Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Folclore, Cultura Popular e Patrimônio Imaterial

Em comemoração ao Dia do Folclore, passado a 22 do corrente e do Mês do Folclore (agosto), este blog traz à tona a presente postagem dedicada a um panorama sobre a caminhada dos estudos do folclore no país. A evolução dos conceitos e por conseguinte do próprio entendimento da matéria tratada é a base desse texto, que o faço em homenagem a todos que eivados de satisfação se irmanam como folcloristas. 

* * *

O conceito ou antes a interpretação do fato folclórico tem mudado intensamente. Não é para menos. A dinâmica é um elemento típico da cultura e notadamente no campo folclórico a rapidez com que as coisas mudam é notória. Sobre modelos ancestrais se constroem novas formas. A Carta de William John Thoms em 1846, na qual surge pela primeira vez esta palavra, "folk-lore", já nos dá esse indicativo nas suas entrelinhas. 

Ficou então patente que a dinâmica é uma de suas essências e no seu processo destrutivo e construtivo ao mesmo tempo, em verdade remodela o fazer pela mescla do saber. As manifestações se adaptam à psicologia coletiva de seu tempo, desde que tenham ainda uma funcionalidade para a comunidade. Do contrário, de fato, perecem. Folclore é pois essencialmente vivo e mutável. 

Nos meados do século XIX o folclore era entendido como um conjunto remanescente de tradições antigas, em vias de total desaparecimento. Urgia recolher em apontamentos o seu conteúdo para que a sabedoria nele contida não se perdesse para as gerações futuras. O museu seria a própria página de um livro temático. 

As devoções populares surgem onde menos se espera.
Cruz da Cristina, Estrada do Brumado, São João del-Rei. 11/07/2015. 

Nas primeiras décadas da centúria seguinte, grandes personalidades no estudo do folclore deram-lhe em conjunto uma nova conotação, adentrando por uma fase de estudo metódico, criterioso. A faina da coleta de campo nunca parou e nunca parará. É uma peculiaridade do folclorista, tantas vezes criticada, condena, julgada e execrada por alguns cientistas sociais, que, em vivência de gabinete, distante da realidade popular, não podem compreender o sentido ou o objetivo deste tipo de trabalho. É porém um trabalho que tem seus méritos e hoje muita gente se debruça  a estudar sobre o material etnográfico recolhido pelos velhos folcloristas, que em suma se tornou a fonte primária da pesquisa... O fato é que uma coisa não impede outra. A briga no campo teórico entre folcloristas e outros cientistas sociais já amplamente analisada, em si, a grosso modo, foi pouco frutífera. 

Em meados dos novecentos a folclorística ganhava uma estruturação bem mais sólida, reconstruindo-se sobre o legado de Mário de Andrade, de Luís da Câmara Cascudo, de Amadeu Amaral, de João Ribeiro e de tantos outros. Começa o mecanismo associativo dos estudiosos Brasil afora e das tentativas nesse sentido a de melhor êxito foi a Comissão Nacional de Folclore, fundada por Renato Almeida em 1947 e ainda na ativa, com comissões estaduais filiadas compondo uma rede de pesquisadores. Logo surgiram as Semanas Nacionais do Folclore (a partir de 1948) e os Congressos de Folclore, o primeiros deles realizado em 1951, no Rio de Janeiro, ocasião na qual se aprovou a Carta do Folclore Brasileiro, um documento de construção coletiva no qual se alinhavam os conceitos em voga a respeito do que seria ou não considerado folclórico e seus pressupostos teóricos à luz de seu tempo. Era um avanço enorme. A primeira sistematização não individual.

Folia de Reis das Águas Férreas visita um lar e canta diante do presépio
iluminado por uma vela, na noite de Natal. São João del-Rei, 2014. 

Os congressos continuaram e as pesquisas folclóricas ganharam tal significado que tomaram o status de movimento cultural, vigoroso, com o desenvolvimento da célebre Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, tendo como expoente Edson Carneiro. Um movimento tão bem ancorado que conseguiu mobilizar um grande número de estudiosos e criou uma linha editorial de livretos e discos compactos em vinil, congregando estudos os mais variados da folclorística e registros sonoros de manifestações folclóricas de todo o país. Gozava de um apoio governamental e político significativos. O folclore era entendido como um elemento de nacionalismo, identitário do povo brasileiro, por assim dizer, um dos componentes da soberania. 

