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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 10 de fevereiro de 2018

Boi Mofado: pérola do carnaval de Prados

Prados é singular em seu carnaval. A cidade entra em efervecência por conta do momo. Celebrizou-se a cidade nas Vertentes pelo primoroso desfile de suas duas escolas de samba, a Uca e o Gato Preto. Porém, nessa postagem, o foco da atenção recai sobre uma modalidade do bumba-meu-boi, um boi de carnaval, simples em sua estruturação, mas grandioso em sua popularidade: o Boi Mofado.

Conta-se que surgiu no período da escravidão, pelas mãos dos cativos. Terminados os festejos, em razão da dificuldade que tinham de conseguir material para um novo boi, guardavam-no num canto da senzala, em condições precárias de iluminação, ventilação e umidade. No outro ano, quando iam dançar com ele de novo, o pano de revestimento ("couro") tinha manchas de bolor. O mofo acumulara pela má conservação. O nome surgiu então pejorativo, mas com o tempo se fixou como identidade, perdendo o tom zombeteiro.

Os grupos se mantiveram ao longo das gerações. A tradição oral diz que o grupo que havia na localidade do Muniz, na zona rural, era o mais antigo; mas, extinguiu-se. Em contrapartida formaram-se outros na cidade. Dos mais velhos era o do Bairro Pinheiro Chagas, ora desativado, mas com promessas de reativação. Perseveram três grupos de boi mofado em atividade, que tem seu próprio nome: o "Boi Chitado", na Atalaia, o "Boi Chitão", na Rua de Baixo e o "Boi Topa Tudo", no Quebra Castanha. No ano 2000, acompanhando o encontro dos bois, nas ruas centrais da acolhedora cidade, ainda vimos os quatro grupos em ação (*). Nesta postagem as imagens se atém aos dois últimos grupos.

Em suma o desenvolvimento dos grupos é o mesmo, ainda que cada um tenha sua identidade própria e alguns detalhes distintivos. Em essência se compõe de uma charanga de músicos da comunidade, com indispensável percussão (surdo, bumbo, tarol, pandeiro) e harmonizando vem um acordeon ou instrumentos de sopro (trombone, trompete, sax). Na frente surge o boi em bailado livre, negaceando para todas as direções; avança, recua, corre, gira, faz salamaleques, ataca repentino. Nessa movimentação brinca com adultos e crianças, mas são sobretudo estas que se envolvem em correria danada, rindo... As menorzinhas tem medo; as maiores são provocativas. Além do boi sempre aparecem mascarados diversos, gente enfeitada, foliões desgarrados que aderem à passagem animadíssima do boi, que carreia grande acompanhamento de gente fazendo coro. Alguns grupos mantém um personagem tradicional: o cavalinho, burrinha ou mulinha, feito de uma armação em balaio emborcado, revestido por um pano, no qual se mete o folião como se o cavalgasse. A cabeça e o rabo fingidos compõe a alegoria. O cavalinho rodeia o boi, como se o acompanhasse na movimentação. Por vezes também aparece um toureiro.

O boi em si é relativamente grande em relação a outros bois de bumbas. A estrutura corporal é rígida ("boi duro"), mas o pescoço, que é relativamente longo, mostra uma flexibilidade limitada. Os chifres são enfeitados de fitas coloridas e costumam ser argolados, como um boi carreiro.

Naturalmente existe uma certa rivalidade entre os bois, sadia, contudo. Um momento pitoresco é quando se encontram sob a tenda armada na praça: frente a frente se ameaçam cabeçada, como dois marruás brigando num pasto. Mas a briga de fato não acontece, a não ser no campo simbólico.

Os grupos cantam. Ora música comum de carnaval, bem popular; ora a marcha própria do boi, com um verso solista intercalado com o refrão coral fixo, "êh boi":

"_ Esse boi não é meu...
_ Êh! Boi!
_ É da Rua de Baixo!
_ Êh! Boi!
_ Ele é muito macho!
_ Êh! Boi!"
(Etc.)

Em tudo o boi mofado é espontâneo. Manifestação legítima da cultura popular ele é livre de amarras de formato. É aberto à adesão da assistência por onde passa. Sua passagem alegre contagia o folião, agita o turista e envolve as crianças. Percebe-se o carinho do pradense para com a manifestação, que indubitavelmente faz parte de seu folclore.

Aspectos do Boi Chitão

O Boi Chitão e o séquito de crianças.  

Crianças fugindo das investidas do boi. 

O boi põe a criançada em correria. 

Músicos do Boi Chitão. 

Mascarados diversos se mesclam ao alegre cortejo do boi. 

Quando o boi para em breve descanso o povo aglomera em redor e
faz carinho, admira, como se o venerasse. 

Aspectos do Boi Topa Tudo

O boi arrasta uma multidão. 

Desde muito jovem se aprende a admirar o boi. 

A mulinha. 
Outro aspecto da mulinha. 
As correrias do boi.  

A charanga do boi: percussão e metais de sopro. 

Alguns personagens que acompanham o boi. 

Vídeos

Boi Topa Tudo

Boi Chitão


Notas e Créditos

* Acesse neste blog outras postagens sobre este assunto:

Boi Mofado: algumas imagens do tradicional carnaval de Prados  
Bumba ... meu boi!
Boi de Caiado: o Bloco do Boi em Coronel Xavier Chaves

** Agradecimentos especiais a "Ti'Mané" (Edmilson Cândido da Silva) e ao sr. Joaquim Henrique, pelo atenção do acolhimento e presteza das informações.
*** Texto e acervo: Ulisses Passarelli
**** Fotografias e vídeo: Iago C.S. Passarelli

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