Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




segunda-feira, 19 de maio de 2014

Estações abandonadas

É com grande pesar que vemos ao longo do itinerário da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), alguns remanescentes arquitetônicos em lastimável estado de conservação. Não bastasse a injustificável paralisação das atividades e erradicação dos trilhos, com várias construções históricas demolidas, algumas ainda jazem em penúria à espera de ações capazes de recuperá-las, enquanto bem patrimonial. Este sucateamento é um desrespeito à história e ao papel  econômico-social das ferrovias no país e em nossa região, em especial. Bem se podia, a bem da memória, conservá-las e dar-lhes como monumento uma utilização prática para a comunidade, que seria em processo educacional, aliada da preservação. 

Existem muitas possibilidades a estudar. Uma vez restauradas estas velhas estações hoje depredadas, imundas, sujeitas à invasão, poderiam ser centros de artesanato, ou de memória, museu, biblioteca, espaço cultural para exposições, lançamento de livros, apresentações culturais, local de realização de palestras, cursos, ponto de reunião de associações comunitárias, aulas, cursos de capacitação e reciclagem, sede de instituições por comodato, etc, etc, etc, a se propor, a se pensar e planejar. Qualquer opção acima é melhor que a vista hoje, um quadro funéreo.

Neste sentido é mister lembrar os exemplos das estações de Ibituruna e Coqueiros (esta no município de Nazareno), antes na mesma situação deplorável, hoje restauradas e úteis. É o que esperamos das autoridades e gestores responsáveis por estes bens. Outros exemplos poderiam ser enumerados mas estes se mostram explícitos o suficiente para representar o quadro geral. 

Estação de César de Pina em abril de 1999...

... e em 18/05/2014, ainda mais degradada e já sem o telhado da plataforma. 
Estação de Nazareno em 1976 ...
... e em janeiro de 2014: lamentável abandono!
Estação de Nazareno, 26/01/2014. 
* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: César de Pina, Ulisses Passarelli; Nazareno, 1976, David Passarelli; Nazareno, 2014, Iago C.S. Passarelli


domingo, 18 de maio de 2014

Charola

Dentre outras acepções, charola é um pequeno andor. Diz uma antiga quadrinha popular:


Charola e andores azuis. Capela de N.S. da Vitória,
São Sebastião da Vitória (São João del-Rei/MG).
"Que santo é aquele, 
que vem na charola? 
É São Benedito 
e Nossa Senhora!” 
(domínio público)

Algumas charolas tomam formas específicas, como barcos (de São Pedro e N.S. dos Navegantes - padroeiros dos pescadores) e carrocerias de caminhão (de São Cristóvão - padroeiro dos motoristas).

Charola é também um antigo cortejo peditório trazendo a imagem do Senhor Bom Jesus sobre um pequenino andor, que rapazes carregavam pelas ruas pedindo esmolas para a Festa dos Passos. A este respeito existe uma notícia levantada por Antônio Gaio Sobrinho, informando o incidente de 1781, em São João del-Rei, quando o grupo foi atacado pelo Brigadeiro Francisco Joaquim Araújo Magalhães, que espatifou o andorzinho sob os pés e quebrando a imagem do Senhor dos Passos, levou-lhe a cabeça, sem a restituir, não obstante os protestos.  

A origem da charola seria decerto portuguesa. Em Portugal há as “alvíssaras”, que segundo Cascudo“são grupos de rapazes e moças que cantam versos em louvor da Ressurreição, indo à porta da igreja ou às casas dos amigos, recebendo amêndoas, passas e tremoços.” 

Na zona da mata mineira, microrregião de Viçosa ainda são praticadas as charolas de quaresma como se fossem folias dos Passos, onde foram referenciadas por Paniago e por Giovaninni Jr.

Referências bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. Visita à Colonial Cidade de São João del-Rei.  São João del-Rei: Funrei, 2001. 128p. p.107.  
GIOVANINNI JÚNIOR, Oswaldo. Registro do Folclore da Zona da Mata. Juiz de Fora: Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina / FUNALFA, 2004. (Folder)
PANIAGO, Maria do Carmo Tafuri. O Folclore na Zona da Mata Mineira. Boletim da Comissão Mineira de Folclore, Belo Horizonte, dez. / 1991. n.l4. 16p.il.


Notas e Créditos

* Texto e fotografia (2013): Ulisses Passarelli

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Na minha terra se fala assim - parte 4

