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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 22 de setembro de 2012

As Folias de São Sebastião

Santo Mártir está na Terra [1]

Natural da região de Narbona (Narbonne, sede da região administrativa de Aude, França). Há contudo informação divergente, dizendo-o italiano de Milão. São Sebastião era membro do exército romano, sendo legionário no império de Carino. Mais tarde, com o Imperador Diocleciano, passou a chefe da primeira corte dos pretorianos.

Foi denunciado a este imperador como cristão (ou a Maximiano, segundo outros) e por sua ordem atado a uma árvore, onde recebeu uma saraivada de flechas. Dado por morto, foi porém tratado pela viúva Lucina (ou Lucinda). Curado das setas foi à procura de Diocleciano expor-lhe sua indignação mas foi morto a bastonadas a 20/01/288, em Roma, aos 38 anos, sendo seu corpo lançado nos esgotos. Cristãos resgataram o cadáver martirizado da cloaca máxima, pondo-o numa catacumba.

Está entre os santos mais queridos e festejados. Em São João del-Rei festejam-no “desde o longíncuo ano de 1719, quando o Senado da Câmara fez celebrar, pela primeira vez, Missa Solene e Procissão, como festa obrigatória do reino.” Sua imagem já existia nesta cidade na Capela do Pilar incendiada em 1709 durante a Guerra dos Emboabas. Conserva-se ainda hoje na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, onde se pratica sua novena (11 a 19 de janeiro) com acompanhamento da orquestra sacra bicentenária Lira Sanjoanense, que executa números em sua honra – homenagens de músicos da terra – Dómine, Veni, Hino e Antífona, do Padre José Maria Xavier; Dómine e Veni, de Carlos dos Passos Andrade; Jaculatória de São Sebastião, de Luiz Baptista Lopes; novena – Dómine, Veni, Hino e Antífona, de Geraldo Barbosa de Souza; coro para procissão – Invícte Mártyr, de Presciliano José da Silva; dois coros processionais – Beatus Vir e Invícte Mártyr, de Marcelo Ramos de Souza.

Da mesma fonte consta que tais festas eram “organizadas e promovidas por comissões de festas, constituídas de Provedor, Secretário, Tesoureiro e Procurador, nomeadas pelo pároco. Atualmente a organização é confiada à Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento.”

Diz sua antífona: “O beáte Sebastiáne, magna fuit fides tua. Intercede pro nóbis ad Dóminum ut a peste et epidémia hoc tempore regnante abomni perículo mentis et córporis libere mur.” [2]

Tal santo, festejado a 20 de janeiro é invocado para proteger seus devotos contra a fome, a peste e a guerra. As populações rurais tem-lhe especial carinho, acreditando que os plantios e criações estejam guardados de todos os males e adversidades.

Seus festejos tem fartura alimentar pois são muitas as ofertas (que não lhe negam), já que assim esperam satisfaze-lo. Diga-se “estar bem com o santo”. Os juízes de prendas trabalham para fazer as coletas, enquanto os procuradores de gado cuidam de conseguir junto aos fazendeiros doações de bezerros e garrotes para os leilões deste santo.

Nestas festas – digo, as populares, não a solene que se celebra no Pilar – são comuns as festividades de largo com quermesse, grande reunião de fiéis, pagadores de promessas, conglomerado de povo vindo das povoações do campo; ou já mesmo (sub)urbano, revendo-se compadres, comadres, parentes e amigos. Põe-se a conversa em dia. Surgem tocadores com seus instrumentos, formando rodas de assistência em derredor. Enfim há confraternização, após beijar-se a fita vermelha atada aos pés da imagem do “Santo Mártir Guerreiro”, montado em seu andor, rodeado de flores, com um galho de oliveira que de forma piedosa e tradicional põem atrás da imagem, pois acreditam que foi amarrado numa árvore dessa com uma corda de piteira, para o terrível martírio.

Há grande movimento de barraquinhas, com comes-e-bebes e jogos simples.

Eis a parte profana. A religiosa é sempre  concorrida com novena ou tríduo, missa(s), procissão.

Eventualmente congados aparecem nesses festejos, caso o festeiro os convide, como vi com os ternos de catupé [3] na Restinga do Meio (Ritápolis, 1996) e em Conceição da Barra de Minas (1998). Anotei na Restinga:

Pai, Filho, Espírito Santo
É que eu vou dizer primeiro,
o mártir São Sebastião
é o nosso padroeiro, ai, ai!

