPAC - Inventário de Patrimônio Cultural, 2011. Prefeitura Municipal de Dores de Campos.

Dores de Campos - histórico. IBGE Cidades. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/dores-de-campos/historico Acesso em: 14 ag. 2024.

Lista de bens protegidos. Prefeitura Municipal de Dores de Campos. Disponível em: https://www.doresdecampos.mg.gov.br/pagina/7763/Rela%C3%A7%C3%A3o%20dos%20Bens%20Protegidos Acesso em 14 ag. 2024

Major e sua turma: tradições que ainda resistem ao tempo. Jornal Agora, Dores de Campos, fev.2005, ano 2, n.4.

Organizadores do Boi do Major estão pedindo a ajuda dos dorenses. Portal Dores de Campos. fev. 2017.

https://portaldoresdecampos.com.br/organizadores-do-boi-do-major-estao-pedindo-a-ajuda-dos-dorenses/ Acesso em: 17 out. 2021.


Para a alegria da criançada dorense, o Boi do Major está de volta . Portal Dores de Campos. fev. 2017. Disponível em:

https://portaldoresdecampos.com.br/para-a-alegria-da-criancada-dorense-o-boi-do-major-esta-de-volta/ Acesso em: 17 out. 2021.


Legislações:

Lei Municipal nº1.267, 03/10/2015. Prefeitura Municipal de Dores de Campos.
Disponível em: https://www.doresdecampos.mg.gov.br/texto_lei/14012

Lei Estadual nº22.861, 08/01/2018. Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Disponível em: https://www.almg.gov.br/legislacao-mineira/texto/LEI/22861/2018/ Acesso em 14 ag. 2024.

Projeto de Lei Federal nº 9.820-A/2018. Portal da Câmara dos Deputados.
Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1687717

Créditos:

Fotos: Iago C.S. Passarelli, 08/02/2024
Texto: Ulisses Passarelli

terça-feira, 7 de maio de 2024

A Festa de Ogum e o Boi de Ronda: um breve relato - parte 1

(Ofereço à memória do Ogã e Capitão de Congado Hélio Eliseu de Sousa, popular e carinhosamente conhecido por "Hélio Quebra-santo", inestimável colaborador, que infelizmente veio a falecer, deixando nos participantes em geral um clima de saudade, tristeza e gratidão)


Em São João del-Rei / MG, a Tenda de Umbanda Ogum de Ronda, realizou em abril de 2024, mais uma vez, a festa de seu patrono, o orixá Ogum. Entretanto, este ano, teve por novidade a realização de atividades externas, abertas ao público. 

Cuidadosamente preparada, conforme a doutrina desta Casa, no sábado, dia 20, transcorreram as atividades internas propriamente religiosas do rito, com saudações ao orixá, oferendas e trabalho espiritual com as linhas da umbanda. 

No domingo, dia 21 de abril, a abertura a partir das 14 horas teve uma atividade específica voltada à linha dos boiadeiros, para bênção geral, seguida de apresentação da Folia Embaixada Santa, desta cidade, apresentando-se no espaço do abaçá com as cantorias consagradas ao Espírito Santo (Folia do Divino). Seguindo a programação, com este enfoque cultural, deu-se início pela primeira vez à saída do Boi de Ronda, assim batizada a manifestação do Bumba-meu-boi em razão do nome da Tenda organizadora. O Boi de Ronda saiu à rua no bojo de um cortejo cultural de umbandistas, na maioria trajados com as roupas rituais e fios de contas sagrados usados no terreiro, contando com a participação de diversos outros terreiros convidados. O cortejo destinou-se até outro terreiro no mesmo bairro (São Judas Tadeu, antiga Caieira): a Tenda Espírita Pai Joaquim de Angola, estimada em geral como um terreiro de raiz, ou casa-mãe, que formou uma quantidade de médiuns que ainda hoje atuam em outros terreiros da cidade, ou, se não isto, muitos médiuns atuais tiveram seus pai e mães de terreiro oriundos da Tenda de Pai Joaquim. No mais, tal visita se reveste de imenso simbolismo porque o referido terreiro esteve fechado por longos anos, gerando nos adeptos um clima de tristeza e anseio pela reabertura. Ocorre, que desde o final de 2023 e início de 2024, a Tenda passou por uma intensa e cuidadosa obra de reforma, que trouxe de volta a beleza da edificação sede e tanto mais, melhorou imensamente seu quadro de conservação, graças às obras emergenciais. Isto trouxe de volta a expectativa de reinauguração e reabertura, ainda aguardada ansiosamente. O cortejo do boi foi tão somente uma visita protocolar, mas revestida de plenitude de alegria, união e devoção. 

