Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Sertão em crônica: idealismo, imaginário e misticismo

Sertão é o meio de mundo, o ermo, o despovoado... Lugar longe, de muito mato e pouca gente. Habitat das feras, dos perigos, dos bichos peçonhentos. Já por isto, vai cambiando entre o real e o imaginário, que se reforça a cada novo acontecimento extraordinário que chega: um causo, uma lenda, um assombro. 

Sertão é isto: se entende, mas não se explica. Ele inspira o poeta em seus versos evocadores do atavismo humano, sempre aludindo à casinha de sapé, à tapera, ao cantar dos pássaros na alvorada, aos espectros lúgubres das horas mortas, às léguas poeirentas que o separam da civilização. Assim surge o sertão descrito nos versos das toadas caipiras, das modas de violas. 

É no sertão que a jovem se mostra mais fiel ao seu amado; é nele que as festas interioranas têm ar mais provinciano; a honra é levada ao extremo das atitudes como prerrogativa suprema a ser cumprida e defendida. O sertanejo é homem de fé viva, mas também amante da dança e do trabalho, por cuja força braçal nada rejeita. O homem do sertão é simplório. É o caipira que cultiva a terra, que cria o gado e pesca nas lagoas; é o caboclo que tem apego aos poucos objetos rudes que necessita para sobreviver em seu sítio. É no mato que acha os remédios fitoterápicos. O convívio com a natureza o faz exímio conhecedor dos fatos naturais, os detalhes meteorológicos, as características de cada estação do ano, as peculiaridades de cada animal. Também é crédulo, fiando nos bentinhos, patuás, medalhas de santos, simpatias, benzeduras, mezinhas e garrafadas. É apegado a Nossa Senhora, mas também acredita tanto no saci-pererê quanto na alma milagrosa de um vaqueiro, cada qual com seus atributos. 

Ninguém houve melhor que João Guimarães Rosa para fixar o espírito sertanejo em sua obra, quanto ao homem mineiro, ou que Luís da Câmara Cascudo, quanto ao nordestino. 

Sertão, aliás, difere aqui e lá. No Sudeste é tão somente o local distante, de pequena densidade demográfica, de difícil acesso onde as condições da natureza impõe um modo próprio de vida, um tanto tosco e custoso, mas igualmente poético, bucólico. No Nordeste e norte mineiro sertão é a área correspondente ao semiárido, o antigo Polígono das Secas. O sertão nordestino tem uma área de transição com a Zona da Mata chamada Agreste, que goza de aspectos próprios. O sertão nordestino algumas vezes se associa à noção espacial e intitula uma dada região do hinterland: Sertão dos Inhamuns, Sertão do Seridó, Sertão do Pajeú, Sertão do Cariri, Sertão do Acari. 

Para nós, das Vertentes de Minas, centro-sul do estado das Gerais, sertão é ou era o oeste, as bandas do poente para onde no passado rumavam homens corajosos a comprar gado, boiadeiros com sua comitiva em dias de viagem iam ao Sertão de Formiga, à Mata do Corda, às bandas de Pains e Candeias, trazendo tocados numa verdadeira odisseia reses rumo a novos invernistas dessas plagas ou aos matadouros. Os mascates e tropeiros também interligavam as duas zonas: aqui, sede da comarca e lá, terra de gigantes. Saint-Hilaire descreveu minuciosamente o comércio com aquela zona e registrou no começo do século XIX (1819-1822) que sertão...:

"é para além da povoação de Formiga, lugarejo situado acerca de 24 léguas de São João del-Rei, que situam, desse lado, os limites do sertão ou deserto; mas a região começa muito antes a ser pouco habitada." (p,116)

Mais tarde, final dos oitocentos, o trem rasgou o vale do Rio das Mortes. Vinha da Dom Pedro II (Central do Brasil), pela "Linha de Sítio", desde Antônio Carlos, chegava a São João del-Rei e daqui ia a Aureliano Mourão, donde fletia para a Barra do Paraopeba. Lá, tal afluente encontra-se com o Velho Chico. A foz do Rio Paraopeba está hoje debaixo do reservatório imenso da barragem de Três Marias. Era o quilômetro seiscentos e dois da bitolinha, a locomotiva a vapor de bitola estreita, 76 cm, da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas). A chegada da ferrovia foi o mais significativo elemento a impulsionar a economia e a vida social na segunda metade do século XIX. O povo o chamava poeticamente "Trem do Sertão", que saía de São João del-Rei num apito dolorido e inesquecível pelo centro da Avenida Leite de Castro, cena inextinguível da memória de quem o viu e nele andou; de quem vislumbrou o encanto medonho da Ponte do Inferno, ou o bucolismo da estação do Mestre Ventura.

O trem não fez parar o boiadeiro, o tropeiro, o carreiro ou o mascate. Pode tê-lo feito diminuir no seu ir e vir do sertão para o comércio. A estrada de automóvel é que o extinguiu, o asfalto, o caminhão. Razões do progresso e da evolução humana. O comércio com o sertão marcou época em São João del-Rei. Existia desde longa data. Mas foi com o fim do Ciclo do Ouro, que se estabeleceu em bases sólidas, qual entreposto comercial, fornecedor que era de gêneros para a capital do país, então Rio de Janeiro. Daqui para terras cariocas e outras mais, chegavam e partiam muitos cargueiros de mantimentos em geral, conforme registraram as crônicas [1]. O inglês Richard Francis Burton, em 1868 registrou um ditado que era então corrente e que de certa forma qualificava o que era o sertão daquela época: “Se você vai ao sertão, cuidado! Suba o morro devagar para poupar a besta; no plano, ande depressa, para abreviar a viagem; desça o morro com atenção, para a sua própria salvação.” Eis o aviso aos viajantes incautos pelas estradas vicinais e trilhas ruins. O perigo rondava...

A palavra "sertão" aparece em alguns documentos antigos (algumas vezes com "c", certão), no linguajar popular, nos versos de cantorias populares, nos topônimos e na música popular. A palavra sempre é organizada na frase de tal forma que nos faz lembrar o mato ou soa de uma maneira que induz o pensamento às raízes rurais: 

"Sei que vou morrer...
Vou me acabar!
Mas quero ser enterrado,
no Sertão de Paiabá!"
(Canto de trabalho, capina de mutirão, acabada de roça, Barbacena, 1996) 

Quanto à etimologia, pouco se sabe com exatidão. Filho (2011) explorou o tema com perspicácia. A palavra já era usada pelos portugueses quando da descoberta do Brasil. 

