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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O cabelo na tradição popular

O cabelo é um símbolo de força, a exemplo do hercúleo Sansão bíblico (Livro dos Juízes, capítulo 13 e seguintes), do qual toda força procedia de sua vasta cabeleira. Dalila traiçoeiramente o seduziu, descobriu seu segredo, embriagou-o e cortou seu cabelo. Enfraquecido foi vitimado pelos filisteus. 

O Deuteronômio, no vigésimo primeiro capítulo prescrevia aos hebreus raspar a cabeça e cortar as unhas das prisioneiras de guerra que acaso quisessem tomar por esposas. Era uma prática de luto. Já o Livro dos Números, no capítulo 6, tratando da lei sobre os nazarenos, determinava aos fiéis que quisessem declarar voto de nazarenato a interdição do corte dos cabelos até o dia da consagração: "a navalha não passará pela sua cabeça" ... "será santo, deixando crescer livremente os cabelos de sua cabeça." (versículo 5)

É muito vasto o folclore do cabelo. Nos folguedos populares é costume alguns personagens usarem tranças postiças, conforme registros dos folcloristas no nordeste brasileiro e como mostra as fotos abaixo de folias dos Campos das Vertentes, feitas com pelos de rabo de cavalo.

   

Tranças em palhaços de folias de Reis: à esquerda, São Sebastião da Vitória (São João del-Rei) 
e à direita, Conceição da Barra de Minas. 27/01/2014.

Observar também o flagrante abaixo, imagem tomada de um grupo de congado:

Trança em caboclo da Guarda Divino Espírito Santo,
Bairro Nova Cintra, Belo Horizonte/MG. 27/04/2014.
É costume antiquíssimo consagrar o cabelo: deixá-lo crescer e depois cortá-lo como oferenda.

Certas tonsuras são específicas de algumas concepções religiosas e etnias. Entre os ex-votos encontram-se mechas entregues nas salas de milagres. Outro exemplo é do cabelo humano especialmente reservado por longo tempo pelo fiel, para ser cortado e ajustado à cabeça dos santos barrocos, fazendo as vezes de cabelo da imagem.

Senhor dos Passos, com belos cabelos cacheados.
Passinho da Rua Padre José Maria Xavier,
São João del-Rei/MG, 17/04/2014.

Nos terreiros de umbanda vê-se com frequência a cena das mulheres que estão na gira soltando os cabelos presos antes da incorporação do guia. No geral observa-se que se a médium mantiver o cabelo preso a entidade a influencia fortemente mas não incorpora.

O cabelo povoa o imaginário popular servindo de inspiração para composições poéticas de nosso refraneiro e cancioneiro. O saudoso capitão de congado José Camilo da Silva, por volta de 1994 cantou-me a seguinte peça de moçambique, dizendo-a muito antiga, cantada pelo Capitão "Barão", de um grupo de Ritápolis, extinto a décadas:

Maria Colina,
quando te chamar, vem cá,
passa o pente no cabelo,
deixa o cabelo anelar...

No Rio Grande,
deixa o povo sossegar!

O tratamento dos cabelos se faz na medicina popular com ervas específicas. Para cabelos ressecados, quebradiços, usam esfregar um unguento à base de mel, com babosa ou polpa de abacate; para fraqueza das raízes, com queda, o banho da infusão das folhas do jaborandi (*) (tem o falso e o verdadeiro, este mais eficaz), das matas de galeria (ciliar), e do murici-branco, dos cerrados. O tratamento de piolhos procede-se com um banho de vinagre. Se a infestação é muito forte e não melhora, procede-se à simpatia de pegar três piolhos e colocar dentro de uma caixinha de fósforos e despachar numa encruzilhada, pedindo para levar embora esses parasitas. Em pouco tempo a pessoa se vê livre deles. O tratamento de caspas faz-se com sumo de limão. Este blog apenas registra o costume popular, mas não aconselha sua prática, que pode eventualmente prejudicar a saúde.

Murici-branco. Chapadão, Serra de São José.
Tiradentes/MG, 31/05/2014.
Jaborandi-verdadeiro. Brumado de Cima (São João del-Rei/MG).
Mata ciliar do córrego local,11/07/2015. 

Jaborandi-falso. Pombal (São João del-Rei/MG).
Mata ciliar do Rio das Mortes, 12/04/2014. 


Para cortar o cabelo algumas pessoas observam a fase da lua conforme o resultado pretendido: cortá-los na cheia, preserva a vitalidade habitual; na lua nova, não há influência; na minguante o crescimento será lento e tende a ralear a cabeleira; na lua crescente o cabelo se avoluma e cresce rápido. Assim reza a crendice, como anotei em São João del-Rei.

Na crendice popular o cabelo guarda a essência carnal da pessoa. Por isto, em concepção anímica, feitiços feitos em fios atingem por conseguinte a própria pessoa a quem o cabelo pertencia. A partir deste princípio, por temor, muitos não cortam o cabelo em qualquer barbearia ou então, pedem ao profissional o favor de recolher as aparas e embrulhar. A pessoa então leva consigo para dispensar onde melhor convier.

Há quem queime os cabelos cortados, por praticidade, mas os crédulos invalidam esta ação dizendo-a geradora de “cabeça quente”. A pessoa fica nervosa, agitada, com cefaleia, sem motivo aparente. Recomenda-se assim jogar todo resíduo do corte numa moita de bananeira, para ficar com a “cabeça fresca”.

Alguns homens não gostam de cortar o cabelo com mulheres, supondo que a mão feminina sobre a cabeça masculina representa dali por diante um domínio, ou seja, o homem enfraquecido passará a ser subjugado pelas mulheres, decerto uma sobrevivência hodierna do mito de Sansão.


Notas e Créditos

* Um anúncio do antigo jornal O Repórter, n.23, de 27/06/1907, publicado em São João del-Rei, dizia expressamente: "A JABORANDINA é a locção mais preferida pelos freguezes do Salão Santos; extingue por completo a caspa; á venda neste salão." Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida.
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: Iago C.S. Passarelli (palhaços; jaborandi-verdadeiro); Ulisses Passarelli (Sr.dos Passos, jaborandi-falso, murici)

3 comentários:

  1. São detalhes importantíssimos para o nosso conhecimento!
    Parabéns, Ulisses!

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  2. Parabéns por esta iniciativa que desvenda e mostra o quanto é importante o nosso folclore!
    A essência escondida nos detalhes.
    Valeu amigo!
    Miranda.

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    1. O cabelo é um vasto tema folclórico: poder-se-ia falar dos tipos de corte e penteado (cóqui, trança, rabo de cavalo, maria-chiquinha, trepa-moleque), as cores, o anedotário sobre o careca, etc. O folclore é uma surpresa em cada tema, uma viagem em cada pesquisa. Grato pelas visitas e comentários. Grande abraço, Miranda! Dia que formos na serra de volta em passeio te mostro o murici-branco citado no texto.

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