Dar trela – dar confiança, permitir, consentir, oferecer liberdade.
Desbaratinado – desorientado, psicologicamente abalado.
Descanelado – de pernas compridas, pernalta.
Despinguelado – infrene, veloz, sem controle.
Déu em déu – sem rumo, perdido na vida, sem moradia ou ocupação fixa.
Embananado – complicado, embaraçado, enrolado.
Embatumado – de consistência densa. Pesada, grosseiro.
Embodocado – em má postura, curvado, em posição apertada.
Embuchar – encher o bucho, comer muito, empanturrar-se, alimentar em demasia.
Empandongado – o mesmo que embodocado.
Empipocado – munido de erupções cutâneas vesiculosas, brotoejas, superfície irregular.
Encarangado – encolhido de frio, de movimentos letárgicos.
Encher o pandu – comer além do necessário.
Encorujado – o mesmo que encarangado. Alusão ao aspecto da coruja empoleirada.
Encroado – que não se desenvolveu adequadamente. “Bolo incroado”: aquele que o fermento fez pouco efeito.
Entizicar – “intizicar”, encroar, ficar pequeno, não crescer, permanecer sem desenvolvimento.
Entregar os pontos – desistir, dar-se por derrotado, desanimar.
Escarcéu – confusão, briga, discussão, fuzarca.
Esmerilhar – usar abusivamente, correr muito. “Desceu o morro esmerilhando a bicicleta.”
Espanador da lua – pessoa muito alta e magra. “Pendão das almas”, “pau de virar tripa”, “bambu vestido” e “pinguela”, neste sentido, são expressões sinônimas.
Espírito de Porco – indivíduo perverso, maldoso, que comete erros propositais para o próprio benefício.
Estar com a cachorra – estar enraivecido, furioso, agitadíssimo.
Estar em papos de aranha – estar em apuros, em “maus lençóis”, em dificuldades.
Estar na barba do bode – o mesmo que o anterior.
Estoporar – sofrer um choque térmico, adquirir um resfriado forte e repentino.
Galinha – gíria chula e depreciativa aplicada a mulheres levianas.
Galo de São Roque – solteirão, homem maduro em idade que não casou[1].
Golpe do joão-sem-braço – trambique, falcatrua, negócio ilícito, criar uma situação para se tirar vantagem.
Jabiraca – mulher deselegante, que se veste com mau gosto, de andar trôpego, sem boa educação. Roceira, caipira.
João teimoso – pessoa muito teimosa. Turrão. Pessoa inflexível [2].
Judas – traidor. Chama-se a quem age com falsidade.
Jurupoca chiar – ou jurupoca piar: situação tensa, estressante, aflitiva, na iminência de um acontecimento. “Agora é que a jurupoca vai chiar”[3].
Ladainha – falação, falatório, conversa sem proveito, repetitiva.
Lambão – indivíduo sem preocupações com higiene. Serviço mal feito, sem acabamento: “pedreiro lambão”.
Lambiscar – comer a qualquer hora em pequenas quantidades, qualquer tipo de alimento. Comer petiscos em lugar do almoço.
Lambrequeira – sujeira, meleira, “borroqueira”. Lambusado.
Langanho – pedaço grande de um certo alimento. “Tirou um langanho de carne”.
Lapa – grande, de bom porte. “Pescou uma lapa d’uma traíra!”
Leitão – em sentido pejorativo, pessoa gorda. Obeso.
Lelé – doido, sem domínio completo das faculdades mentais.
Levado da breca – traquinas, sapeca.
Lisbano – muito próximo, quase tangenciando, não esbarrando por pouco. “Perdeu o freio da bicicleta e passou lisbano no poste.”
Muquirana – sovina, que tem usura. “Garrafinha”, “munheca de samambaia”.
Parrudo – forte, musculoso, de grande porte físico. “Armário”.
Queimar as pestanas – pensar muito, raciocinar bastante, se esforçar para achar a solução de um problema. O mesmo que “queimar a muringa”, “queimar a cachola”.
Quizumba – africanismo: confusão, tumulto, discussão, inimizade. “Arranjar quizumba”.
Rabo de arraia – gostoso, de sabor inusitado, delicioso. “O chouriço ficou rabo de arraia![4]
Renquém – de pouco valor, desqualificado. “Marido renquém.”
Roscofe – o mesmo que renquém. Que funciona mal [5].
Sangue de barata – quem não se abala com as vicissitudes. Pessoa insensível, que não se comove, que não se irrita mesmo provocado.
Santo do pau oco – quem se faz de bom, mas em verdade é mau. O que aparenta ser o que não é. Dissimulado[6].
Savajão – grosseiro, deselegante, abrutalhado.
Serviçama – muito serviço, trabalho excessivo.
Sobrou – caiu, despencou. “Subiu no abacateiro e sobrou do galho.”
Sujismundo – porcalhão, imundo, sem higiene pessoal, andrajoso.
Zureta – desorientado, de pensamento desgovernado.

Almoço da Festa do Divino: momento de confraternização e conversa descontraída.
Bairro Matosinhos, São João del-Rei/MG.

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S. Passarelli, 28/05/2012. 


[1] - Referência ao costume rural de consagrar desde pintinho um galo a São Roque, que é criado isolado do contato com galinhas de maneira vitalícia, permanecendo virgem. O costume garante a saúde do restante da criação. O galo só é substituído por outro em caso de morte e não pode ser usado como alimento, vendido, trocado ou doado.
[2] - Referência a um brinquedo: boneco de parte superior delgada e inferior larga e arredondada, que por mais que se tente deitá-lo, volta à posição vertical automaticamente em movimento de balanço.
[3] - Jurupoca ou jeripoca: peixe de couro de água doce, siluriforme, pimelodídeo, Hemisorubim platyrhynchos. De ordinário emite um chiado característico quando junto à superfície.
[4] - Rabo de arraia é também um golpe de capoeira.
[5] - Diz-se que é o nome aportuguesado de uma antiga marca de relógios de bolso, que tinham fama de funcionarem precariamente.
[6] - Alusão às imagens de santos feitas em madeira no período colonial, ocas, mas simulando maciças, em cujo interior se contrabandeava ou apenas escondia em casa, ouro, joias, pedras preciosas, para fugir à sanha de ladrões e da fiscalização. 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Cava, lugar assombrado

Cava é um corte em um morro ou barranco dando continuidade a uma estrada vicinal, não pavimentada, para evitar um desvio. Rasgada na terra a enxadão e picareta, é sempre rudimentar, esburacada, barrenta, deslizante. Atravessar uma cava exige cuidados nas preces, pois é lugar fatídico.

