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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 15 de abril de 2014

O folclore dos dentes - parte 1

Odontologia Mística - levantamento bibliográfico e notas de campo

"A velha tapanhumas escutou a voz do filho no longe cinzado e se espantou. Macunaíma apareceu de cara amarrada e falou pra ela: 
_ Mãe, sonhei que caiu meu dente.
_ Isso é morte de parente, comentou a velha.
_ Bem que sei. A senhora vive mais um sol só."
(Mário de Andrade, Macunaíma: o herói sem nenhum caráter)

Guia de dentes no capitão de congado Luís Bento Silva.
Guarda de Marujos N.S. do Rosário e Sta.Efigênia, Congonhas/MG, 01/11/1998.

A religiosidade popular e a mística fazem parte da vida diária das ações humanas, das profissões e até da lúdica, de boa parte da população, notadamente das camadas sociais mais sacrificadas...

Frei Francisco van der Poel demonstrou bem o quão arraigado está a religiosidade na vida de nosso povo, dizendo-a "a riqueza dos pobres"(1).

Os dentes não escaparam desta realidade. Com efeito a "odontologia" popular não está isenta de influências desta natureza. Os dentes sobretudo são os maiores merecedores de rezas e benzeções dirigidas à boca. Correm crenças, fazem simpatias. O próprio elemento dentário, creem, tem, energias protetoras místicas e é usado como amuleto. Sonhar com dente é indício frequente de mal agouro. A epígrafe deste texto, embora de origem literária, é baseada em crença vigente, que a genialidade de Mário de Andrade soube aproveitar em sua rapsódia, onde também incluiu outra passagem inerente ao folclore da odontologia: Macunaíma gemia com as dores incômodas causadas pelo "sapinho" (candidíase), que afetara-lhe a boca após envolver-se com três prostitutas. Curou-se porque seu irmão Maanape roubou a chave do sacrário e entregou-lhe para que a chupasse. 

Câmara Cascudo esclareceu sobre o uso da chave do sacrário nos rituais do catimbó (2). Vale também a chave comum, devidamente preparada, simbolizando-a. É usada como amuleto. Em São João del-Rei o uso da chave do sacrário goza de grande prestígio, quando se consegue um sacristão amigo que a empresta por umas horas para compor rituais populares para abrir caminho, fechar o corpo contra malefícios, curar sapinho passando-a em cruz sobre a boca. 

Em outra obra, Cascudo esclarece que os dentes "são amuletos possuidores de potência mágica defensiva contra o maléfico, mau-olhado, maus ares" (3)

Aparece com frequência entre os penduricalhos que compõe os balangandãs das baianas. Em 27 exemplares analisados por Raul Lody havia nada menos que 42 dentes nas pencas (4).

É muito comum o uso de um dente unitário (ou garra, com o mesmo objetivo) encastoado e preso a um cordão para se pendurar ao pescoço. A função estética _ o uso como adorno _ é secundária. O motivo primário, gerador do uso é a pretendida  proteção contra males, aliada à garantia de uma dentição sólida. 

Se for dente de jacaré ou ferrão de aranha-caranguejeira, afasta a pessoa que o usa da ofensa por essas espécies, além de alcançar proteção contra a dor dentária (2). É um amuleto

Em Santa Cruz de Minas (em 1994) vi um cordão que prendia medalhas de santos junto a um dente de anta. Usava-se para por ao pescoço durante as doenças debilitantes, que causam astenia, prostração, para dar forças, pois a anta (tapir) é um animal forte. É a presença da magia simpática

Na vizinha São João del-Rei os mandingueiros mais antigos e afamados punham um dente da serpente cascavel (exatamente a presa inoculadora de veneno) trespassado na ponta de um bastão, por meio de orifício. Tal bastão, uma vez preparado em sessões rituais, passava a ter fortes poderes, tinha firmeza. O dente da cobra se tocasse alguém, mesmo que não furasse, gerava no local do toque, em pouco tempo, uma ferida incurável. Os velhos capitães de congados sabiam desses mistérios. Num caso desta natureza, o dente funciona como talismã

Carrancas e máscaras de palhaços de folias de reis ostentas grandes dentes escancarados, mecanismo de afastar o mal, indicando uma ferocidade de defesa maior que a do atacante. 