Mesmo depois de arrefecida a campanha, o movimento sem mais a estrutura anterior ou a amplitude de mobilização nacional, prosseguiu porém muito forte ainda nos governos militares. A produção e ação era gigantesca ainda na década de 70.  Mas na década seguinte, apesar do empenho incomensurável dos amantes do folclore o movimento nacional da folclorística entra em fase de latência. 

Congadeiros chegam à Capela do Rosário em seu dia festivo.
Ramos (Ritápolis/MG), setembro/1996. 

Obviamente, que já passadas tantas décadas, as questões conceituais tinham evoluído. Daquele entendimento inicial do folclore como resíduo de cultura em extinção pouco restava. Ele não tinha acabado, nem cem anos após o pioneiro inglês, William John Thoms. Folclore já não era só a manifestação intangível. O material também foi englobado. Assim, de uma cantiga a um balaio artesanal, de uma benzeção a um doce caseiro de laranjas, tudo era folclórico. Com pouco outro avanço ganha corpo: o folclore não era só o antigo, o tradicional. Podia existir um folclore nascente, novo em si ou com uma roupagem recente estabelecida sobre modelo antigo. O folclore vivia também a plenos pulmões nos grandes centros urbanos e não apenas nos arraiais recônditos. Outro tabu se quebra: o anonimato. Passa a ser uma característica secundária; o fato de se vir a conhecer o autor de um folheto de cordel ou de uma moda de catira não os torna menos valorosos para o universo do folclore. 

Ao tempo da redemocratização do país o movimento das comissões estava caquético. Elas se dissociavam, apagavam-se. As edições minguavam. Os congressos esfriaram. Os folcloristas prosseguiam na faina, mas não havia mais movimento significativo. A própria palavra "folclore" estava a horas tantas desgastada, mal compreendida e pessimamente usada. Folclore se tornara pelo emprego errôneo símbolo de mentira, daquilo que não factível. Até numa empresa, quando algo dá errado, uma trapalhada qualquer, já se usa a expressão: "entrou para o nosso folclore". O mesmo na política.

Mastros junto à Capela de São Sebastião durante a festa do orago.
Restinga do Meio (Ritápolis/MG). Janeiro/1996. 

Fora do Brasil, foi por esse tempo, com exatidão em 1989, que a UNESCO na sua 24ª reunião lançou luzes sobre os novos rumos do entendimento dessa cultura. A partir daí, na reunião seguinte foi lavrado um documento que seria um verdadeiro marco, a Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Popular e Tradicional. A expressão "cultura popular" que já ganhava espaço em detrimento de "folclore", mas ainda com dissonâncias conceituais, adquiria um espaço maior e a partir de então progride nas preferências de uso. Trouxe um novo alento aos teóricos do assunto e impulso de vigor que aqui no país se reverberou com o soerguimento das comissões... 

Cartuchos de amêndoas. Festa de São Miguel Arcanjo.
São Miguel do Cajuru (São João del-Rei/MG). Setembro/1999.
 

Em julho de 1992 aconteceu em São José dos Campos o Simpósio Nacional de Ensino e Pesquisa de Folclore que a despeito de seu eixo temático com êxito alcançado, foi também o gérmen desse processo de reestruturação das comissões e em especial conseguiu novamente congregar os estudiosos em torno do eixo comum. Na sequência o VIII Congresso Brasileiro de Folclore (Salvador, dezembro de 1995), retomou a série e promoveu a necessária releitura da Carta do Folclore Brasileiro, incorporando os novos conceitos e ajustando os que se tornaram obsoletos. Além dos congressos que se mantiveram desde então (o próximo, 17º, programado para 2016 em Belo Horizonte), surgiram os Seminários de Ações Integradas em Folclore e Cultura Popular, funcionando como eventos nacionais e macrorregionais. 

Enquanto isto, gradativamente a expressão cultura popular ganhou força em detrimento de folclore. Ao mesmo tempo, novos conceitos inclusivos, reinterpretaram essa mesma cultura como um elemento constitutivo de nosso patrimônio. Por conseguinte, nas reconceituações, o folclore é entendido em tempos hodiernos como sua parte imaterial e gozando então de prerrogativas semelhantes. Dentre outros documentos, destaca-se a Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, lançado em 2003 pela UNESCO, bastante emblemático nesse sentido e sem dúvidas uma evolução daquelas suas recomendações de salvaguarda de dezessete anos antes.

