Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Ditados - parte 5

Ajoelhou, tem que rezar – começou uma ação, tem que concluí-la.

Antes só que mal acompanhado – a estar em companhia de pessoas desonestas, de má índole, violentas, é melhor permanecer solitário.

Boca fechada não entra mosquito – não se deve falar demais pois acaba se dizendo o que não é necessário e causa embaraço.

Boca que não merece beijo, pimenta nela! – pessoa que só fala asneiras, ofensas, xingamentos, é logo execrada.

Cada macaco em seu galho – cada pessoa deve se ater ao assunto de seu domínio; cada um deve se conservar nos limites de seu trabalho, sem se preocupar com o dos outros.

Cada um sabe de si; Deus, de todos – cada indivíduo deve cuidar exclusivamente de seus problemas, anseios e afazeres, sem se preocupar com a vida do outro.

Cão que ladra não morde – pessoa que ameaça demais não cumpre aquilo que ameaçou.

Dado, até injeção na testa – sendo de gratuito, tudo é válido.  Variante: “... injeção na veia”.

Dar com uma mão e tirar com a outra – oferecer uma coisa e tomar outra; trazer um benefício e um prejuízo, simultaneamente.

Deixa eu cuidar da vida que a morte é certa – dito de incentivo à pró-atividade; cuidar das coisas necessárias ao cotidiano sem perder tempo com o supérfluo.

Desculpa de peidorreiro é barriga inchada – sempre existe uma culpa atribuída a algo, quando de fato depende-se da ação da pessoa.

Em festa de jacu, inhambu não entra – entre poderosos, ricos, o desfavorecido não tem oportunidade.

Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas – onde o perigo é muito grande, até quem tem proteção se cuida mais.

Farinha pouca... meu pilão primeiro! – quando os recursos são minguados, primeiro se olha para as próprias necessidades, depois para as necessidades alheias.

Gato escaldado não cai no pote de água fria – quem já caiu numa cilada, de qualquer  embuste tem medo.  Variante: “... tem medo de água fria”.

Levar a fama sem deitar na cama – levar uma fama ruim sendo inocente. É um ditado contrário a outro: “Fez a fama, deita na cama” , ou, “... chora  na cama, que é lugar quente”.

Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga – não se deve preocupar excessivamente com o futuro. Deve-se trabalhar e confiar na graça de Deus.

Não se quebra a perna de um burro por ele dar coice – não se pune apenas por uma má resposta ou rispidez.

O lobo perde o pelo, mas não perde o vício – o homem maduro dá sinais de perda da vitalidade mas não perde a libido.

O maior cego é aquele que não quer ver – diz-se da pessoa que teima em não admitir uma verdade que está às claras, visível por todos.

O melhor da festa é esperar por ela – a ansiedade gerada pela espera de uma acontecimento, acaba sendo mais satisfatória que o próprio evento em si, por vezes, decepcionante.

O olho do dono é que engorda o gado – o responsável por um negócio deve acompanhar de perto a evolução do mesmo, o que garante seu êxito. Variante:  “... engorda o cavalo”.

Papagaio come milho, periquito leva a fama – uma pessoa faz o ato, outra leva a culpa.

Para agradar ao santo se beija as pedras – para se alcançar um objetivo, muitas vezes é necessário tomar atitudes indesejadas.

Para quem é, bacalhau basta! – para quem não tem elegância, fineza, polimento, qualquer coisa serve.

Para quem sabe ler um pingo é letra – para quem tem perspicácia, qualquer sinal indica ou prenuncia o que ainda não foi revelado.

Pau que nasce torto morre torto – o defeito da personalidade não tem correção.

Princípio de cantiga é assobio – o início dos acontecimentos é prenunciado por pequenos fatos.

Quem nasceu para ter pena é galinha – diz-se do sentimento de ter dó dos outros, ter pena, desestimulando-o.

Quem avisa amigo é – quem alerta o outro de algum perigo ou problema que sinaliza proximidade é verdadeiramente um amigo.

Quem cala consente – quem é acusado de algo e não se defende está admitindo a culpa.

Quem casa quer casa – quem ingressa num matrimônio deseja ter sua individualidade, a própria residência, sem coabitar com outras pessoas que não apenas o cônjuge.

Quem conta um conto aumenta um ponto – a estória ou o fato, cada vez que é recontado, vem acrescido de novos elementos.

Quem corre atrás de muito fica sem nenhum – provérbio contrário à ganância, estimulando a não ser usurário.

Quem deve a Deus paga a Deus; quem deve ao diabo, paga ao diabo – quem deve paga de qualquer jeito, mas paga a quem deve: se a dívida é com o lado do bem, pagará aos bons, não aos maus; mas sempre pagará. É um provérbio que contraria o seguinte desta listagem e em geral é dito entre pessoas de formação espiritualista. De alguma forma ele vai reiterar o ditado “Fuja de dever, quer pagar é certo...”, que assegura que de qualquer forma uma punição virá. Estes provérbios referem-se a uma dívida moral, espiritual, por uma atitude indevida. Não é dívida monetária.

Quem deve a Deus, paga ao diabo – erros de conduta, as contas serão cobradas pelo maligno.