Sertão é um ideal inspirador. Dizer que algo é do sertão é como se disséssemos que vem carregado de uma qualidade atávica, mística e até poética, que teima em nos mostrar de onde viemos, onde estão nossas raízes. Na cultura popular, neste sentido se aproxima da palavra Aruanda... Bahia... Jurema... como territórios do sagrado, do espiritualismo: "Vem lá da Aruanda..." ; "Na Bahia tem..." ; "Lá na Jurema..." são expressões consagradas nos pontos de congados ou nos de terreiro. Com o sertão também ocorre isto, como por exemplo neste canto de umbanda, anotado em São João del-Rei, mas que admite variações: 

"Baiano quando veio da Bahia, 
ele passou na terra do ouro,
oi, no Sertão de Ouro Fino!" [2]

É como um reino místico, uma imagem do passado; um elo perdido entre o moderno e a ancestralidade humana. É a ponte entre o que éramos e o que somos; de onde viemos e onde estamos. É a raiz. É um pedacinho perdido desse Brasil de muitas faces.

Trem do Sertão em Nazareno/MG, 1976.
  
O oeste, ao por do sol no distrito de São Gonçalo do Amarante,
zona rural de São João del-Rei/MG. 12/07/2015.

Bibliográficas

BURTON, Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868). 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5ª, v. 197, p.188.

FILHO, Fadel David Antônio. Sobre a palavra "sertão": origens, significados e usos no Brasil (do ponto de vista da ciência geográfica). Revista AGB, Ciência Geográfica - Bauru - XV - Vol. XV - (1): Janeiro/Dezembro - 2011 Disponível em http://www.agbbauru.org.br/publicacoes/revista/anoXV_1/AGB_dez2011_artigos_versao_internet/AGB_dez2011_11.pdf   Acesso em 06 dez. 2014. 

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem às nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goiás. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1944. 343p. Coleção Brasiliana, série 5ª, v.68. 

VALE, Dario Rodrigues. Memória histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n.], 1985. 344p.+anexo.


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli (poente), David Passarelli (Trem do Sertão).

Notas

[1] VALE (1985, p.4), baseado em documentação do Arquivo Público Mineiro, transcreveu um termo de passagem de caravana de produtos no Porto Real da Passagem, de um habitante de Prados: "Aos treze dias de agosto de mil, setecentos e dezessete anos, nesta villa de São João del-Rey, apareceu presente Miguel Roiz do Prado, vindo de povoado, com vinte cargas, quatro de seco e mais de molhado, de que pagou de direitos quatorze oitavas, do que fiz este Têrmo que assignou Joseph da Silveira Miranda, Escrivão da Fazenda Real que o escrevi. (a) Gouveia. (a) Miguel Roiz do Prado" 
[2] O ponto continua assim: "Salve, salve os baianos! / Salve, salve o Senhor do Bonfim! / Salve, salve os baianos, / que não se esqueça de mim!" 
- Leia também neste blog: CAMINHOS DO FOLCLORE   
- Revisão: 10/06/2025. 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Estações abandonadas

É com grande pesar que vemos ao longo do itinerário da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), alguns remanescentes arquitetônicos em lastimável estado de conservação. Não bastasse a injustificável paralisação das atividades e erradicação dos trilhos, com várias construções históricas demolidas, algumas ainda jazem em penúria à espera de ações capazes de recuperá-las, enquanto bem patrimonial. Este sucateamento é um desrespeito à história e ao papel  econômico-social das ferrovias no país e em nossa região, em especial. Bem se podia, a bem da memória, conservá-las e dar-lhes como monumento uma utilização prática para a comunidade, que seria em processo educacional, aliada da preservação. 

Existem muitas possibilidades a estudar. Uma vez restauradas estas velhas estações hoje depredadas, imundas, sujeitas à invasão, poderiam ser centros de artesanato, ou de memória, museu, biblioteca, espaço cultural para exposições, lançamento de livros, apresentações culturais, local de realização de palestras, cursos, ponto de reunião de associações comunitárias, aulas, cursos de capacitação e reciclagem, sede de instituições por comodato, etc, etc, etc, a se propor, a se pensar e planejar. Qualquer opção acima é melhor que a vista hoje, um quadro funéreo.

Neste sentido é mister lembrar os exemplos das estações de Ibituruna e Coqueiros (esta no município de Nazareno), antes na mesma situação deplorável, hoje restauradas e úteis. É o que esperamos das autoridades e gestores responsáveis por estes bens. Outros exemplos poderiam ser enumerados mas estes se mostram explícitos o suficiente para representar o quadro geral. 

Estação de César de Pina em abril de 1999...

... e em 18/05/2014, ainda mais degradada e já sem o telhado da plataforma. 
Estação de Nazareno em 1976 ...
... e em janeiro de 2014: lamentável abandono!
Estação de Nazareno, 26/01/2014. 
* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: César de Pina, Ulisses Passarelli; Nazareno, 1976, David Passarelli; Nazareno, 2014, Iago C.S. Passarelli


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Bloco do Amor e outras memórias da Rua Antônio Rocha

A oitenta e dois anos, por um tempo desses, de prévias do carnaval, moradores do casario eclético da Rua Antônio Rocha, no centro de São João del-Rei, cuidavam dos preparativos do Bloco do Amor, que dela saía para alegrar o momo são-joanense. Registrou um antigo jornal da cidade: 

"Na rua Antonio Rocha, que sempre foi uma rua de foliões, acaba de ser formado mais um bloco, com pretensões a gozar direito o carnaval.
O bloco do amor vae exhibir um lindo carro, fechando o seu enredo: os genios da floresta. 
Os organizadores são os seguintes "endiabrados": José Nogueira, Weimar Lopes, Wilson Lopes, Jair Gomes, Gilson Regal, Osnir Lopes, Lourival Nogueira, Adalmir Gomes e José Marques." 

No mesmo ano saía do Morro da Forca o "Rancho Lyrio do Amor", informa a mesma edição d'A Tribuna (n.1106, 31/01/1932), bem como a subsequente. No passado o amor era mesmo um tema inspirador. Mas curiosamente num muro da rua em foco, uma pichação hodierna prega "onde não puder amar não te demores". Quanto às agremiações supra, desapareceram a décadas. 

A Rua Antônio Rocha surgiu no fim do século XIX com a instalação do complexo ferroviário em 1881, ao qual é fronteiriça. A chegada da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) foi o maior marco da história são-joanense nos oitocentos. Foi socialmente mais impactante que a própria elevação da vila à categoria de cidade, em 1838. Representou o limiar de duas eras. A partir dela houve um imenso impulso social, cultural e econômico que contribuiu muito para o crescimento e desenvolvimento da cidade. 

