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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 19 de julho de 2016

Catirina & Pai João

O Blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES completa hoje quatro anos no ar. Exatamente a 19 de julho de 2012 era fundado com o objetivo de valorizar e registrar a cultura popular do centro-sul de Minas Gerais, conhecido por Mesorregião Campo das Vertentes. O trabalho prossegue otimista, driblando as adversidades. Esta página contabiliza 700 postagens disponíveis, sem contar outros textos lincados e se aproxima de 170.000 visitas, entre nacionais e estrangeiras.

Diante disto, com muita gratidão aos visitantes e seguidores, nada mais justo que festejar. E o faço com este post comemorativo, lembrando de dois personagens desaparecidos das folias de Reis da região, mas que guardavam grande importância simbólica no universo reiseiro: Catirina e Pai João. E se o tema deste aniversário é a folia de Reis, a explicação reside unicamente no sentimentalismo, por ter sido esta manifestação a minha porta de entrada para o mundo da cultura popular, ainda na infância. De tal forma foi marcante, que a cada dia aprofundo mais no seu contexto.

* * *

Narram e narraram vários foliões destacados pelo saber, que, outrora, as folias de Reis em São João del-Rei e em várias localidades e municípios em derredor, tinham uma personagem cômica chamada "Catirina", parceira inseparável do palhaço (= marungo, bastião). 

Era vivenciada por um homem travestido e mascarado. Trajado simploriamente, lembrava em sua figura e encenação uma mulher do mundo rural de antanho, senão mesmo uma escrava. Vestido de chita ou de pano liso e ordinário de algodão, lenço à cabeça, munido de pequeno embornal ou sacolinha para recolher espórtulas, e tendo a cara borrada de maquiagem grosseira sobre a máscara, lá vinha a Catirina, a par do Bastião, cheia de trejeitos, mas sem exageros, brincando e falseando a voz, para disfarçar a verdadeira identidade de seu artista.

Tudo que o Bastião fazia, Catirina faziam também. A função era a mesma, o objetivo um só. Ao mesmo tempo que guardavam a folia e davam orientação aos rumos da chegada a uma fazenda ou residência, também faziam gracejos que alegravam os anfitriões e compunham o universo mítico de uma folia de Reis.

Por vezes, algumas folias mais antigas, vindas de lugares recônditos da zona rural traziam também mais um personagem mascarado, Pai João, ou como se dizia também, "Nêgo Véio" (Negro Velho), outro caricato simbolizando um escravo idoso ou negro de idade avançada. Segundo o imaginário da época, primeira metade do século XX, vestia-se de calça e camisa modestas, paletó desgastado pelo tempo, máscara ao rosto retratando longevidade, chapéu de palha, trazendo à mão uma bengala de pau. De voz gutural e andar trôpego, não disfarçava porém certo assanhamento por Catirina, que decerto, guardava sua predileção pelo Marungo. Não se arvoravam em triângulo amoroso, mas com certeza eram uma tríade cômica.

O tempo os sacrificou. Desapareceram por completo nesta região. E faz tempo... Pai João que foi sempre o mais raro, perdeu-se primeiro nas agruras dos anos e hoje ninguém se lembra dele. Os velhos mestres que informaram já partiram. Catirina foi depois e notícias parcas ainda lhe dão uma vida em ocaso na década de sessenta. De lá para cá extinguiu-se. O palhaço continua, a bem da verdade um pouco escasso em relação ao passado, mas está aí vivo, ora grotesco ora gracioso.

Pai João era também o nome de outro mascarado burlesco que participava em algumas localidades rurais da queima do judas. Portanto outra atividade, totalmente diferente das folias. Era uma espécie de guardião do boneco e de sua chácara, para que não fosse tomada de assalto pela molecada e o estafermo malhado antes da hora. Pai João então afugentava as crianças ameaçando-lhes com um relho.

Fora a sua materialização em personagem humano de folias e queimas de judas, Pai João já bem mais abstrato, é personagem frequente da literatura popular, figurando como protótipo do escravo idoso nos contos e no fabulário. Tem então em sua personalidade um misto de preguiça e esperteza, sabedoria e dissimulação. De tal forma é significativo neste aspecto que alguns folcloristas falam em "Ciclo do Pai João" para se referirem a esta temática de narrativa de estórias da escravidão no Brasil.