O boi foi construído artesanalmente por membros da Tenda de Umbanda Ogum de Ronda, utilizando-se de bambus de vara, formando seu arcabouço (balaio ou costela), devidamente revestido de tecido chitado, bem à moda da cultura popular. Cabeça de caveira de boi, revestida de tecido. Do portão, o toque do berrante convocou a saída do boi; o estandarte fez o abre-alas, os folieiros acompanharam, além de caixeiros que reforçaram o conjunto. O boi dançou aos corrupios, em movimentos de ir e vir, fazendo escaramuças com os "boiadeiros" munidos de vara de ferrão e laço de couro trançado. 

Atrás do boi, seguiu o andor com duas imagens adornadas, sendo uma de São Jorge e outra de Ogum. 

Ao descer a Rua Henrique Benfenatti, a principal do bairro, o cortejo foi até a margem da via férrea, onde estacionou brevemente para saudações ao grande orixá. De retorno, parou à frente da Tenda Espírita Pai Joaquim de Angola, onde após os cantos de licença, adentrou com muito respeito. Os boiadeiros cruzaram as varas de ferrão sobre o portão e por baixo desse portal místico o boi adentrou. No interior e com ampla participação, além das saudações ao preto velho patrono, foi representado o rito do boi, com a cantoria de sua marcha, marcada pelo refrão "Êh, boi!", além da cena da morte, com sangria por um punhal, derramando-se seu "sangue" (vinho tinto) em uma bacia. Deste vinho se deu livremente uma pequena prova aos que desejaram, em copos descartáveis. Na sequência houve a cena da ressurreição do Boi de Ronda. 

Antes da saída de retorno algumas palavras breves foram ouvidas, no sentido de agradecimentos e esclarecimentos, por parte do Dirigente Espiritual da Tenda de Ogum e do Zelador do Terreiro de Pai Joaquim. 

Voltando ao terreiro de Ogum de Ronda, os participantes do cortejo foram recepcionados com comida típica: feijão tropeiro e arroz boiadeiro, concluindo-se as atividades. 

Na terça-feira, 23 de abril, dia de São Jorge, houve uma palestra sobre as festas religiosas e sua relação com terreiros de umbanda e a devoção a Ogum. Esta atividade concluiu as festas de 2024 e transcorreu no solar conhecido como Casa do Barão de São João del-Rei, no Centro Histórico, atividade esta apoiada pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. 

A Festa de Ogum foi possível graças à participação e colaboração de muitas pessoas, terreiros e sobretudo, da forma como transcorreu, tendo como ponto alto a visita do cortejo cultural, com a sensibilidade, ajuda e abertura concedida pela direção da Tenda Espírita Pai Joaquim de Angola. O evento demonstrou que a partir da união dos participantes a umbanda se auto-afirma no orgulho de ser umbandista, no que pese tantos atos de intolerância religiosa que sofre, Brasil afora. Para além, deixa claro que terreiros são ou podem ser geradores e mantenedores de cultura e de processos educativos, além do valor social. 

01- Tenda de Umbanda Ogum de Ronda durante o primeiro dia de Festa de Ogum. 

02- Tenda de Umbanda Ogum de Ronda durante o primeiro dia de Festa de Ogum. 

03- Vista parcial da Folia Embaixada Santa. 


04- Diversidade de umbandistas de vários terreiros congregados em celebração a Ogum.  
                                     
05- O toque do berrante convoca a saída do Boi de Ronda. 





06- O Boi de Ronda e a Folia do Divino.


07- Descida do cortejo cultural com estandarte do Boi e bandeira da Folia na dianteira. 


08- Andor de São Jorge e de Ogum durante o cortejo.


09- O Boi de Ronda adentra o espaço da Tenda Espírita Pai Joaquim de Angola, 
sob as varas de ferrão cruzadas. 



10- No interior da Tenda, o ritual da morte do boi colhe na bacia esmaltada
o "sangue" do boi (vinho tinto).



11- Distribuição de alimentação ritual.


12- Palestra sobre Ogum e as festas de umbanda. 