Espantalho entre hortaliças.
Córrego, Santa Cruz de Minas/MG, 1999. 
O novo texto fortalece no Brasil a tendência aproximativa da cultura popular ao imenso bojo do patrimônio imaterial e órgãos importantes do país começam um trabalho muito sério de reconhecimento e valorizações de manifestações populares, que pouco a pouco ganham espaço nas políticas públicas para culturas, fato inimaginável a poucos anos. 

Assim, a grosso modo, evoluiu a caminhada da folclorística em terras brasileiras. As rápidas considerações deste texto apenas esboçam a trajetória, que prossegue em construção permanente. 

Samburá: trançado de taquara para carregar pescados.
São João del-Rei. Peça da década de 1980. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S. Passarelli (cruz e folia); Ulisses Passarelli (as demais fotografias).
*** Leia também: FUNDAMENTOS DO FOLCLORE

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Folia do Divino na missa


Folia do Divino "Embaixada Santa" durante a missa na 
véspera de Pentecostes, Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos,
São João del-Rei. Folião e Embaixador: Luís Carlos Rosa, Bairro Araçá. 

Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli. 
** Vídeo: Iago C.S. Passarelli, 18/05/2013. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Congo em marcha



Congo do distrito de São Gonçalo do Amarante (ex Caburu) retornando para o largo da igreja no dia maior da Festa do Rosário. Capitão: Lourival Amâncio de Paula. São João del-Rei / MG. 13/10/2013.

"A saudade vem, 
A saudade vai...
Ô minha Nossa Senhora, meu Deus!
Cadê meu Pai?"

Notas e Créditos

* Vídeo: Iago C.S. Passsarelli
** Texto: Ulisses Passarelli

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Congado de Resende Costa


Apresentação do congado "Santa Efigênia" (catupé), 
de Resende Costa, durante a Festa do Rosário de Ibituruna, em 30/06/2013. 

"Bateu na porta, mamãe,
vai ver quem é.
É um negro velho, mamãe,
do rosário é"


Notas e Créditos

* Vídeo, texto e acervo: Ulisses Passarelli

sábado, 15 de agosto de 2015

Bate-paus: um moçambique de corte

A comunidade congadeira costuma classificar sob a expressão genérica guarda de corte (pronúncia aberta, "córte") aos congados que ao dançar exibem coreografias de batidos de varas, bastões, facões e espadas em movimento belicosos ou graciosos, sempre com função idiofônica incorporada pelas batidas dos implementos. 

Neste contexto se destaca nos Campos das Vertentes o bate-paus, um congado que o povo entende como sendo uma modalidade de moçambique, tanto que é típico trazer paiás atados às pernas, ou seja, jarreteiras de couro prendendo guizos metálicos a nível do tornozelo ou logo abaixo do joelho. Eles dão uma nota singular ao som do grupo com seu tinido ritmado pelas pisadas dos dançantes. 

Mas a semelhança com os demais moçambiques, ou seja, os típicos, que não usam bastões de percussão praticamente para por aí, nesses tornozelos musicais. Talvez ainda se possa apontar alguma cantoria que no estilo lembre um tanto vagamente algo dos outros moçambiques. 

Estes moçambiques via de regra se vestem de branco, usando gorros tricotados, lenços à guisa de turbante, bonés ou como são bem típicos, casquetes. Outro elemento bastante comum no vestuário são longas fitas multicores trespassadas pelo ombro, cruzadas no peito e nas costas. Há grupos que por costume dançam descalços, outros usam tênis branco de ordinário. 

O instrumental é dos menores no reino do congado. Não raro apenas uma caixa marca o ritmo mas alguns grupos tem mais caixas, por vezes tarol, e em certos casos outros instrumentos de corda e fole surgem, além de pandeiros. 

A distribuição geográfica desses moçambiques começa no Vale do Paraíba, em São Paulo, com ocorrência em vários municípios. Lá parece mesmo ser sua zona típica e alguns folcloristas o estudaram naquela região, tais como Alceu Maynard Araújo e Maria de Lourdes Borges Ribeiro. Indícios sugestionam que do Paraíba do Sul os bate-paus se estenderam serra-acima (Serra do Mar e Mantiqueira), até o litoral norte paulista e adentrando por Minas, quiçá por meio de migrantes ou talvez mais ainda, trazido por romeiros que sempre os vêem e aprendem em Aparecida ("do Norte"). De volta às suas terras nas alterosas mineiras reproduziram este congado e o inseriram naturalmente no amplo complexo das Festas do Rosário / São Benedito e Festas do Divino. Aliás, em São Paulo, eles estão no mesmo contexto festivo. 