Antes da chegada da ferrovia o caminho do Centro rumo a Matosinhos se fazia pelo Matola (Rua Padre Sacramento), a meia-encosta do morro imediatamente ao sul da estação férrea. Este era o caminho antigo, verdadeiramente um trecho urbanizado do caminho geral do sertão - passagem de bandeirantes - pois a parte baixa era brejosa, sujeita a alagamentos. Com a vinda da EFOM o vasto serviço de nivelamento para instalação do complexo criou um novo espaço urbano, do qual a Antônio Rocha é a principal via. 

A uns cinco anos, numa obra que estava acontecendo numa das casas daquela rua, acompanhei um desaterro na vertical que evidenciou um arrimo de pedras imediatamente a partir do nível da rua, demostrativo do aterro necessário à abertura da via. O solo, a nível da rua de trás, é coberto por terra preta riquíssima em matéria orgânica, até uns 50 a 60 cm de fundura, quando surge outro tanto ou pouco mais de areia e cascalho, após o qual brota água em abundância, por se atingir o lençol aquífero contíguo ao Córrego do Lenheiro. Fica claro que o tipo de solo é uma evidência dos depósitos de aluvião trazidos pelas enchentes anuais. No mais, uma casa vizinha fica elevada sobre porão abaixo do nível da rua, também sustentado pelo mesmo arrimo de pedras, sinal do trabalho planejado de construção da rua. 

A ferrovia é o seu marco indelével, a começar do próprio nome, que evoca o português Antônio Francisco da Rocha, "um dos maiores acionistas e operosos diretores da Estrada de Ferro Oeste de Minas", segundo Guimarães & Vieira. É uma grata satisfação saber que esta rua preserva o nome original. Na Praça dos Ferroviários, à entrada da rua, um busto desta personalidade traz no pedestal uma placa com os seguintes dizeres: "Homenagem dos ferroviários da Oeste ao precursor da Rede Mineira de Viação 1881 - 1931".

Busto de Antônio Rocha na Praça dos Ferroviários no início da rua em questão.
O ir e vir dos trens, a passagem de viajantes e trabalhadores da ferrovia, o barulho do maquinário da oficina, a sirene que marcava o horário dos turnos dos empregados... impregnaram toda aquela via e nunca se separarão de sua memória. A rua era entrecortada pelo "Trem do Sertão", que saía  por um velho portão corrediço de réguas pretas para um pontilhão de ferro, ladeado por passarela de tábuas para os pedestres, bem onde hoje se situa a Ponte Padre Tortoriello. Na travessia víamos de antanho o sinaleiro, um ferroviário que cuidava de parar o modesto trânsito de carros para o trem passar, tal como ainda acontece na entrada da Caieira. O sinaleiro usava uma pequena bandeira vermelha para a tarefa durante o dia e uma lanterna para a noite, que tinha uma vela acesa dentro, clareando na cor vermelha de uma lado, verde de outro, que girava para indicar o trânsito. A máquina passava fumegando num apito penetrante, à noite com o grande farol aceso, um atrativo a mais. Além dos carros de passageiros, vinham muitos vagões de carga, pois São João era um grande entreposto. Por vezes composições pesadas chegavam com duas locomotivas atreladas, trafegando sincronizadas, bielas juntinhas no trabalho do vapor. A tração dupla era o maior atrativo para a molecada de meu tempo. 

Os guris sonhavam em roubar o trolley movido a varejões e fugir com ele até Chagas Dória, só para dar um passeio. Mas nunca tive essa coragem com os colegas, embora tenha compartilhado o inocente sonho. Por vezes, algum menino mais desinibido pedia carona no "bondinho" (auto de linha), pedido ora cedido ora negado. 
Placa indicativa do nome da rua, afixada na parede externa de uma casa.

O calçamento veio nos anos sessenta, em paralelepípedos que o sol pratea ao poente. Antes era areão e terra. Nele, até fins da década de 1970, os rapazes jogavam bola em plena Antônio Rocha, ali por seu trecho final, pois raramente vinha um carro. Lá quando surgia um veículo, era só beirar um passeio e depois prosseguir. O gol dessa pelada de fim de tarde era marcado por chinelos. Quando o movimento aumentou passaram para um pequeno campo onde hoje está o cruzeiro que ladeia a Gruta do Divino, ao pé do pontilhão supra-citado. 

Então era ainda comum a cena de faiscadores tentando a sorte nas areias do barranco do Lenheiro, de bateia à mão, em graciosos movimentos circunferenciais, até escorrer a última areiazinha, finíssima, ponteada do amarelo áureo, reluzente ao sol, fazendo brilhar o olho do garimpeiro teimoso. Neste ínterim andava beira linha uma lenheira, com um imenso feixe de lenha amarrado por cipós, equilibrado no alto da cabeça, protegida por um lenço. Passava silenciosa, com andar lento, a pele crestada pelo sol ... De onde vinha? Para onde ia com o pesado fardo? Fazer almoço pro Zé. Assar biscoito pro Chiquinho. Decerto! 

As crianças gostavam de passar peneira de lanço nas ramadas aquáticas do córrego e nelas nos deliciávamos colhendo barrigudinhos com pintas coloridas, delicados peixinhos poecilídeos, metidos no terrível cativeiro de um vidro vazio de palmitos.  De noite haveria de fugir um pouco para catar vaga-lume na caixinha de fósforos vazia. Se o sol estivesse muito quente, subia-se o Matola para banho na Lagoinha, uma reserva no morro! Admirem! Suas águas se avolumavam com as chuvas. Secou por completo, aterrada, soterrada, desterrada. Se não isto, banhava-se na bica, uma água límpida e fria que descia da Bela Vista e caía impetuosa num lajedo de pedra logo abaixo do pontilhão supra-citado, do lado da Rua Cristóvão Colombo, antes de sua ponte.  Ali era ponto de lavadeiras que chegavam e saíam com trouxas de roupas equilibradas na cabeça. Brincar de jogar finco, soltar pipa, rodar pião, brincar de roda, fazer casinha, jogar bolinha de gude na bujaca, no zapi ou no triângulo, rodar aro, jogar pedra de bodoque, brincar de pique, ou com carrinhos rudes, pequenos caminhões que algum artesão fazia em madeira, bater uma pelada, ou a queimada, eram nossas diversões. 