Nas festas de roça, um congado só passa por uma cava depois de se benzer na entrada, com cantos, rezas e a coreografia de meia-lua. Do contrário, o grupo desafina a cantoria, rebenta couro de caixa, rompe corda de viola, o capitão esquece os versos, congadeiro desentende, tem dor de cabeça, canseira incontrolável, até desmaia.

Ficou afamado a mais de meio século o Capitão Barnabé, de um catupé do povoado da Cachoeira, distrito de Coronel Xavier Chaves. Dizem, que ele deixava uma mandinga preparada numa cava, por baixo de uma raiz da árvore do óleo-vermelho, que aflorava sobre a poeira. Seu alvo era o outro catupé do município, um congado do Bairro Tanque, hoje Vila Fátima. Quando o capitão supostamente rival passasse por ela, seria afetado (*). Corria estória que “Barnabé” era endiabrado e tinha parte com o capeta. Chegando numa porteira, pulava-a até mesmo estando de costas para ela, numa rapidez de admirar. Já do outro lado abria a porteira para seu congado passar. Para desviarem do trabalho bravo de Barnabé era preciso passar pelo campo afora, sem entrar na cava, saindo da estrada...

Nas estórias sobrenaturais é o lugar místico mais propício à aparição de espectros e acontecimentos estranhos. Nela  fazem feitiços perigosos. Se o sujeito não tiver anjo da guarda firme e não souber rezas fortes, não se dá bem.

É nas cavas que a montaria empaca misteriosamente... por mais que o cavaleiro fustigue o animal com o chicote ele se recusa a seguir adiante (porque está enxergando uma invisão, visagem, assombro: o espírito guardião da cava). A tropa ao passar por ela, pode se desorganizar, pela desorientação da égua madrinheira, que vai à frente; pode rebentar uma correia de sustentação de carga, ou os cargueiros começarem a brigar. O carro de bois trava, geme dobrado, sai fumaça no cocão, quebra canzil. A boiada estoura; o sensitivo passa mal... Cava é assim.


Cava antiga e abandonada nas Três Praias, São João del-Rei. 

Notas 

* O capitão da guarda de Coronel Xavier Chaves na primeira metade do século XX era "Romualdo", depois substituído por "Carioca".

                                                                            Créditos

Informantes: diversos, sobretudo saudosos capitães de congado de São João del-Rei: Altamiro Ponciano, José Camilo da Silva e Luís Santana.

Texto e fotografia (2003): Ulisses Passarelli.

Revisão: 31/03/2025.

domingo, 11 de maio de 2014

Caboclo d'água

Muitas vezes temos lido e ouvido falar sobre o mito do caboclo d'água em referência ao Rio São Francisco, onde é muito conhecido e temido. É propalado, que as figuras de proa chamadas carrancas, são postas nas embarcações para afugentá-lo.

Engana-se porém aquele que o supõe exclusivo daquelas águas. Em vários locais do estado o mito é conhecido, a exemplo do sul de Minas (Rio Sapucaí), região central (Rio do Carmo) e no nosso Campo das Vertentes (Rio das Mortes).

É um ser mitológico das águas doces, que vive submerso. Vez por outra se deixa avistar numa margem, ou só mantém o busto para fora do líquido, em atitude de observação dos arredores; ou ainda, põe apenas a mão para fora, peluda, forte e munida de garras. Descrevem-no como uma criatura arredia, sorrateira e de grande força física. Tem a fisionomia marcante, medonha, de olhar profundo, sisudo. Seus gestos são rápidos. Sua tez lembra a dos índios, daí a referência a ser um caboclo. Em menor parcela alguns o chamam de "negro d'água".

Puxa canoas pelo bico da proa, fazendo-as afundar, ou pega a perna de banhistas incautos e os leva para as profundezas, donde jamais retornam.

Existem vários relatos de sua presença nesta região, sobretudo nas lagoas que existem entre Santa Cruz de Minas e Tiradentes, ou ainda, no rio, imediações das paragens do Sutil, Casa da Pedra, Jacarandá e Viturina. 

Populares destas duas cidades, dizem que ele seria o responsável pelos afogamentos repentinos, sem causa aparente, por vezes, de bons nadadores, que contudo, não resistem à sua tração para o fundo. Por isto não se deve nadar nos lugares onde já foi avistado ou ocorreram estes acidentes. Em qualquer local onde se entra na água, convém respeitar: "dá licença!", se diz ao tocar nas águas, respeitando seu dono, o misterioso caboclo. Pescadores costumam ofertar-lhe fumo como agrado para evitarem ataque: joga-se um pedaço nas águas ou se deixa no barranco do rio, bem perto da torrente, ao pé de uma árvore.

