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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 2 de junho de 2015

Na minha terra se fala assim - parte 12

A torto e a direito – de qualquer maneira; sem critérios; de um modo ou de outro.

Abobrinha - mentira, algo sem fundamento, equívoco, diálogo vazio, conversa fiada. Diz-se "escrever abobrinha" ou "falar abobrinha"

Abotoar o paletó – morrer.

Batata - o mesmo sentido de "abobrinha". "Falô cada batata...". 

Batata assando - confusão se aproximando, problema próximo, dificuldade à vista. "Minha batata tá assando". O mesmo que "batatinha assando".

Bater com o rabo na cerca – morrer.

Batume – emboleira, cipoal, amontoado de ramos ou cordas, embaraço.

Broca – fome extremada. “Está numa broca danada!” (isto é, faminto).

Bruto – um dos muitos cognomes do capeta. Diabo.

Caçar rumo – ir embora; buscar um destino; encaminhar-se.

Caçar sua turma – expressão de expulsão do ruim: “Vá caçar sua turma!”, ou seja, vai ficar junto com as pessoas que tem seu mesmo caráter e personalidade.

Cacife – status, entendimento, influência, respeitabilidade, expertise.

Cacumbu – lâmina desgastada; faca velha. Traste.

Capiroto – demônio.

Catimbar – fazer catimba: agir propositalmente de modo a atrasar ou atrapalhar algo. Neste sentido, “enrolar”. Catimbeiro: quem costuma fazer catimba.

Catraia – sinônimo pejorativo de baixa meretriz.

Chapar a mão – bater, dar um tapa, esbofetear. “Chapar a mão na orelha”; “Chapar a mão no pé do ouvido”.

Chorar a pitanga – 1- regatear, implorar por algo ou para baixar um preço (“chorei a pitanga, aí ele fez mais barato”); 2- surrar, bater, dar pancada (“tava insultâno, chorei a pitanga nele”).

Chupar o olho e lamber o buraco - trapacear num negócio, tirar lucro imenso, passar adiante algo de pouco valor como se valesse muito. "Chupou o olho dele e ainda lambeu o buraco". 

Coco – pessoa resistente a uma doença ou à idade; tenaz: “o velho é coco, tá com noventa e tantos...” (anos)

Comer capim pela raiz – falecer; ser enterrado.

Confundir alho com bugalho - misturar os assuntos, ou os conceitos. Julgar uma coisa por outra. Não entender uma questão. "Misturou alhos com bugalhos..."

Coração a cento e quarenta - acelerado, fortemente emocionado, agitado. Também se diz a cento e vinte. "Meu coração ficou a cento e quarenta!"

Descansar o esqueleto – repousar. Deitar-se. O mesmo que “descansar as canelas”. Habitualmente se diz após um dia exaustivo de serviço. Ver: esticar o esqueleto.

Descer a ripa – bater, surrar. O mesmo que “sentar o bambu”, “descer o bambu”, “descer a catana”.

Encardido – o satanás. O mesmo que “o imundo”. Pode-se considerar apesar do caráter ofensivo da palavra, uma forma eufêmica, evitando-se pronunciar o seu nome, que se acredita, o atraia. Muito usado nas narrativas de contos populares.

Esticar o esqueleto – morrer. O mesmo que “descansar as canelas”.

Fofar o olho – bater, espancar. O mesmo que “copar o olho”.

Latumia – algaravia, mistura caótica de sons e vozes, barulhada.

Leão da Biquinha – aquele que se faz de bravo, nervoso, perigoso mas é inofensivo. Quem finge uma vitalidade que de fato não tem. Referência às carrancas de leão esculpidas em pedra que ornam chafarizes, dando saída à água em bica, por um cano instalado na boca [1].

Magrela - bicicleta. "Montar na magrela": subir na bicicleta para pedalar.

Miussaia  - miúdo.

Montar no porco – ir embora, fugir, partir, debandar, escafeder-se, “picar a mula”.

Não é flor que se cheire... – diz-se daquilo ou daquele que não é confiável.

Não tem tu, vai tu mesmo - se não tem algo melhor, então se vale daquilo que está disponível. 

Nascer cabelo no ovo - diz-se de algo impossível de acontecer. Expressão comparativa do inimaginável. Referência para frisar o que não acontecerá: "é mais fácil nascer cabelo no ovo que ela gostar de mim..."

O pato cagou é dia! – expressão usada para acordar ou incentivar um preguiçoso, que não gosta de acordar cedo ou de desenvolver atividades matutinas.

