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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Bumba... meu boi!

“Praça de Touros – No Domingo effectuou a Companhia Tauromachica mais um concorridissimo espectaculo, tendo havido variadas sortes, nas quaes todos os artistas foram bastantemente applaudidos. Poderiam entretanto mais fazerem, serem muito mais felizes se tivessem encontrado rezes mais bravas. No Domingo haverá novo espectaculo.” (O Combate, n.171, 04/06/1902)

Assim noticiou um antigo jornal de São João del-Rei acerca das touradas, àquela época muito queridas. Elas faziam as alegrias nas festas do Espírito Santo em Matosinhos. Essas corridas de touro foram proibidas em 1934 por Getúlio Vargas. 

O desenvolvimento da consciência protecionista tem evoluído e combatido qualquer forma de entretenimento que implique em estresse e maltrato ao animal, tal como a farra do boi no sul, a rinha de galo (desde longa data proibida) e outras como essas antigas praças de touros.

Mas no teatro folclórico o boi é personagem querido e persevera sua mística na representação dos folguedos, encontrando seu ponto alto no bumba-meu-boi, um dos mais expressivos autos da cultura popular nacional.


Curiosa fantasia carnavalesca flagrada no carnaval de São João del-Rei em 2013. 

O bumba é o um dos folguedos mais importantes do país, vastamente distribuído em território nacional, praticamente conhecido em todos os estados, em versões mais simples ou complexas, congregando em torno de si muitos personagens, cantorias, músicas e um belo efeito visual.  

Sua matriz é um boi de fingimento, ou antes, armação imitando bovino, sob o qual se mete um sujeito a dar cabeçadas nos circunstantes, com música, cantoria e dança. É de remota origem européia, conhecida desde longa dada em Espanha, tal como em Portugal. Mas aqui o brasileiro soube inserir todo um complexo cultural formado em torno do gado, um verdadeiro ciclo temático que contribuiu para a nova fisionomia do folguedo. 
Mas por oras este post se limita a listar as poucas presenças do bumba-meu-boi aqui pelas Vertentes de Minas. 

Informações dão conta que no passado foi conhecido no distrito de São Miguel do Cajuru, em São João del-Rei, segundo José Antônio de Ávila Sacramento, saindo na festa do padroeiro, São Miguel Arcanjo, em setembro: "Lembro-me de uma pessoa travestida de boi, cabeça com chifres, restante coberto por pano estampado animando e dando carreiras nos mais distraídos e nos meninos". O mesmo autor, em lúcido e importante registro, informa ainda sobre o boi na Festa do Carmo,noutro distrito são-joanense, Caquende: "assustavam as pessoas, causando algazarra geral." 


Noutro de nossos distritos, São Gonçalo do Amarante, também é conhecido, com a particularidade de sair no Domingo da Páscoa antes da queima do judas, de rua em rua até terminar junto à Chácara do Judas onde terminava seu desfile dando lugar ao ritual de queima do boneco. É o boi malhado, nos dizeres do informante Lourival Amâncio de Paula, o "Vavá", baluarte da cultura local. 


Meu pai, David Passarelli, que pelos idos dos anos sessenta trabalhou na mineração do Penedo, em Ritápolis, onde teve oportunidade de lá ver um grupo desses pelas ruas poeirentas, a correr atrás da molecada em grande alarido. Infelizmente não se lembra de qual era a festividade. 


Pude observar um boi no carnaval da cidade de Ritápolis em 2001, inserido no bloco Enterro do Zé Pereira. O Boi tinha a aberração de ter duas cabeças. Em Muqui / ES, confirmou-me pessoalmente o folclorista Affonso Furtado, também foi registrado um boi de duas cabeças.


Em Coronel Xavier Chaves ainda é realizado com o nome de boi-de-caiado, sobretudo no período junino ou carnavalesco. 
Versão bastante simples do bumba-meu-boi, resumida ao boi de fingimento e aos tocadores (sanfona, caixa, pandeiro, violão e eventualmente outros instrumentos). Não há enredo, só a dança do bicho. O homem metido sob a alegoria de animal, promove correrias atrás dos circunstantes e aos corcovos deixa as crianças espavoridas. Sai em diversas épocas do ano, quando houver ocasião propícia, sobretudo nas festas juninas. O ritmo é alegre, com um cantador solista tirando versos improvisados insistentemente contraponteados pelo coro, com um refrão tradicionalíssimo: “_ Esse boi é meu! _ Êh, boi! / Esse boi de caiado! _ Êh, boi! / O meu boi tá cansado! _ Êh, boi!, etc.” (Coronel Xavier Chaves, 1995, informante José do Rosário Anacleto, carinhosamente conhecido por "Zé Carreiro"). 


Em Santa Cruz de Minas encontrei o boi em 2002, inserido no Bloco das Piranhas.

Pellegrini Filho registrou em fotografia o boi no carnaval de Tiradentes. 

São João del-Rei conhece a tradição desde longa data, desgarrado no meio de blocos de carnaval, sobretudo das bandas do Tijuco, como o boi flagrado na fotografia desta página, vindo das Águas Férreas, metido no homônimo Bloco das Piranhas. 

Boi-de-carnaval, das Águas Férreas, Bairro Tijuco, São João del-Rei, 1992.

Em Prados é onde a tradição se conservou mais forte, com alguns grupos bem preservados que conservam nomes próprios. São conhecidos como boi-mofado, arrastando uma multidão atrás da batucada, movida por suas marchas e refrões... Êh! Boi! Desce acompanhado pela mulinha e pelo toureiro, e ainda, mascarados, que vem na esteira do cortejo. 

Boi-mofado, Prados, 2000. 

 Referência Bibliográfica

- SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Alguns Estudos Barroquizantes (ou "Estrondoso Brado") acerca do antigo arraial de São Miguel do Cajuru. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.9, 2000.  
SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Caquende. Jornal de Minas, São João del-Rei, nº125, ano 10, 28/05 a 03/06/2010.
- PELLEGRINI FILHO, Américo. Turismo Cultural em Tiradentes: estudo de metodologia aplicada. São Paulo: Manole, 2000. 188p.il. Prancha 28E. 

Para saber mais a respeito ver: 
 Pequena Bibliografia do Bumba-meu-Boi 
Origens do Reisados Brasileiros (sobretudo o item 04 - O Boi, um caso à parte)

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