Como tal poder-se-ia listar de imediato a Festa de Nossa Senhora do Livramento (na zona rural de Prados), que acontece no último domingo de junho; a Festa de Nossa Senhora do Rosário (em Resende Costa), no primeiro domingo de novembro, e os grandes jubileus: de Santa Rita de Cássia (em Ritápolis), o de Nossa Senhora de Nazaré (em Nazareno), o do Senhor Bom Jesus de Matosinhos e o do Divino Espírito Santo (ambos no Santuário de Matosinhos, em São João del-Rei) e por fim o da Santíssima Trindade (em Tiradentes). Estas são certamente as maiores festas religiosas regionais.
Cinquenta dias após a Páscoa é a grande festa de Pentecostes. Pois bem. O domingo seguinte a Pentecostes é o dedicado à Santíssima Trindade, que merece na cidade de Tiradentes uma grande festa jubilar centrada no santuário desta invocação, que remonta ao ano de 1776. Popularmente o povo a chama "Festa de Tiradentes", o que a estranhos pode soar como um evento dedicado ao Alferes Joaquim José da Silva Xavier, mas não é nada disso. Esta grande comemoração é concretizada em grande parte devido aos esforços e dedicação da Arquiconfraria da Santíssima Trindade.
A devoção é muito antiga e enraizada e tem sua base calcada em lendas populares, que este blog já registrou. Construído sob o regime de romarias, o jubileu é uma ocasião que movimenta um número enorme de devotos que demandam de toda a redondeza em prece aos pés "da santa", como habitualmente se referem à Santíssima Trindade. É comum o tratamento no feminino: "ela (a Santíssima Trindade) me deu uma graça de cura!" Apesar da referência no gênero feminino a representação material é por uma imagem de feição masculina marcante: um senhor de farta barba branca, olhar sério, sentado num trono, trajado em vestes sacerdotais, tiara papal, um Divino em forma de pomba aplicado no peito e mãos espalmadas em atitude de imposição, de bênção. Uma longa fita atada em seu punho vai até os fiéis em imensa fila, que nela beijam e se persignam pedindo a graça.
O Santuário da Santíssima Trindade é uma igreja setecentista, munida de amplo adro gramado e com os anos recebeu melhoramentos e benfeitorias para bem servir aos romeiros.
É comum a presença de gente vindo a pé de localidades vizinhas. De São João del-Rei e Santa Cruz de Minas, por exemplo, caminham pela "Estrada Velha" (Estrada Real), beirando a Serra de São José, muitas vezes de madrugada, para alcançar a primeira missa, na alvorada. Quantas vezes, fui com meus pais nessa caminhada ainda na infância! Juntava-se uma turma familiar, com tios e primos, levando alguma sacola com uma merenda. A saída era entre 2 e 3 horas, com um frio medonho, e muita poeira. A luz elétrica cessava logo após a última casa de Santa Cruz e em toda a beirada de serra vinha-se no escuro total e com muita poeira. Via-se muitos grupos de pessoas fazendo a mesma jornada, romaria de várias famílias. Na chegada, uma breve parada junto ao chafariz para lavar a poeira das mãos e do rosto e reabilitar as energias com um cafezinho. E logo, assistir a missa das 5 horas, que terminava com o dia clareando.
Esta tradição diminuiu sensivelmente por conta do intenso fluxo de veículo na estrada nesse período, gerando nos romeiros a pé o temor de atropelamento, que aliás já aconteceu. Da mesma forma existe atualmente o medo de assaltos. Era muito comum o romeiro vir à pé de São João e voltar de trem, pegando a maria fumaça que até o começo da década de 1980 rodava de hora em hora nessa festa, por assim dizer, sempre lotada e costumava parar em Chagas Dória para os desembarques. Os jornais antigos de São João del-Rei registram com frequência notícias dos horários ferroviários especiais para servir a esta festa (*). Muitos romeiros vinham ou ainda vem de outras localidades vizinhas a pé ou a cavalo, ou mesmo de bicicleta, mas atualmente o maior volume é por meio de veículos automotores.
A poeira intensa na estrada que vem de São João, de uns anos para cá foi amenizada por caminhões pipa que pulverizam água sobre ela, no trecho do Morro da Mandioca. Já a subida pelo Morro do Pacu não tem mais poeira, posto que pavimentada por paralelepípedos.