Em termos de folclorística há notável abundância de material publicado sobre as folias e acerca dos palhaços os livros tem uma abordagem significativa. Mas por mais que se vasculhe a literatura especializada é extremamente raro achar menção à Catirina em folias. Um trabalho clássico é o legado por Alceu Maynard Araújo, que na década de 1940 documentou criteriosamente a folia de reis de caixa, na zona rural de Cunha/SP, que tinha os três mascarados. Seu estudo é de suma importância, incluindo documentário fotográfico e é sem dúvidas a referência mais importante que temos sobre o assunto em folias.

Quando de minhas pesquisas no sudoeste mineiro (julho/1997), em Passos, ouvi do Mestre Manoel Teodoro do Nascimento a existência destes mascarados nas folias daquela zona nas primeiras décadas do século XX, conforme me relatou de memória.

Informação idêntica já havia obtido da oralidade em relação ao sul de Minas.

O folclorista Affonso Furtado relatou-me pessoalmente o mesma presença, quanto à região limítrofe de Minas e Rio, em Porto das Flores (Belmiro Braga/MG) e Manuel Duarte (Rio das Flores/RJ) - Palhaço, Nêgo Véio e Catirina, alegrando as folias.

Aqui nas Vertentes um registro importante foi feito José Antônio de Ávila Sacramento, que em 1970, em fazenda no distrito são-joanense de São Miguel do Cajuru, presenciou a chegada de uma folia com Palhaço e Catirina e descreveu o ritual e a interação com os anfitriões, momento de alegria e devoção. 

Mas se no Sudeste brasileiro a Catirina é personagem das folias de Reis, pelo imenso Nordeste é figurante do bumba-meu-boi e de alguns reisados. Então é parceira de Mateus e Birico _ os vaqueiros bufões _ ou outros mascarados ou personagens de face encarvoada (Cravo Branco, Sebastião, Fidélis...). Encarvoada sim, tisnada de preto de fuligem de fogão à lenha e gordura de panela (tisna). Se borram com essa mistura. A Catirina ou Catarina, como também se diz em toda sua área geográfica de ocorrência, é também chamada no Nordeste de Lica, Catita, Nanã e Rosa (*). 

Luís da Câmara Cascudo informou que nos mais velhos bumba-meu-boi a personagem não aparecia: "posteriormente incluíram elementos femininos (homens vestidos de mulher), Catirina ou Rosa." (p.61). O mesmo autor afirmou: "A Rosa é Catirina, a mesma Velha dos 'bois' paraibanos" (p.66). 

Em vários locais existem personagens mascarados ou de face maquiada chamados Velho e Velha. É habitual dançarem com dificuldade, cambaleantes, como se as pernas estivessem enfraquecidas. Mas quando a música irrompe um ritmo vivo, dançam com vigor inesperado, com energia plena no sapateado. Na prática, a atuação do Velho e da Velha é muito similar à da dupla Palhaço e Catirina. Pode-se até mesmo arriscar que proporcionalmente são equivalentes.

António Pinelo Tiza demonstrou de forma eloquente e abundante de exemplos como é comum entre as festas natalinas e reiseiras do nordeste português (Trás-os-Montes) a presença de mascarados, não raro um masculino e outro feminino, inclusive o Velho e a Velha. Analisando sua ancestralidade e sentido mágico, ligado a antigos rituais pagãos de propiciação de fertilidade e fartura, escreveu sobre a "Festa dos Rapazes" comentando com coerência:

"a presença dos mascarados, que constituem as figuras centrais em torno dos quais toda a acção festiva se desenrola a desempenharem os mais variados papéis, os quais são essenciais na animação e conferem uma significação específica à própria festa; o misticismo das cerimónias de certas sociedades secretas exige o uso de máscaras, o que confere às festas dos rapazes um exoterismo iniciático que está muito para além da compreensão de qualquer profano." (p.37)

Cascudo ensinou que ... "numas versões norte-rio-grandenses, paraibanas e maranhenses, Catirina pede que o negro Mateus mate o 'boi' porque está 'desejando' comer-lhe o fígado. Mateus, responsável pelo 'boi', sacrifica-o pelo amor da namorada." (**) Já em seu Dicionário inclui o mesmo núcleo dramático para o boi-bumbá do norte do país, quando o vaqueiro Pai Francisco mata o boi para satisfazer ao desejo de Mãe Catirina. A ideia de que são velhos escravos é a mesma. 