Quem gosta de bucho é panela de pressão – ditado comparativo: “bucho” é termo usado com referência à pessoa indesejada, mal quista; “bucho” de fato é o termo popular para designar o estômago da vaca, usado como alimento, cozido, matéria-prima do prato “dobradinha”. O sentido alegórico indica que a pessoa não tolera pessoa intratável (“bucho”).

Quem gosta de casamento é padre e fotógrafo – referência às dificuldades e dissabores de uma vida matrimonial. O provérbio é zombeteiro, referindo-se que quem gosta de casamento é quem ganha dinheiro com ele.

Quem já foi rei nunca perde a majestade – quem teve um cargo importante, uma vez saído dele, permanece com a empáfia que sustentava enquanto empossado no mesmo.

Quem morre por gosto, regalo da vida – referência às pessoas que se habituaram a queixar-se de tudo, a lamentar da sorte, a prenunciar sua própria doença e morte, sem reagir ou tomar atitude. No geral se refere às pessoas que exacerbam pequenos problemas para aparentar ao outro grande sofrimento.

Quem não arrisca não petisca – quem não tenta, aposta, arrisca, não terá chance de alcançar resultados.

Quem nasceu para ter coleira é cachorro – provérbio que renega a submissão, afirmando com convicção a condição de independência e liberdade.

Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza – quem não experimentou um prazer da vida, quando o prova, insiste nele até ao exagero.

Quem quebra galho é macaco gordo – a expressão “quebrar galho” significa fazer favores, prestar benesses. O ditado, em forma de analogia, renega esta atitude, estimulando que cada um resolva seus próprios problemas.

Quem tem filho barbudo é gato – sentido: que tem de cuidar de pessoa já adulta, barbado, é a própria pessoa, não outrem. Ditado contrário ao abuso de quem sem agir, conta com a ajuda alheia.

Quem tem quem por si chora, todo dia morre – quem vive lamentando e encontra quem consola, não deixa de lamentar; vicia na prática do queixume.

Quem vê cara não vê coração – quem observa apenas a aparência não capta a essência da pessoa, seu caráter, a personalidade, os valores humanos.

Sua cabeça é seu guia – cada um faz o que quer; o que deve fazer, orientado pela própria consciência ou desorientado pela falta dela.

Todo pé torto tem seu chinelo velho para calçar – a pessoa por mais desprovida de atributos que seja _ sempre encontrará alguém que possa agradar dela e fazer par. Um ditado equivalente é: “Toda panela velha tem sua tampa”.

Um boi solto lambe-se todo – a pessoa que vivia sem liberdade, quando a alcança, perde-se inebriado pela sensação da liberdade.

Um burro carregado de livro não é doutor – uma pessoa com muito estudo, mas sem polimento no trato com o próximo não é digno da intelectualidade adquirida. “Burro” se diz de quem tem pouca inteligência ou estudo, ou no sentido exato deste provérbio, “burro” é o indivíduo grosseiro, deselegante, que trata o próximo com rispidez. “Coiceiro”.

Um pai cuida de dez filhos, dez filhos não cuida de um pai – quando o progenitor precisa de atenção e ajuda, os filhos não fazem pelo pai o sacrifício correspondente que o pai fez por eles. Uma variante substitui a palavra “cuida” por “trata”. Esta expressão consta de uma famosa e educativa e emblemática canção da música caipira, “Moda do Couro de Boi”.

Um tatu cheira o outro – as pessoas se aproximam para convívio por afinidade de comportamento.

Uns agradam dos olhos, outros da remela – tem pessoas que aparentam se prender aos defeitos explícitos que o companheiro apresenta, renegando outras pessoas quem excedem em qualidades. “Remela” é termo popular para a secreção que se junta no ângulo interno dos olhos.


Notas e Créditos


*Texto: Ulisses Passarelli

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Ditados - parte 4

A cruz é de Pedro, Pedro carregue... – cada um deve conduzir seus próprios problemas. A tarefa de uma certa pessoa deve ser entregue a ela para ser cumprida. Não se assume atribuições alheias a troco de nada. 

A mão que faz o mal feito faz o bem feito - está ao alcance de todos fazer o certo e o errado, o bom e ruim. A ação deve ser sempre positiva, bem feita.

Amigo meu não tem defeito; inimigo, se não tiver, eu ponho – a amizade verdadeira goza de todos os benefícios e complacências. A inimizade é encarada como veto absoluto ao relacionamento.

Aqui se faz aqui se paga – sentença de justiça divina: o castigo aos maus atos acontece na própria vida terrena e não futuramente no inferno.

Casa de pouco pão, todo mundo come, ninguém tem razão – onde impera a miséria o desentendimento se alia para produzir a discórdia.

De hora em hora, Deus melhora – confiando em Deus em nossa vida, sempre advém uma melhoria.

De tanto pensar morreu um burro – a busca de soluções parte em grande parte da ação. Planejamentos e reflexões muito extensos sem ação se tornam inócuos.

Devagar se vai ao longe – trabalhando sempre, agindo continuamente, se alcança bons resultados. A pressa não traz bons frutos.

Dos males o menor – quando é impossível uma situação favorável, se opta ou caminha para a menos ruim, aquela que trará danos menores. Referência parcial ao conformismo.

É igual inhambu: tampa a cara e mostra o cu – diz-se da pessoa que em dada situação não enfrenta o problema de frente, tentando fugir às consequências e responsabilidades.

Em festa de cobra, sapo não entra – entre poderosos o pobre não tem vez. Quem não tem prestígio não prospera entre pessoas influentes.

