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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 30 de agosto de 2016

Adeus, agosto; bem vindo, setembro!

Agosto (*) é um mês esquisito, um clima indefinido, indefinível... transição entre inverno e primavera, nem frio, nem quente, ou, ao mesmo tempo, frio e quente; seco, sempre seco; vento sobre vento. Frio de noite, calor de dia. Rajadas inesperadas sopram sobre as folhas das árvores. A secura das pastagens tornam o período terrível para o gado, que emagrece demais. Córregos secam. Queimadas por toda parte acinzentam os campos. Apenas o ipê de florada exuberante contraponteia a secura com seu colorido vivaz. 

O homem do campo roça, capina, faz coivaras; prepara a terra _ cavuca, ara, faz leras, covas de plantio _ mas não lança sementes, que não nasceriam no chão esturricado. 

Eis agosto. Natureza desfavorável à fartura, à criação. É agouro só...

Ninguém queima no dia dez de agosto. É a data de São Lourenço. O santo morreu tostado em martírio numa grelha. No seu dia a queimada ofende o santo e se torna descontrolada. Um pé de vento lança fagulhas no ar; redemoinhos inesperados lançam tição aceso além do aceiro, na mata e o fogo faz um estrago medonho. 

Em agosto o cão fica estranho, pega mais fácil a "raiva" (hidrofobia). É "mês de cachorro louco". Então se apega com Santa Quitéria que é a santa que previne essa virose terrível. As avós ensinavam que se em nossa direção viesse um cachorro em atitude agressiva tinha que se dizer com firmeza e rapidez: "São Roque! São Roque! São Roque!", assim, três vezes, que é número mágico, que garante efetividade. O bicho parava de repente e depois mudava de direção sem atacar o devoto. 

São Roque é festejado a 16 de agosto. Morreu novo, de peste negra. Sua imagem mostra um cachorro lambendo suas feridas. Pois bem. São Roque nos terreiros é sincretizado com Obaluaiê, o grande orixá que tem domínio sobre as doenças dermatológicas, forma jovem do orixá Sr. Omulu (o Velho), ambos, senhores dos exus. Portanto agosto é mês de exu. Nos terreiros, conforme a linha ou orientação espiritual, os médiuns cumprem obrigações, preceitos, fazem oferendas especialmente dedicadas a esses mensageiros universais. 

Nas igrejas e capelas poucas festas expressivas acontecem. No primeiro domingo é vez do Senhor do Bonfim, cujo dia oficial é 06 de agosto; no meio do mês é a vez do Trânsito de Nossa Senhora, uma festa litúrgica que envolve três título marianos: dia 14, Nossa Senhora da Boa Morte; dia 15, Nossa Senhora da Assunção e Nossa Senhora da Glória. O ensinamento catequético prega que Maria não teve uma morte comum como nós outros, mas uma forma especialíssima, chamada "dormição" e foi levada de corpo e alma aos céus em sua assunção e para glória foi coroada como rainha aos pés da Santíssima Trindade. Porém, dos três títulos, o mais marcante é o primeiro, que se excede em popularidade aos demais e chega a nomear a própria festa, "Festa da Boa Morte". 

Bom fim; boa morte. A morte santificada, como um prêmio ao comportamento cristão modelar, glorificação de uma vida santa. 

Via de regra as noivas não gostam de casar em agosto. Dá azar. Logo dana a brigar com o esposo e não tarda a separação. 

"Agosto é mês do desgosto". Então se reza, para que as coisas aconteçam "a gosto de Deus..." Muitas mortes acontecem, e não faltam referências a personalidades falecidas nesse tempo, o que só fortalece a fama de agosto. 

Não se tem certeza das razões dessa fama macabra. O oitavo mês do ano tem esse nome em homenagem ao Imperador Romano César Augusto. 

Agosto, o mês negativo, se despede. Os crédulos respiram aliviados. Setembro se aproxima e com ele a primavera, a regularização climática, a esperança de chuva, a fertilidade dos solos. As festas reiniciam. A vida é um ciclo, a cultura popular também, porquanto seja parte dessa vida. Os congadeiros se aprontam: vai começar a temporada de festejos em honra ao rosário! Salve, Maria!

Cartaz da Festa do Rosário no Bairro São Geraldo,
São João del-Rei, setembro/2016. 

(papel couché, 29,5 x 41,7cm)

Cartaz da Festa do Rosário no Bairro São Dimas,
São João del-Rei, setembro/2016.

(papel couché, 29,3 x 41,7cm)

Referências Bibliográficas

COSTA, Gutemberg. Agosto: mês de desgraça e desgosto. O Mossoroense, 30/08/1998, Mossoró. p.2. 

Notas e Créditos

* Agosto é também o Mês do Folclore, tendo no dia 22 sua data comemorativa, em memória a William John Thomms, o inglês que nos legou essa palavra e a base de seu conceito: folk-lore. Sobre este assunto ver:

FOLCLORE NOSSO DE CADA DIA

FOLCLORE, CULTURA POPULAR E PATRIMÔNIO IMATERIAL

** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

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