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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Sertão em crônica: idealismo, imaginário e misticismo

Sertão é o meio de mundo... o ermo, o despovoado. Lugar longe, de muito mato e pouca gente. Habitat das feras, dos perigos, dos bichos peçonhentos. Já por isto, vai cambiando entre o real e o imaginário, que se reforça a cada novo acontecimento extraordinário que chega: um causo, uma lenda, um assombro. 

Sertão é isto: se entende, mas não se explica. Ele inspira o poeta em seus versos evocadores do atavismo humano, sempre aludindo à casinha de sapé, à tapera, ao cantar dos pássaros na alvorada, aos espectros lúgubres das horas mortas, às léguas poeirentas que o separam da civilização. Assim surge o sertão descrito nos versos das toadas caipiras, das modas de violas. 

É no sertão que a jovem se mostra mais fiel ao seu amado; é nele que as festas interioranas têm ar mais provinciano; a honra é levada ao extremo das atitudes como prerrogativa suprema a ser cumprida e defendida. O sertanejo é homem de fé viva mas também amante da dança e do trabalho, por cuja força braçal nada rejeita. O homem do sertão é simplório. É o caipira que cultiva a terra, que cria o gado e pesca nas lagoas; é o caboclo que tem apego aos poucos objetos rudes que necessita para sobreviver em seu sítio. É no mato que acha os remédios fitoterápicos. O convívio com a natureza o faz exímio conhecedor dos fatos naturais, os detalhes meteorológicos, as características de cada estação do ano, as peculiaridades de cada animal. Também é crédulo, fiando nos bentinhos, patuás, medalhas de santos, simpatias, benzeduras, mezinhas e garrafadas. É apegado a Nossa Senhora, mas também acredita tanto no saci-pererê quanto na alma milagrosa de um vaqueiro, cada qual com seus atributos. 

Ninguém houve melhor que João Guimarães Rosa para fixar o espírito sertanejo em sua obra, quanto ao homem mineiro, ou que Luís da Câmara Cascudo, quanto ao nordestino. 

Sertão, aliás, difere aqui e lá. No sudeste é tão somente o local distante, de pequena densidade demográfica, de difícil acesso onde as condições da natureza impõe um modo próprio de vida, um tanto tosco e custoso, mas igualmente poético, bucólico. No Nordeste e norte mineiro sertão é a área correspondente ao semiárido, Polígono das Secas. O sertão nordestino tem uma área de transição com a Zona da Mata chamada Agreste, que goza de aspectos próprios. O sertão nordestino algumas vezes se associa à noção espacial e intitula uma dada região do hinterland: Sertão dos Inhamuns, Sertão do Seridó, Sertão do Pajeú, Sertão do Cariri, Sertão do Acari. 

Para nós das Vertentes de Minas, centro-sul do estado das Gerais, sertão é ou era o oeste, as bandas do poente para onde no passado rumavam homens corajosos a comprar gado, boiadeiros com sua comitiva em dias de viagem iam ao Sertão de Formiga, à Mata do Corda, às bandas de Pains e Candeias, trazendo tocados numa verdadeira odisseia reses rumo a novos invernistas destas plagas ou aos matadouros. Os mascates e tropeiros também interligavam as duas zonas, aqui, sede da comarca e lá, terra de gigantes. Saint-Hilaire descreveu minuciosamente o comércio com aquela zona e registrou no começo do século XIX (1819-1822) que sertão...:

"é para além da povoação de Formiga, lugarejo situado acerca de 24 léguas de São João del-Rei, que situam, desse lado, os limites do sertão ou deserto; mas a região começa muito antes a ser pouco habitada." (p,116)

Mais tarde, final dos oitocentos, o trenzinho rasgou a vale do Rio das Mortes. Vinha da Dom Pedro II (Central do Brasil), pela "Linha de Sítio", desde Antônio Carlos, chegava a São João del-Rei e daqui ia a Aureliano Mourão, onde fletia para a Barra do Paraopeba, onde tal afluente encontra-se com o Velho Chico. A foz do Rio Paraopeba está hoje debaixo do reservatório imenso de Três Marias. Era o quilômetro seiscentos e dois da bitolinha, a locomotiva a vapor de bitola estreita, 76 cm, da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas). A chegada da ferrovia foi o mais significativo elemento a impulsionar a economia e a vida social no século XIX. O povo o chamava poeticamente "Trem do Sertão", que saía de São João del-Rei num apito dolorido e inesquecível pelo centro da Avenida Leite de Castro, cena inextinguível da memória de quem o viu e nele andou; de quem vislumbrou o encanto medonho da Ponte do Inferno, ou o bucolismo da estação do Mestre Ventura.