Parangolé - confusão, discussão, "bate-boca", mistério, algo oculto impedindo a verdade de aparecer, armação, "treta". "Armou um parangolé com o vizinho". 

Pegar o boi – 1- lucrar, ter vantagem. “Comprou o carro barato, pegou o boi...”; 2- “pegar o boi pelo chifre”: enfrentar um problema grande, afrontar a questão, assumir uma demanda com todo o vigor.

Pirulitar - sumir, fugir, desaparecer. 

Por um triz – quase, por muito pouco, na iminência de... “por um triz não caiu na pirambeira”

Pra tudo que é quinze bandas – para todo lado, por toda parte. Debandada geral. Fuga espavorida: “quando a bomba explodiu foi gente pra tudo que é quinze bandas!”

Quadrado – desatualizado, anacrônico, atrasado. Aquele que não acompanha as mudanças de conceito da sociedade e permanece com um pensamento antiquado à sua época.

Quebra-torto – mexido, mata-fome. Pequena refeição improvisada para sanar uma fome atroz.

Reboleira – emboleira. Qualidade do que está embaraçado ou burocratizado: “buscou a papelada da empresa, uma reboleira de documentos”. Tumultuado: “reboleira de gente”.

Rôia - corruptela de rolha. Sentido: sujeito ruim de negócio, pessoa de convivência difícil, pessoa que atrapalha o andamento natural das coisas, indivíduo que atrasa os procedimentos. Aquele que dificulta. Pessoa desagradável, indesejável. Neste sentido, o mesmo que "fumo" ou "fumo bravo". "Fulano é rôia!". 

Tanjão - mal enjambrado, largo, fora da medida, desajeitado, deselegante, traje além da medida corporal. "Roupa tanjona".

Tchongo (a) – idiota, bobalhão, de pensamentos lentos. Abestado.

Tiririca – nervoso, irritadíssimo. “Ficou tiririca!”. “Fulo de raiva”.

Traulitada – 1- pancada, batida; 2- má resposta, grosseria, chamada de atenção. “O chefe deu-lhe uma traulitada.” 

Treta - cambalacho, maracutaia, confusão, briga, negócio escuso. "Arranjou uma treta danada com o irmão..."

Xexelento - manhoso, preguiçoso, cheio de manias e não me toques.

Xinxa - aperto, dificuldade, limitação, impedimento. "A autoridade botou ele na xinxa!" O termo se refere a um artefato usado pelos boiadeiros quando vão conduzir um touro muito grande, forte e agressivo: para impedir que fuja ou ataque alguém numa investida, atam-lhe por uma corda uma pata traseira com uma dianteira ("mão"), sempre cruzada: a direita com a esquerda ou vice-versa. "Por o boi na xinxa". A corda tem a dimensão apenas suficiente para um passo. Se o boi correr, embaraça e cai, sendo logo dominado.


Escultura zoomórfica em pedra, figurando um leão,
que servia à saída de água. Praça da Biquinha,
Bairro Tijuco, São João del-Rei. 21/04/2015. 
Uma das bicas d'água com cara de leão esculpida
em pedra, no Chafariz da Santíssima Trindade, sito
no adro do santuário da mesma invocação. Tiradentes. 31/05/2015. 

Notas e Créditos

* Texto e foto: Ulisses Passarelli 
** Fotografia chafariz SS.Trindade: Iago C.S. Passarelli



[1] - Essas carrancas de leão existem em outras cidades, como por exemplo no Chafariz da Santíssima Trindade, em Tiradentes. Mas em São João del-Rei ouvi uma explicação muito específica, que a expressão "Leão da Biquinha" pode também ser uma referência a uma escultura de leão (de corpo inteiro), que existe nesta cidade na Praça Dr. Fausto Mourão, (a popular “Praça da Biquinha”), afixada defronte o Estádio João Lombardi, do Minas Futebol Clube. “Leão da Biquinha” é também a alcunha carinhosa aplicada ao referido clube nos meios populares. Segundo Gaio Sobrinho, essa escultura de leão seria oriunda do antigo Colégio São Luiz, situado no quilômetro ferroviário 139 da extinta Linha do Sertão, da EFOM. O educandário, muitíssimo conceituado, era dirigido pelo famoso Padre Nicolau Badariotti, à época em terras do município são-joanense, atualmente território de Conceição da Barra de Minas. O padre seria o autor da escultura (Memórias de Conceição da Barra de Minas, Belo Horizonte: Imp. Universitária, 1990. 253p. p.92)  

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