Uma narrativa ouvida em São João del-Rei a cerca de uma década, falava de dois pescadores num barco apoitado num remanso rio abaixo, sobre um poção. De repente a canoa envergou como se um grande jaú tivesse ferrado uma das linhas de pesca, mas para espanto deles, uma mão vigorosa e cabeluda saía do rio e cravara suas unhas aguçadas na madeira da ponta da pequena embarcação forçando seu afundamento, que só não se concretizou porque um dos pescadores, num gesto instintivo, bateu-lhe de facão, provocando o corte e queda do membro na água.

Lagoa do Sutil, em São João del-Rei:
um dos lugares citados como ponto de aparição do Caboclo d'Água. 

Notas e Créditos 

* Texto e fotografia (06/09/2009) : Ulisses Passarelli

sábado, 10 de maio de 2014

Entregadores de Leite

Muito mais que um simples veículo que carrega as latas cheias de leite para o laticínio toda manhã, nas roças, o “caminhão do leite” é, além de entregador, o integrador. Tradicionalmente faz o intercâmbio entre fazendeiros e sitiantes na zona rural. Pelas estradas vicinais, toda manhã bem cedo, em cada jirau armado numa sombra do acostamento, pega uma lata cheia deixada pelo retireiro, que trabalhou na ordenha desde a madrugada e deixa a vazia; leva um recado ao próximo ponto; traz uma encomenda do povoado anterior; dá uma carona até o arraial seguinte ou a um entroncamento; carreia notícias em geral; marca a hora do trabalho matutino.

Outrora, nas festas dos arraiais, ele trazia encarapitado em sua carroceria um punhado de devotos em romaria para as capelas. Nas queimas de judas, o boneco era amarrado em sua carroceria, preso a um pau e buzinando sem parar, chegava acompanhado de carreata, trazendo o boneco para a forca na árvore de embaúba, fincada na sua chácara.

Pelos poeirentos caminhos rurais o caminhão do leite é o veículo mais prestigiado depois do carro de bois. Estão em franco desaparecimento, substituídos pelos caminhões-tanque, com mecanismo de resfriamento. O regramento sanitário obriga a normas específicas de transporte do leite, o que levou ao desaparecimento dos veículos alternativos, que só resistem onde a fiscalização não se faz diuturna. 

Com eles também vão rareando os entregadores de leite, de porta em porta, antes em carroções, como vi na Rua Antônio Rocha, em São João del-Rei, por longos anos desde a infância, em veículo fechado, de chapa metálica pintada de azul, com duas portas atrás. O condutor parava o burro, descia, abria as portas e tirava o latão de leite para venda em domicílio.

Outros entregadores o fazem ou faziam pendurando os latões em motocicletas, ou mais tradicionalmente, no lombo de cavalos. É o fornecimento de leite in natura, gordo, bom para o doce de leite, doce deleite... Rende muita nata, ideal para a fabricação caseira da  manteiga e matéria-prima de quitandas, sobretudo da inigualável rosquinha de nata.

Exigências, taxas, normas. Caminhos do progresso traçam novos rumos para o produtor rural que parecem fazer de tudo para complicar sua vida, mais contribuindo para o êxodo para a periferia urbana que para mantê-lo na roça. A pequena produção de subsistência se arrasta enferma. Estas cenas pitorescas se perdem. A socialização entre campo e zona urbana se distancia, o caminhão tanque não é mais o estafeta de sítio em sítio. Ao homem do campo resta adaptar-se ou mudar para a cidade.

Um caminhão do leite atravessa a cidade de São João del-Rei.

Motocicleta com latões pendurados. 

O leiteiro vindo da comunidade do Buião, atravessa a Serra do Lenheiro 
para trazer leite aos fregueses do Senhor dos Montes, em São João del-Rei.

Carriola manual para entrega de leite.
Bairro Bom Pastor, Grande Matosinhos, São João del-Rei.

Carroça leiteira em São João del-Rei.
Data, autoria e fonte não identificadas. 


Créditos

- Texto e fotografias (exceto indicação em contrário na legenda): Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 20/06/2025. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Velha do Chinelo

O povo é assim. Usa estórias para ensinar, dar exemplos, transmitir experiências, moral, virtudes e sabedoria. No meio de uma conversa informal, um bate-papo, aflora uma joia da cultura popular. O folclore não é apenas um velho costume que se mantém por mera repetição. Ele tem uma lógica, uma inteligência didática. Assim o boiadeiro Zé Cristino saiu-se com esta narrativa. Tão grande quanto a hospitalidade mineira é a desconfiança. Minha sogra dizia: "coração dos outros é terra que ninguém pisa, meu filho".

Segue um exemplo materializado em forma de um conto do demônio logrado. Não é qualquer um que nós colocamos para dentro da nossa casa. Nem tudo que ouvimos merece crédito. A cilada reside por traz de aparências inocentes. O mal tenta, atenta, corrompe e usa de artifícios para chegar. O conto popular transmite essa lição. Até o capeta deixa o exemplo de cumprir sua promessa, por mais execrável que seja...

*  *  *

Diz que o diabo atenta o casal por sete anos seguidos para estragar o amor, separar e ganhar a alma. Depois não pode mais subjugá-los à provação.

Havia um casal unido pelo amor e pela fé. Tementes a Deus, eram honestos e se respeitavam. Tudo que faziam levava o nome do Senhor: "se Deus quiser!", "graças a Deus!", "Deus quer assim", "Deus seja louvado". Rezavam e praticavam o catolicismo.