Desta plausível difusão geográfica, os bate-paus em Minas Gerais se estabeleceram em alguns lugares do estado, sendo bem sedimentado na área dos Campos das Vertentes, disposto como uma faixa de ocorrência: Ponte Nova (Bias Fortes), Santana do Garambéu, Santa Rita do Ibitipoca, Paraíso Garcia, Ibertioga, Barroso, Piedade do Rio Grande e São João del-Rei. 

Neste último município esses moçambiques de bastão existiram no Caquende (*) e na cidade, pelos bairros São Dimas e Alto das Mercês (Rua do Ouro), mas no presente estão extintos. 

Nesta área é muito frequente que esses grupos tenham uma duplicidade, apresentando dois estilos, "congado" e moçambique: é o mesmo grupo, os mesmos dançantes, mas no dia da festa apresentam "congado" de manhã e moçambique de tarde, ou aquele no sábado e este no domingo festivo. O que chamam congado pode ser entendido conforme o grupo em análise como no estilo de um congo ou de um catupé, mas via de regra chamam apenas "congado" ou "congada", de forma genérica, e o moçambique é o bate-paus. O que mudam então é o seguinte: os casquetes por capacetes à modo dos congos; bastões por instrumentos musicais; as fitas trespassadas por aventais bordados como a imitar saiotes. A música altera e os guizos são excluídos. 

Tal versatilidade é frequente na região e vemos aparecer com outras guardas mistas. Em São João ainda na atualidade há grupos que tocam moçambiques (carijó, jomba) e catupé nos intervalos. 

Quanto à cantoria é notório a dominância de cantos curtos, intercalados entre capitão e soldados: 

_ O caminho da cidade...
_ é ouro só!
_ O caminho da cidade...
_ é ouro só!
_ O caminho... (etc)

Outro: 

_ A pombinha rolinha...
_ Vuô, vuô!
_ Caiu no laço...
_ Presa ficô!

Dentre tantos... 

Danças batendo porretes, indicam folcloristas, estabelecem uma similitude com grupos ibéricos que também guardam semelhantes coreografias. Cascudo afirmou:

"Lembra, em certos ângulos, os maculelês brasileiros e os pauliteiros de Miranda do Douro, em Portugal, pelas convenções coreográficas com os bastões, reminiscências de espadas, implemento quase universal e milenar (Europa, Ásia, África)."

Por fim, completando este panorama é interessante observar que estes moçambiques bate-paus em geral não gozam das mesmas prerrogativas dos outros moçambiques na primazia de conduzir o reinado, pelo menos quando estão em festejos que misturam muitos tipos de congados. E por derradeiro é mister observar que sob hipótese alguma os bate-paus se confundem com outros grupos da cultura popular que também percutem madeiras: os vilões são congados que batem varas (manguaras) _ finas e longas, enfeitadas de fitas _ tendo outra musicalidade e coreografia muito distinta e geograficamente estão a oeste das Vertentes; tão pouco com os mineiro-pau, grupos alegres que vivem noutro contexto fora das Vertentes, independentes do Ciclo dos Congados. 

Moçambique, Ibertioga, 1991.
Apresentação durante Encontro de Carros de Bois naquela cidade. 

Moçambique, Piedade do Rio Grande, 1995.
Festa do Rosário, Bairro São Dimas, São João del-Rei.



Moçambique, Piedade do Rio Grande, 1996.  
Festa do Rosário, Bairro São Geraldo, São João del-Rei. 

Moçambique, Alto das Mercês (Rua do Ouro), São João del-Rei, 1997.
Festa do Rosário, Bairro São Geraldo, São João del-Rei.

Moçambique, Barroso, 1996. 
Festa do Rosário, Bairro São Geraldo, São João del-Rei.

Moçambique, Santana do Garambéu, 2011.    
Festa do Divino, Bairro Matosinhos, São João del-Rei. 

Moçambique, Santana do Garambéu, 2015.
Festa do Divino, Bairro Matosinhos, São João del-Rei. 

Moçambique, Paraíso Garcia (Santa Rita do Ibitipoca) , 2015.
Festa do Divino, Bairro Matosinhos, São João del-Rei. 

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. São Paulo: Melhoramentos, 1964. 3v. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de  Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p.