Por essa época ouvia estórias de arrepiar. Tarde não podia brincar no pontilhão que tanto gostava, porque era guarnecido por uma mulher muito branca, muito magra, muito feia, muito má... esguia, comprida como uma vara, maltrapilha... a Desgraça Pelada. Se a gente ousasse pronunciar esse nome ganhava um tapinha na boca, porque era pecado. Tal nome ofendia a Deus. Na quaresma da Antônio Rocha descia o Cavaleiro Misterioso a galope desenfreado desde a estação rumo a Matosinhos, barulho de casco crescendo de volume, arrancando chispas nas pedras do calçamento com o rompão da ferradura. E vinha, envinha... passava na frente do incauto, mas não era visto. Invisível, arrepiante. Era uma alma penada! Tinha também uma matilha infernal, cachorrada que descia a rua em algazarra dos diabos, gritando, latindo em briga feroz; cachorrão e cachorrinho, que se supunha pela voz, grossa e fina, porque tal como o cavaleiro, passava levantando poeira, mas não era visto. Velhos assombros, mistérios d'outrora que a modernidade baniu mas a lembrança teima em conservar. 

Na rua dos fundos, a Antônio Josino Andrade Reis, que sempre chamamos de "Beira da Praia" (alusão muito nossa ao Córrego do Lenheiro), para onde davam a maioria dos quintais, tinha a Cobra Grande. Muita gente idônea daquelas beiradas a viu, subindo e descendo o Lenheiro ainda sem urbanização do canal, matagal nas margens, moitas, árvores, pedras, taquari, taboa. Ora no mato, ora na água. O povo tinha medo. Diziam-na imensa, feroz, com tais atributos que os supunha d'outro mundo. Certo dia, junto com um tio, fomos tirar bambu para fazer pipa, numa moita grande que tinha atrás da Sede Ferroviária (de 1948), onde funciona o AA (Alcoólicos Anônimos). Vimos apavorados um enorme mussurana, imensa serpente preta com laivos arroxeados, de uma beleza que impõe medo e admiração, enrolada, grossa, medonha. Fugimos. Seria a famosa Cobra Grande? Alguma enchente a levou para sempre.  

Essa beira da praia era de fato um grande quintal comum. Os moradores tinham ali varais de secar roupa. Na relva do caminho estendiam peças do vestuário para quarar ao sol. Galinhas eram criadas soltas e ao fim da tarde entravam sozinhas para seus galinheiros, cujo acesso se dava por uns buracos de abertura quadrada, deixados de propósito nos muros dos fundos. Por esta rua, Antônio Josino, paralela à Antônio Rocha e em verdade sua extensão comunitária, passavam boiadeiros tangendo gado aos gritos, "ô-ah!", "boi!". Ouvi falar de uma cena inusitada, de um boi de chifraria aberta, bicho carreiro, agitado com ambiente urbano, que ao passar embaraçou o chifre numa peça íntima em um desses varais. Saiu com ele pendurado e a dona correndo atrás, gritando para o tangedor: "péra aí moço! Meu sutião!" Por aí passavam velhas bicicletas pasteleiras e carroças no caminho de terra batida, urbanizado na primeira metade dos anos noventa. 

Cruzeiro e Gruta do Divino, aspecto da Rua Antônio Rocha
e a Rua Antônio Josino Andrade Reis pouco antes da urbanização. 

A festa junina era animadíssima no "Arraiá do Pito Aceso". Não faltavam os arcos de bambu, os cordões de bandeirinhas de papel de seda, a fogueira, busca-pés, uma barraca de improviso onde se achava canjica, quentão, broa de coalhada, pipoca. Vinha sanfoneiro, pandeirista, violonista, caixeiro. Lembro bem de seu desafio calangueado, no "calango-lango-tango, no calango da lacraia!" Moradores da rua viravam noivo, noiva, padre, dançantes de quadrilha e no balancê se confraternizavam. 

A Sede Ferroviária era lugar de queridos carnavais de salão, onde fantasiados de todo tipo se entregavam às clássicas e imortais marchinhas. O movimento de foliões era muito grande até a década de 1960. 

Em 1999 foi construída a Gruta do Divino Espírito Santo e Nossa Senhora do Rosário, espaço comunitário que desde então tem congregado os católicos do lugar e imediações na prática das orações de terços e novenas (Divino, Natal), além de uma missa campal por mês, a cargo da Paróquia de São Judas Tadeu. Neste espaço já foi realizada muita festa popular: as juninas, com fogueira, pau de sebo e quadrilha, a queima de judas, o terço da Santa Cruz, a festa de Santos Reis (com folia e pastorinhas), a do rosário (com congados) e o Divino, trazendo muitos grupos folclóricos e banda de música. Lamentavelmente estas festas se foram neste espaço.

A Rua Antônio Rocha é hoje bastante movimentada, como principal via de tráfego que vem do centro da cidade rumo aos bairros Fábricas, Caieira, Colônia e Matosinhos. As poucos vão surgindo pontos comerciais, transformados a partir de residências. Mas ainda é uma rua tipicamente residencial. 

Referências bibliográficas

GUIMARÃES, Betânia Maria Monteiro, VIEIRA, Luana Cristina. Bustos, estátuas, monumentos e chafarizes de São João del-Rei. 2.ed. São João del-Rei: UFSJ, 2013. 76p.il. 

Notas e Créditos

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Notícias da Maria Fumaça

Quem vê hoje superficialmente o complexo ferroviário desta cidade não imagina o que de fato ele foi e o que representou para os moradores. As oficinas ferroviárias da cidade de São João del-Rei atingiram uma elevada atividade. Chegou-se a construir locomotivas por aqui, como comprova esta notícia jornalística:

“sob a direção do mecânico Eduardo Moreira, nas oficinas da EFOM, de São João del-Rei, foi construída totalmente a locomotiva nº 55. A única peça que veio de fora (Ribeirão Vermelho), foi o cilindro, assim mesmo, sendo defeituoso, foi consertado por nossos operários.” (Fonte: O S. João d’El-Rey, n.30, 07/10/1920).

