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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 22 de julho de 2012

Senhora Santana

Algumas  tradições sobre Santa Ana

Santa Ana (“Santana”) é avó de Jesus Cristo, comemorada a 26 de julho. Segundo Antônio Gaio Sobrinho, “seu culto, mais antigo no Oriente, foi autorizado, no Ocidente, em 1378”.

Tal autorização me parece um tanto curiosa, haja vista a Bíblia nada falar a seu respeito. Apenas nas páginas não canônicas encontramos algo a respeito de Santana. Ora, se os apócrifos foram abolidos de qualquer uso litúrgico e catequético, então não haveria, nesta perspectiva, sentido venerar oficialmente uma santa que só tem base neles. 

Segundo a tradição ela seria descendente de Davi. Seu pai era Acar, da Tribo de Judá e sua mãe, Santa Emerenciana. Mas o hagiológio registra com este nome uma mártir, que ainda em catequização foi apedrejada por pagãos em lugar não conhecido, no ano 304 d.C. Festejada a 23 de janeiro [1].

Ana teve uma irmã chamada Emerina (ou Eméria). Emerina teve como filha Santa Isabel, que se casou com São Zacarias e deu à luz São João Batista. 

Consta que Ana casou-se três vezes, a primeira das quais com São Joaquim, aos vinte anos de idade. Por duas décadas o casal permaneceu sem filhos, motivo de grande tristeza para ambos. Joaquim, que tinha um comportamento caridoso, recebia dos judeus o descaso por não ser israelita. Assim o repreendiam pelas suas ofertas. Recolheu-se sem nada dizer à esposa, por longo período, em orações e jejuns. Em contrapartida, sua mulher igualmente lamentava sua má sorte, sem descendentes e supostamente viúva. Um anjo oportunamente anunciou-lhes que Deus lhes concederia uma graça extraordinária: o nascimento de uma criança, porta de chegada do Messias. Joaquim voltou e deles nasceu Maria de Nazaré, a Virgem, Mãe de Cristo e da Humanidade. Os apócrifos Papiro Bodmer, Proto-evangelho de Tiago, Evangelho do Pseudo-Mateus e História de José Carpinteiro [2], registram com detalhes o diálogo de Ana com sua criada acerca de seu sofrimento, suas preces e lamentos, bem como os do consorte, além do anúncio angélico e aspectos da vida de Maria de Nazaré.

O segundo casamento de Santana foi com Cléofas (irmão de São José). Nasceu “Maria de Cléofas”, que esposou Alfeu, gerando São Tiago (o Menor) e o apóstolo São Filipe. Por fim, seu terceiro casamento se deu com Salome, com quem teve uma filha, conhecida por “Maria de Salome” que se casou com Zebedeu e tiveram como filhos os apóstolos São Tiago (dito Maior) e São João (Evangelista).

A descendência deixada por Santana explica o parentesco de Jesus com alguns apóstolos e com o Batista. Suas filhas de nome Maria de Cléofas e Maria de Salome, junto com uma terceira Maria, a Madalena (a pecadora arrependida), é que formaram a tradição cristã das “Três Marias”, que choraram por Jesus no calvário, junto com uma quarta homônima, a Virgem Maria, sua mãe. Estas três marias é que são representadas em nossa Procissão do Enterro com o curioso nome de “Maria Beú”, por três mulheres que acompanham o esquife do Senhor Morto, com traje de luto, todo preto, com vestido longo e véu sobre a cabeça. “Beú” é alteração da expressão heu, repetida pelas personagens de tanto em tanto, quando cantam muito dolosamente: “Heu! Dómine, Salvator noster!” (Ai! Senhor, nosso Salvador!)

Três Marias é ainda o nome das três estrelas, que formam a Cinta ou Talabarte da constelação de Órion[3].

Por ser avó do Salvador, Santana é considerada padroeira das avós cristãs e pela primeira gravidez em condições por assim dizer miraculosas, tornou-se patrona das mães (*). Talvez por isto seja invocada contra inflamações nos seios, como mostra esta benzeção informada pela saudosa Sra. Elvira Andrade de Salles, em setembro de 1997, natural do povoado do Guilherme, na zona rural de Bias Fortes / MG, mas radicada a muitos anos no Córrego, em Santa Cruz de Minas: 

“Homem bom me deu pousada
mulher má me fez a cama; 
quarto escuro, esteira rôta; 
entre os ciscos e a lama. 
Senhora Santana benza esses peitos 
onde essa criança mama.”

Deu rigorosa educação religiosa à Virgem Maria, tanto que uma de suas imagens mais populares representa-a como uma senhora tendo ao lado uma menina (Maria), a quem mostra um pergaminho com inscrições sagradas. Dizem-na “Santana Mestra”. Daí ser também protetora das professoras. 


Imagem de Santana da Igreja do Carmo, São João del-Rei. 
Acervo da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo.

Nos tempos do ciclo do ouro Santana era protetora dos mineradores, por razões pouco claras. Antônio Gaio Sobrinho, em comunicação pessoal, atribuiu esse padroado à coerente alusão, um tanto poética por sinal, de que, assim como os garimpeiros procuravam no seio da terra uma joia preciosa, também Santana trazia em suas entranhas uma joia, a Virgem Maria. Talvez por essa razão sua imagem figura nas antigas igrejas coloniais das cidades onde houve minas [4]

Uma notícia curiosa nos revela Antônio Gaio Sobrinho acerca de uma decisão da Câmara de São João del-Rei datada de 03/10/1742 (**): 

"acordaram mais em não pagar ao Capelão que diz as missas da Senhora Santana, de agosto em diante, mais que tão somente meia oitava por cada missa por assim lhe mandar a (desistir) por razão da Irmandade estar com dívidas e sem recursos e ser desnecessário capelão por não ser Irmandade e sim Confraria."

