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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 20 de julho de 2013

Arte no ar: pipas, papagaios e jiricos


São chegadas as férias de inverno. A gurizada sobe aos morros em busca de locais mais ventilados com suas pipas. Nas praias aproveitam a brisa oceânica. Ora se torna perigoso quando o palco são as ruas convencionais, pelo risco da fiação elétrica da rede pública. Soltar pipa é uma das diversões tradicionais mais queridas da criançada e que muito marmanjo não consegue deixar, vencida a infância física.

É um brinquedo milenar, de remota origem chinesa, que disseminou mundo afora desde longa data. Da Europa o recebemos e por todo o país se esparramou ganhando peculiaridades locais, mas guardando em si a mesma essência e sensação de liberdade ao se praticar. ALENCAR (1971) afirmou: "antiquíssima é a brincadeira universal de empinar papagaios de papel. Teria surgido na China, no século XIII ou XIV e dali invadido a Europa", porém indica possibilidade de uma origem bem mais antiga. O autor fez um importante estudo perpassando pelo histórico, a tipologia, modelos, vocabulário, etc. 

O objetivo específico do presente texto não é descrever a brincadeira, que de assaz conhecida talvez dispense esse passo; tão pouco traçar sua caminhada histórica, hoje de consulta fácil [1]. É tão somente pretexto para expor uns detalhes intrínsecos que evocam a minha própria infância nos altos campos da Caieira, em São João del-Rei da década de 1970, que portanto vivenciei, e que depois foram reforçados por informações mais tardias, de 1999, tomadas com jovens afeitos ao brinquedo das pipas.

Basicamente o processo começa com a escolha da matéria prima: bambu, que deve ter os gomos longos e estar “de vez”, ou seja, em estado intermediário entre verde e maduro. A peça é lavrada à faca até formar varetas que são amarradas em cruz, com linha retesada entre os extremos. É a base da pipa, muito leve, chamada “armação”.

A etapa seguinte é cobri-la. A escolha da cor é muito individual e existem combinações simples ou variadas, uma verdadeira expressão artística, com figuras geométricas (losangos, triângulos, círculos, polígonos), faixas e outras formas variáveis. Temas do futebol também perpassam nas coberturas, como na combinação de cores ou no aproveitamento dos brasões. Um símbolo de caveira é também frequente. Mormente se usa a folha de seda para as composições.



A cola pode ser a branca comum, para papel, a mais usada, mas já se usou muito o “grude”, uma cola caseira tosca, feita com polvilho e água, mexidos vigorosamente ao fogo dentro de uma lata, gerando uma massa pegajosa.

O próximo passo é fazer a “rabiola”, uma longa linha atada a parte de trás da pipa, com muitas fitas plásticas retalhadas amarradas por nós. Em minha infância eram mais comuns as fitas feitas de folha de seda, dando um colorido especial à rabiola, porém grande fragilidade. Por vezes se mesclam cores de tanto em tanto gerando a sensação de faixas, ou se alternam fitas de duas cores. Algumas crianças faziam rabiola de jornal cortado. A rabiola é que estabiliza a pipa no ar, contrabalançando seu peso. A rabiola tem as fitas na parte inicial amarradas muito próximas umas das outras, conferindo um aspecto denso, daí ser chamada de “cabeleira”. Na parte média as fitas vão gradativamente se afastando, ganhando o nome de “rabada” e por fim o terço final quase sem fitas ou mesmo sem elas é apenas um prolongamento de linha conhecido por “chicote”.

A linha preferida para soltar pipa é a nº10, leve e resistente. Quando se constroem pipas grandes que fazem mais força no contra vento, usam-se linhas mais fortes como cordonê e o fio de nylon de pescaria. A linha se prende à pipa por um artefato de linha preso na armação, em dois ou três pontos, chamado “tem-tem” ou “cabresto.

O ato de soltar pipa se dá em espaço livre, dependendo do vento para erguer o brinquedo e liberá-la para mais longe (“dar linha”). A simples brincadeira é empinar a pipa ou fazê-la remexer no ar, rebolar (“dar carioquinha”) ou fazê-la descer em riste após movimentos hábeis das mãos na linha, conduzindo-a a um voo rasante (“dar de bico”) e imediatamente antes dela cair no chão se solta mais linha e ela retoma a posição inicial com um rápido manejo. A pipa que consegue fazer estes movimentos é considerada boa, digo, bem construída. Se for avantajada é alcunhada “pião”.