Entre os concepcionenses marcharam pelas ruas apresentando uma bandeira deste santo ao povo, constantemente beijada pelos fiéis, que ofertavam dinheiro. Uma vez recolhido foi entregue ao padre no fim da missa festiva, dentro da barroca matriz da Conceição. Os congadeiros, sabedores de outras tradições, apresentaram então um animado calango defronte o templo cujo formidável repente logo atraiu curiosos e aficcionados. Pela tarde apresentou-se a folia de São Sebastião, também desta cidade, composta ainda pelos mesmos participantes do congado.

Também na Restinga acontece o mesmo. Deixado o congado, alguns de seus participantes se tornam em folieiros e tocam a folia de São Sebastião, presente na festa e na procissão. Canta na capela, consagrada a São Sebastião. Ao lado dela está fincado um mastro em honra a este santo.

Na festa do Bairro Araçá (1999), em São João del-Rei eventualmente surgem as folias, conforme convite prévio. Há aí um salão comunitário desse santo e outro muito próximo, no Bairro Dom Bosco.

Neste município, na vila de São Sebastião da Vitória, onde esse mártir é o padroeiro, fazem o “encontro” diante da igreja, com a presença de três folias, sendo duas locais e uma do vizinho povoado do Tijuco (1995).

No povoado do Cedro, distrito de São Miguel do Cajuru, ainda em São João del-Rei também há festa de São Sebastião, com forte apelo rural e presença de folia (1993).

São Sebastião é o padroeiro de Santa Cruz de Minas com concorridíssimas missas e procissão, além de animada barraquinha. A folia local trabalha na sua missão pelos quatro cantos da cidade e é das mais respeitadas. Merece franca parabenização e reconhecimento o excelente trabalho do pároco, Padre Antônio Claret Albino, inclusive dando pleno valor as tradições populares [4]. Os devotos desta cidade fazem primorosos tapetes nas ruas onde passa a procissão, usando serragem, areia, flores, compondo painéis de temas religiosos. Acendem muitas velas à beira da calçada e levantam arcos de bambu ornados de bandeirinhas de papel e fitas. A banda local faz soar seus acordes.

Dentre outras mais destaca-se também tal festejo em Lagoa Dourada, com a participação de conceituada folia de São Sebastião, do Bairro Gamarra de Cima. No povoado rural de Matatu há outra muito original.

A literatura especializada em folclore pouco tem se dedicado a esta folia, tão comum na microrregião Campos das Vertentes, do centro-sul mineiro, onde estão as localidades já citadas. Existe noutras áreas de Minas Gerais mas é rara ou inexistente nalgumas regiões. É conhecida nos demais estados da Região Sudeste, às vezes com outros nomes: Charola de São Sebastião (ES) e Bandeira de São Sebastião (RJ), embora o designativo “folia” seja generalizado.

É uma manifestação aparentemente surgida de uma adaptação da folia de Reis, da qual herdou as principais características [I]: instrumental, rituais, tradições da bandeira, religiosidade, modo de cantar, estrutura e até o personagem chamado palhaço (ou bastião), que pode estar presente, com sua máscara e as roupas de cores berrantes, misturando em seu número o profano (inclusive o cômico) e o religioso.

Contudo a estampa da bandeira é a de São Sebastião e não a da adoração ao nascimento de Cristo.

A minha bandeira santa
Reparai nossa bandeira
ela vai beirando o chão,
tem um santo cravejado,
essa imagem estampada
veja como ele sofreu
vou fazendo adoração.
nesse tronco amarrado.
(Restinga do Meio, 1996)
Lagoa Dourada, Bairro Gamarra de Cima, 1996)
           
A cor da bandeira é a vermelha, mas pode ser branca.

O ponto-chave da diferenciação entre as folias de São Sebastião e Reis está no tema dos cantos: uma narra a vida, o martírio e os milagres do Santo Guerreiro. A outra inspira-se no nascimento de Cristo, desde as profecias e anunciação do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria até o episódio da fuga para o Egito, centrando-se na natividade e visita dos Reis Magos.