Moravam numa fazenda. O capeta há quase sete anos tentava separar os dois sem êxito. Faltando um dia para esgotar o prazo que dispunha, tomou a forma humana, montou em um cavalo e saiu pelos caminhos, desiludido e pensando o que fazer. Passou por um casebre paupérrimo onde morava uma idosa, vizinha do casal bem aventurado. Estava na janela. Satanás parou.

_ Boa tarde! Mas... não conheço o senhor. É de fora?
_ Não senhora. Faz sete anos que moro aqui. Me arranja um copo d'água?

A velha trouxe a água e continuou com sua curiosidade:

_ Sete anos?! Não é capaz. Como que nunca te vi...
_ É que eu estava muito ocupado em ganhar a alma daqueles dois lá.
_ Uai! Quer dizer que o senhor é o tinhoso?
_ Não sei o quê que eu sou não. Isso não interessa. O que importa é ganhar aquelas almas hoje, porque, amanhã, esgota o prazo.
_ Ah, isto é fácil!
_ Fácil? se eu não consegui...
_ Já disse que é fácil. 
_ Se a senhora conseguir eu te prometo que dou tudo o que a senhora quiser. Tudo! É só pedir... Quer ficar rica? Quer uma casa boa? 
_ Não. Eu sou pobre, vou morrer pobre, mas estou satisfeita. O que está me fazendo falta é um par de chinelos.
_ O quê?! Só isto!!! É pobre até para pedir... Quer tratar assim então? 
_ Quero. Amanhã o senhor volta aqui. 

O demônio, figurado em homem, foi embora. 

A velha não perdeu tempo. Foi até  a fazenda onde morava o casal e só a mulher estava em casa. O marido saiu cedo para trabalhar. De longe ela o avistava no alto de um morro, roçando pasto. 

_ Bom dia! (disse a velha à mulher casada)
_ Ô dona fulana, chega pra cá! Pode entrar. Senhora é de casa, gente conhecida. 
_ Dá licença. E seu marido?
_ Está pelejando na roçada de pasto. Olha lá...
_ Ah, minha filha, esse mundo! Oh, num é candonga não [1], mas não acho justo você aqui sozinha em casa o dia inteiro nessa luta: varre, passa, lava, cozinha, limpa tudo e seu marido encontrando com outra...
_ Está doida! Ele nunca faria isto!
_ Eu sabia que não ia acreditar, mas é só tirar a prova. De tarde você vai ver. Eles encontram lá debaixo daquela árvore no pasto. É só esperar. Mas eu vou te ensinar uma simpatia para ele esquecer ela de uma vez por todas: pega uma navalha na hora que ele estiver dormindo e passa por cima do pescoço dele em cruz três vezes, sem encostar. É bater e valer! [2] Mas fica calma, filha. Cuidado.. Não briga! 

Foi-se a mentirosa e a esposa ficou atormentada com os pensamentos. 

A velha foi para o seu casebre. Trocou de roupa, colocou um vestido todo colorido. Mudou o jeito do cabelo e até a ginga do andar. Deu volta para não ser vista, subiu o morro pelo outro lado e entrou no pasto que o homem estava roçando. Ele logo estranhou: 

_ Uai, a senhora aqui? Tem alguma novidade ou recado?
_ É meu filho, essa vida não é fácil. Sua mulher...
_ O quê que tem ela?
_ Tenho que te contar o que vi. Chega aqui pra sombra... 

Foram para debaixo da tal árvore. De longe a esposa viu a silhueta dos dois, mas não reconheceu a velha por causa da distância. Acreditou que era verdade a traição do marido. 

A velha lhe falou: 

_ Senhor sabe, né, eu sou de casa. Chamei... chamei na sua fazenda, ninguém atendeu. Rodeei pelos fundos e entrei pela cozinha. Escutei aqueles risos lá dentro. Voz estranha. Cheguei e vi sua mulher com outro homem no quarto. 
_ Não acredito! É mentira!
_ Verdade! Pode acreditar. E digo mais: escutei eles tramar... Ela vai te matar com uma navalha para ficar com a fazenda e ter sossego de viver junto com o amante. O senhor chegando lá não fala nada com ela, não demonstra. Faz que não teve nada. Mas fica prevenido. De noite o senhor vai ver a armadilha dela. 

Semeada a discórdia, a ardilosa foi-se embora. Bastante nervoso, o homem pensou muito e resolveu seguir o conselho da velha. Chegou em casa e não falou nada para a mulher. Ela também nada comentou com ele. Ambos estavam calados, estranhos um com o outro. Logo ele se fez de muito cansado e foi dormir. Ao deitar deixou o revólver armado sob o travesseiro. Fingiu que dormia. Chegou a esposa e chamou. Ele não respondeu, como num sono pesado. Esbarrou nele. Teve então certeza que já dormia mesmo. Pegou a navalha no banheiro e foi fazer a simpatia recomendada pela velha na garganta. O homem pressentiu ela junto dele, abriu os olhos, a viu com a navalha. Lembrou da fala da vizinha e atirou imediatamente na cabeça da esposa. Ao vê-la morta, sangue para todo lado, entrou em desespero e descontrolado, suicidou-se, dando um tiro no próprio ouvido. 