Dentes gigantes em máscaras de palhaços de folias de Reis. 
Encontro em Ribeirão Preto/SP, 2011. 
Mas existem também as enfiadas de dentes, vários exemplares trespassados em cordão compondo colares, rosários de dentes, como há os rosários de garras, com as mesmas funções. São as guias

O sonho com os dentes se reveste de importante simbolismo. Em São João del-Rei a crença geral é de que prediz aproximação da morte na família ou de parente ou amigo muito próximo, mormente se na imagem aparecem cariados, podres, ou bambos. 

Um manual nos ensina que o sonho quando mostra dentes apodrecidos é indicativo de enfermidade; dentes que caem, doença grave; que nascem, aumento na família; dente belos, prosperidade; sendo arrancados, pequenos prejuízos; sujos, boas notícias; postiços, perseguição de inimigo; de ouro ou chumbado, sorte no jogo. Sonhar que se consulta um dentista é traição; que se é um dentista, são questões por dinheiro; que se extrai um dente do sonhador, dificuldades (5).

Os dentes surgem nos mitos e lendas. Quando alguém é perseguido pela bestial mula-sem-cabeça para se livrar de seu ataque deve esconder as unhas e os dentes para que a criatura fantástica não o veja (6).

Uma lenda etiológica sobre o tamanduá, justifica que este animal come formigas devido à falta de dentes. Quando os animais foram criados por Cadjurucré com cinza da fogueira noturna, o criador formidável, já cansado de tanto fazer bichos, na derradeira noite de trabalho, criou o tamanduá. Quando ia terminá-lo veio a madrugada e a fogueira se apagou. Sem ter como terminá-lo, por não haver mais cinza, recorreu ao espírito para completá-lo pois ainda faltava a língua e os dentes. O espírito pegou uma varinha fina, pôs na boca do bicho à guisa de língua e despachou-o, pois o dia vinha raiando. O tamanduá retrucou: _ mas que vou comer se não tenho dentes? O espírito respondeu-lhe: _ vais comer formigas! (7)

Reza-se contra dor de dentes. Nas rezas a padroeira dos dentistas e dos sofredores de odontalgias é lembrada: Santa Apolônia. Câmara Cascudo, no seu "Meleagro" (p.157) cita uma oração desta natureza de Augusto Severo/RN: 

"Estava senhora Santa Pelonha em sua cadeira de ouro sentada com a mão posta no queixo e passa Nosso Senhor Jesus Cristo. Perguntou: _ que dói, Pelonha? _ um dente, Senhor! _ pois, Pelonha, do sul ao norte, do nascente ao poente, ficará esta criatura livre e sã e salva de dor de dente, pontada, nevralgia, estalecido e força de sangue". (Completa-se com Pai Nosso e Ave Maria às Chagas de Cristo)

Também sob a forma de ensalmos clamam por Santa Apolônia, como estes exemplos que recolhi em Santa Cruz de Minas (maio/1998): 

Estava Santa Pelonha
sentada na pedra fria,
curando dor de dente
com uma ave-maria.

Encontrei Santa Pelonha
sentada na pedra fria,
que benza essa dor de dente
entre uma ave-maria. 

As lesões causadas por fungos chamadas candidíase, vulgarmente "sapinho", merecem atenção dos benzedores. Causam incômodos principalmente em crianças e na esperança de melhoras recorrem às benzeções. Em Passos/MG (jul./1997): "Jesus Cristo quando veio de Roma, o quê que trouxe de lá? Trouxe água da fonte e ramo do monte, que há de curar (fulano...) deste mal de sapinho."

Esta oração é polivalente. Serve para várias doenças que os benzedores sabem identificar, bastando substituir a palavra "sapinho" pelo nome do malefício: há de curar fulano deste mal de... simioto, espinhela caída, ar das vistas, quebrante, vento virado, lombriga assustada, nervo torto, veia magoada, carne ofendida, osso rendido, junta desconjuntada... 