Senhor dono da casa
Vinte e cinco de dezembro
São Sebastião está na terra,
meia noite deu sinal,
ele veio para ti livrar
que nasceu Menino Deus
contra fome, peste e guerra.
numa noite de Natal.
(Folia de São Sebastião)
(Folia de Reis)
São João del-Rei, Águas Férreas, Bairro Tijuco, 1999

Por tradição cada folia tem a sua toada embora a mesma possa servir às duas, mudando-se só a versalhada, como tem ocorrido com freqüência. A “toada de Reis” é no geral mais lenta, “serenada” como dizem, bem melódica e decrescendo a resposta coral: “ai, ai, ai...” A de São Sebastião é mais ligeira, mais ritmada, crescente no responder: “ai, ah!!!” (grito bem sonoro).

A Folia de São Sebastião tem seu tempo de 7 a 20 de janeiro.

Visita casas, onde chega cantando:

Pai, Filho, Espírito Santo,
Ô senhor dono da casa
esteja sempre em nossa guia.
abre a porta, queremos entrar,
A bandeira aqui chegou,
que somos de muito longe
nessa hora e nesse dia!
temos muito que viajar.
Barreiro (Coronel Xavier Chaves, 1996)
(Zona rural de Bias Fortes, antigo, de memória)

A quadra de Bias Fortes foi informada em 1995 por minha sogra, Elvira Andrade de Salles.

Como outras folias também entram na casa e passam a bandeira aos anfitriões. Em seguida louvam o santo, cantando-lhes em versos os feitos, as virtudes, os sofrimento do grande santo. Por exemplo:

Óh mártir! Oh mártir!
Encontrei São Sebastião
Oh São Sebastião!
Pobre está tão judiado!
Ele venceu a guerra
Todo cravado de flecha
Com seu batalhão!
No madeiro amarrado...
(São Sebastião da Vitória, S.J.del-Rei, 1995)
(Fé, S.J.del-Rei, 1993)


Santo Mártir está na terra
Santo Mártir veio pro mundo
é um santo milagroso,
Veio valendo as criatura
Ele veio para nos livrar
Santo Mártir veio pro mundo
De todo mal contagioso.
Para trazer muita fartura.
(Lagoa Dourada, Bairro Gamarra de Cima, 1996)
(Matatu, Lagoa Dourada, 1996)


Ó mártir São Sebastião,
O arqueiro apontou
Que no meu peito se encerra,
A flecha na direção,
Ele é o nosso defensor
A primeira que atirou
Contra fome, peste e guerra!
Foi direto no coração!
(Restinga do Meio, Ritápolis, 1996)
(São João del-Rei, Bairro Bonfim 1993)

Pedem esmolas que servirão para as festas, entregues junto ao altar (“Santo mártir pede esmola, pra seu dia festejar!...”), ou então, são encaminhadas para obras caritativas que o folião escolher.

 Recebida a oferta, agradecem:

Lá do céu desceu um anjo
Para sua mesa compor
Deus que pague a boa esmola
Quem nos deu foi o senhor.
(Santa Cruz de Minas, 1997)

 Podem cantar para um falecido da família:

Também quero recordar
De quem hoje está no céu,
Ao lado de Nossa Senhora
Todo coberto de véu...
(Ritápolis, 1996)

 Cantam para algo que lhes impressiona:

Aqui vejo esse rapaz
Mas que bela devoção!
Vou pedir a Santo Mártir
Que te dê a proteção.
(Santa Cruz de Minas, 1997)

Agradecem pelos cuidados com a bandeira, quando alguém a adorna com flores e fitas, ou lhe passa perfume, costume difundido entre todos os tipos de folias nesta região:

Ô que mão abençoada
Perfumou/enfeitou nossa bandeira
São Sebastião lhe abençoa
E proteja sua porteira.
(São João del-Rei, Bairro São Dimas, 1998)

Pedem a bandeira de volta:

Meu amigo cavalheiro,
Está com a bandeira na mão;
Entrega ela ao bandeireiro
Ela é nossa proteção!
(Santa Cruz de Minas, 1997)

Despedem-se:

Vou fazer a despedida
Santo Mártir vai embora
Como fez Cristo em Belém.
Ele é um santo do bem;
Santo Mártir vai embora,
Vocês fica aí com Deus,
Ele volta no ano que vem.
Com Deus nós vamos também!
(Matatu, Lagoa Dourada, 1996)

O que se espera de São Sebastião? Bênçãos, proteção, guarda. Sua figura admirável de soldado, guerreiro, furado de flechas até no “lombo do coração” (como se referem nos versos à curvatura do átrio cardíaco), amarrado, o sangue correndo chão afora, impressionou fortemente o povo, notadamente nossa alma barroca, desde sempre dramática.