Referências desta estirpe enchiam de orgulho os são-joanenses, muitos dos quais partícipes dessas conquistas. Os muitos jornais publicados nesta tradicionalista cidade mineira davam conta para júbilo da população de melhoramentos aprovados para o sistema ferroviário, representativos de um progresso intenso, como a inauguração nos meados de 1915 do Ramal de Barra Mansa da Ferrovia Oeste de Minas (EFOM), pelo qual se iria ao Rio de Janeiro em um dia. Outra notícia auspiciosa da mesma fonte informava que a 29 de maio daquele ano inaugurar-se-ia o túnel de passagem dos trens da Rede Sul Mineira (Lavras – Três Corações). (Fonte: A Tribuna, n.49, 13/06/1915.). As conexões ferroviárias em uma malha eficaz de transportes sobre trilhos permitiam que também o são-joanense usufruísse desses melhoramentos ainda que distantes. Outro exemplo: 

“O Ministro da Viação autorizou alargamento da Oéste de Minas no trecho que vai de Aureliano Mourão a Ribeirão Vermelho”. (Fonte: A Opinião, n.14, 21/08/1907)

Desta forma os antigos jornais da cidade são uma importante fonte de pesquisa histórica das ferrovias do país. Revendo suas amareladas páginas na busca desses vestígios nos deparamos por vezes com notícias tristes também:

"Desastre. O trabalhador portuguez Joaquim Ferreira Portella estando hoje no serviço de tirar pedras para o hotel que foi mandado construir nesta cidade pela companhia Oeste de Minas, recebeu sobre a cabeça uma pedra que abriu-lhe o craneo ao meio deixando á vista o cérebro. Foi transportado em braços para o hospital” (Fonte: A Pátria Mineira, n.5, 13/06/1889).

Exemplo de notícia sobre a Ferrovia Oeste de Minas num antigo jornal de São João del-Rei.

O trem marcou profundamente nossa alma. O carinhoso nome de "Maria Fumaça" aplicado às locomotivas a vapor tem um inegável fundo afetivo. É mais que um apelido, uma figura de linguagem. Não é para menos. O “trem de ferro” foi um agente difusor de cultura por toda vasta região ocupada pelos trilhos. 

Sua chegada no fim do século XIX representou um diferencial de progresso e marcou a vida social como nova época. Agilizou e fomentou o escoamento da produção agro-pecuária e industrial e trouxe consigo novos produtos e técnicas de construção e do fazer. Ao longo dos trilhos os povoados cresceram, empregos foram gerados, famílias foram criadas sob sua égide: histórias e estórias existem aos montes na memória popular por onde passou um dia a ferrovia, relatando a fartura de seu tempo e as gerações dela dependente, tipo: meu avô foi chefe de estação, meu pai foi guarda-freio, eu fui foguista, meu tio era ferroviário, meu irmão mais velho também... 

Os maquinistas tinham uma espécie de linguagem de sinais pelo silvo das locomotivas, o que se depreende de seus depoimentos. O apito característico de cada máquina e a maneira particular de apitar de cada um indicavam a chegada deste ou daquele trem ou maquinista e eram sua identidade. O povo se acostumava com a musicalidade de cada uma e com o ouvido treinado arriscava o palpite do número das máquinas, mesmo antes de vê-las, ao ouvir ainda longe um apito: a 38 está chegando! É a 43, do sr.fulano!

Contam casos de maquinista que tendo uma concubina morando próximo à beira da linha ao passar diante de sua casa apitava o trem de forma diferente e convencionada, para avisá-la de sua chegada à cidade. 

Dentro deste contexto os apitos de trens, tais como os toques dos sinos, os dos berrantes dos boiadeiros e os avisos dados por fogos de artifício são linguagens de sons que se perpetuam informalmente e fazem parte da folk-comunicação.


Locomotiva nº 41 da EFOM nas imediações do Sutil, em São João del-Rei/MG, 2011.

Notas e Créditos

* Texto, fotografia e foto-montagem: Ulisses Passarelli
** Para saber mais a respeito acesse os links abaixo:

A Ferrovia
A Chegada da Maria Fumaça
O Trenzinho das Águas
A Oeste de Minas e Matosinhos
EFOM: algumas glórias do passado
Pontilhão do Elvas
Saudades Ferroviárias
Coqueiros: estação restaurada!
Maria Fumaça












sábado, 30 de novembro de 2013

Ibitutinga

Nos limites de São João del-Rei, cerca de 10 km da cidade, pela margem esquerda do Rio das Mortes, no distrito de São Gonçalo do Amarante, a pequenina Ibitutinga é uma povoação hoje esquecida, mas que no passado teve suas atividades bem mais vivas. 

Anúncio jornalístico de um laticínio em Ibitutinga.

Plantada ao longo do velho caminho colonial que rumava a noroeste, pela Picada de Goiás, antecede imediatamente o ex-distrito são-joanense de Santa Rita do Rio Abaixo, cidade de Ritápolis desde 1962. Também fica entremeada no caminho que vem do Pombal, local de nascimento do ilustre são-joanense, Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, Patrono Cívico da Nação Brasileira, e a extinta capela setecentista de São Sebastião do Rio Abaixo, onde o mesmo foi batizado. 

Seu nome de origem indígena, evocando vozes tupis, é a junção de dois vocábulos que bem se poderia traduzir por "serra branca", lembrando a visão acinzentada, clara, de seu relevo ao longe. É um contraponto a "Ibituruna", a "serra negra", cidade mais abaixo beirando o mesmo rio.

Gozou esta humilde comunidade rural de uma evolução quando foi agraciada pela construção de uma estação do "Trem do Sertão", bitola 0,76cm, plantada a 842 m de altitude, no km 116,9 da linha tronco da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Foi inaugurada a 20/01/1887. 

Uma lista parcial de lançamento de tributos para Ibitutinga
mostra a quantidade de moradores que possuía noutros tempos.

A "maria fumaça" impulsionou a vida local, fortalecendo o fluxo de pessoas e produtos, por quase um século. A malfadada erradicação dos trilhos em 1983 foi um golpe mortal na economia local, que se estagnou. A velha estação e um conjunto de casas 600 metros em direção à montante do rio (Casas das Turmas, Casa do Trolley e a plataforma arrimada de pedra) constituem um importante conjunto arquitetônico que aguarda uma ação conservacionista. 


A desativada estação de Ibitutinga. Agosto/2004. 

O Correio divulgou em primeira página a lista de candidatos às eleições municipais de 1936, pelo Partido Progressista, figurando entre eles para o cargo de Juiz de Paz, para servir a Ibitutinga, Benedicto José de Oliveira, João Luiz da Silva, José Francisco de Rezende e Sebastião Justino dos Santos.

Sabemos que a luz elétrica foi autorizada pela resolução municipal nº29, de 1937. No ano seguinte ela foi inaugurada neste povoado, segundo informação do jornal são-joanense Diário do Comércio:

"A inauguração da luz elétrica no distrito de Ibitutinga foi realizado ás 18,30 horas. Ao ato estiveram presentes o sr. Governador, representado pelo Cel. Cancio e o sr. Prefeito Municipal." 