Estar no mato sem cachorro – estar sem recurso, desamparado, sem saída para uma situação embaraçosa.

Evita dos ares que eu te evitarei dos males – não se deve buscar problemas e embaraços. Com isto se busca livrar das dificuldades (*).

Faça o bem, mas olhe a quem – as benesses não podem ser distribuídas aleatoriamente. O bem se faz a quem o merece.

Filho feio não tem pai – não aparece culpado ou responsável por insucessos. Projetos de resultado inesperado e negativo não são assumidos por ninguém. 

Galinha que acompanha pato morre afogada – variantes: “passarinho que acompanha morcego dorme de cabeça para baixo” e “passarinho que acompanha joão de barro vira servente de pedreiro”. Sentido: quem acompanha uma pessoa experiente ou esperta em uma aventura se dá mal.

Guerra avisada não mata soldado – quando já se sabe de uma demanda ou perigo, se vai prevenido para enfrentá-lo.

Há males que vem para bem – uma situação desfavorável pode a um dado momento se reverter favoravelmente ao lado prejudicado.

Mais vale perder um minuto na vida que a vida em um minuto – ditado contrário à pressa, induzindo a calma, a observação da situação. Indicativo de cautela.

Mais vale um inimigo declarado que um amigo falso – é melhor lidar com quem já se sabe contrário do que com aquele que simula estar junto mas em verdade também é um opositor.

Na casa desse homem quem não trabalha não come – dito em tom pejorativo para se referir à casa que uma vez visitada, não trata a visita com cortesia, não recebendo sequer um cafezinho. Diz-se também da falta de hospitalidade e benevolência: só depois de muito serviço se recebe alguma retribuição.

Não dá para quem vem a pé, quem dirá para quem vem a cavalo – referência à miséria. Diz-se do que é parco.

O apressado come cru – a pessoa afobada não alcança resultados plenos. A falta de paciência não permite que se colha um resultado amadurecido.

O bom filho a casa retorna – provérbio de inspiração bíblica, na parábola do Filho Pródigo. A pessoa depois de aventuras na vida e dissabores, volta à sua origem.

O burro quando dá coice é porque está cansado do arreio – quando a pessoa reclama de uma situação e reage contra ela é porque já não suporta a opressão que está sofrendo.

Onde há fumaça há fogo – rumores indicam um fundo de verdade no que está sendo propalado.

Para Deus nada é impossível – Deus tudo pode: através da fé se vence qualquer obstáculo.

Para ver o diabo não precisa madrugar – sentença enunciada quando logo de manhã bem cedo começam os problemas do dia, ou quando ao início do dia se avista um desafeto.

Pelo barulho do carro de boi, eu já sei o que vem dentro – pelo rumo dos acontecimentos já se prevê o desfecho.

Pra quem é bacalhau basta – pejorativo: para quem não se destaca, não adianta a melhor situação ou coisa: qualquer improviso já tem validade.

Quanto mais eu rezo mais assombração me aparece – enunciado para a sequência de problemas; referência à continuidade de aparecimento de novas contrariedades.

Quem anda com peixe, peixinho é – quem se mistura com certo tipo de gente, se comporta igualmente como tal.

Quem casa não pensa; quem pensa não casa – referência aos dissabores e inconveniências de um casamento oficialmente estabelecido e em situação de fracasso.

Quem espera sempre alcança – a esperança leva ao resultado pretendido.

Quem está na chuva é para molhar – quem está dentro de uma situação ou cargo não tem como escapar das condições correlacionadas e consequências pertinentes; ou seja, não apenas colhe bons resultados mas também passa suas vicissitudes.

Quem é vivo sempre aparece – referência à presença inesperada de quem a muito não se via.

Quem faz o lugar é a pessoa – a pessoa por seu comportamento e pelo círculo de amizades e respeito que constrói pode transformar um lugar ruim para ela viver em um bom local.

Quem mora na estação dá pousada a assombração – quem frequenta lugares inadequados alcança dificuldades para si.

Quem não gosta de criança, não gosta de Deus – a criança é fruto do amor humano e a esperança futura de continuidade da vida. É a maior bênção que Deus pode dar. Inspirado no amor que Jesus Cristo ensinou pelas crianças.

Quem não te conhece que te compre – quem não conhece os defeitos de uma certa pessoa que se habilite a conviver com ela como se fosse uma pessoa excelente. Diz-se em uma discussão a quem simula uma bondade que não tem.

Quem planta vento colhe tempestade – quem trama o mal receberá esse mal em retorno futuro ainda mais fortemente.

Quem ri por último ri melhor – a vitória aparece no final de um processo no qual se foi humilhado.

Quem tem boca vai a Roma – aquele que não se inibe e busca se informar e conhecer segue adiante na vida alcançando os objetivos almejados.

Quem tudo quer nada tem (ou: quem tudo quer tudo perde) – ao excessivamente ganancioso, imbuído de elevada pretensão, a vida reserva o fracasso total.

Quem usa, cuida – quem usufrui tem a obrigação moral de zelar por aquilo que usa.

Saco vazio não para em pé – a boa alimentação garante a energia necessária às tarefas e ao bom desempenho.

Se andares com os bons será um deles; se andares com os maus será pior que eles – cada um deve se relacionar com as pessoas de índole igual ou melhor, nunca pior.