Ainda a título de curiosidade e como registro, segue uma peça avulsa do cancioneiro popular (***):


Senhora Santana,
de grande valor:
me dá meu marido,
que a Rosa tomou ...

Deixando o marido
fez a Rosa bem;
e sorte da rosa
e do cravo também!

Nas serras de São José e do Lenheiro encontra-se com frequência a pedra-santana, nome de origem não identificada, aplicada pelos faiscadores a uma espécie de minério de ferro de cristalização cúbica, a magnetita. 


Pedra-santana, Serra do Lenheiro, São João del-Rei. 

No Rio Grande do Norte essa santa goza de enorme reputação, especialmente no Sertão do Seridó, onde lhe promovem grandes festividades que congregam enormemente os fiéis daquela região, conforme presenciei em 1995 (Caicó e Currais Novos).

No centro-sul mineiro é padroeira secundária da cidade de São Tiago, por decreto do Bispo de Oliveira, Dom Jesus Rocha [5]. É Padroeira de Barroso e Carandaí, com grandiosas festas em seu louvor. Tem capela em Ressaquinha. Tinha festa em Santa Cruz de Minas, até meados da década de 1990. Em Prados oitocentista seus devotos intencionaram erigir uma capela própria, intensão não efetivada (****).

Em São João del-Rei/MG, na zona rural, comemorava-se tal como os santos juninos, porém num âmbito mais familiar que propriamente comunitário. Considerava-se que a última fogueira do ano seria a desse dia, consagrada a Santana. Se um mastro de qualquer santo de junho ainda estivesse de pé, devia ser baixado nesse dia [6]. No bairro de Matosinhos, ainda que tardiamente (fim do século XIX), ganhou um dia festivo durante as festividades de Pentecostes, a quarta-feira após o Domingo do Espírito Santo, encerrando as festividades. No ano de 1891 exerceu o cargo de Juiz de Santana na Festa do Divino, o Cônego Francisco Nunan (*****). Após o resgate da festa em 1998, o seu dia ali passou a ser a quinta-feira imediatamente antes do dia maior da festa. 

Cumpre ainda ressaltar, que a tradição cristã acerca de Santana se estendeu ao candomblé e à umbanda, sincretizando-a com a mais velha dos orixás: Nanã Buruku (ou Burukê), por isto mesmo intitulada “Avó dos Orixás”. As cores votivas de Nanã são o branco e o roxo e por isto, o manacá é sua flor consagrada (******). 

Manacá (Brunfelsia uniflora, solanaceae): branco, roxo, lilás... flor de Nanã. 


[1] - Grande Enciclopédia Delta Larousse. Rio de Janeiro: Delta, 1979.
[2] - In: MORALDI, Luigi. Evangelhos apócrifos. São Paulo: Paulus, 1999.
[3] - Alnitek, Anilam e Mintaka. De acordo com a mitologia grega, Órion ou Oríon era um caçador gigantesco, filho de Poseidon (deus do mar). Artemís (deusa da caça) fez com que um escorpião o picasse sendo então transformado em constelação, junto com o inseto. A cristianização do nome se deu por analogia às três mulheres de nome Maria, ou ainda denominando-as na tradição de “Três Reis Magos”. 
[4] - GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos negros estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997.153p.il. 
[5] - Cidadania, São Tiago, n.45, fev./mar.-2006.
[6] - Informação pessoal de 1996, do capitão de congado e folião Luís Santana, natural do Pombal (São João del-Rei), onde faziam tal festa, na casa de seu pai, Afonso Santana, que acabava por agregar a vizinhança. O informante, quando chegava com seu congado (catupé) na porta da igreja, de praxe cantava: 

"Êh, Santana!    - bis
Abre a porta do céu, São Pedro..."    -   bis


Notas e Créditos

* Ver: BRANDÃO, Ascânio, Monsenhor. Santa Ana: Mãe da Mãe de Deus. São Paulo: Paulinas, 1962. 
** GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p. p.60. (ACOR 01 PG 163)
*** Informante: Elvira Andrade de Salles, Córrego, Santa Cruz de Minas, 1998. Cedido por uma gentileza de Maria Aparecida de Salles, a quem consigno agradecimentos.
**** Ver: VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n.], 1985. Nota nº11, p.158.
Este autor, baseado no Livro de Provisões da Cúria Arquidiocesana de Mariana, enumera que "em fins de 1826 (cf.Cx.281, pacotilha 3, Doc.42, idem.), Francisco Joaquim de Assis e mais devotos da Senhora Santana, moradores da Freguesia da Conceição dos Prados, pedem licença para erigir uma Capela à Santa. (Esta capela não chegou a ser construída)."
***** Fonte: jornal Gazeta Mineira, n.347, 10/06/1891.
****** Os Orixás: Nanã. 3.ed. São Paulo: Três, 1987. 34p.
******* Texto: Ulisses Passarelli
******** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 2014 (pedra-santana), Ulisses Passarelli, 2014 (imagem de Santana; manacá)

3 comentários:

  1. Boa tarde a todos! Na minha Aldeia "Folgosinho" que se situa em Portugal, também há dessas pedras, as quais chamamos de Pedras Santanas..... Um abraço

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    1. Obrigado pela visita, Paulo. Seu comentário demonstra claramente um fato: a cultura não tem fronteiras! Ainda mais a popular... É a presença de Portugal ainda viva em nossas tradições.
      Volte a visitar este blog e acompanhe suas atualizações.

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  2. Eu tenho algumas em casa, depois tiro foto e coloco aqui! Um abraço.

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