A escolinha local foi inaugurada com grande entusiasmo a 1º de setembro de 1926, nos dá conta outro antigo jornal de São João del-Rei, A Tribuna na edição de nº787. Segundo notícia veiculada por seu inspetor, Polycarpo de Almeida, era uma escola mista, com 61 alunos matriculados, sob os cuidados da professora Aurora Francisca dos Santos.

Notícias sobre a inauguração da escola de Ibitutinga.

A igrejinha do lugar, sob o orago salesiano de São Domingos Sávio, já sediou outrora uma festa dedicada ao rosário de Maria. Assim disse A Tribuna, em 1926: 

Capela de São Domingos Sávio, Ibitutinga. Agosto / 2004. 

"Tomando parte na festa do Rosário, esteve durante três dias em Ibitutinga, o rev. sacerdote catholico padre José Rosa. 
O vigario de Mineiros officiou naquella localidade, cujo povo accorreu em peso á egreja para assistir aos actos do culto. 
Terminando as ceremonias, os habitantes de Ibitutinga não queriam consentir a partida do rev. padre José Rosa, que se fez lá eximar grandemente pelas suas apreciaveis qualidades de virtude e inteligencia. 
Com muito custo, conseguiu o digno pastor de almas regressar a esta urbe, deixando fundas saudades naquele arraial. Consignando este honroso facto, endereçamos ao rev. Padre José Rosa os nossos respeitosos cumprimentos." 

Notícias jornalísticas sobre a Festa do Rosário em Ibitutinga, citadas neste texto.

Se o texto em si não informa nada sobre o conteúdo da festividade, por outro lado é revelador da hospitalidade dos seus moradores e ainda, do fervor do catolicismo, características da vida social da época abordada.

Até 1937 o povoado teve em funcionamento uma conferência vicentina, absorvida pela de São Gonçalo do Amarante, conforme demonstrado no texto O Joio e o Trigo

Sabemos também que Ibitutinga teve parte numa efervecência da política local, reflexo da força dos fazendeiros atuantes na região. No final do século XIX fazia tenaz resistência ao então líder político municipal, Severiano de Resende. Na década de 1920 uma manchete do nº809 d'A Tribuna anuncia: "Politicalha truculenta: o sr. Viegas das Chagas regressando de Ibitutinga, lá deixou um rastro de sangue alheio." O discurso de oposição inflamou os ânimos locais chegando a haver tentativa de assassinato.

A política já foi agitada em Ibitutinga.

Ibitutinga é cortada pela rodovia federal BR-494. A atual ponte de travessia sobre o agitado Rio das Mortes data do ano 2000. Substituiu a antiga, estreita e perigosa ponte velha que jaz em abandono imediatamente a jusante. O rio neste área se caracteriza por um canal rochoso, de águas agitadas, estreito, que imediatamente após a ponte se abre num poção fundo e largo. Outrora muito piscoso, ainda correm na memória popular narrativas de grandes pescarias, frutuosas nos piaus, piracanjubas, mandis, mulatas velhas, dourados e jaús, hoje, apenas mais uma lembrança.

Águas impetuosas do Rio das Mortes em Ibitutinga, ag.2013.

Referência Bibliográfica

- Passarelli, Ulisses. Pequena Cronologia Distrital. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei. n.12, 2007.
- Prontuário Geral das Estações Ferroviárias, 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Dep. Est. de Estatística, 1947. 

Referência Hemerográfica

A Tribuna, São João del-Rei, n.787, 26/09/1926
A Tribuna, São João del-Rei, n.799, 07/11/1926
A Tribuna, São João del-Rei, n.809, 12/12/1926
A Tribuna, São João del-Rei, n.1.268, 07/04/1935
Diário do Comércio, São João del-Rei, n.133, 21/08/1938
O Correio, São João del-Rei, n.502, 23/05/1936

Créditos

- Texto, pesquisa e fotos: Ulisses Passarelli
- Fonte: acervo digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d' Almeida.

Notas 

- Revisão: 12/05/2025. 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Pontilhão do Elvas

A Maria Fumaça completa a beleza da paisagem! Sobre a divisa natural entre São João del-Rei e Tiradentes, Minas Gerais, o Rio Elvas, afluente da margem esquerda do Rio das Mortes, poucos metros acima de sua confluência, é cortado pelo antigo pontilhão da Estrada de Ferro Oeste de Minas. 



Em data recente a administração ferroviária fez reforços na estrutura da obra, prevenindo problemas advindos da força erosiva das enchentes. Não é de admirar, pois as margens do pequeno rio estão profundamente marcadas pelo corte da mata ciliar, provocando quedas dos barrancos e assoreamento. 


Na estrutura do pontilhão a placa indica a origem, fabricada no Reino Unido, Escócia. A data gera a indagação de como seria a estrutura anteriormente, já que a ferrovia foi inaugurada em 1881. Seria de madeira ou de ferro?

O Rio Elvas necessita urgentemente de um programa de regeneração das margens. As ações além de preservar o patrimônio histórico ferroviário, teriam em seu bojo todas as implicações ecológicas e de prevenção de enchentes, e no mais, favoreceriam as atividades turísticas. 

terça-feira, 11 de junho de 2013

Trens: o bucolismo da locomotiva a vapor


1- Locomotiva nº41 sobre o Pontilhão do Rio Elvas em setembro de 2014. 

2- Locomotiva nº41 no Sutil em agosto de 2011.

3- Locomotiva nº42 vista do alto da Serra de São José dezembro de 2015.
4- Locomotiva nº22 flagrada no Sutil no ano 2000. 

5- Locomotiva nº68 passando por detrás de Matosinhos em abril 2014. 

Notas e Créditos

* Fotografias: 1 (arquivo gif), 3 e 5, Iago C.S. Passarelli; 2 e 4, Ulisses Passarelli
** Conheça mais sobre a história da ferrovia em São João del-Rei. Acesse pelo link abaixo:



A Oeste de Minas e Matosinhos

Os antigos jornais de São João del-Rei do fim do século XIX e começo do seguinte estão repletos de notícias sobre a Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM). Como ela foi fundamental ao progresso e economia da região, nada mais natural que chamasse a atenção da imprensa da época e que fosse um elemento social importante.  Neste contexto tudo que envolvia a ferrovia era o centro das atenções.