A novena preparatória é movimentada, mas nos últimos dias o fluxo aumenta muito. No largo diante do santuário, na rua que lhe segue e mesmo na lateral do templo, externamente, muitas barracas dividem espaço no comércio de gêneros alimentícios, roupas (sobretudo de inverno), utensílios, ferramentas, brinquedos, diversos. Cumprida a parte religiosa, o visitante acorre às barracas e no comércio ambulante faz suas compras. Isto também faz parte da característica desta festa. Muita gente junta um dinheiro ao longo dos meses que lhe antecedem para justamente comprar algo interessante nessas barracas. Nas horas de pico o movimento de ir e vir de pessoas é enorme e chega a ser difícil transitar entre as barracas.
Dentre tantos produtos um muito típico, embora hoje bem menos abundante nesse festejo é a mexerica-pocã (ponkan). Eram vendidas em enfieiras. Hoje em redinhas de nylon amarelo.
A gaiatice popular não tardou alcunhar este jubileu de “Festa do RPM”. Sigla um tanto irônica, mas antes brincalhona que pejorativa, que resume algumas características que se via noutros tempos no Jubileu da Santíssima Trindade, de Tiradentes: Romaria, Poeira, Mexerica.
Alguns momentos do jubileu em especial merecem destaque. No Domingo da Santíssima Trindade, a missa das 10 horas, celebrada pelo bispo, com a parte musical a cargo da centenária e respeitada Orquestra Ramalho, de Tiradentes; a Procissão de São Vicente de Paulo, que sobe entre as barracas partindo da Matriz de Santo Antônio ao Santuário, que já a muitos anos vem sendo musicada pela Banda de Música Municipal Santa Cecília, de São João del-Rei, sob a batuta do competente Sr. José Antônio da Costa; a solene e grandiosa Procissão da Santíssima Trindade, que reúne uma multidão imensa de tiradentinos e visitantes; e, por fim, o concorrido leilão de gado.
Também merece uma especial atenção, sobretudo de quem tem um olhar mais investigativo nas questões etnográficas, a "Sala dos Milagres", onde se concentra um grande número de ex-votos variados, atestando graças alcançadas pelos fiéis. Outro ponto de especial interesse é o velário ao seu lado, no qual ardem dezenas de velas, sobretudo de cera, elevando súplicas e gratidões.
Seria muito interessante e útil o desenvolvimento de uma pesquisa a fundo do passado desta festa, e talvez já exista. Pequenos fragmentos visíveis em jornais antigos publicados em São João del-Rei, além de atestarem o imenso fluxo de fiéis são-joanenses para Tiradentes durante esta festa e sobretudo falando acerca do grande número de trens especiais para atender aos romeiros, também deixam ver nas entrelinhas algumas informações que a princípio sugerem que a estrutura festiva do passado pode ter tido uma certa similitude com o antigo Jubileu do Divino de Matosinhos. A título breve de exemplo, em 1883, descobriu a pesquisa séria do Sr. Kleber do Sacramento Adão (**), houve em Tiradentes a cavalhada durante o jubileu. Pois bem: no ano seguinte, a cavalhada aconteceu na festa de Matosinhos, graças aos esforços de Herculano de Assis Carvalho.
A maioria destes cargos tem procedência portuguesa e sobretudo açoriana. Surgem assim igualmente nas Festas do Divino Brasil afora e por extensão nesta da Santíssima Trindade de Tiradentes. Notar inclusive a presença de cargos consagrados ao Divino Espírito Santo e Senhor de Matosinhos[2]e até um imperador, aliás um sacerdote, o Padre João Theodorico Vellozo.
Fica pois a sugestão à pesquisa, diga-se de passagem, tentadora. As antigas notícias jornalísticas e outras fontes documentais poderão mesmo comprovar que o Jubileu da Santíssima Trindade era muito parecido às antigas festas de Matosinhos? Talvez, umas e outras tenham de fato sofrido grandes mudanças ao longo dos anos ...
Aspecto do Santuário da Santíssima Trindade durante uma celebração. |
Uma parte da fila de fiéis para beijar a imagem da Santíssima Trindade. |
Barracas. |
** ADÃO, Kleber do Sacramento. Devoções e diversões em São João del-Rei: um estudo da festa do Bom Jesus de Matosinhos, 1889-1924. Campinas: UNICAMP – Faculdade de Educação Física, 2001. Tese de Doutorado.
*** Por exemplo, O Correio, n.398, 26/05/1934, comenta sobre o movimento de trens partindo de São João del-Rei e da estação de Prados.
**** Texto: Ulisses Passarelli.
***** Fotos: Iago C.S. Passarelli, 31/05/2015.
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