O trem não fez parar o boiadeiro, o tropeiro, o carreiro, o mascate. Pode tê-lo feito diminuir no seu ir vir do sertão para o comércio. A estrada de automóvel é que o extinguiu, o asfalto, o caminhão. Razões do progresso e da evolução humana. O comércio com o sertão marcou época em São João del-Rei que desde o fim do Ciclo do Ouro o estabeleceu em bases sólidas, qual entreposto comercial, fornecedor que era de gêneros para a capital do país, então Rio de Janeiro, para onde partiam muitos cargueiros de mantimentos em geral, conforme registraram as crônicas. O inglês Richard Burton em 1868 registrou um ditado que era então corrente e que de certa forma qualificava o que era o sertão daquela época: “Se você vai ao sertão, cuidado! Suba o morro devagar para poupar a besta; no plano, ande depressa, para abreviar a viagem; desça o morro com atenção, para a sua própria salvação.” Eis o aviso aos viajantes incautos pelas estradas vicinais e trilhas ruins. O perigo rondava...

A palavra "sertão" aparece em alguns documentos antigos (algumas vezes com "c", certão), no linguajar popular, nos versos de cantorias populares, nos topônimos, na música popular. A palavra sempre é organizada na frase de tal forma que nos faz lembrar o mato ou soa de uma maneira que induz o pensamento às raízes rurais: 

"Sei que vou morrer...
Vou me acabar!
Mas quero ser enterrado,
no Sertão de Paiabá!"
(Canto de trabalho, capina de mutirão, acabada de roça, Barbacena, 1996) 

Quanto à etimologia, pouco se sabe com exatidão. Fadel Filho com perspicácia explorou o tema. A palavra já era usada pelos portugueses quando da descoberta do Brasil. 

Sertão é um ideal inspirador. Dizer que algo é do sertão é como se disséssemos que vem carregado de uma qualidade atávica, mística, que teima em nos mostrar de onde viemos, onde estão nossas raízes. Na cultura popular, neste sentido se aproxima da palavra Aruanda... Bahia... Jurema... como territórios do sagrado, do espiritualismo: "Vem lá da Aruanda..." ; "Na Bahia tem..." ; "Lá na Jurema..." são expressões consagradas nos pontos de congados ou nos de terreiro. Com o sertão também ocorre isto, como por exemplo neste canto de umbanda anotado em São João del-Rei, mas que admite variações: 

"Baiano quando veio da Bahia, 
ele passou na terra do ouro,
oi, no Sertão de Ouro Fino!" (*)

É como um reino místico, uma imagem do passado; um elo perdido entre o moderno e a ancestralidade humana. É a ponte entre o que éramos e o que somos; de onde viemos e onde estamos. É a raiz. É um pedacinho perdido desse Brasil de muitas faces.

Trem do Sertão em Nazareno/MG, 1976.  
O oeste, ao por do sol no distrito de São Gonçalo do Amarante,
zona rural de São João del-Rei/MG. 12/07/2015.

Referências Bibliográficas

ANTÔNIO FILHO, Fadel David. Sobre a palavra "sertão": origens, significados e usos no Brasil (do ponto de vista da ciência geográfica): http://www.agbbauru.org.br/publicacoes/revista/anoXV_1/AGB_dez2011_artigos_versao_internet/AGB_dez2011_11.pdf (acesso em 06/12/2014, 07:45 h)

BURTON, Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868). 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5ª, v. 197, p.188.

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem às nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goiás. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1944. 343p. Coleção Brasiliana, série 5ª, v.68. 

Notas e Créditos

* O ponto continua assim: "Salve, salve os baianos! / Salve, salve o Senhor do Bonfim! / Salve, salve os baianos, / que não se esqueça de mim!" 
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: Iago C.S. Passarelli (poente), David Passarelli (Trem do Sertão)
**** Leia também neste blog:

CAMINHOS DO FOLCLORE

2 comentários:

  1. Belo ensaio sobre o SERTÃO, que é as vezes tão perto, mas também tão longo.
    Parabéns e gratíssimo por compartilhar conosco!

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    1. Prezado Luiz Cruz, muito grato pela visita e comentário. Quando o corre-corre da vida urbana sufoca nosso peito, a alma busca o sertão longínquo, porque de fato ainda temos um pouco dele dentro de nós. Por isto talvez você muito bem observou essa ambiguidade de estar perto e longe ao mesmo tempo. Por vezes é preciso reencontrá-lo...
      Grande abraço, UP.

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