Em Matosinhos não foi diferente. Sendo o mais próspero e querido subúrbio da cidade - querido literalmente! - a crescente evolução obrigou ao surgimento da estação própria, mas não sem polêmicas quanto à localização, como se deduz pelo fragmento jornalístico abaixo:


"(...) É assim natural que eu chame de trancendentaes as questões aqui em ordem do dia: a questão do modo de fazer a imprensa suas reclamações e o logar mais conveniente para a futura estação de Mattosinhos.(...) " (O Grypho, n.10, 24/11/1907)

A ferrovia tinha uma imensa demanda a cumprir. Além do movimento normal de passageiros e cargas, em outras ocasiões não cotidianas a sua administração era cobrada pela população, afoita por um apoio, a exemplo da atividade esportiva abaixo citada pelo hebdomadário: 


"Com a Oeste. No último domingo, com a realização do torneio irácio da A.S.E.A. no campo do Athletic, em Matosinhos, foi pedida á estação local uma composição especial para transporte dos que lá desejassem ir, mas isso foi negado... por falta de carros. Nós desejavamos saber onde foram parar os carros só para informar, é claro." (Folha Nova, n.10, 08/05/1932)

E nas atividades festivas tinha a empresa de se desdobrar. Nas pesquisas hemerográficas um grande número de referências se fazem claras e irrefutáveis, no sentido de provar o formidável movimento de composições ferroviárias entre a cidade e Matosinhos, como pode ser lido neste blog (ver o post Transcrições hemerográficas). Em 1917 o expressivo número de 154 trens (ver o post EFOM: algumas glórias do passado) foi registrado para as festas anuais de Pentecostes e da excelência do serviço prestado a nota jornalística abaixo nos dá conta: 


"A Oeste brilhou. O serviço de trens durante os festejos de Mattosinhos esteve irreprehensível. Não houve um desastre, um inconveniente, uma reclamação só, que viesse turvar a boa marcha do serviço que foi delineado por mão de quem conhece, a valer, o "metier" do movimento. Ao sr. Pinto da Silva, inspector do Movimento é que o povo deve irreprehensível serviço de trens, durante os dias de festa em Mattosinhos. Cabe também ao Movimento, repartição affecta ao Trafego, as nossas felicitações. Ao sr. Carlos Senna, inspector do 1º Districto que também eficazmente collaborou no serviço de trens, aos srs. conductores, emfim, ao Trafego, apresentamos nossas felicitações pelo exemplar e correcto serviço." (A Nota, n.24, 30/05/1917). 

Porém, mais que tudo isto, denota a grande importância de Matosinhos para o contexto de São João del-Rei, o saber, pelo recorte seguinte, que o grande bairro foi alvo de um planejamento da EFOM, para a instalação de oficinas ferroviárias, chegando-se a adquirir para tanto o terreno antes pertencente à Escola de Laticínios


"As officinas em Mattosinhos. Cessou de vez a grande influencia para a construcção das officinas da Oeste em Mattosinhos, nos grandes terrenos da extincta E. de Laticinios. Foi adquirido o terreno, levantada a planta... e nada mais, tudo como d' antes. Neste interim a officina de Lavras, que demanda grande orçamento, tornou-se na realidade mais real que imaginar se possa. A E. Saboia, empreiteira das obras, alli trabalha activamente, já estando muito adeantadas as obras do edificio, que parece ser de grande vulto. E parece, e o será, muito breve, emquanto que nós... ficaremos a ver navios." (A Nota, n.25, 31/05/1917)

Estas notícias de outrora são reveladoras da importância do bairro-cidade para São João del-Rei e da ferrovia para o contexto da época. Simples notas como as acima selecionadas, pinçadas ao acaso na poeira do passado, nos revelam por fim que as pesquisas tem de continuar, qual a ferramenta de um arqueólogo, a nos revelar relíquias de antanho.

Créditos
Fotomontagens e texto: Ulisses Passarelli.
Acervo de jornais: Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG. 

Notas

Nas transcrições foi respeitada a grafia de época.
Revisão: 08/04/2025. 

domingo, 2 de junho de 2013

EFOM: algumas glórias do passado

Este não é um blog dedicado à historiografia. Mas como toda tradição passa pela história ou, em outras palavras, a história é a espinha dorsal das tradições, é preciso perpassar por certos aspectos enriquecedores do contexto cultural proposto. 

Nos velhos jornais de São João del-Rei se encontram muitas informações preciosas sobre nossa cultura, história e aspectos sócio-religiosos. A Biblioteca Municipal Baptista Caetano de Almeida, disponibiliza em seu site foto-digitalizações muito úteis à pesquisa e preservação dos exemplares originais. Seu rico acervo é a fonte desta consulta. 

A Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) tem um passado riquíssimo. As pesquisas históricas nos brindam com algumas notícias extraordinárias, reveladoras do potencial que esta empresa atingiu outrora. Além da Cia. Agrícola e Industrial Oeste de Minas que geria vários tipos de negócios, houve também o grande hotel da empresa; e ainda, a navegação fluvial no Rio Grande com barcos a vapor. Teve outrossim uma banda de música organizada por funcionários, que ficou conhecida por "Banda da Oeste" e até mesmo uma farmácia para os funcionários, cujo anúncio se pode ver no recorte abaixo:


Deixou-nos também obras públicas que ainda usamos, a exemplo da Ponte da Estação, de suporte de trilhos e passarela de tábuas (hoje de concreto) e quem diria, a Ponte do Teatro, afrancesada em estilo elegante, compondo com o Teatro Municipal um importante conjunto arquitetônico. O texto abaixo demonstra bem a multiplicidade dessas ações: "mandada reconstruir pela administração da Oeste de Minas", diz claramente, em 1917. 


É notável o movimento imenso de trens que havia, inimaginável aos olhos atuais, como a notícia a seguir, um relatório de passagens vendidas no citado ano, paras as festas anuais de Matosinhos (Divino, Bom Jesus e Senhora da Lapa), com um total de 154 trens especiais rodando para o grande bairro, com mais de 21.000 passageiros! Uma cifra admirável, prova do valor daquele festejo tradicionalíssimo e da eficiência ferroviária. 


E por falar em Matosinhos, quem vê hoje a Estação de Chagas Dória em ocaso naquele bairro, não imagina o vigor que ela teve no passado. A título de exemplo serve esta citação de 1938 do Diário do Comércio (*):

"O bairro de Matozinhos é, de tempos a essa parte, um verdadeiro parque industrial. Lá estão localizadas algumas das mais importantes organizações industriais da cidade. (...) Acontece porem, que as dependencias da Estação de Chagas Doria já não comportam o volume dos despachos, pois não é dotada de uma armazém para depósito." (Etc.)

Diante dessa pujança fica-nos a nostalgia e o alerta, a necessidade de mais pesquisas e de preservação, e, pairando sobre tudo isto o chamado à reflexão.