LIMA, Rossini Tavares de et all. Folclore do Litoral Norte de São Paulo. Rio de Janeiro: MEC/SEAC/FUNARTE/Instituto Nacional do Folclore; São Paulo: Secret. de Estado da Cultura/Universidade de Taubaté. 1981. 317p.il. p. 113-129.

RIBEIRO, Maria de Lourdes Borges. Moçambique. Rio de Janeiro: MEC/FUNARTE/INF, 1981. Cadernos de Folclore, n.32. 79p.

Notas e Créditos

* O grupo do Caquende se extinguiu a muitos anos, bem como o da Jaguara, povoado vizinho, já no município de Nazareno.
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotos: Ibertioga, Piedade do Rio Grande, São João del-Rei, Barroso: Ulisses Passarelli; Paraíso Garcia e Santana do Garambéu (2015): Iago C.S. Passarelli; Santana do Garambéu (2011): Cida Salles.
**** Veja mais em: VAMOS NA CASA DE DEUS! 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Vamos na Casa de Deus!



Neste curto vídeo de sofrida qualidade, tomado de improviso de um telefone celular, observa-se a entrada no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos do congado de Paraíso Garcia, distrito de Santa Rita do Ibitipoca/MG, no momento da entrega do reinado. Foi sua primeira presença no Jubileu do Divino, acontecida no ano de 2015.

O grupo, demonstra perfeita sintonia de ritmo e cadência, com uma percussão de bastões muito bem ensaiada, e a beleza visual das fitas multicores entrecruzadas no peito e nas costas dos dançadores. 

Como guarda de corte, esta modalidade de congado se ajusta à categoria popularmente chamada moçambique bate-paus, facilmente diferenciável de outros moçambiques que não fazem a percussão de bastões. É identificado também pelo tinir dos guizos (paiás) atados nos tornozelos dos dançantes. 

A localidade em questão está bem na área geográfica desse modelo de congado, difundido nos Campos das Vertentes.

Notas e Créditos

* Vídeo e texto: Ulisses Passarelli

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Ditados - parte 4

A cruz é de Pedro, Pedro carregue... – cada um deve conduzir seus próprios problemas. A tarefa de uma certa pessoa deve ser entregue a ela para ser cumprida. Não se assume atribuições alheias a troco de nada. 

A mão que faz o mal feito faz o bem feito - está ao alcance de todos fazer o certo e o errado, o bom e ruim. A ação deve ser sempre positiva, bem feita.

Amigo meu não tem defeito; inimigo, se não tiver, eu ponho – a amizade verdadeira goza de todos os benefícios e complacências. A inimizade é encarada como veto absoluto ao relacionamento.

Aqui se faz aqui se paga – sentença de justiça divina: o castigo aos maus atos acontece na própria vida terrena e não futuramente no inferno.

Casa de pouco pão, todo mundo come, ninguém tem razão – onde impera a miséria o desentendimento se alia para produzir a discórdia.

De hora em hora, Deus melhora – confiando em Deus em nossa vida, sempre advém uma melhoria.

De tanto pensar morreu um burro – a busca de soluções parte em grande parte da ação. Planejamentos e reflexões muito extensos sem ação se tornam inócuos.

Devagar se vai ao longe – trabalhando sempre, agindo continuamente, se alcança bons resultados. A pressa não traz bons frutos.

Dos males o menor – quando é impossível uma situação favorável, se opta ou caminha para a menos ruim, aquela que trará danos menores. Referência parcial ao conformismo.

É igual inhambu: tampa a cara e mostra o cu – diz-se da pessoa que em dada situação não enfrenta o problema de frente, tentando fugir às consequências e responsabilidades.

Em festa de cobra, sapo não entra – entre poderosos o pobre não tem vez. Quem não tem prestígio não prospera entre pessoas influentes.

Estar no mato sem cachorro – estar sem recurso, desamparado, sem saída para uma situação embaraçosa.

Evita dos ares que eu te evitarei dos males – não se deve buscar problemas e embaraços. Com isto se busca livrar das dificuldades (*).

Faça o bem, mas olhe a quem – as benesses não podem ser distribuídas aleatoriamente. O bem se faz a quem o merece.

Filho feio não tem pai – não aparece culpado ou responsável por insucessos. Projetos de resultado inesperado e negativo não são assumidos por ninguém. 