Se não pode com ele junte-se a ele – se não puder derrotar um inimigo então se deve juntar ao mesmo por questão de necessidade de sobrevivência.

Um homem prevenido vale por dois – a pessoa com expediente para resolver as mais inusitadas dificuldades é mais útil que várias pessoas inertes ante o problema. Mais vale aquele que preveni uma adversidade com precauções, que aquele que deixa acontecer para depois tentar resolver.


Notas e Créditos


** Texto: Ulisses Passarelli 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Ditados - parte 3

Antes pingar que secar – mesmo que o rendimento não seja dos melhores, é preferível à ausência total de benefícios.

Coração dos outros é terra que ninguém pisa – a dissimulação das pessoas engana nossos sentidos, fazendo com que de fato nunca conhecemos com exatidão as verdadeiras intensões do outro.

De grão em grão a galinha enche o papo – é de pouco em pouco que se alcança os resultados pretendidos. Pequenos lucros ou vitórias se acumulam a cada dia para se somar numa ocasião o resultado maior.

Dê o respeito para ser respeitado – nosso comportamento respeitoso induz no próximo o respeito por nós.

Dou um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair – usado para indicar que se é de paz, fazendo de tudo para não se envolver em questões conflitantes; mas caso seja obrigado a entrar numa querela, leva-a até as últimas consequências.

Esmola quando é demais o santo desconfia – quando o agrado é excessivo é porque há uma intensão oculta. A bajulação tem por detrás interesses escusos.

Fruta oferecida está azeda ou ardida – o vem ou se conquista de forma muito fácil, sem esforço, traz em si defeitos ocultos.

Goiaba em beira de estrada, ou está verde ou tem marimbondo no pé – tem o mesmo sentido do anterior e não raro se aplica a mulheres levianas, para indicar que a facilidade alcançada no relacionamento inicial se macula por falhas no caráter e personalidade, revelados logo a seguir.

Hoje por mim, amanhã, por ti – o bem feito hoje se reflete amanhã. Os atos de bondade retornam. Provérbio de estímulo à cooperação.

Homem é igual biscoito: vai um, vem dezoito – ditado emitido pelas mulheres em depreciação aos homens, para indicar que a perda de um companheiro não representa o fim da vida amorosa, pois facilmente se conseguem outros.

Ingratidão mata paixão – ditado explícito revelando que a falta de gratidão (e consideração) sufocam e sacrificam o sentimento amoroso.

Macaco que muito mexe leva chumbo (ou: quer chumbo) – a pessoa muito agitada, aparecida, saliente termina sendo alvejada por problemas porque se torna evidente, centro das atenções. É uma recomendação significativa para os ambientes de trabalho.

Mais tem Deus para dar que o diabo para carregar – aquilo que as forças do mal conseguem nos tirar, as do bem dão muito mais, de modo que o bem nos agracia.

Maldito o dente que come a semente – provérbio de uso rural que condena a gula, a usura, que consome até a reserva de sementes para o próximo plantio.

Matar jacaré a grito (ou: a beliscão; ou: cachorro) – indicativo de uma situação extremamente crítica; dificuldade exacerbada; penúria; demanda extraordinária.

Mulher (ou: Homem) é igual cachaça: em qualquer esquina se acha – indicativo de desdém; ditado explícito, de menosprezo.

Mulher (ou: Homem) é igual lata: um chuta, outro cata – idem

Não fui eu que jogou pedra na igreja (ou: na cruz) – provérbio de lamento ante um grande sofrimento, equivalendo a: “não tenho tantos pecados assim para sofrer dessa forma.”

Não fui eu que matou meu pai na forca (ou: a soco) - idem

O hoje vale por dois amanhãs – provérbio explícito que ensina a valorizar o dia de hoje, concreto, mais valoroso que o futuro, plausivelmente ilusório, ou, pelo menos, abstrato.

Os gatos saem de casa, os ratos fazem a festa – quando os chefes não estão presentes, os empregados perdem a compostura e fazem tudo de irregular por não ter quem os vigie.

Pimenta nos olhos dos outros não arde (ou: é refresco) – o sofrimento e a dificuldade são muito doloridos para quem passa por eles, mas a outrem, não parece penoso. Diz-se da falta de compadecimento, da maldosa satisfação de ver a peleja alheia. Uma variante chula muito conhecida é: “pimenta no cu dos outros é refresco”.

Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento – equivale ao dizer bíblico dos sepulcros caiados, com que Jesus se referia à hipocrisia judaica daquela época, na qual os fariseus aparentavam bela aparência e méritos, mas que de fato eram internamente ruins. Diz-se de quem parece ser bom e é bonito, mas de fato tem péssimo caráter e personalidade maldosa.

Quando um burro fala, o outro murcha a orelha – sentido: quando uma pessoa fala outra ouve; enquanto um ensina ou admoesta, o outro se cala para ouvir, sem retrucar.

Quanto mais alto, maior o tombo (ou: a queda; ou: o barulho da queda) – referência à arrogância, prepotência, soberba: quando vem a ruína, a consequência da derrota é muito maior que as pequenas derrotas da vida diária do humilde, de menor consequência.

Quem com ferro fere com ferro será ferido – provérbio baseado na justiça divina. A sentença religiosa apregoa aquilo que tecemos julgamentos, também seremos da mesma forma um dia julgados.