O maligno, que a tudo assistira escondido em sua invisibilidade, no outro dia se fez de novo visível em  forma de cavaleiro e foi à tapera da velha maliciosa [3]. Pegou uma vara comprida, colocou o par de chinelos novos na ponta e entregou a ela de longe, esticando a vara até a janela, sem apear do animal. Falou: 

_ Ôh, velha, toma aqui o seu chinelo! A senhora é tão perigosa que nem eu quero chegar perto... Morre logo, viu, não demora não, que lá no inferno a senhora vai fazer proeza!

E foi-se embora para as profundezas, satisfeito com a vitória. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Informante: José Cândido de Salles ("Zé Cristino, boiadeiro") 08/09/2000, Santa Cruz de Minas/MG.

Notas

[1] Candonga: africanismo, com o sentido de fofoca, intriga, mexerico, calúnia, fuxico, inverdade. 
[2] Bater e valer: o mesmo que "tiro e queda". Expressão popular que indica infalibilidade. 
[3] Tapera: casebre, edificação arruinada. 

- Revisão: 29 de março de 2026. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Caquende homenageia o lavrador

Conforme anunciado neste blog, concluiu-se dia 04 de maio, o VII Encontro da Cultura Popular do Povoado do Caquende, em São João del-Rei/MG. Não obstante desde edições anteriores fosse dada grande atenção às atividades da vida rural, em 2014, de modo temático, concentraram-se as homenagens em torno do trabalho rurícola, transcorrendo em clima ordeiro e animado. 

A ampla programação iniciada dia 30 pp. foi coroada neste domingo com a participação de diversos grupos culturais convidados. Estiveram presentes os congados de Carrancas, Conceição da Barra de Minas, Santa Cruz de Minas, Prados e São João del-Rei (quatro, a saber: Solar da Serra, Matosinhos e dois de São Gonçalo do Amarante). Marcou presença também com cantoria muito afinada a folia de Reis do povoado de Coqueiros (Nazareno). Outrossim se apresentaram um grupo de capoeira são-joanense, o "Filhos de Joana d'Arc" e a muito tradicional banda de música de nosso distrito, São Miguel do Cajuru. 

Os grupos ao chegar, visitaram a capela da padroeira, Nossa Senhora do Carmo. Após os louvores, vieram a uma grande tenda armada ao lado. Nela foi montado um fogão à lenha, o tempo todo fumegando café. Mais ao lado, um altar improvisado expunha aos devotos uma imagem da Senhora do Monte Carmelo, continuamente venerada pelos dançadores e visitantes. Daí o nome "Café Caipira com a Padroeira", que constou na programação. Caipira, posto que, na mesa ao largo, serviram em peneiras de taquara e gamelas de pau, deliciosos biscoitos de fubá, outros de polvilho e ainda pedaços de mandioca e inhame cozidos, muito consumidos nas roças. Servidos à vontade, os fiéis tocaram e cantaram pelo amplo gramado, muito aprazível. 

Ao fundo se via um cercado em quadra onde foram fincados muitos pés de milho espigados, secos, no ponto de colheita e montado um pequeno rancho de capim, desses que se usava na roça para guardar marmitas e água fresca. Como um cenário, essa roça de improviso serviu de palco à representação de um grupo de lavradores, simbolizando a homenagem ao homem do campo. A partir da tenda, sob cantoria, acompanhados por todos os grupos e visitantes, foram ao roçado. Antes de entrar, rezaram para São Bento, patrono contra as cobras e demais bichos peçonhentos. Aberta a tronqueira, entraram no roçado e se puseram a quebrar milho, envergando as plantas para arrancar as espigas. Pelas tantas, simulando o que de fato se passa nos mutirões de colheita, chegaram as mulheres, trazendo o agrado: gamela cheia de pedaços de broa de coalhada, chaleira de café quente, servido em canecos esmaltados, um caldeirão de angu doce, servido por uma colher de pau numa palha de milho como se fosse um pires. E, é claro, a cachaça, bebida nacional típica. Picaram fumo a canivete e enrolaram seus cigarros de palha, " paiózin' ".

Vencida a colheita, recolheram o milho em balaios trançados de taquara. Um carro de bois, trazido de São Sebastião da Vitória, encostou junto à roça e carregou as espigas. Deu um giro na praça, com os agricultores de carona, sob aplausos gerais. Rumo à tenda, o milho foi descarregado aos pés do mastro de Nossa Senhora do Rosário, onde também foi deposto o facão, o balaio e mais ferramentas agrícolas. Gratidão. O homem rural ensina ao da cidade a alegria da fartura e da benesse celeste. A maior de todas as  festas é a colheita, certeza de dever cumprido, garantia do sustento da família. A terra retribui o carinho e o suor. 

Dançam então o engenho novo, uma dança muito antiga e tradicional, conhecida em outras partes do centro-sul do país, mas em franco desaparecimento. Já se pode considerá-la uma raridade. Entrelaçados, em redor do milho e do mastro, alegraram-se, cantaram, e, dançando, envolveram os visitantes num momento notavelmente interativo. 

Foi marcante então a apresentação do grupo anfitrião, o "Pilão de Inhá", com suas mulheres de saiões e lenços à cabeça, ora peneirando arroz ora a socar pilão, numa evocação de tempos idos de preparo do alimento sem multiprocessadores. 

Cada congo, catupé, moçambique, folia, capoeira teve seu momento individual sob a tenda, sendo homenageados em particular com sua medalha de reconhecimento. Tiveram também o saboroso almoço, com o inconfundível tempero da roça, que eleva o nome da cozinha mineira. 

