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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A Nova Encomendação de Almas

(Ofereço a Francisco José de Rezende Frazão) [1]  

         Era costume na vila de São Gonçalo do Amarante, distrito de São João del-Rei, o rito da Encomendação pela quadra quaresmal, emitindo a altas horas cantos lúgubres em sufrágio das almas do purgatório. Ao som da matraca o clima era tenebroso, eivado de medos de toda sorte, de assombrações variadas, pelo que ninguém se atrevia a espiá-los pelas frestas da janela.
         Desse grupo antigo nada sobrou senão os cantos memorizados por antigos moradores. Os velhos praticantes morreram ou se mudaram para a cidade. A falta de renovação aliada às mudanças sociais sacrificou esta tradição. Notícias a respeito já foram publicadas como parte de minhas pesquisas sobre este distrito.
         Contudo, na quaresma de 2008, o leiteiro Ednei Sebastião de Oliveira, Ministro da Comunhão, auxiliado por abnegados companheiros, atendendo aos pedidos dos moradores, restituiu o ritual com os mesmos cantos mas com nova fisionomia. No ano seguinte fui acompanhar a Encomendação e desta observação procedem as presentes informações.
         O grupo se reuniu dentro da igreja pelas 19 horas. Vários moradores vieram acompanhar. A Irmandade do Santíssimo Sacramento esteve presente com suas opas vermelhas e lanternas de prata, ladeando o irmão cruciferário. O organizador deu abertura com uma prece e a seguir leu uma passagem bíblica e dela fez breve explanação. A seguir convidou todos a acompanhar com espírito de recolhimento e ressaltou que ninguém fosse com superstição pois assombrações atrás da encomendação não existiam, isso era crendice do passado.
         Saíram à rua com o barulho seco da matraca. Os dedos nas contas do terço rezaram primeiro uma via-sacra, fazendo estações diante de casas pré-estabelecidas, que já abertas, com os moradores à dianteira assistindo tudo, dispunham imagens na fachada e alpendre, quadros de santos, toalhas de qualidade, jarras floridas. Entre os mistérios cantos católicos assaz conhecidos.
         Vencida a via-sacra, chegaram ao portão do cemitério e diante dele, começaram a encomendação propriamente dita, com os mesmos cantos antigos e seguindo o ritual à semelhança, que só não se completou porque a chuva desabou com vigor obrigando o retorno antecipado à igreja, onde se concluiu o ritual com a reza do fim e a entrega, todos ajoelhados muito respeitosamente.
         Sob o olhar puritano ou apenas preservacionista, a balança do julgamento iria considerar descaracterizada a nova encomendação. Contudo é preciso entender que os tempos mudaram e ninguém o fará voltar. A encomendação à moda colonial se foi, porque os assombros que a ambientavam foram banidos pela modernidade. No novo contexto social ela não acha espaço nem função. Sua pequena dinâmica foi incapaz de sustentá-la.
         Ora a nova encomendação veio com os cantos originais, a matraca inseparável, um respeito irrepreensível, repleta de devoção e fé nas almas, ofertando-lhes preces, enfim, seu objetivo central, porém revelando a ausência de superstições, como convém a um Ministro da Comunhão e aliada à via-sacra, que lhe serve de sustentáculo. É de se pensar se teria êxito hoje aquela encomendação do passado num tempo moderno. O segredo da vivência do folclore é o seu poder de adaptação e não a capacidade de se manter intocável. Ednei enxergou isto e eis aí seu fruto, digno de louvor, repetido aliás em 2010.
           
Grupo de via-sacra e encomendação na vila de S.Gonçalo, 2009.

Notas e Créditos

(*) Texto e foto: Ulisses Passarelli




[1] - Neste dia de observações, Frazão me acompanhou a São Gonçalo, numa visita que teve seu lado pitoresco por ter sido realizada de bicicleta, com parada na travessia do Ribeirão do Brumado. Voltamos tarde, debaixo de chuva, estrada de terra, muito precária e escura. 

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