Por outro lado se não consegue é ruim e ganha os apelidos pejorativos de “camelo” e “caixote”. Se a rabiola é curta, insuficiente para estabilizar a pipa ela se põe descontrolada a fazer giros no ar, mais ou menos velozes conforme o comprimento desse acessório. Diz-se que a pipa “dá de rodinha”. Se a falta de estabilidade é por erro na medida da armação, com desigualdade na medida de distância na centralização das varetas, ela tende a tombar para um lado ou nunca se alinha, inclinando-se de maneira aleatória, daí se dizer que a pipa “dá de lado”. Se a diferença é pequena se resolve amarrando-se do lado oposto à inclinação umas fitas largas para contra peso. Outro defeito corrigível é “dar de tábua”, assim chamada quando a armação é muito plana fazendo com que a pipa prancheie no alto sem obedecer aos comandos. A solução é “morgar” a armação, esticando uma linha bem tensa entre os extremos direito e esquerdo para obrigar uma certa curvatura.



O cerol (“ceral”, dizem alguns) é um preparado de vidro fino moído com massete dentro de uma lata, cujo pó se aplica à linha de soltar com uma mistura de cola branca de papel ou preferencialmente cola-madeira. Uma variante usa goma-arábica com pó de serralheiro (pó de ferro que solta das serras de cortar vergalhões nas oficinas de serralheria). O cerol pouco cortante por ter vidro insuficiente é apelidado “água de batata”.

Este preparado é passado à linha de soltar e ao chicote para a disputa mais querida dos soltadores que é cortar a pipa do outro, rompendo a linha no ar pela habilidade de “cruzar” as linhas até que o cerol corte quem está “liso” (sem cerol) ou com cerol mais fraco. Ao cortar de insulto, muitas vezes o vencedor grita ao perdedor: “ôh, goiaba!”, como um brado de superioridade. Os habilidosos vão conduzindo sua pipa desde longe até próximo da pipa que se almeja cortar, ato chamado de “buscar”.

A pipa rompida desgoverna em corrupios no ar, como um bailado surrealista, ao bel-prazer do sopro eólico. Está “voada”, não tem dono. É de quem pegar. Quem cortou “debica” sua pipa tentando “aparar” a pipa voada, rompida, ou seja, capturá-la em pleno ar, trazendo-a para si na emboleira de linhas e rabiolas. Passa a ser seu dono incontestável pela supremacia da habilidade. Dizem então que “mandou e aparou”. Alguns soltadores se tornam respeitados tal a capacidade de fazer isto. Mas se a pipa está de fato perdida no seu voo, ao léu a molecada corre desesperadamente para alcançá-la, onde cair.  O primeiro a pegar é o novo dono e cuida logo de gritar “tá na mão!”, indicando posse desde então.

O cerol tem sido alvo de protestos e campanhas educativas visando sua exclusão devido ao grande número de acidentes que provoca, com cortes profundos na pele, até mortais, quando ciclistas e motociclistas são atingidos no pescoço acidentalmente na corrida sobre seus veículos.

Além das pipas existem os papagaios. A diferença básica para a região das Vertentes é a cobertura, de plástico nestes. Outra diferença é que não costumam deixar espaços vazados na armação, havendo uma cobertura total. Em geral não tem rabiola e por isto os movimentos no ar são bem mais limitados. São diversos os modelos de papagaios, como o “arraia” e o “morcego” cuja forma imita a silhueta dos animais que lhes emprestaram os nomes; o “jaú”, um papagaio losangular grande, sem rabiola, e o “peixinho”, losangular pequeno e por exceção com rabiola. 

Por fim existe o mais simples desses brinquedos e de todos o mais improvisado: o “jirico” ou “jiriquinho”, feito com uma simples folha de caderno, com as bordas de fora a fora dobradas em largura de uma polegada em 90º em relação à planura da folha. Dois furinhos para trespassar o tem-tem e a rabiola (de papel) o completam. Como não tem armação e não suporta muito vento, subindo pouco, basta-lhe a linha de costura comum, nº40. Porém o jirico é o caminho do aprendizado dos pequeninos para depois chegar às pipas, piões e papagaios.

Soltando um jirico.

Soltar as efêmeras pipas é uma atividade alegre que desperta nas crianças sociabilidade e espírito esportivo. Tem ainda um lado de diversão familiar quando os pais ajudam ensinado a confecção e participando da soltura.

São objetos artísticos posto que concebidos de forma criativa, individualizada, dependendo de escolha de cores e disposição dos recortes de folha. O fazer é estritamente manual e a transmissão do aprendizado se dá informalmente. Diferentes épocas conservam domínios do fazer de diversos tipos, denotando uma dinâmica. A prática conserva um linguajar específico. A produção do cerol e a aplicação na linha se prendem a um conhecimento prático. O controle da aerodinâmica vem de uma atividade empírica. Em tudo a pipa se configura como uma brincadeira da cultura popular que pode ser enquadrada na característica da manifestação folclórica.

Referências Bibliográficas

ALENCAR, Edigar de. Papagaios-Pipa-Arraia. Revista Brasileira de Folclore, n.29, jan./abr.1971. p. 5-23.

Notas e Créditos

* Texto, desenhos e fotografias: Ulisses Passarelli


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