O salão esteve aberto à visitação com venda de artesanato local e exposição de peças antigas, de uso rural e fotografias da comunidade, inclusive do celebrado time de futebol do lugar. 

O evento notável cumpriu em plenitude o objetivo de reunir os valores da cultura popular. As manifestações folclóricas encheram o povoado de alegria na justa homenagem ao lavrador, esse brasileiro sofrido e esquecido. Tudo no encontro foi pensado para ambientar seu mundo tradicional, com pilões, gamelas, cabaças, velhos bules esmaltados. Sua cultura permanece viva no Caquende e encontrou no sr. Vicente Mário dos Santos o baluarte, o festeiro, o idealizador dessa festa consistente, bem organizada, transbordando méritos. Ele, junto com toda a equipe do Pilão de Inhá e dos lavradores estão de parabéns, pela reunião conjunta de esforços para o bem comunitário. Lideranças como Lia e familiares, Cida, Hugo Teixeira e tantas outras pessoas, em verdadeiro mutirão se reuniram com um só objetivo, notavelmente alcançado. Esta união é que torna a festa sagrada. Irmandade comemorando a colheita, festejando a vida. 

Sr.Vicente, festeiro e mentor do encontro.
Folia de Coqueiros sai da Capela do Carmo.
Cortejo dos grupos culturais. 
Placa composta com sementes coladas, na entrada da exposição.
Grupo de lavradores que representaram o ritual de colheita.
Colhendo milho. 
Enrolando o cigarro de palha. 
Intervalo da colheita: hora de uma pinguinha e do café com broa. 
Angu doce, servido na palha do milho. 
O carro de bois vem buscar o milho colhido.


* Texto: Ulisses Passarelli.
** Fotos: Iago C.S. Passarelli, 04/05/2014.
*** Agradecimentos especiais: a Thiago Morandi.


sábado, 3 de maio de 2014

Remédios de Macaia

Fruta do lobo ou lobeira.
O povo brasileiro em sua hibridação cultural, fruto das várias etnias que se estabeleceram no território nacional, delas herdou muitas receitas de fórmulas e técnicas adotadas de forma empírica para tratar a saúde. Algumas se valem propriamente das substâncias químicas de fonte animal e vegetal, extraídas por meio de esfregaços, decocção, infusão, trituração, emplastros, unguentos, mastigação da folha para extrair o sumo e garrafadas; outras, como as simpatias, se apegam a receitas atreladas a crenças de natureza espiritual, que confiam num certo poder de cura. 

Muitas vezes esse saber da "medicina popular" tem sido menosprezado pela ciência, mas o povo se vale dele o tempo todo, por vezes em paralelo ao tratamento alopático, colocando mais fé na ciência do mato. Há mesmo quem busque os chás, as raízes a vida toda, evitando ao máximo o medicamento industrializado. 

Existem riscos nesse uso por não se saber com exatidão as dosagens, efeitos colaterais, interações medicamentosas, farmacocinética, farmacodinâmica, presença de alcaloides, grau de toxicidade. No mais o nome popular das espécies varia com as regiões e a perfeita identificação das espécies é tarefa de especialista. Assim sendo, este blog não recomenda o uso, mas registra o saber popular que o envolve. 

Seria de alto interesse para o país a pesquisa séria dessa homeopatia popular. Muitas vezes foram revelados importantes princípios ativos para o desenvolvimento industrial de medicamentos. Mas certamente existe na nossa vastidão territorial, com tantos ecossistemas, um grande número de produtos naturais a se descobrir. Talvez sejam o caminho de cura para muitas doenças que hoje desafiam a humanidade. Não é à toa que diversas vezes ouvimos rumores de estrangeiros de olho em nossas plantas medicinais. Mais tarde pagaremos caro por uma tecnologia que deixamos de pesquisar.

Apresenta-se a seguir uma pequena coleta gentilmente informada pelo sr. José Campos, radicado em São João del-Rei, natural de Macaia, distrito de Bom Sucesso, a quem o blog agradece e oferece esta postagem.