13- Convite e programação da festa. 

14- Um dos ensaios do boi, com a presença de experientes participantes. 


 15- Hélio Eliseu de Sousa, durante um dos ensaios do Boi de Ronda, 
tocando um urucungo, berimbau de fricção ou cuíca de arco. 


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
-  Fotografias: 01 e 02 - Luciano Nascimento; 03 - Ariany Ap. Oliveira Fonseca; 10 e 15: Iago C.S. Passarelli; 12- Rogério L. Ramos; 14- Ulisses Passarelli; demais fotos - Arlon Cândido Ferreira. 

Notas

- Revisão em 16/03/2025






















segunda-feira, 11 de março de 2024

O folguedo do boi no Campo das Vertentes/MG

                                                                                                                                 Ulisses Passarelli (*)

 

"Praça de Touros – No Domingo effectuou a Companhia Tauromachica mais um concorridissimo espectaculo, tendo havido variadas sortes, nas quaes todos os artistas foram bastantemente applaudidos. Poderiam entretanto mais fazerem, serem muito mais felizes se tivessem encontrado rezes mais bravas. No Domingo haverá novo espectaculo.” (Jornal O Combate, n.171, 04/06/1902)



 
O texto em epígrafe revela como noticiou um antigo jornal de São João del-Rei acerca das touradas, àquela época muito queridas. Elas faziam as alegrias nas festas do Espírito Santo, no Bairro Matosinhos. Essas corridas de touro foram proibidas em 1934, durante o governo Getúlio Vargas. O desenvolvimento da consciência protecionista tem evoluído e combatido qualquer forma de entretenimento que implique em estresse ou maltrato ao animal, tal como a farra do boi no sul, a rinha de galos (desde longa data proibida) ou a de canários da terra, assim também as antigas praças de touros.

Mas no teatro folclórico o boi é personagem querido e persevera sua mística na representação dos folguedos, encontrando seu ponto mais elevado no Bumba-meu-boi, um dos mais expressivos autos da cultura popular nacional.

O bumba é o um dos folguedos mais importantes do país, vastamente distribuído em território nacional, praticamente conhecido em todos os estados, em versões simples ou complexas, congregando em torno de si muitos personagens, cantorias, músicas e um belo efeito visual. Sua matriz é um boi de fingimento, ou antes, armação imitando bovino, sob o qual se mete um sujeito (“tripa”, “miolo”) a dar cabeçadas nos circunstantes, com música, cantoria e dança.

Tem remota origem europeia, conhecida desde longa dada em Espanha, tal como em Portugal. Mas aqui o brasileiro soube inserir todo um complexo cultural formado em torno do gado, um verdadeiro ciclo temático que contribuiu para a nova fisionomia do folguedo, graças às múltiplas influências das culturas afro e ameríndia, que foram essencial para a composição dos grupos da manifestação em apreço.

A bibliografia especializada em folclore não traz informes substanciais sobre o Bumba-meu-boi em Minas Gerais. Entretanto, de versões mais humildes às elaboradas o folguedo aqui sobrevive. Neste texto está reunido um conjunto de informes de como a tradição do boi se desenvolve de forma simplificada no centro-sul deste estado, Mesorregião Campos das Vertentes, bacia do Rio das Mortes.

São João del-Rei conhece a tradição desde longa data, desgarrado no meio de blocos de carnaval, principalmente do Bairro Tijuco, vindo da comunidade das Águas Férreas. Pequenos grupos se divertiam pelas periferias desta cidade histórica fazendo desfilar o boi, tal como o do falado “seu Inácio”, dos lados da Vila São Bento (imediações da Igreja de São José Operário, Bairro Tijuco), além de outros. Desgarrado entre batuqueiros dando arrancos e chifradas rua afora, sempre atiçado e pondo crianças a correr. Não temos o folguedo do Bumba-meu-boi em sua complexidade estrutural, mas seu personagem central aqui surgia fazendo as alegrias do carnaval de rua, com o nome de “boi, boizinho e rancho do boi”. Dançava isolado, investindo com chifradas contra a meninada que lhe atiçava sem parar. Dançava aos volteios, descrevendo círculos e carreiras. Vinha acompanhado por uma charanga ou batucada, que executava os ritmos carnavalescos. Não há personagens senão o boi de fingimento, feito com uma armação coberta de pano, cabeça de caveira e rabo postiço. Um dançante movimenta o estafermo, oculto sobre ele. Ficou afamado o Rancho do Boi de “seu Fausto” (Fausto de Almeida, falecido em 19/05/1953), no Bairro das Fábricas.