Quem com os porcos se junta comerá farelo (ou: será um deles) – quem se congrega aos maus sofrerá as mesmas consequências. Referência ao perigo das más companhias. Este provérbio admite pequenas variantes de grafia, que não adulteram seu âmago.

Quem come de tudo está sempre mastigando – aquele que não é orgulhoso sempre encontra algum tipo de recurso que lhe possa valer ou socorro na vida.

Quem está perdido, caminho não caça – quando o erro está dando um certo prazer ou lucro a pessoa não se preocupa em se auto-corrigir.

Quem faz luxo padece o bucho – em certa medida é equivalente a “quem come de tudo está sempre mastigando”: a escolha excessiva faz renegar o básico, o essencial ao viver.

Quem fica parado é poste (ou: mourão) – ditado curto e direto, referindo-se à inércia de atitude: é preciso correr atrás dos próprios interesses, agir, buscar, ser pró-ativo.

Quem muito escolhe, pouco acerta – o exagero na busca dos detalhes e da perfeição pode levar a escolher algo inadequado e mesmo com erro grosseiro.

Quem muito quer nada tem – a ganância desenfreada faz tudo conquistado se perder um dia.

Quem não houve pai e mãe, cedo se deita a perder – os pais nos preparam para a vida e por amor dão bons conselhos. Quem não ou ouve logo vai por maus caminhos na vida e sofre derrotas.

Quem não planta e não cria não tem alegria – ditado bem à moda rural, narrando a satisfação de fazer brotar honestamente da terra o alimento e o lucro. Elogio ao trabalho.

Quem não tem cão, caça com gato – quem não tem uma solução melhor, se vale da menos adequada; remediar-se; valer-se como pode; fazer o que é possível numa dada situação quando não se tem o ideal.

Quem foi rei nunca perde a majestade – o orgulhoso mesmo quando perde a situação de destaque, permanece pomposo. Um mandatário não perde a fama.

Quem nasceu para ter pena é galinha – ditado que prega a falta de compaixão, o olhar para si mesmo.

Quem precisa é que anda – o necessitado é que deve buscar a solução de suas necessidades e não ficar à espera de alguém que apareça para oferecer ajuda.

Quem procura, acha – provérbio paralelo ao anterior, ensinando a agir para se alcançar resultados.

Quem quer o peixe engambela a lagoa – ainda no sentido do anterior, devemos preparar o terreno para alcançar os resultados pretendidos.

Quem vê cara não vê coração – quem observa só a aparência não capta a essência interior da pessoa.

Se aproveitares bem o dia de hoje dependerás menos do de amanhã – ditado explícito de valorização do momento atual e não das incertezas futuras.

Se casamento fosse bom não precisava testemunha – provérbio que ironiza a instituição do casamento, pelas dificuldades que habitualmente surgem para sua manutenção.

Se conselho fosse bom ninguém dava, vendia – ditado deselegante enunciado quando de uma dificuldade na qual várias pessoas se envolvem dando sugestões que nada resolvem.

Só gosto das crianças do Japão, porque quando eu estou acordado elas estão dormindo – frase perversa que renega o amor à infância pelas dificuldades inerentes à criação.

Um dia é da caça o outro do caçador – num momento da vida aquele que está em condições de poder pode passar para o lado subalterno.

Vai cuidar da vida que a morte é certa – orientação a se agir, tomar atitude, vencer a inércia. 


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ditados - parte 2

A corda sempre arrebenta do lado mais fraco – numa disputa, o menos influente sempre perde.

A necessidade faz o sapo pular – o indivíduo acomodado na hora da grande necessidade começa a agir.

Antes só que mal acompanhado – é melhor estar sem companhia que junto de uma pessoa má, imprestável, falsa.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura – é pela insistência que se alcança resultados.

Amigado com fé, casado é – a união de um casal não sacramentada na igreja e não oficializada no documento se torna válida se o sentimento que os une é verdadeiro.

Beleza não põe mesa – a bela aparência não implica em eficiência no trabalho. No passado era referência à mulher bonita mas não prendada, ou seja, não preparada para servir ao marido. O ditado caiu por terra neste sentido graças à força do movimento feminista e as conquistas sociais da mulher. Variante: “Boniteza não põe mesa”.

Boi sonso é que arromba curral – o limite é avançado por aquele que aparenta ser fraco ou bobo.

Bom cabrito não berra – o inteligente mantem-se calado para não ser visto ou alvejado por perseguidores. Aconselha-se para se evitar reclamações desnecessárias.

Briga de marido e mulher, ninguém enfia a colher – em desavenças de casal ninguém deve se intrometer.

Cabeça quente, pé dormente; deito na cama, estou doente – diz-se do preguiçoso ou de quem simula dores e sofrimento para chamar a atenção sobre si ou para rogar cuidados.

Cachorro cotó não passa em pinguela – quem não é dotado de certas capacidades não deve se arriscar nas ocasiões em que elas são necessárias. Analogia: a pinguela é uma ponte muito estreita, improvisada sobre um pau. Para atravessá-la o cachorro precisa da cauda para dar equilíbrio, como uma vara na corda bamba. Cotó quer dizer sem cauda ou de rabo muito curto.

Cachorro que late não morde – aquele que muito ameaça, não faz de fato. Quem tem de fazer algo, não avisa, faz. Variante: “cão que ladra não morde”.