Galinha que acompanha pato morre afogada – variantes: “passarinho que acompanha morcego dorme de cabeça para baixo” e “passarinho que acompanha joão de barro vira servente de pedreiro”. Sentido: quem acompanha uma pessoa experiente ou esperta em uma aventura se dá mal.

Guerra avisada não mata soldado – quando já se sabe de uma demanda ou perigo, se vai prevenido para enfrentá-lo.

Há males que vem para bem – uma situação desfavorável pode a um dado momento se reverter favoravelmente ao lado prejudicado.

Mais vale perder um minuto na vida que a vida em um minuto – ditado contrário à pressa, induzindo a calma, a observação da situação. Indicativo de cautela.

Mais vale um inimigo declarado que um amigo falso – é melhor lidar com quem já se sabe contrário do que com aquele que simula estar junto mas em verdade também é um opositor.

Na casa desse homem quem não trabalha não come – dito em tom pejorativo para se referir à casa que uma vez visitada, não trata a visita com cortesia, não recebendo sequer um cafezinho. Diz-se também da falta de hospitalidade e benevolência: só depois de muito serviço se recebe alguma retribuição.

Não dá para quem vem a pé, quem dirá para quem vem a cavalo – referência à miséria. Diz-se do que é parco.

O apressado come cru – a pessoa afobada não alcança resultados plenos. A falta de paciência não permite que se colha um resultado amadurecido.

O bom filho a casa retorna – provérbio de inspiração bíblica, na parábola do Filho Pródigo. A pessoa depois de aventuras na vida e dissabores, volta à sua origem.

O burro quando dá coice é porque está cansado do arreio – quando a pessoa reclama de uma situação e reage contra ela é porque já não suporta a opressão que está sofrendo.

Onde há fumaça há fogo – rumores indicam um fundo de verdade no que está sendo propalado.

Para Deus nada é impossível – Deus tudo pode: através da fé se vence qualquer obstáculo.

Para ver o diabo não precisa madrugar – sentença enunciada quando logo de manhã bem cedo começam os problemas do dia, ou quando ao início do dia se avista um desafeto.

Pelo barulho do carro de boi, eu já sei o que vem dentro – pelo rumo dos acontecimentos já se prevê o desfecho.

Pra quem é bacalhau basta – pejorativo: para quem não se destaca, não adianta a melhor situação ou coisa: qualquer improviso já tem validade.

Quanto mais eu rezo mais assombração me aparece – enunciado para a sequência de problemas; referência à continuidade de aparecimento de novas contrariedades.

Quem anda com peixe, peixinho é – quem se mistura com certo tipo de gente, se comporta igualmente como tal.

Quem casa não pensa; quem pensa não casa – referência aos dissabores e inconveniências de um casamento oficialmente estabelecido e em situação de fracasso.

Quem espera sempre alcança – a esperança leva ao resultado pretendido.

Quem está na chuva é para molhar – quem está dentro de uma situação ou cargo não tem como escapar das condições correlacionadas e consequências pertinentes; ou seja, não apenas colhe bons resultados mas também passa suas vicissitudes.

Quem é vivo sempre aparece – referência à presença inesperada de quem a muito não se via.

Quem faz o lugar é a pessoa – a pessoa por seu comportamento e pelo círculo de amizades e respeito que constrói pode transformar um lugar ruim para ela viver em um bom local.

Quem mora na estação dá pousada a assombração – quem frequenta lugares inadequados alcança dificuldades para si.

Quem não gosta de criança, não gosta de Deus – a criança é fruto do amor humano e a esperança futura de continuidade da vida. É a maior bênção que Deus pode dar. Inspirado no amor que Jesus Cristo ensinou pelas crianças.

Quem não te conhece que te compre – quem não conhece os defeitos de uma certa pessoa que se habilite a conviver com ela como se fosse uma pessoa excelente. Diz-se em uma discussão a quem simula uma bondade que não tem.

Quem planta vento colhe tempestade – quem trama o mal receberá esse mal em retorno futuro ainda mais fortemente.

Quem ri por último ri melhor – a vitória aparece no final de um processo no qual se foi humilhado.

Quem tem boca vai a Roma – aquele que não se inibe e busca se informar e conhecer segue adiante na vida alcançando os objetivos almejados.

Quem tudo quer nada tem (ou: quem tudo quer tudo perde) – ao excessivamente ganancioso, imbuído de elevada pretensão, a vida reserva o fracasso total.

Quem usa, cuida – quem usufrui tem a obrigação moral de zelar por aquilo que usa.