Informações dão conta que no passado foi conhecido no distrito de São Miguel do Cajuru, em São João del-Rei, segundo Sacramento (2000), saindo na festa do padroeiro, São Miguel Arcanjo, em setembro: "Lembro-me de uma pessoa travestida de boi, cabeça com chifres, restante coberto por pano estampado animando e dando carreiras nos mais distraídos e nos meninos". O mesmo autor, em outro lúcido e importante registro (SACRAMENTO, 2010), informa ainda sobre o boi na Festa do Carmo, no povoado do Caquende, também em território são-joanense: “assustavam as pessoas, causando algazarra geral.”

Noutro distrito são-joanense, São Gonçalo do Amarante, também é conhecido, com a particularidade de sair no Domingo da Páscoa antecedendo a queima do judas, de rua em rua até terminar junto à chácara do judas onde concluía seu desfile dando lugar ao ritual de queima do boneco. É o Boi Malhado, nos dizeres do informante Lourival Amâncio de Paula, o Vavá, baluarte da cultura local. Este boi saiu pela última vez no ano de 1999 e depois somente em 2014 se repetiu e desde então não aconteceu mais. Confeccionado sobre um grande balaio emborcado, debaixo do qual se oculta o homem que lhe dá vida em movimento de avanço e recuo, se faz acompanhar de vários tocadores locais, de pandeiro, caixa, violão, bandolim, sanfona e xique-xique, todos eles congadeiros do lugar. O Boi Malhado faz a alegria da criançada. Com seus pegas rua afora, põe os pequenos a correr, mas que logo voltam para puxar o rabo do bicho ou fazer-lhe arruaças na dianteira, fingindo-se pequenos toureiros. Além do boi e das explosões de bombas da queima do judas a criançada de São Gonçalo do Amarante também tinha nesta ocasião o pau de sebo para se divertir.

Meu pai, David Passarelli, que em 1968 trabalhou na mineração do Penedo, no município de Ritápolis, teve oportunidade de lá ver um grupo desses pelas ruas poeirentas, a correr atrás da molecada em grande alarido. Infelizmente não se lembrava de qual era a festividade.

Pude observar um boi no carnaval da cidade de Ritápolis em 2001, inserido no bloco Enterro do Zé Pereira. O boi tinha a aberração de ter duas cabeças.

PELLEGRINI FILHO (2000) registrou em fotografia o boi no carnaval de Tiradentes. Naquele município tradicionalizou-se sob a alcunha do próprio organizador: "Boi do Culóia".

Notícias orais, ainda não confirmadas, dão conta que já houve também em Resende Costa.

Em Santa Cruz de Minas encontrei o boi em 2002, inserido no Bloco das Piranhas.

Ainda em tempo, vale mencionar o “Boi de Caveira”, tradição da comunidade de Pedra Negra, que originalmente se desenvolveu tendo ao centro uma estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas, no município de Bom Sucesso, área limítrofe com o Campo das Vertentes, mas já na Mesorregião Centro-Oeste de Minas. Com a invasão das águas da Represa do Funil, a comunidade foi inundada. Na margem oposta do Rio das Mortes (esquerda), se formou a comunidade de Nova Pedra Negra, no município de Ijaci, este sim, no Campo das vertentes, Microrregião de Lavras.

Lavras, que aliás, possuiu segundo LIMA (1970) um bumba-meu-boi que, por sua descrição em um paper gentilmente ofertado pelo Professor Affonso Furtado, do Acervo do Projeto Reisados Brasileiros, tinha uma estrutura que recordava tanto os bois nordestinos quanto os catarinenses, distante do padrão regional dos outros bumbas citados nesta postagem. O Bumba-meu-boi de Lavras contava com um entrecho dramático no qual o Vaqueiro, ferido pelo boi, deitava em dores junto ao chão, onde era acudido pelo Doutor, que o curava com esfuziante alegria da troupe. Havia ainda um entremeio com a dança das fitas; e personagens animais e fantásticos, como o Cavalo Marinho, o Urso e até a Bernúncia. Sem dúvidas um caso inusitado para a geografia do boi e está a merecer uma análise meticulosa.