Cada um no seu canto chora o seu tanto – todo mundo tem seu próprio sofrimento interior, ainda que não manifestado.

Carro apertado é que canta – diante da necessidade extrema é que as atitudes são mais efetivas. Referência ao carro de bois, que quando tem muito peso em cima geme pelo atrito das peças de madeira (eixo e cocão).

Casamento só é bom para fotógrafo e padre – casamento é útil para quem tem lucro com ele.

Chumbo trocado não dói – quando se vinga, o ataque sofrido não causa tanto sentimento negativo.

Como se toca se dança – a ação deve ser de acordo com a situação específica ou contexto da ocasião.

Defunto deita na rede e manda os outros balançar – quem não faz nada ainda quer ser adulado. Alusão aos antigos enterros em rede, onde o cadáver balançava pendente pelo movimento dos carregadores.

Deus ajuda quem cedo madruga – quem acorda cedo para trabalhar recebe ajuda divina. Deus abençoa quem não é preguiçoso. Existe um ditado contrário que diz: “mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga”, referindo-se que a ajuda sagrada tem mais resultado que a dedicação extremada ao trabalho.

Devagar com o andor que o santo é de barro – não se exagera numa dada situação pois há risco de se perder tudo. Referência a uma procissão, onde não se deve correr com o andor pois o risco da imagem cair e quebrar é grande.

Devagar se vai ao longe – não se deve parar de agir e lutar pela vida, ainda que lentamente, para se alcançar resultados.

Diga-me com quem tu andas que eu te direi quem tu és – nós somos comparados às nossas companhias: se boas, somos bons, se más, somos maus. Variante: “quem anda com os bons será um deles quem, anda com o ruim será pior que ele.”

Ele sabe o mato que lenha – a pessoa de quem se fala não provoca quem é mais forte ou poderoso. Diz-se de quem persegue a muitos mas não a quem enuncia a frase.

Em terra de cego, quem tem um olho é rei – onde ninguém percebe um caminho de fama ou de ganhar dinheiro, aquele que o percebe e explora, ainda que toscamente (“caolho” = de um olho só), fica rico ou famoso.

Foi tosquiar, saiu tosquiado – foi com o intuito de atacar, não conseguiu e saiu atacado. Foi prejudicar deliberadamente e saiu prejudicado. O mesmo que “foi capinar, saiu capinado”.

Galo que canta não é de briga – quem ameaça, de fato não é capaz de fazer. Tem o mesmo sentido de “cachorro que late não morde”.

Gato escaldado não cai no pote de água fria – quem já teve um motivo de queda na vida não cai de novo na mesma armadilha do destino pois já tem experiência. Variante: “gato escaldado tem medo de água fria.”

Mais vale perder um minuto na vida que a vida em um minuto – muita pressa traz riscos e não compensa os resultados.

Mais vale um cachorro amigo, que um amigo cachorro – não vale a pena ter uma amizade não sincera. É preferível o convívio com um animal de estimação.

Matar dois coelhos com uma cajadada só – alcançar um resultado duplo com uma ação única.

Muito riso é sinal de pouco siso – excesso de brincadeiras, gracejos, piadas é indicativo de pouca concentração nos afazeres, pouca responsabilidade no serviço, pequeno juízo (siso).

Mulher de bigode nem o diabo pode – mulher que apresenta pelos sobre os lábios superiores é de índole bravia, nervosa, geniosa, temperamental.

Não se meta onde não é chamado – não se envolva em questões que não lhe são pertinentes. Casos alheios podem nos afetar quando nos envolvemos.

Nem tudo que reluz é ouro – não pode confiar na beleza como indicativo de qualidade.

O apressado come cru – a pessoa acelerada alcança resultados imaturos. Não obtém os frutos completos de uma investida.

O feitiço virou contra o feiticeiro – a situação saiu às avessas do planejado, atingindo o atacante, o ofensor.

O pai rouba, os filhos comem, os netos morrem de fome – aos erros de hoje se paga pelos resultados no futuro, quando não mais se espera ser punido por causa dos deslizes.

O que vem de baixo, não me atinge – ofensas de pessoas em posição social inferior não tem o poder de atingir e prejudicar.

Papagaio come milho, periquito leva a fama – o grande comete o erro e o pequeno, mesmo inocente, leva a culpa.

Pau que nasce torto morre torto – quem traz defeitos advindos do mau ensino familiar nunca se corrigirá.  Variante: “pau que nasce torto nunca se endireita.”

Perto de quem não é certo, um olho fechado e outro aberto – nunca se deve confiar plenamente em pessoas de caráter nebuloso ou de personalidade conturbada.

Quem dá o que tem a pedir vem – quem não dá valor aos próprios bens conquistados, termina na miséria.

Quem desdenha quer comprar – quem atribui muito defeito e má qualidade a algo ou alguém é porque está na verdade interessado em adquiri-lo ou aproximar-se.

Quem fala o que não deve, escuta o que não precisa – aquele que não mede as palavras ofendendo e acusando aleatoriamente, termina por ser execrado como resposta. Variante: “quem fala o que quer, escuta o que não quer”.

Quem não tem quem por si chore, todo dia morre – o antipatizado que se torna isolado do convívio social, sempre arruma meios de chamar a atenção para se aproximar de alguém.

Quem não te conhece que te compre – quem não conhece teus defeitos que te considere como bom.