E toda esta expectativa e admiração respeitosa estão resumidas em sua jaculatória que encerra sua oração tão conhecida aqui em São João del-Rei:

Protegei-nos, grande santo,
Para podermos imitar
As virtudes com que Deus
Quis a vossa alma adornar!


Referências bibliográficas

ATLAS FOLCLÓRICO DO BRASIL: Espírito Santo. Rio de Janeiro: MEC/SEC/FUNARTE/INF, 1982. 93p.
PIEDOSAS E SOLENES TRADIÇÕES DE NOSSA TERRA. São João del-Rei: Equipe de Liturgia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, 1997. v.2. p.12-23.
FRADE, Cáscia. Guia do Folclore Fluminense. Rio de Janeiro: Presença, 1985.



[1]  - In: Tradição, São João del-Rei, Subcomissão Vertentes de Folclore, n. 4, jan. / 2000.
[2]  - Tradução: “Ó São Sebastião, grande foi a vossa fé. Intercedei por nós junto a Deus e livrai-nos da peste e demais doenças e de todo o mal do corpo e da alma.”
[3]  - Catupé (= catupê, catopé, catopê, quatrupé) é uma modalidade de Congado. No do Bairro São Dimas, São João del-Rei, do capitão Raimundo Camilo, há este verso que anotei em 1992: “Tira o chapéu / ajoelha no chão, / que o rosário de hoje / é de São Sebastião.”
 [4]  - Este sacerdote foi transferido para outra paróquia em 2001 (Imaculada Conceição), onde prossegue semelhante trabalho com um ativismo extraordinário. Em Santa Cruz a folia local ora se desativou e só eventualmente surge alguma visitante.



[I]  - Disse ‘aparentemente’ porque de fato é quase desconhecida a história dessa folia. Por um texto a mim gentilmente cedido pelo folclorista Affonso Furtado, soube que acontece em Portugal (in: Festas e Tradições Portuguesas. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 2002. p.75-79) com o nome de “Reis de São Sebastião” (Vale de Anta, Chaves). Não há bandeira, mas os cantores vão de casa em casa a caixa, a sanfona, o triângulo, banjo, violino. Pedem ofertas e como no Brasil também recebem comida dos moradores. Os versos aludem ao santo querido. Há pois uma matriz ibérica mas é inegável a semelhança com a folia de Reis, muito mais popular, de quem certamente recebeu elementos. Velhos foliões locais me disseram que até a primeira metade do século XX não cantavam para São Sebastião. As Folias de Reis saíam de 1º a 6 de janeiro, direto, sem intervalo, sem voltar em casa, pousando pelas fazendas. De meados do século passado para cá é que as folias começaram a sair desde o Natal e passaram a cantar a São Sebastião até o dia de São Sebastião. Suspeito sem meios de provar por enquanto, que tropeiros, carreiros, boiadeiros, mascates podem ter trazido este costume para cá a partir do Rio de Janeiro, onde é arraigado. Eis que desde sempre foram amantes das folias e viviam em contínuo movimento comercial entre Minas e Rio pela famosa Estrada Real. A fixação da Folia de São Sebastião aqui foi fácil e natural, posto a imensa tradição rural desta região e a presença já muito antiga da Folia de Reis, da qual a de São Sebastião é em verdade e apenas, uma autêntica extensão. Essa teoria parece-me justificar seu histórico até que novos estudos tragam à tona sua verdade caso não seja esta. 

Folia de São Sebastião de São Sebastião da Vitória (São João del-Rei / MG)
durante a festa do padroeiro. 

* Texto e foto (janeiro/1996): Ulisses Passarelli.




Um comentário:

  1. Belíssimo registro.
    Parabéns Ulisses, seu trabalho de pesquisador nos deixam comovidos.
    Abraço amigo, Luiz Cruz

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