Eis que a tal Catirina ou Catarina tem ampla distribuição geográfica. Norte, Nordeste e Sudeste. Lá em bumbas, aqui em folias. Cabe nesse momento uma indagação: como foi isto? Correntes migratórias carregando consigo seus elementos culturais transportaram a Catirina ao setentrião ou de lá é que veio para nós? Talvez a resposta não seja esta, que a princípio se arvora como hipótese de trabalho. Demanda pesquisa maior das influências ibéricas (***).

O nome Catirina ou Catarina, seja como for, nos meios folclóricos, parece se revestir de evocação de antiguidade e idealizar a mulher negra e em alguns casos o imaginário coletivo a desenha como escrava. Assim, estes nomes parecem invocar na cultura popular o arquétipo servil tão cantado e decantado nos versos do povo. A título de exemplo, eis um canto dos congos do Rio Grande do Norte (nos quais não existe a personagem humana "Catirina" _ é tão somente uma referência simbólica); em Ponta Negra (Natal):

"_ Catarina, minha negra,
_ Teu senhor te quer vender!
_ Lá pro Rio de Janeiro,
_ Para mais nunca te ver...

_ Catarina, minha negra,
_ um senhor te quer comprar!
_ Lá do Rio de Janeiro,
_ para nunca mais voltar..."

A cada verso solista o coro responde incisivo e intercalado: "_ Oi, marobambirá!"

Além do sentido de personagem até aqui exposto a nome comporta outras acepções. Na Bahia de outros tempos, registrou Hildegardes Vianna, catarina era qualquer menina negra vinda da mais humilde camada popular doada a uma família de brancos para servir. A família a criava, mas as catarinas eram obrigadas a fazer toda sorte de serviço doméstico a troco de ter comida, roupa minguada e moradia. Sem dúvidas, um novo formato da escravidão após a abolição. Para a autora, o nome dessas domésticas "que circulavam como como arremedo de criada nos lares de baixa classe média, poderia ter vindo do bumba-meu-boi, que fez as delícias da gente daquele tempo. Fica à suposição".

A mesma autora diz ainda: "Também as bruxas de pano, inclusive as feitas no estilo de corda de xangó, eram conhecidas por catarinas." E eis outra notável similitude porque nos anos noventa, 1995, salvo engano, tivemos oportunidade de ver no Córrego, em Santa Cruz de Minas, a saudosa sra. Mariana Figueiredo, que carinhosamente conhecíamos por "Dona Mariinha", cuidadosamente costurando uma grande boneca negra, toda de tecido. Trabalho manual, cuidadoso, típico da cultura popular. A grande boneca era vestida de noiva. O fato nos chamou a atenção e quando indagada, disse que era uma catarina, assim mesmo, com este nome, catarina, que todos os anos (desde longa data), costurava e doava como prenda ao leilão do Gritador (Festa de São Sebastião) e do Bichinho - atual Vitoriano Veloso (Festa de Nossa Senhora da Penha de França), ambos, distritos de Prados. Dizia que não podia faltar uma catarina no leilão, sempre muito disputada nos lances, dando boa renda aos festejos. 

1- Catarina: boneca de pano, Santa Cruz de Minas, 1995.  

2- Palhaço (esquerda) e Catirina (direita), da Folia de Reis "Estrela Guia",
de Santo Antônio do Monte/MG. 17/01/2015.  
3- Palhaço (esquerda) e Catirina (direita), da Folia de Reis 
de Santo Antônio de Goiás/GO. 22/10/2004.  


4- Velha (esquerda) e Velho (direita), da Folia de Reis
de Azurita/MG. 
5- O Velho e a Velha, do Boi de Reis do povoado de Bocas,
distrito de Cuité, Pedro Velho/RN - 1997.  

6- As novas catirinas, com estilização da indumentária. Juiz de Fora/MG. 

7 e 8- Conjunto de mascarados da Folia de Reis "Estrela de Belém",
do Bairro Teixeiras, Juiz de Fora em visita a São João del-Rei.
No recorte extraído dentre os palhaços, detalhe da Catirina. 25/12/2014. 

9 e 10 - Conjunto de artesanato em cerâmica figurando um grupo de
reis de congo (reisado), procedente de Juazeiro do Norte/CE. Em
detalhe o personagem Catirina. Observar que representa um homem
travestido, simulando uma grávida. 

