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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 14 de junho de 2015

Canta, canta, meu surrão!

O picuá e o homem do saco

O mineiro, muito desconfiado por natureza, tem receio dos andarilhos. Deduz que possam ter cometido algum delito em terras distantes e fugido, aparecendo localmente como um pobre coitado, pedinte, mas na verdade pode ser um criminoso.

Em vista deste temor logo ensina às crianças para se afastarem dele pois fariam mal a elas e em sua figura, mitificou um personagem do imaginário popular chamado homem do saco. Numa visão mais ao viés da folclorística, o homem do saco é um mito que pertence ao ciclo da angústia infantil. As narrativas o descrevem andrajoso, sujo, cabelo e barbas grandes, ensebados e desgrenhados, olhar sombrio, quase sem vida, andar lento e trôpego, fala pouca ou nenhuma... Jogado sobre os ombros e pendente nas costas, um saco encardido cheio de trastes, no meio dos quais mete crianças teimosas, "rueiras" (que só gostam de ficar fora de casa), desobedientes. Leva a criança no saco, para algum lugar ermo, onde a mata e devora. Eis o mito. E que pavor provoca nos pequeninos! Quando suas peraltices extrapolam, logo surge alguém para falar do tal homem do saco que já vem pegar o pequeno. E logo como que uma sombra se abate sobre o semblante pueril e os ânimos esfriam.

Foi então muito fácil personificar o mito na figura do pobre mendigo, ainda que o fato em si só aumente a discriminação. 

Independente de ser um morador de rua, qualquer estranho andando com um bolsa às costas já é alvo de suspeitas e temor por parte do povo interiorano. "Cuidado com esses homem de picuá nas costas...", logo sentenciam. Picuá é um saco pequeno, cuja boca tem uma corda de correr, embainhada, que faz fechar sua entrada e serve também para se pendurar às costas para transporte, à tiracolo ou em diagonal, trespassando o peito. Viajantes sem rumo certo, vindo de terras distantes carregam os poucos pertences no picuá, daí se ter cisma de acudir pedidos de homem com picuá às costas, símbolo de gente suspeita, quiçá de má índole. A roupa boa ou razoável, a higiene e a boa prosa não enganam: homem de picuá nas costas não merece confiança ... é o que reza a cartilha da cultura popular. 

E no afã de ensinar essas coisas aos filhos, netos, sobrinhos, qualquer criança enfim, os mais velhos saíam com narrativas lendárias. Uma delas, assaz conhecida Brasil afora é a do "homem do surrão" (surrão valendo saco ou picuá, bolsa rude), aliás muito antiga. Também aqui foi conhecido este conto. Nina Rodrigues registrou uma versão a mais de um século, com o nome de "A menina dos brincos de ouro", dizendo-a conhecida na Bahia e Maranhão, que em linhas gerais é a seguinte: uma menina ganhou da mãe uns brincos de ouro. Quando ia na fonte se banhar e buscar água numa cabaça, tirava-os e os deixava sobre uma pedra, até que um dia, ao chegar em casa, deu pela falta dos brincos. Havia esquecido na pedra. Com medo da mãe xingar pois era brava, voltou à fonte para buscá-los, mas foi capturada por um velho mal, que a meteu num saco (surrão), costurou a boca do mesmo para ela não fugir e disse-lhe que ganharia dinheiro com ela. De casa em casa, dizia que seu surrão era mágico, que cantava sozinho quando ameaçado de pancadas com o bordão (porrete, bengala, escora do velho). A menina no interior, com medo das batidas do bordão cantava. Então o homem do surrão ganhava algum dinheiro pela apresentação e partia para outra paragem. A sua fala era a seguinte: 

"Canta, canta, meu surrão, 
senão te meto este bordão."

E a menina muito triste cantava dentro: 

"Neste surrão me meteram,
neste surrão hei de morrer,
por causa duns brincos d'ouro
que na fonte eu deixei."

Ocorre que um dia ele foi levar o surrão para cantar justo na casa da mãe da menina, que reconheceu a voz dela. Usou então do estratagema de agradar ao estranho, dando-lhe de comer e beber com toda hospitalidade e sendo tarde o convenceram a dormir naquela casa. Durante seu sono pesado, abriram o saco, tiraram a menina já muito debilitada e encheram o surrão de excrementos. Logo cedo ele acordou, pegou o surrão, pôs nas costas e se foi. Na primeira casa que parou, mandou o surrão cantar e nenhuma voz saiu. Mandou de novo. Nada de cantar. Meteu o porrete no surrão repetidas vezes até rebentá-lo e o estrume caiu no chão revelando como fora ludibriado, o que o deixou furioso.

Pois bem. Este conto, a que Nina Rodrigues creditava a procedência africana, tem uma versão local, ouvida em Santa Cruz de Minas (*). A estória se processa de forma quase idêntica, diferenciando apenas por alguns detalhes. A menina ganhara dos pais uma pulseira de contas de ouro e ao esquecê-la na pedra da fonte, teimou com a mãe e foi buscá-la, apesar da hora já imprópria. Então o restante se processa igual. Apenas os dizeres dos personagens é que mudam. Assim, o homem anuncia: 

"Canta, canta, meu surrão,
meu bordão eu te darei..." (**)

E a criança no saco (surrão) canta lamuriosamente: 

"Continhas de ouro... vidinha,
que lá na fonte deixei!"

O excremento da versão nordestina com que enchem o saco ao tirar a menina, aqui é expressamente citado como esterco seco, de cavalo.


Referências Bibliográficas

RODRIGUES, (Raimundo) Nina. Os africanos no Brasil. 5.ed. São Paulo: Nacional, 1977. Coleção Brasiliana, v.9. 283p.il. p.191-192. 

Notas e Créditos

* Informante: Maria Aparecida de Salles, 08/06/2015, lembrança fragmentária, de narrativa ouvida na infância por meio de sua mãe, Elvira Andrade de Salles. 
** Obs.: outra informante local descreveu o dístico do velho do surrão nessa variante: "Toca, toca, meu surrão, / bom bordão eu te darei..."
*** Texto: Ulisses Passarelli

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