Quem pode, pode; quem não pode, sacode – que tem o poder de alcançar um resultado dele usufrui; quem, não tem, deve se conformar. Variante: “quem pode, pode; quem não pode, bate palmas.”

Quem veste ruim pano, veste duas ou três vezes no ano – quem não tem luxo, aceita o simples, sempre tem com que se valer.

Urubu na guerra é frango – no tempo da dificuldade não existe luxo: o que normalmente é de pouco valor nesta ocasião se torna valorizado.

Quando você vem com o milho, eu já estou com o fubá – eu sou mais ágil, já conheço sua intensão. Quando o oponente provoca sorrateiramente um assunto ou situação o outro já sabe o que fato ele deseja alcançar de maneira dissimulada.

Notas e Créditos


* Texto: Ulisses Passarelli

** Obs.: coleta de vários informantes, em datas diversas, durante as décadas de 1990 e 2000, em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas. Agradecimentos especiais a Cida Salles, pelo auxílio na coleta. 

*** Leia também a primeira parte desta postagem: DITADOS - parte 1 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ditados - parte 1

Já algumas vezes este blog tem registrado o modo de falar coloquial, corrente nos meios populares na Microrregião Campos das Vertentes. Por vezes, durante a narrativa das lendas, contos e fábulas tem sido inserido este vocabulário típico. Mas a via principal tem sido a postagem intitulada "Na minha terra se fala assim", já com quatro partes publicadas e outras por vir. 

Ora o assunto é reforçado com a primeira parte de uma coleção de ditados. Os provérbios populares são sentenças linguísticas de fundo filosófico, muitas vezes revestidas em cores regionais e no geral, tem raízes etimológicas muito antigas. O povo os detém na memória e sabe empregá-los a cada oportunidade correta, contextualizados para transmitir uma mensagem, um ensinamento, pontuar uma reflexão. É o legítimo saber não institucionalizado, passado de geração em geração pela força da oralidade.

Ouvidos pudicos, por vezes rejeitam os ditados em virtude de suas palavras chulas ou expressões pouco elegantes usadas para transmitir uma verdade. Mas é assim mesmo - a verdade dói, ensina o povo.  

Segue abaixo uma lista dos primeiros cinquenta provérbios seguidos de uma curta explanação interpretativa. Foram coligidos em São João del-Rei no último decênio mas extravasam seus limites municipais para toda a circunvizinhança e muitas vezes são conhecidos igualmente em regiões distantes. 

*  *  *

A cobra que não anda não engole sapo – é preciso esforço para alcançar resultados.

A noite, todos os gatos são pardos - a noite oculta aparências verdadeiras. Certas situações igualam a todos.

Avançar na lua pensando que é queijo - o mesmo que "ir com muita sede ao pote", no sentido de se fartar daquilo que deve ser buscado com parcimônia. Sentido opcional, conforme o contexto do diálogo: abusar de uma situação sem saber as consequências do resultado. 

Cavalo dado não se olha os dentes – não é educado observar defeitos nos presentes ganhos. O provérbio se inspira no costume de ver a idade do cavalo pelo aspecto dos dentes. Variante: "Cavalo dado não se olha a idade".

Cavalo picado por cobra tem medo de mangueira - quem foi ofendido por algo tem medo do que é semelhante.

Contar com o ovo no cu da galinha - Fiar numa situação que ainda não se concretizou; diz-se quando se confia com certeza em algo que ainda na aconteceu. 

De boas intenções o inferno está cheio – alusão aos que se disfarçam por trás de boas intensões mas em verdade estão revestidos de pretensões escusas, interesses maldosos.

De tanta paciência, a minhoca ficou sem osso - resignação em excesso gera inoperância; paciência de mais tolhe as atitudes. Referência à apatia. 

Deus dá o frio conforme o cobertor – as dificuldades da vida não são maiores que a providência divina. As dificuldades que enfrentamos são aquelas que de fato temos capacidade de enfrentar e resolver.

Deus é justo não é injusto – ditado de afirmação categórica da justiça divina, na qual se deve confiar acima de tudo e todos. Enunciado nos momentos de grande dificuldade. 

Dor de barriga não dá uma vez só – podemos precisar de uma pessoa mais de uma vez na vida, por isto não se deve esquecer ou fazer pouco caso de quem nos faz um favor, do que presta solidariedade.  

Em casa de ferreiro, espeto é de pau – na casa ou vida pessoal de um especialista o fato que domina tão bem é feito de improviso. Faz para outrem mas não para si próprio. 

Em casa de pobre o pão sempre cai com a manteiga para baixo – expressão fatalista usada para indicar a falta de sorte que o pobre carrega.

Enquanto Deus existir, urubu não come folha – Deus não desampara. A providência divina sempre encaminha para um bom resultado. Não se está sozinho.

Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço – Aja conforme minha filosofia, não conforme meus atos (pois razões subjetivas podem pesar na mudança de direção do fazer).

Festa de jacu, inhambu não entra – expressão que se refere a divisão de classes sociais; castas não se misturam no convívio social. Referência à discriminação.

Fica perto de quem está cagando mas não fica perto de quem está trabalhando - empregado para quem está atrapalhando o serviço de um trabalhador, sem ajudá-lo. Usa-se também quando da situação anterior resulta um acidente. 