Mas se todos os bois acima enumerados desapareceram na poeira do tempo, ecoando do passado como memória e saudade da tradição, necessário se faz destacar aqueles outros que teimando contra os reveses insistem em se manter ativos nesta região mineira.

Sobrevive em Barroso, arrastando multidão na abertura do carnaval, sob o nome de “Boi-mamado”. Notícias jornalísticas do ano de 2019 davam conta que o bloco existia há catorze anos e ressentia naquele ano de desfilar acompanhado por carro de som em vez da tradicional bandinha, devido à falta de apoio do poder público municipal, segundo matéria consultada.

Dores de Campos mantém o “Boi do Major”, tradição arraigada, musicalizada por uma banda de metais, formada por músicos dorenses. Após um período de paralisação, foi revitalizado em 2017 e segue em atividade, movimentando o boi para alegria das crianças e adultos. O nome do bloco remete à alcunha do músico local Dácio Silva, trombonista muito querido na comunidade.

Em Coronel Xavier Chaves ainda é realizado com o nome de “Boi de Caiado”. O ritmo é alegre, com um cantador solista tirando versos improvisados insistentemente contraponteados pelo coro, com um refrão tradicionalíssimo:

“_ Esse boi é meu!

_ Êh, boi!

Esse boi de caiado!

_ Êh, boi!

O meu boi tá cansado!

_ Êh, boi!, etc.”

 



O Boi de Caiado, manifestação folclórica de raízes muito antigas e típicas do lugar. A comunidade partícipe mostra seu valor afro pelas danças, vestimentas e pela afirmação de identidade na participação conjunta e harmônica, demonstrando empoderamento do território onde está inserida.

O Boi de Caiado é um boi de carnaval ou bloco do boi, variante simples do bumba-meu-boi, que sobrevive na cidade de Coronel Xavier Chaves, com típicas características folclóricas. Atualmente seu organizador é o Mestre Zé Carreiro, alcunha do sr. José do Rosário Anacleto, natural daquela cidade, octagenário. Mestre no sentido exato que a palavra comporta no campo da cultura popular. Alma límpida e bondosa, memória notável, caráter ilibado. É capitão do congado local, responsável pela folia de Reis, canta calangos e se orgulha da longa experiência com carros de bois, que justamente lhe valeu a respeitosa alcunha. Informou ter aprendido o boi no povoado da Cachoeira, no mesmo município, ainda criança, aos oito anos de idade, quando sua mãe o levava na época do frio para acompanhar as festas juninas. Lá o Boi de Caiado dançava para alegria da petizada.

Passados os anos formou-se o grupo da cidade, com períodos mais e menos ativos e sob direção de outras pessoas até que o assumiu. Dele participam na instrumentação sobretudo seus companheiros de folia e congado, e outros amigos, que se desdobram em mais esta função. A bateria é formada por tarol, bumbo, surdos e caixas. A percussão forte e bem compassada, vai em batucada pelas ruas e cantam sambas e marchinhas típicas do carnaval, sem canto específico.

Saem do bairro Vila Fátima, antigo Tanque. O nome primitivo se referia a um tanque ou dique (mundéu) que retinha a água usada para mover a roda d'água do engenho de cachaça e para serviços de faiscagem de ouro. Tradicionalmente é uma comunidade negra, que conserva intensamente uma parcela importantíssima e fundamental da cultura xavierense e que merece toda atenção.

Os instrumentistas formam o âmago do bloco, após os quais seguem foliões, enfeitados ou não, que aderem à batucada rua afora. Os bois em si tem posição totalmente livre, com movimentação ampla pelas laterais, ora na dianteira correndo atrás das crianças ora de recuo vão à retaguarda como se numa ronda. Fazem mesuras para os adultos, salamaleques graciosos e despertam a empatia das pessoas. A alegoria de boi é movida por um animado brincante, que põe em polvorosa a criançada, que corre espavorida das investidas do bicho. O boi é bravo e sonso. Finge de manso e quando as crianças se aproximam confiantes, avança, mas logo recua. Faz volteios, corrupios. Não é agressivo. Correr atrás faz parte da brincadeira e em verdade é sua maior graça. Já por isto, dentro dessa regra, as próprias crianças provocam bastante o boi, estimulando-o à perseguição. Não há violência alguma. Tudo transcorre de forma espontânea, eivada de alegria e harmonia.

