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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 17 de julho de 2013

Apelidos Gentílicos

Aqui, nos Campos das Vertentes, região montanhosa do centro-sul mineiro, que encantou viajantes como Auguste de Saint-Hilaire, as pequenas cidades e vilas guardam certas características muito peculiares e formas produtivas típicas, que acabaram por gerar alcunhas de extraordinário caráter interiorano. 

Os produtos agrícolas mais típicos de um lugar, de tão abundantes ou antes dominantes da economia local, fizeram render pseudônimos curiosos aos moradores. Esses apelidos às gentes locais também se vão perdendo na fumaça dos tempos e alguns ficaram atualmente desprovidos de seu significado de origem. Houve época que eram ofensivos e uma vez pronunciados geravam insultos de retorno e não raro, discussões e até brigas. Era uma versão caipira do bairrismo. 

Também certos gestos ou jeito comportamental renderam suas inspirações. 

Vou lembrando agora do povo de Conceição da Barra de Minas que ganhou o apelido de "bota-ovo", com duas explicações que ouvi: uma que diz que eles, concepcionenses, falam demais e não brigam nada. No linguajar popular existe nesse sentido a expressão "botando ovo", como quem faz muito barulho, como a galinha cacareja alto ao botar. Outra versão porém vem do hábito postural comum ao homem do campo, de esperar de cócoras em vez de em pé ou sentado, como uma galinha pronta a botar. Agachar, se apoiando sobre os calcanhares. Esta posição é chamada também "cutiado" ou "acutiado", ou seja, na postura da cutia (mamífero roedor dasyproctídeo) e é uma herança indígena. 

Os ritapolitanos são os "gabiroba", nome da frutinha mirtácea mais abundante dos pastos de cerrado pelas imediações de Ritápolis, ex-Santa Rita do Rio Abaixo. 

O pessoal de São Tiago - o povo do "café com biscoito" (atualmente centro de uma grande festa temática) ou de Ritápolis, provocava aos moradores de Morro do Ferro chamando aquele lugar de "Arraial das Cocotas", alusão às vossorocas oriundas da atividade mineradora, onde as cocotas (maritacas, Aratinga leucophthalma, psitacidae), se aninham em galerias escavadas nos barrancos. Dispensável dizer o desconforto que o apelido gerava. 

Lagoa Dourada. Encravada nos contrafortes da Serra das Vertentes, produz o mais delicioso rocambole da região, usando de um pão de ló especial e um doce de leite inigualável, Tão afamado se tornou que logo os lagoenses não tardaram ser apelidados de "rocambole"

O distrito são-joanense de São Gonçalo do Amarante, ex-Caburu, foi noutros tempos produtor de boa safra de quiabo. Pelos terrenos férteis e úmidos dos sítios das redondezas, muito do fruto dessa malvácea foi produzido. Das hortas vinham em balaios para a venda na cidade. Caburuense, então, virou "quiabeiro"... 

São Gonçalo do Amarante. Autor e data não identificados. 
Fotografia gentilmente cedida por João Bosco Alves. 

Outro distrito nosso, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno se destacou na produção de arroz e limão, trazido para vender em São João del-Rei nos jacás, bruacas e sacos, no lombo dos burros das tropas. Os naturais por conseguinte foram alcunhados "arroz pilado" ou "limão-galego". Porém esses designativos se perderam sob a sombra de um produto local muito mais significativo e que realmente se afamou pela qualidade: o "sabão-de-bola", um sabão artesanal que povo usa para descarrego espiritual e para males da pele e seborréia. Surgiu então mais esse apelido. 

Belo casarão de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. 
Foto: Iago C.S. Passsarelli, 10/04/2013.

Mesmo dentro de uma cidade surge essa característica para com um bairro ou corporação Na infância ouvia moradores da área central de São João del-Rei chamarem o bairro de Matosinhos de "Matosíndio", e seus moradores de "índios", no sentido mais pejorativo que a palavra comporta, como selvagem, bárbaro. As duas orquestras sacras bicentenárias da cidade tiveram outrora seus apelidos: "coalhada" (Ribeiro Bastos) e "rapadura" (Lira Sanjoanense). E os times de futebol? Também, mas não é assunto para este texto. 

Esta cidade aliás foi apelidada "São João dos Queijos", nome que faz jus à grande produção deste produto e a extraordinária qualidade dos queijos. Não obstante a queda na produção desde alguns anos, o cognome persevera teimoso.  

São João del-Rei nutria com a vizinha Tiradentes uma velha rivalidade. No século XIX e mais um tempo adiante, os tiradentinos eram chamados "jacubeiros", referência à jacuba, uma bebida tôsca mas saborosa e de "sustança", de que existem algumas receitas, mas cá dou a que aprendi em menino: café forte, coado amargo de tudo ("café pagão"). No caneco ou cuia se pica uns pedaços de queijo mineiro e põe um tanto de "farinha de munho" (fubá torrado) e açúcar mascavo para adoçar. Por cima despeja o café citado. O calor derrete o queijo, gerando um fio de puxa-puxa. Comida de tropeiros, boiadeiros, carreiros, garimpeiros... 

Mas este apelido deu lugar a outro mais irritante para eles: "tatu com repolho". Digo irritante porque na infância ouvia minha mãe e tias recomendando-me ser bem criado, ter juízo, respeitar os mais velhos e nunca chamar ninguém de Tiradentes de tatu com repolho porque dava briga! Em compensação eles nos retribuíam com um terrível nome: "sabiá com farinha"... Diz que nos bailes e festas de barraquinha, se a rapaziada das duas cidades irmãs se vissem por aí, bastava um chamar o outro: "Ôh, sabiá com farinha!" que o pau quebrava!

Longe de ofender qualquer localidade citada neste texto ou a seus cidadãos, quis apenas revelar para quem não conhece, mais este tempero da mineiridade: o mundo dos apelidos. Embora existam em todo país _ claro _ os acima referidos tem a cor local, a face do provincianismo das Vertentes de Minas. 


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli

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