Filho de cobra já nasce picando – o filho traz consigo os defeitos do pai.

Filho de peixe, peixinho é – mesmo sentido do anterior, mas se aplica também com respeito às qualidades e habilidades.

Fuja de dever, que pagar é certo – referência mais à justiça celeste que terrena. Sentido: a justiça se cumpre, ainda que com aparente demora.

Ladrão em casa de pobre só leva susto – expressão irônica para indicar que na residência de pessoa pobre não há nada de valor material.

Macaco velho (ou gordo) não pula em galho podre – o experiente não comete erros primários; tem prudência.

Macaco velho não põe a mão em cumbuca – idem.

Mais queixa quem caga do quê quem limpa - quem não trabalha reclama mais que o trabalhador que sofre com o serviço. 

Mais vale um “eu te dou” que dois “eu te darei” – é mais útil um auxílio concreto que duas promessas de ajuda.

Mais vale um gosto que um tostão no bolso – é mais útil gastar um pouco com algo que se deseja muito que se tornar econômico em excesso, privando-se dos gostos da vida em troca de pequenas reservas.

Mais vale um pássaro na mão que dois voando – tem mais valor o que temos seguramente conosco que aquilo que almejamos sem ter ainda alcançado.

Mais vale um peito na mão que dois no sutiã – em sentido chulo, tem a mesma interpretação do provérbio anterior. São usados para indicar necessidade de se dar valor ao que se tem.

Não jogue pedras no telhado dos outros porque o seu é de vidro - não julgue, critique ou condene porque você tem problemas passíveis de sentenças similares.  

O defunto além de ser carregado ainda quer que o balance – usado para indicar extrema preguiça, inércia perante a vida, comodismo, proveito do sacrifício alheio. É uma expressão antiga que referencia o costume do sepultamento em rede, daí mencionar o balanço, característico da marcha desse féretro.

O dia do favor é a véspera da ingratidão - quando se faz um favor é mais certo ter-se em troca ingratidão que agradecimento. Diz-se do não reconhecimento de uma benesse concedida.

O pior cego é aquele que não quer ver – indicativo aplicado às pessoas que escondem de si mesmo as verdades, que teimam em viver na mentira; que não enxergam a realidade subjacente a uma dissimulação escancarada.

O que aperta segura, o que amarga cura - diz-se das regras da vida, que freiam o ímpeto, o descontrole de atitudes. As dificuldades ensinam para o tempo da bonança que virá.

O que é de bêbado não tem dono - diz-se da exploração, abuso do inocente, daquele que está inconsciente dos riscos e implicações de uma situação. Uma variante chula prega: “cu de bêbado não tem dono”.

O que é do lobo já nasce manco - ditado fatalista, fala sobre a imposição da força do destino, que determina o que pertence a cada um, não podendo ser de outrem.

O que foi perdido no morro não se acha na baixada - diz-se sobretudo do bom caráter, da vergonha na cara, da responsabilidade com as obrigações, que uma vez perdidas não se recupera fácil por outros caminhos de vida.

O seguro morreu de velho, o desconfiado ainda está vivo – ditado que ressalta a importância da prudência, cautela, cuidados ao longo da vida no trato com as pessoas, trabalho, negócios.

O uso do cachimbo põe a boca torta - a repetição de um mau costume gera vício, mau hábito, postura de atitude irregular.

Para quem está no inferno pai nosso é lenha - para quem está em dificuldade extrema não são palavras que vão resolver; é preciso uma ação imediata, de pulso firme, ajuda concreta, efetiva.

Pedra que rola não cria limo – quem não busca estabilidade não alcança melhorias na vida; não cresce em prosperidade aquele que a cada momento está num serviço diferente.

Quando se fecha uma porta, Deus abre uma janela – a Divina Providência ampara as pessoas com caminhos fechados.

Quem bate esquece, quem apanha lembra – referência ao rancor: quem faz um mal não se recorda ou não dá importância a tê-lo feito, mas quem o sofre, nunca esquece essa maldade.

Quem bem faz a si faz – quem pratica a bondade tem o retorno do bem sobre a própria vida. Lei da Ação e Reação.

Quem nasceu para aranha nunca chega a caranguejo – referência à pessoa acomodada, que não se esforça por melhorar sua vida, não almeja o crescimento.

Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré – idem.

Quem ouve, esquece; quem vê, lembra; quem faz, aprende – ditado que enaltece o valor da prática, do fazer, do labor como meio concreto de aprendizado.

Quem perde os dentes, Deus abre a goela – tem o mesmo sentido de “Quando fecha uma porta, Deus abre uma janela”. Referência ao auxílio de Deus nas dificuldades humanas. Implícito a necessidade de se ter fé.

Quem tem fama que faça a cama – cada um que arque com as consequências da imagem que construiu sobre o seu nome. Variante: “Quem fez a fama, deite na cama”.

Quem vestiu seda tem retalho - o rico, o luxuoso, conserva no âmago vestígios da pobreza, nem que seja de espírito. A aparência bela esconde por vezes detalhes que não são nobres.

Uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto – se retribui o bem com o bem; se ajuda quem nos ajudou. Variante chula: “Uma mão lava a outra e as duas lavam a bunda”.


Notas e Créditos


* Texto: Ulisses Passarelli

** Agradecimentos especiais: Cida Salles, pelo auxílio substancial no processo de coleta dos provérbios.