O bloco vai se encorpando pelo caminho rumo à área central da cidade. Mais gente vai aderindo ao seu balanceio contagiante. Seu ritmo não deixa ninguém parado...

Quanto ao nome, explicou Zé Carreiro que desde sua infância o nome já era este, boi de caiado, como se dizia na Cachoeira. Não soube explicar a origem. Apenas disse que é tradicional e foi mantido. É possível que "caiado" ser corruptela de "gaiado": chifrudo, o que tem gaias (galhas) grandes; ou ainda é um tipo de pelagem de animal fazendo redemoinhos dos pelos do peito ou pescoço; cavalo-gaiado: o que tem torvelinhos nos pelos. Ambas interpretações são possíveis.

Por fim destacamos a versão de bumba-meu-boi da cidade de Prados, onde a tradição se conservou forte sob o nome de “Boi-mofado”. Arrastando uma multidão atrás da batucada, movida por suas marchas e refrões... Sai acompanhado pela mulinha e pelo toureiro, e ainda, mascarados, que vem na esteira do cortejo. Conta-se que surgiu no período da escravidão, pelas mãos dos cativos. Terminados os festejos, em razão da dificuldade que tinham de conseguir material para um novo boi, guardavam-no num canto da senzala, em condições precárias de iluminação, ventilação e umidade. No outro ano, quando iam dançar com ele de novo, o pano de revestimento ("couro") tinha manchas de bolor. O mofo acumulara pela má conservação. O nome surgiu então pejorativo, mas com o tempo se fixou como identidade, perdendo o tom zombeteiro.

Seus grupos se mantiveram ao longo das gerações. A tradição oral diz que o grupo que havia na localidade do Muniz, na zona rural, era o mais antigo; mas, extinguiu-se. Em contrapartida formaram-se outros na cidade. Dos mais velhos era o do Bairro Pinheiro Chagas, ora desativado, mas com promessas de reativação. Perseveram três grupos de boi mofado em atividade, que tem seu próprio nome: o Boi Chitado, na Atalaia, o Boi Chitão, na Rua de Baixo e o Boi Topa Tudo, no Quebra Castanha. No ano 2000, acompanhando o encontro dos bois, nas ruas centrais da acolhedora cidade, ainda vimos os quatro grupos em ação.

Em essência se compõe de uma charanga de músicos da comunidade, com indispensável percussão (surdo, bumbo, tarol, pandeiro) e harmonizando vem um acordeon ou instrumentos de sopro (trombone, trompete, sax). Na frente surge o boi em bailado livre, negaceando para todas as direções; avança, recua, corre, gira, faz salamaleques, ataca repentino. Nessa movimentação brinca com adultos e crianças, mas são sobretudo estas que se envolvem em correria danada, rindo... As menorzinhas tem medo; as maiores são provocativas. Além do boi sempre aparecem mascarados diversos, gente enfeitada, foliões desgarrados que aderem à passagem animadíssima do boi, que carreia grande acompanhamento de gente fazendo coro. Alguns grupos mantém um personagem tradicional: o cavalinho, burrinha ou mulinha, feito de uma armação em balaio emborcado, revestido por um pano, no qual se mete o folião como se o cavalgasse. A cabeça e o rabo fingidos compõe a alegoria. O cavalinho rodeia o boi, como se o acompanhasse na movimentação. Por vezes também aparece um toureiro.

O boi em si é relativamente grande em relação a outros bois de bumbas. A estrutura corporal é rígida ("boi duro"), mas o pescoço, que é relativamente longo, mostra uma flexibilidade limitada. Os chifres são enfeitados de fitas coloridas e costumam ser argolados, como um boi carreiro.

Naturalmente existe uma certa rivalidade entre os bois de Prados; sadia, contudo. Um momento pitoresco é quando se encontram sob a tenda armada na praça: frente a frente se ameaçam cabeçada, como dois marruás brigando num pasto. Mas a briga de fato não acontece, a não ser no campo simbólico. Os grupos cantam. Ora música comum de carnaval, bem popular; ora a marcha própria do boi, com um verso solista intercalado com o refrão coral fixo, "êh boi":

 

"_ Esse boi não é meu...

_ Êh! Boi!

_ É da Rua de Baixo!

_ Êh! Boi!

_ Ele é muito macho!

_ Êh! Boi!" (Etc.)

 

Suas músicas são simples, próprias do tempo carnavalesco, além de marchinhas alegres com refrão curto:

_ "O meu boi é mofado!