Saco vazio não para em pé – a boa alimentação garante a energia necessária às tarefas e ao bom desempenho.

Se andares com os bons será um deles; se andares com os maus será pior que eles – cada um deve se relacionar com as pessoas de índole igual ou melhor, nunca pior.

Se não pode com ele junte-se a ele – se não puder derrotar um inimigo então se deve juntar ao mesmo por questão de necessidade de sobrevivência.

Um homem prevenido vale por dois – a pessoa com expediente para resolver as mais inusitadas dificuldades é mais útil que várias pessoas inertes ante o problema. Mais vale aquele que preveni uma adversidade com precauções, que aquele que deixa acontecer para depois tentar resolver.


Notas e Créditos


** Texto: Ulisses Passarelli 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A Capela de São Caetano

São Caetano, dito de Thiene, é um santo de nacionalidade italiana (Vicenza, 1480 - Nápoles, 1547), festejado a 7 de agosto, canonizado em 1671 pelo Papa Clemente X. É fundador da ordem religiosa dos Teatinos e patrono do trabalho, invocado contra a fome e o desemprego. Trabalhou no processo da contra-reforma e destacou-se pela caridade, fundando um hospital. 

Tem duas capelas na região: uma na vila chamada São Caetano, no município de Coronel Xavier Chaves, onde transcorre sua festa com grande animação, acoplada à de São Sebastião e outra em São João del-Rei, no Morro de São Caetano, em frente ao Tijuco, na margem direita do Córrego do Lenheiro, ao sopé do Morro do Guarda-mor.

A Festa de São Caetano em São João del-Rei tem estrutura simplificada mas congrega muitos devotos das imediações do Tijuco. É precedida por preces preparatórias da comunidade reunida e no dia maior se destaca pela alvorada festiva, com fogos de artifício e presença de banda de música. A missa ocorre à tarde, seguida de procissão. Está ligada à estrutura dos tradicionais oratórios festivos salesianos. 

CINTRA (1988) informa que o fundador da capela em São João del-Rei foi Diogo Bueno da Fonseca, na primeira metade do século XVIII. O autor registra um casamento nesta capela já no ano de 1737. Diogo Bueno foi guarda-mor nesta cidade e sua residência ao que parece era ao lado da construção religiosa, um chácara talvez.

CINTRA (1982) cita um auto de posse datado de 11/11/1811, "em favor de Antônio Valério da Costa, de 12 braças de terras devolutas, situadas na 'Praia que vai para a Capela de S.Caetano.' " (p.471) e ainda que em 12/07/1824, o Padre Joaquim José Alves compra uma "chácara com casas de vivenda e seus pertences e a administração da Capela de S.Caetano." Sobre esta capela, diz ainda o autor sobre um sepultamento na mesma acontecido em 1789.

GAIO SOBRINHO (2010) mencionou que na ata da sessão nº32 da Câmara de Vereadores, datada de 08/10/1855 há de se "lembrar à Comissão ter havido antigamente um cemitério por detrás da Capela de São Caetano onde se deve determinar que sejam sepultados os que falecerem da mesma epidemia na enfermaria criada nesse lugar."

Escreveu o inglês Burton, dizendo-a em ruínas à época de sua passagem por aqui, em meados do século XIX: "desmoronou em 1864, ou por aí, e que não foi restaurada. (...) A peculiaridade desta igreja era uma capela-mor muito maior que a nave. Um certo guarda-mor, o comandante local, ordenou ao arquiteto que assim fizesse e obrigou a se calarem os opositores, afirmando: “Tudo que é mor, é maior”. A mesma igreja trazia a insolente inscrição: “O Rei depende de nós, e não nós dele”.

A capela atual não guarda características históricas em sua arquitetura que relembrem sua origem setecentista.

Por fim, fica como registro uma referência jornalística de 1929, que invoca mais pesquisas, que pela Festa de São Miguel Arcanjo, na Matriz do Pilar, além da imagem do festejado arcanjo, também participaram da procissão o andor da padroeira (Nossa Senhora do Pilar) e o de São Caetano (*).

Capela de São Caetano, São João del-Rei, 28/09/2013.

Referências na Web

Caetano de Thiene. Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Caetano_de_Thiene (Acesso em 17/04/2015, 07:11h)

Referências Bibliográficas

BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1867). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976.

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v.

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Nomenclatura de Ruas de São João del-Rei. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.6, 1988. Separata.



GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p. p.135.


Notas e Créditos

* Fonte: jornal A Tribuna, n.995, 06/10/1929, São João del-Rei.
** Texto e fotografia: Ulisses Passarelli

domingo, 2 de agosto de 2015

São Pedro aprende uma lição

Existem vários contos populares que trazem São Pedro por personagem principal, sempre figurando-o com certa verve como um santo turrão, mas ao mesmo tempo querido, através do qual o Cristo transmite lições que servem aos demais apóstolos.  Em algumas narrativas aparece também a mãe de São Pedro, verdadeira megera, invejosa dos poderes de Cristo.

Através destes contos o povo também reinterpreta os ensinamentos cristãos com muita liberdade, facilitando o entendimento. A citação específica à figueira estabelece uma analogia com o episódio bíblico da maldição da figueira (Mt 21, 18-22; Mc 11, 12-14, 20-26), talvez alegoria da esterilidade daqueles que não frutificavam o ensinamento de Jesus. 

Paralelamente, o povo tem seus tabus com a figueira; não exatamente a produtora de figos com os quais se fazem doces na quadra do natal, mas a figueira-brava ou gameleira, árvore ligada às entidades espirituais da linha esquerda, árvore da magia. 

Outro curioso paralelo ou quiçá mera coincidência é o caso da orelha (*) que se verá a seguir, plausível aproximação do santo com o episódio da orelha decepada quando da prisão de Jesus: "Um dos circunstantes tirou da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e decepou-lhe a orelha" (Mc 14, 47). "Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão." (Mt 26, 52). Outro versículo diz que foi a orelha direita e que Jesus disse: "Deixai, basta. E tocando na orelha daquele homem, curou-o" (Lc 22, 51). Por fim, é o Evangelho de São João que detalha a cena: "Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. (O servo chamava-se Malco). Mas Jesus disse a Pedro: Enfia a tua espada na bainha! Não hei de beber eu o cálice que meu Pai me deu?" (Jo 18, 10-11). 

Pois bem. Em minha infância em São João del-Rei, meu avô materno contava-me esta passagem, dizendo que São Pedro cortara a orelha do guarda com uma dentada. Foi repreendido por Cristo, que a colou de volta com saliva. 

Nessa colcha de retalhos se destaca então a animosidade atribuída a São Pedro e os complexos culturais desenvolvidos em torno de temas bíblicos.

* * *

Dizem que um dia, no tempo que Jesus Cristo andava pelo mundo com seus apóstolos, que o Divino Mestre passando por uma figueira, pegou um de seus frutos para comer. Porém, notou que estava podre e então o Messias amaldiçoou a árvore, que imediatamente secou e morreu. 

São Pedro, indignado, o repreendeu: 

_ "Mas Mestre... por causa de um só figo estragado o Senhor condenou todos os outros bons?!"
_ "Pedro _ disse Jesus _ já não ouviste dizer que os justos pagam pelos pecadores?"

O apóstolo não aceitou o ensinamento mas não retrucou mais. Calou-se e foram embora pelo caminho afora. 

Adiante, junto a uma árvore, um marimbondo picou São Pedro bem na orelha, que ficou inchada, vermelha, doendo muito. Repleto de raiva, ele pegou uma vara comprida e prendeu em sua ponta uns panos velhos, providenciando desta forma uma tocha. Com ela, meteu fogo no vespeiro e assim matou todos os marimbondos da colônia. 

Jesus vendo aquilo, disse:

_ "Uma só vespa te ferroou e mataste a todas! Não te disse, Pedro, que os justos pagam pelos pecadores..."

E assim , partindo em jornada, São Pedro aprendeu mais uma lição. 


Notas e Créditos

* A orelha na cultura popular indica simbolicamente longevidade. Ter orelhas grandes é sinal de vida longa. Se na noite de São João, ao se contemplar o reflexo de si mesmo nas águas de alguma fonte ou rio, se avistar apenas uma orelha, é sinal de vida curta ou de morte de alguém muito próximo, até da família mesmo. Orelha mole, com arcabouço cartilaginoso flácido é indicativo de preguiça no entendimento do povo. Já no campo do pejorativo, orelha grande é alegoricamente imagem da burrice, lentidão de raciocínio. Assim ouvi nesta cidade mas certamente são tradições conhecidas em muitas outras terras.
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Informante do conto: Joaquim Maia Filho, São João del-Rei/MG, 20/04/2000.