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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 14 de julho de 2013

Calango-tango: parte 2

Fundamentos do calango (continuação)


Na primeira parte do texto “Calango-tango” foi abordada uma visão panorâmica deste gênero. O grande número de detalhes a seu respeito obrigaram a dividir o material em mais uma postagem.

Calango, Conceição da Barra de Minas/MG, janeiro/1998. 

Dentre seus tipos, um curioso e difundido é o calango do jogo do bicho. Nele um só cantador ou uma dupla narra verso a verso uma sequência numérica correspondente aos números do jogo do bicho dando uma característica de cada animal. O exemplar abaixo me foi dado em César de Pina (Tiradentes / MG), por Raimundo Ferreira da Assunção, com acompanhamento de violão, em 22/02/1999:

Meu amigo e companheiro
Meu companheiro,
Pra você vou te falá,
Cantando fora de hora;
Uma coisa muito boa
O 13 deu (elefante),
Comecei meu jogo agora.
Que tem as tromba pra fora.


Ai,ai,ai,ai
Meu companheiro,
Começá meu jogo agora
Que tem as tromba pra fora;
Número 1 que deu na ave(struz)
O 13 que deu no gato,
Que vuô na serração.
Que tem pata e não amola.


Ai,ai,ai,ai
Meu companheiro,
Que vuô na serração;
Que tem pata e não amola
E o 2 que deu na águia
14 deu jacaré
Bateu asa e foi-s’embora.
Que nada com as costa de fora.


Certo,colega,
(falta 15)
Bateu asa e foi-s’embora;

O 3 que deu no burro

Que tem a marcha pachola.



Certo, colega,
Meu companheiro,
Que tem a marcha pachola;
Nada com as costa de fora;
O 4 deu borboleta
16 que deu leão,
Bateu asa e foi-s’embora.
Bicho mau chegô agora.


Meu companheiro,
Ai, ai, ai, ai,
Bateu asa e foi-s’embora;
Bicho mau chegô agora,
O 5 que deu cachorro
17 deu no porco,
Latindo fora de hora.
Fechado na caçarola.


Ai, meu amigo,
(falta o 18)
Latindo fora de hora;

O 6 que deu na cabra

Que dá leite pra quem chora.



Meu companheiro,
Meu companheiro,
Que dá leite pra quem chora;
Fechado na caçarola;
O 7 que deu carneiro
19 deu pavão,
Carregou Nossa Senhora.
Que olha pros pé e chora.


Ô meu amigo,
Meu companheiro,
Carregou Nossa Senhora,
Fechado na caçarola,
O 8 que deu camelo
O 20 deu no peru,
Que tem pata e não amola.
Amarrado no pé da tora.


Meu companheiro,
(falta 21)
Que tem pata e não amola;

O 9 que deu na cobra

Faz o bote e desenrola.



É certo mesmo,
Meu companheiro,
Faz o bote e desenrola;
Marrado no pé da tora;
O 10 que deu coelho,
22 que deu no urso
Correndo pra mata afora.
É o dono da bicharada.


Meu companheiro,
Falou, menino,
Correndo pra mata afora;
É o dono da bicharada,
O 11 que deu no cavalo,
23 que deu na tigre
Que tem a marcha pachola.
Que é soltêra e não amola.


Certo amigo,
Meu companhêro,
Que tem a marcha pachola;
Que é soltêra e não amola,
O 12 que deu no galo,
24 deu viado
Cantando fora de hora.
É o dono da palhaçada.

Meu companheiro,
Dono da palhaçada,
25 deu na vaca
Terminei meu jogo agora.

A versão de Raimundo tem imperfeições geradas por falhas de memória e confusões com os números de alguns bichos, pois ele mesmo dizia que a muitos anos não cantava este calango. Mas o transcrevi tal e qual me cantou para se ter uma idéia do estilo.

Existiram também outras variantes tecidas sobre o jogo do bicho que ficaram conhecidas por “calango da bicharia” (as rimas são em “ia”), “calango da bicharada” (rimas em “ada”) e “calango do bicharão” (rimas em “ão”) [1].

Existem muitas particularidades sobre o calango. Uma delas é que se trata de uma manifestação folclórica tipicamente profana. Sua estrutura nada tem de religioso e um dos mais brilhantes calangueiros são-joanenses, o saudoso sr. Luís Santana, dizia que o calango não é de Deus, por isto muitas vezes termina em discussão ou briga. Falava o mestre que se na cantoria começasse a cantar versos colocando nome de santo no meio, o calango ia esfriando até parar, porque o cantador perdia logo a inspiração, esquecendo os versos e embaralhando as rimas.

Isto entretanto não impede de estar presente nalguma festa religiosa como parte do entretenimento. O calango é em si um divertimento e como tal ocorre nas mais diversas ocasiões. No passado aparecia nas festas familiares de aniversário, casamento e outras, nos eventos comunitários, nas festas populares.

A espontaneidade é o seu forte. Um calango começa de repente: uma roda de prosa e viola, cantando-se modas sertanejas, subitamente sai um com a ideia de um versinho de desafio e é o bastante para se iniciar uma rodada de calango. Vi algumas vezes cantado por congadeiros no intervalo do almoço das festas do rosário, divertindo-se mutuamente na mescla de cantadores de diversas procedências.