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Alceu Maynard. Folia de Reis de Cunha. Revista do Museu Paulista, Nova Série, v.3 (separata) (****)

CASCUDO, Luís da Câmara. Tradições Populares da Pecuária Nordestina. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura / Serviço de Informação Agrícola, 1956. Documentário da Vida Rural, n.9. 90p. Bumba-meu-boi: p.61-73. 

SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Uma Folia de Reis em São Miguel do Cajuru. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.10, 2002. 180p. p.75-82. 

TIZA, António Pinelo. Inverno Mágico: ritos e mistérios transmontanos. Lisboa: Ésquilo, 2004. 287p.

VIANNA, Hildegardes. Antigamente era assim. Rio de Janeiro: Record; Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1994. 283p. As Catarinas: p.169-172.


Notas e Créditos


* No povoado do Elvas (Tiradentes/MG), dizia o afamado e saudoso folião Sr. Aquino (em 24/12/1993) que o Palhaço é o capeta que quer desencaminhar os foliões pela tentação e que a Catirina, sua mulher é também chamada de "Palhaça" e "Bastiana." Na folia de Reis de Santo Antônio de Goiás os sinônimos de Catirina são "Palhaça" e "Boneca", já que o Palhaço tem por sinônimo "Boneco". 
** Cascudo aponta a existência de uma estória egípcia de mais de três milênios cujo teor é o da morte do boi para atender a um desejo da querida do faraó, desejosa de comer fígado (p.72). Mateus é o vaqueiro principal do auto do bumba-meu-boi. O autor diz ainda que em Bebedouro _ Maceió, Alagoas, no auto não existe Catirina, mas o personagem Mateus carrega preso ao pulso uma chibata feita de uma réstia de cebolas a que chamam "catrina" (p.66).
*** É que o já citado Affonso Furtado, doutor em assuntos reiseiros, teve a gentileza de nos ceder cópia de textos do acervo do Projeto Reisados Brasileiros, sobre a "Festa do Boi en Allariz desde 1317", uma preciosidade espanhola do Dia de Corpus Christi, ligada ao desfile procissional. Allariz é município galego da província de Ourense, próximo a Portugal.  Em tão remota data, surge a figura de Xan de Arzúa montado sobre um boi, munido de vara de ferrão, artifício para espantar judeus que zombavam do cortejo religioso. Tudo isto figurado nos personagens São Jorge (San Xurxo) e no dragão (Tarasca) _ este, o mal, figuração da ameaça religiosa. Pois bem. O mais interessante é que, num dos textos, "A Paso de Boi", de Delfin Caseiro, falando sobre o boi, aparece a figura de "Lucía ou Catarina", e, em outro, "Oda ao Boi", Xián Bobillo cita expressamente no refrão "Bumbá-meu-boi / Bumbá-bumbá". O assunto merece ser cuidadosamente cotejado antes de qualquer conclusão prévia. 
**** A pesquisa desse autor data dos anos quarenta (1949). Posteriormente foi publicado também em seu excelente "Documentário Folclórico Paulista" (São Paulo: Secretaria Municipal de Educação e Cultura, 1952) e no monumental "Folclore Nacional" (São Paulo: Melhoramentos, 1964).
**** Fotografias: 1, 2, 7 e 8 - Iago C.S. Passarelli; 3 - Hudson Mendes; 4 e 6 - Affonso Furtado; 5, 9 e 10 - Ulisses Passarelli.
***** Agradecimentos: a Affonso Furtado, pela sessão de material bibliográfico e fotografias 3, 4 e 6.

4 comentários:

  1. Parabéns pelo trabalho em prol da Cultura Popular de nossa Região. Muita luz e sabedoria para continuar sua bela missão!

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  2. Prezado amigo Ulisses, como sempre você nos encantado com o historiar do folclore e outros temas. Parabéns pelos 4 anos de seu blog e pelo texto. Fico deveras encantado com sua riqueza vocabular e, ao mesmo tempo com a clareza de suas explicações! Sou seu admirador profundo!

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  3. Otimo trabalho. Minha mãe pediu que eu encontrasse o personagem Catirina, acabei encontrando aqui. As lembranças e tradições lembradas pela minha mãe nos anos de 1930 na Fazenda São José, Valença, RJ.

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  4. Otimo trabalho. Minha mãe pediu que eu encontrasse o personagem Catirina, acabei encontrando aqui. As lembranças e tradições lembradas pela minha mãe nos anos de 1930 na Fazenda São José, Valença, RJ.

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