Maracujá silvestre

- Gripe: beber o caldo de um limão espremido numa dose de pinga (cachaça).
- Gripe e tosse: cozinhar três folhas da fruta cítrica lima-doce, com uma pitada de sal. Tomar morno. 
- Pneumonia: usar sumo do assa-peixe branco com uma pitada de sal, bebendo-o.
- Ferida, erisipela: ferver urina de criança abaixo de 10 anos com folhas de fumo (tabaco) e banhar a parte afetada.
- Diabetes: esfregaço em água de folhas de isopo (mané-turé), para tomar de manhã bem cedo.
- Bronquite: um porção pequena de gordura de capivara dissolvida num copo de café bem quente. 
- Otite: aplicação de sementes de laranja da terra masseradas, contidas dentro de um pano fino. Para tirar dor de ouvido, deixa-se pressionado sobre a região da entrada da tuba auditiva.
- Bócio: pega-se uma fruta do lobo (Solanum lycocarpum) madura e põe-se na brasa. Depois de um tempo, logo que esfriar um pouco, espremer o sumo dentro da boca, para curar a "papeira". 
- Rins: para limpeza dos rins usa-se tomar frio o chá de folhas da panacéia. 
- Amigdalite, faringite: ferver folhas de amora-branca (rosaceae) e quando estiver morno, gargarejar para melhorar dor de garganta.
- Estrepada: para extrair um pequeno pedaço de pau ("estrepe") acidentalmente fincado dos pés (que se não for tirado a ferida não fecha), aplicar em cima da área afeta um pão velho embebido em leite, afixado por um envoltório de pano. Isto ajuda a puxar o corpo estranho, para que aflore na pele e possa assim ser retirado. 
- Rendido: para curar quebradura (hérnia) do indivíduo "rendido", a simpatia é na sexta-feira, levar o sujeito ao mato onde exista um pé de maracujá-silvestre (Passiflora, a flor da Paixão) ou de cipó de São João (Pyrostegia venusta). Estira-se uma rama sem cortá-la e tira-se uma "média" da pessoa, ou seja, a medida da circunferência da pessoa ao nível mais largo do corpo (ombros ou barriga), formando uma circunferência correspondente no cipó. No local que a ponta do cipó encontra com a haste, formando o aro, descasca-se com canivete, sem cortar, e se encosta e envolve com uma fita bem ajustada a ponta do cipó com a haste descascada, consolidando o aro. O doente deve então ser passada por completo três vezes dentro dessa circunferência, da cabeça para os pés, com a ajuda de uma pessoa. Repete-se em mais duas sextas consecutivas usando-se a mesma planta. A medida que a ponta se fundir à parte descascada, formando com ela um todo em nova casca, a hérnia também vai fechando.



          
Amora branca

        
                  Panacéia

     
Isopo ou mané-turé.

Créditos

- Texto e fotografias (01 e 02/05/2014): Ulisses Passarelli. 

Notas

- Para saber mais leia também: REMÉDIOS DO ZÉ MARIA 
- Revisão: 21/11/2025.   

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A Procissão de São José Operário

... e os tapetes de rua das Águas Férreas

No Dia do Trabalhador, o Bairro Tijuco, em São João del-Rei, vivencia o momento culminante de um festejo católico da maior relevância, preparado por animada novena: a Festa de São José Operário, centrada da igreja matriz desta invocação. 

Igreja Matriz de São José Operário no dia da festa de seu patrono.
 
O grande bairro participa intensamente. Após as cerimônias internas o povo vem às ruas para uma concorrida procissão cuja parte musical fica a cargo da centenária e respeitada Banda Theodoro de Faria, sediada na Rua Santo Antônio, nesse mesmo bairro. 

A Irmandade do Santíssimo Sacramento local encabeça as duas longas fileiras com suas lanternas e ao centro vai o cruciferário, concentrado em sua função. Pelo centro vem um considerável número de crianças vestidas de anjos, uma antiga tradição, além de importantes corporações do catolicismo, como a Legião de Maria, o Apostolado da Oração, o Terço das Mulheres, os Ministros da Eucaristia e os Coroinhas. Então surgem os esperados andores e os fiéis se aglomeram ao redor. Estão muito enfeitados de flores: primeiro o de Nossa Senhora, depois o de seu festejado esposo. Antecedendo-os vem os sacerdotes. 

Aspecto da procissão de São José Operário.

As fachadas das casas se encontram enfeitadas de jarras de flores e as melhores toalhas da casa. Janelas recebem cordões de bexigas coloridas de ar (balões de aniversário). Altares improvisados expõe imagens. O aspecto é festivo e o povo sacraliza as vias por onde passará o cortejo. 

Na esquina das Águas Férreas (Rua Operário Luís Andrade com Rua São José), imediatamente após a ponte, moradores desenvolvem um tapete desde a metade da tarde, sob a liderança de um casal: Geraldo Elói e Júlia Lacerda. Há 29 anos cuidam desta tarefa. A confecção do tapete de rua é uma missão árdua, que sacrifica a coluna pela posição inclinada que se fica para confeccioná-lo, além da limitação do sistema circulatório das pernas, mas ninguém reclama. É feito pelo senso religioso e traz a satisfação e a certeza de se estar agradando ao santo.

Tapetes de rua, altares improvisados e adornos de fachada para a passagem da procissão.
 
Sua produção em verdade começa meses antes. Não bastando a serragem e areia como outros tapetes e o enriquecimento de muitas flores conseguidas a pedido nos jardins de vários colaboradores, o casal junta ainda borra de café durante muito tempo, para detalhar o contorno escuro e o que é bastante trabalhoso; tampinhas de garrafas de cerveja, pedidas para se juntar nos bares de conhecidos. Com elas montam figuras simples, variadas a cada ano, mas de uma característica muito peculiar. Juntam ainda pétalas e papel picado para jogar no andor. 


Tapetes de tampinha de garrafa de cerveja.

O cuidado do casal é tamanho com esta tradição, que colhem uma boa quantidade do aromático manjericão para esparramar no asfalto. Quando o povo pisoteia os ramos à passagem da procissão o forte cheiro desta erva exala por todo o ambiente. 

São João del-Rei é uma terra de fé. Esforços como este, sem que ninguém mande, peça ou aconselhe, por simples vontade própria, do fundo do coração, ainda que para um resultado efêmero, o provam sobejamente. 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotos: Iago C.S. Passarelli, 01/05/2014.

Notas 

- Revisão: 01/05/2026.