Notas e Créditos


* Diário do Comércio, n.59, 14/05/1938. 

** Demais referências hemerográficas: jornal A Nota, São João del-Rei/MG, acervo consultado no site da Biblioteca Pública Municipal Baptista Caetano de Almeida

*** Texto, pesquisa, foto-montagens: Ulisses Passarelli, maio/2013. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Coqueiros: estação restaurada!

Nunca é demais protestar contra o nefasta obra de extermínio de nossa malha ferroviária. A centenária Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), dentre tantas outras ferrovias foi uma de suas muitas vítimas. Em bitola de apenas 76cm, hoje apenas um curto trecho de 12 km entre São João del-Rei e Tiradentes continua ativo como trem turístico.

Conforme fotografei em 2003 e divulguei, uma das estações da outrora extensa linha jazia esquecida em pleno abandono na localidade de Coqueiros (Nazareno / MG), datada de 1917, no antigo km 172 da estrada de ferro, cenário entristecedor mas, ironia do destino, menos ruim que o de várias outras construções ferroviárias que foram demolidas. Pelo menos aquela ainda estava de pé... Mas sua situação só piorava, ano a ano. 

 Estação Ferroviária de Coqueiros, 01/03/2003.

Em não se voltando os trens, então que seja dado as paradas e estações um uso digno e condições de preservação como monumento histórico. Foi o que aconteceu neste caso graças à sensibilidade da administração municipal, que restaurou o prédio arruinado e o entregou ao uso social, conforme presencie recentemente. 

Estação Ferroviária de Coqueiros, 05/05/2013. 

A criação de um espaço de lazer no entorno e o calçamento favoreceu a população, que se torna usuária e guardiã, banindo ou minimizando a sombra medonha do vandalismo. Que o gesto louvável se estenda noutros municípios vizinhos aos remanescentes da EFOM, que aguardam semelhante gestão.

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli

domingo, 28 de abril de 2013

Saudades ferroviárias

Nasci na "Rua das Fábricas" (Avenida Leite de Castro, São João del-Rei), onde acompanhei em minha infância o ir e vir dos trens do sertão, a famosa maria fumaça, bitolinha, fumegando saudades, apitando notícias alvissareiras de outras terras que chegavam a "São João dos Queijos". Cargueiros, composições mistas e trens de passageiros ainda passam em minha memória, ora com grandes faróis acesos, como a clamar que seu último remanescente neste vale fluvial do Rio das Mortes não seja perdido de vistas no esquecimento. Fechando os olhos ainda vejo o sinaleiro na travessia da Rua Antônio Rocha com uma antiga lanterna na mão, luz verde de um lado, vermelha de outro, demarcando a segurança do tráfego noturno, ou com pequenas bandeiras no diurno. Relembro de muitos vagões pesados atrelados a duas máquinas sincronizadas em tração dupla. A paixão maior de minha infância era ver tal cena. E uma frustração: nunca ter dado um passeio no trolley movido a varas, que se envergavam ante a força braçal dos operários da via. Ia este rude veículo cheio de ferramentas, marmitas, água, apetrechos. O trabalho árduo se impunha. 

Fico pensando: com o desenvolvimento turístico de hoje, o que não seria dessa malha ferroviária que foi destruída pela ingerência? A linha passando no centro da Leite de Castro com uma carreira de ipês arborizando de cada lado... Em época de florada o trem passaria num corredor amarelo de flores, atração que bem divulgada traria gente de toda parte para presenciar este espetáculo. Águas Santas, Pombal, Cachoeira de Padre Brito, Ponte do Inferno... Quantos atrativos específicos trariam milhares de turistas!

Olhemos para estes vestígios. Olhemos para nós mesmos. Preservar é preciso. Que este clamor ecoe, como o apito do trem de ferro soa em nosso coração.


Pontilhão da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), bitola 0,76m sobre o Rio Pirapitinga, afluente da margem direita do Rio das Mortes, em Aureliano Mourão (Bom Sucesso/MG), na saída para Ribeirão Vermelho. A carcaça de ferro abandonada no mato atiça a reflexão. 


Notas e Créditos

* Texto e fotografia (30/03/2003): Ulisses Passarelli
** Para ver mais fotos de trem clique neste link: FERROVIAS
***Para ler mais a respeito de ferrovias veja:

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Maria Fumaça na Estação de Nazareno

Para matar a saudade de muitos e registrar cenas da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas) quando ainda estava em atividade a Linha do Sertão, posto a seguir quatro fotos de álbum familiar, transmitidas por meu pai, David Passarelli, tiradas na estação ferroviária de Nazareno / MG em 1976.


As locomotivas cortavam toda a região das Vertentes e cercanias. Acompanhavam o vale do Rio das Mortes, levando e trazendo produtos e passageiros, cultura, emprego, notícias, esperança, num serpenteio entre paisagens estupendas das vargens fluviais.


O jeito de apitar era uma característica de cada maquinista e o tom característico de cada locomotiva gerava um código sonoro de sinais legitimamente folclórico, posto que passava de geração em geração informalmente e sujeito à criatividade do trabalhador. O povo da beira da linha conhecia muito bem esses sons, interpretava o seu significado e até identificava qual maquinista vinha chegando. Folk-comunicação? Certamente.


Os moços do trolley envergavam varas flexíveis que impulsionavam o rude veículo carregador de fardos, ferramentas, marmitas. Beira-linha os conservas aguardavam. Nos trens iam referências do progresso que a máquina a vapor tinha trazido para os sertões; na fumaça esvaía-se a saudade, de cumpadres e familiares que chegavam para visitas e festas. Nas estações se trabalhava pelo pão de cada dia. Sitiantes plantavam e criavam, despachando sua produção no trenzinho. Ele movia a economia.


Mas o Chefe da Estação não acena mais suas bandeiras. O sino da plataforma calou-se. O apito sumiu nas agruras do tempo. Os trilhos foram erradicados. As estações se arruinaram em sua maioria. Agora é só asfalto onde os acidentes se multiplicam. A Maria Fumaça, que tem a cara de Minas Gerais (ou é o contrário?) é uma saudade contínua... que gera um protesto eterno contra a lamentável degradação dos trilhos. A desgraça só não é maior porque sobrou-nos um trecho até Tiradentes. Fica a lição da história e o lamento de tantos e tantos que entendem e sentem o que significava o "trem de ferro".


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: David Passarelli
*** Leia mais sobre a Estrada de Ferro Oeste de Minas clicando nos seguintes links:
Ferrovias 
A Chegada da Maria Fumaça