Uma benzeção anotada em São João del-Rei (set./1998), diz:

"Quando Deus andava pelo mundo, encontrou São Pedro sentado na pedra se lastimando.
_ Que tens, Pedro, que tanto lastima assim?
_ Dor de dente, Senhor!
_ Se for pus, vaza; se for bicho, morra!"

Quando diz "vaza" o benzedor marca com a digital do polegar direito uma cruz sobre a pele em cima do dente afetado. A dizer, "morra",marca outra, da mesma forma. Vaza e morra são pronunciados de forma enfática, imperativa. Repete-se três vezes a fórmula e por fim se completa com a prece de um Pai Nosso e uma Ave Maria.

Outra benzeção de Passos: 

Três e três, seis, e três nove.
Noves fora!
Assim como noves fora,
o sapinho da boca da criança
há-se sair fora!
Sai de três vez,
sai de seis, sai de nove
e sai de tudo de uma vez!

Nossa Senhora Aparecida:
assim como esse ramo seca, 
o sapinho da boca da criança há-de secar!

O benzedor risca no ar cruzes sobre a boca da criança, usando de um pequeno ramo verde. O ramo é posto a secar no sol e ninguém deve tocá-lo além do benzedor, ou pegará a moléstia. Quando o vegetal secar o sapinho terá secado. Completa-se com uma oração de Pai Nosso e três Ave-Marias. É um exemplo de ensalmo numérico

Outra forma de curar o sapinho é passar a ponta do cabelo da madrinha três vezes na boca afetada (8). Em São João del-Rei, segundo informação de 1996, a receita desta simpatia é passar a barra da saia da madrinha em vez do cabelo. 

No Rio Grande do Norte o costume é passar algodão no dente acometido por um mal e colocá-lo no oco de uma árvore. Vai-se embora do lugar sem olhar para trás. Quem pegar ou tocar pega o mal (2). É o conhecido processo de transferência de moléstia, usadíssimo na medicina mágica. 

A pena da asa do bacurau se esfrega contra o dente tira-lhe a dor (3; 9). Bacuraus são várias espécies de aves noturnas (ordem caprimulgiformes, família caprimulgidae), outrossim conhecidas por curiango, curumbamba, noitibó e mede-léguas. 

O misticismo em torno dos dentes e a religiosidade que os cercam são pontos marcantes da cultura popular. Por diversas etnias se pode rastrear seus sinais. 

Referências Bibliográficas

(1) - POEL, Francisco van der. Frei. Religiosidade popular: a riqueza dos pobres. Carranca, Belo Horizonte, Comissão Mineira de Folclore, n.34, p.5, jun./1998. 
(2) - CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro: pesquisa de catimbó e notas de magia branca no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978. 208p. 
(3) - CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.
(4) - LODY, Raul Giovanni. Pencas de balangandãs da Bahia: um estudo etnográfico das jóias-amuletos. Rio de Janeiro: FUNARTE/INF, 1988. 167p.il.
(5) - NEHUAY, Pandjah. Manual dos sonhos: intrepretação dos sonhos conforme os mais célebres cabalitas antigos e modernos. 17ed. Rio de Janeiro: Espiritualista, [s.d]. 172p.
(6) - AZEVEDO, Ricardo. Monstrengos de nossa terra: seleção de mitos populares. São paulo: FTD, 1986. 
(7) - PAIVA, Melquíades Pinto, CAMPOS, Eduardo. Fauna do Nordeste do Brasil: conhecimento científico e popular. Fortaleza: Banco do Nordeste, 1995. 274p. p.215-6.
(8) - Seleção das melhores rezas e simpatias que o povo escolheu. São Paulo: Thirê, 1995. 95p. p.69 e 71. 
(9) - ARAÚJO, Iaperi Soares de. A medicina popular. Natal: UFRN, 1981. 132p. 


Notas e Créditos

* Informantes: 
- Santa Cruz de Minas: Elvira Andrade de Salles
- Passos: Manoel Teodoro do Nascimento
- São João del-Rei: Luís Santana
** Texto e fotos: Ulisses Passarelli
*** Agradecimentos e oferecimento: a Arthur Cláudio da Costa Moreira, pelo incentivo na retomada deste trabalho

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