_ Êh! Boi!

_ Ele é pintadinho!

_ Êh! Boi!

_ Esse boi é bonito!

_ Êh! Boi!"

_ Ô vem cá meu boi!

_ Êh! Boi!" (etc.)

 



Em tudo o Boi-mofado é espontâneo. Manifestação legítima da cultura popular ele é livre de amarras de formato. É aberto à adesão da assistência por onde passa. Sua passagem alegre contagia o folião, agita o turista e envolve as crianças. Percebe-se o carinho do pradense para com a manifestação, que indubitavelmente faz parte de seu folclore.

Basicamente assim são os bois das Vertentes, essa aprazível região mineira. Se a maioria dos grupos estão em ocaso em suas localidades, por outro lado sobrevivem vigorosamente em Barroso, Dores de Campos, Coronel Xavier Chaves e Prados. Que tenham vida longa, integrados ao patrimônio cultural de suas respectivas comunidades mantenedoras.

 

Referências bibliográfica

COIMBRA, Pedro (Org.). Às margens do Rio Grande: registro histórico-cultural das áreas diretamente afetadas, de entorno e de influência da UHE Funil. Consórcio do Aproveitamento Elétrico do Funil. Lavras, 2012. 230 p.il.

LIMA, Jacy de Sousa. O Bumba meu boi em Lavras. Comissão Nacional de Folclore, Rio de Janeiro, Documento n.576, 19 de março de 1970.

SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Alguns Estudos Barroquizantes (ou "Estrondoso Brado") acerca do antigo arraial de São Miguel do Cajuru. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.9, 2000.

PELLEGRINI FILHO, Américo. Turismo Cultural em Tiradentes: estudo de metodologia aplicada. São Paulo: Manole, 2000. 188p.il. Prancha 28E.

 

Referências hemerográficas


Prados faz a Festa do Boi Mofado. Gazeta de São João del-Rei, n.81, 12/02/2000.

Boi mofado completa 150 anos de folia. Gazeta de São João del-Rei, n.389, 11/02/2006.

Carnaval já faz sambar o Campo das Vertentes: em Prados. "Boi Mofado" anima foliões. Gazeta de São João del-Rei, n.544, 31/01/2009.

SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Caquende. Jornal de Minas, São João del-Rei, nº125, ano 10, 28/05 a 03/06/2010.

Referências na internet

Boi Mamado abre o carnaval de Barroso nesta quinta-feira. Barroso em Dia, 28 de fevereiro de 2019. Disponível em: https://barrosoemdia.com.br/destaque/boi-mamado-abre-o-carnaval-de-barroso-nesta-quinta-feira/ Acessado em 17/10/2021.

Bloco do Boi Mamado abriu o carnaval de Barroso 2019. Barroso em Dia, 01 de março de 2019. Disponível em: https://barrosoemdia.com.br/destaque/bloco-do-boi-mamado-abriu-o-carnaval-barroso-2019/ Acessado em 17/10/2021.

Para a alegria da criançada dorense, o Boi do Major está de volta. Portal Dores de Campos. Disponível em: https://portaldoresdecampos.com.br/para-a-alegria-da-criancada-dorense-o-boi-do-major-esta-de-volta/ Acessado em 17/10/2021, 16:35h. 

Organizadores do Boi do major estão pedindo ajuda dos dorenses. Portal Dores de Campos. Disponível em: https://portaldoresdecampos.com.br/organizadores-do-boi-do-major-estao-pedindo-a-ajuda-dos-dorenses/ Acessado em 17/10/2021, 16:37h






Bloco do Bumba meu Boi, Bom Sucesso/MG. Autor: Ulisses Passarelli, 12/02/2024. 




Boi do Major, Dores de Campos. Autor: Ulisses Passarelli, 08/02/2024. 




Boi de Caiado. Coronel Xavier Chaves. Autor: Iago C.S. Passarelli, 13/02/2018.




Boi Mofado. Prados. Autor: Ulisses Passsarelli, 28/02/2019. 


Boi Mamado, Barroso. Autor: Ulisses Passsarelli, 27/02/2025. 




* Uma versão inicial deste texto, com o mesmo título e sem as fotografias foi publicado em: ABRÃO, Felipe Calil (Org.). Boiada Reunida. Goiânia: Alta Performance, 2023. 201p.