Já foi dito na primeira parte deste texto que os lavradores do café contribuíram para disseminar este estilo de cantoria. Façamos jus também aos viajantes estradeiros, conduzindo boiadas e tropas, que nos ranchos se encontravam no pouso noturno e cantavam suas estrofes. Chegando a povoados em festa ingressavam no seu cenário comemorativo com as cantorias.

O calango porém vai rareando, pois vem sendo tolhido de suas ocasiões de ocorrência ora animadas por diversões hodiernas. Existe uma ruptura no mecanismo de transmissão de seu saber, que vai ficando restrito aos idosos, sem adesão dos jovens.

Por isto, já sua área de ocorrência estreitou e vem se tornando menos densa. Surge fragmentado na boca de velhos cantadores. Ouvimos porém dizer de ocasiões que calangueiros varavam a noite em cantorias infindáveis, sob o ouvido atento de uma roda de assistência, rindo das provocativas investidas poéticas e aguardando o vencedor.

Existe um claro tabu de proibição do calango na quaresma, porque vira alvo de tentação demoníaca sendo então certeiro terminar em confusão.

A arte dos calangueiros carrega a força da criação espontânea. É arte mesmo, arte criadora, adaptadora, gestora de saberes, que se mesclam em rimas, que se embaralham em métricas. Desafiam não o outro calangueiro mas sim os que não o são, para se voltarem aos valores rurais, ao linguajar do campo, do homem simples do povo, sem cuja contextualização suas estrofes se tornam dialetais.

Para encerrar esta leva de informações segue uma coletânea de calangos do saudoso Mestre Luís Santana, de São João del-Rei/MG, 1996, já extensamente citado neste blog.


 Linha do Á


O meu pai me pôs na escola
Pra aprender o bê-a-bá
Valha-me, Nossa Senhora,
Ai, Mãe de Deus acode cá.

Ai eu sou duro no que é meu
Quando os outros quer tomá
Valha-me, Nossa Senhora
Mãe de Deus acode cá.

Eu avistei três touro
Na porteira do currá
Tôro preto, tora branco,
Tôro vermelho-araçá.

Você quer saber meu nome
Vai lá em casa perguntar
Eu me chamo limão doce
Limão de moça chupá

Você quer saber meu nome
Vai lá em casa perguntar
Eu moro na cachuêra
No tombo que a água dá.
  
Eu moro na cachuêra
No tombo que a água dá
Ranco toco com raiz
No chão num deixo siná

O meu pai tava duente
Minha mãe passano má
No papai ninguém num bate
Na mamãe ninguém num dá.

No papai ninguém num bate,
Na mamãe ninguém num dá
O meu pai nasceu rezâno
Co’a sola do pé pro á.

Cabôco quando num é certo
Bato na cabeça e pá!
A sanfona ta pidino
É na posição do fá.

Indurinha do coquêro
Sabiá de bêra má
Indurinha fez um ninho
No mei do canaviá.

  
Linha da maresia

Quando eu era pequenino
Cantava que retinia
Eu cantava em Lorena
Lá em Minas se ouvia.

É coisa que eu não posso
É com dois pote na furquia,
Um era de água morna
Outro era de água fria.

Agora qu’eu to cantano
Na linha da maresia,
Rico na casa do pobre
Até do banco disconfia...
  
Ai tava falano co’a véia
O sintido era na fia,
Ai, valha-me Nossa Sinhora
Ai Senhora da Abadia!

Ai como corre, como canta
Como na venta assobia!
O viado tá no mato
Ai, cachorro ficô na tria ...

Joguei laço na garupa
Ai, com vinte e cinco rudia;
Cachorro que late grosso
Nalguma coisa ele fia.


Linha da marambaia


Agora qu’ eu vô cantá
É na linha da marambaia
Quem tem horta como côve
Quem num tem come serraia.(serralha)

Quem tem horta como côve
Quem não tem come serraia
Quando eu te jogá o baraio
Para que que num imbaraia.

Quando eu te jogá o baraio
Para que num imbaraia
Quando eu te jogá o baraio
Para que que me atrapaia.

Se eu achá que me vencê
Tiro carça e visto saia
Oi, casa de nêgo é moita
Cuberta de samambaia.

Quando não tenho canivete
Pico fumo de navaia
Com um mão eu pico fumo
Com outra eu pico paia.


Notas e Créditos

* Texto e foto: Ulisses Passarelli
** Leia também neste blog: CALANGO-TANGO: parte 1


[1] - Um registro de calango fluminense, tomado pela Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro revelou uma forma bastante completa dos bichos de 1 a 25 e depois sequencialmente em forma reversa, decrescente, do 25 de volta ao 1. Vide: Documento Sonoro do Folclore Brasileiro, v.3, Acervo Funarte. Instituto Cultural Itaú. 

2 comentários:

  1. Muito bom o seu comentário. Luiz Gonzaga, o rei do baião, conheceu o calango e divulgou-o Brasil afora. Quando serviu no exército aí em São João del-Rei, certamente conheceu muitos calangueiros. Luiz Gonzaga esteve também em Juiz de Fora. Antes de fazer sucesso com o baião, já gravara alguns calangos com muito sucesso. Muita gente até acha que o calango é um ritmo nordestino por causa disso.

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    1. Agradeço o comentário e a visita. Infelizmente os estudos sobre o calango são ainda pouco numerosos. Tenho algum material inédito sobre este assunto. Em breve renderá uma nova postagem. Espero contar com sua nova visita a esta página eletrônica de cultura popular.

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