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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Ditados - parte 5

Ajoelhou, tem que rezar – começou uma ação, tem que concluí-la.

Antes só que mal acompanhado – a estar em companhia de pessoas desonestas, de má índole, violentas, é melhor permanecer solitário.

Boca fechada não entra mosquito – não se deve falar demais pois acaba se dizendo o que não é necessário e causa embaraço.

Boca que não merece beijo, pimenta nela! – pessoa que só fala asneiras, ofensas, xingamentos, é logo execrada.

Cada macaco em seu galho – cada pessoa deve se ater ao assunto de seu domínio; cada um deve se conservar nos limites de seu trabalho, sem se preocupar com o dos outros.

Cada um sabe de si; Deus, de todos – cada indivíduo deve cuidar exclusivamente de seus problemas, anseios e afazeres, sem se preocupar com a vida do outro.

Cão que ladra não morde – pessoa que ameaça demais não cumpre aquilo que ameaçou.

Dado, até injeção na testa – sendo de gratuito, tudo é válido.  Variante: “... injeção na veia”.

Dar com uma mão e tirar com a outra – oferecer uma coisa e tomar outra; trazer um benefício e um prejuízo, simultaneamente.

Deixa eu cuidar da vida que a morte é certa – dito de incentivo à pró-atividade; cuidar das coisas necessárias ao cotidiano sem perder tempo com o supérfluo.

Desculpa de peidorreiro é barriga inchada – sempre existe uma culpa atribuída a algo, quando de fato depende-se da ação da pessoa.

Em festa de jacu, inhambu não entra – entre poderosos, ricos, o desfavorecido não tem oportunidade.

Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas – onde o perigo é muito grande, até quem tem proteção se cuida mais.

Farinha pouca... meu pilão primeiro! – quando os recursos são minguados, primeiro se olha para as próprias necessidades, depois para as necessidades alheias.

Gato escaldado não cai no pote de água fria – quem já caiu numa cilada, de qualquer  embuste tem medo.  Variante: “... tem medo de água fria”.

Levar a fama sem deitar na cama – levar uma fama ruim sendo inocente. É um ditado contrário a outro: “Fez a fama, deita na cama” , ou, “... chora  na cama, que é lugar quente”.

Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga – não se deve preocupar excessivamente com o futuro. Deve-se trabalhar e confiar na graça de Deus.

Não se quebra a perna de um burro por ele dar coice – não se pune apenas por uma má resposta ou rispidez.

O lobo perde o pelo, mas não perde o vício – o homem maduro dá sinais de perda da vitalidade mas não perde a libido.

O maior cego é aquele que não quer ver – diz-se da pessoa que teima em não admitir uma verdade que está às claras, visível por todos.

O melhor da festa é esperar por ela – a ansiedade gerada pela espera de uma acontecimento, acaba sendo mais satisfatória que o próprio evento em si, por vezes, decepcionante.

O olho do dono é que engorda o gado – o responsável por um negócio deve acompanhar de perto a evolução do mesmo, o que garante seu êxito. Variante:  “... engorda o cavalo”.

Papagaio come milho, periquito leva a fama – uma pessoa faz o ato, outra leva a culpa.

Para agradar ao santo se beija as pedras – para se alcançar um objetivo, muitas vezes é necessário tomar atitudes indesejadas.

Para quem é, bacalhau basta! – para quem não tem elegância, fineza, polimento, qualquer coisa serve.

Para quem sabe ler um pingo é letra – para quem tem perspicácia, qualquer sinal indica ou prenuncia o que ainda não foi revelado.

Pau que nasce torto morre torto – o defeito da personalidade não tem correção.

Princípio de cantiga é assobio – o início dos acontecimentos é prenunciado por pequenos fatos.

Quem nasceu para ter pena é galinha – diz-se do sentimento de ter dó dos outros, ter pena, desestimulando-o.

Quem avisa amigo é – quem alerta o outro de algum perigo ou problema que sinaliza proximidade é verdadeiramente um amigo.

Quem cala consente – quem é acusado de algo e não se defende está admitindo a culpa.

Quem casa quer casa – quem ingressa num matrimônio deseja ter sua individualidade, a própria residência, sem coabitar com outras pessoas que não apenas o cônjuge.

Quem conta um conto aumenta um ponto – a estória ou o fato, cada vez que é recontado, vem acrescido de novos elementos.

Quem corre atrás de muito fica sem nenhum – provérbio contrário à ganância, estimulando a não ser usurário.

Quem deve a Deus paga a Deus; quem deve ao diabo, paga ao diabo – quem deve paga de qualquer jeito, mas paga a quem deve: se a dívida é com o lado do bem, pagará aos bons, não aos maus; mas sempre pagará. É um provérbio que contraria o seguinte desta listagem e em geral é dito entre pessoas de formação espiritualista. De alguma forma ele vai reiterar o ditado “Fuja de dever, quer pagar é certo...”, que assegura que de qualquer forma uma punição virá. Estes provérbios referem-se a uma dívida moral, espiritual, por uma atitude indevida. Não é dívida monetária.

Quem deve a Deus, paga ao diabo – erros de conduta, as contas serão cobradas pelo maligno.

Quem gosta de bucho é panela de pressão – ditado comparativo: “bucho” é termo usado com referência à pessoa indesejada, mal quista; “bucho” de fato é o termo popular para designar o estômago da vaca, usado como alimento, cozido, matéria-prima do prato “dobradinha”. O sentido alegórico indica que a pessoa não tolera pessoa intratável (“bucho”).

Quem gosta de casamento é padre e fotógrafo – referência às dificuldades e dissabores de uma vida matrimonial. O provérbio é zombeteiro, referindo-se que quem gosta de casamento é quem ganha dinheiro com ele.

Quem já foi rei nunca perde a majestade – quem teve um cargo importante, uma vez saído dele, permanece com a empáfia que sustentava enquanto empossado no mesmo.

Quem morre por gosto, regalo da vida – referência às pessoas que se habituaram a queixar-se de tudo, a lamentar da sorte, a prenunciar sua própria doença e morte, sem reagir ou tomar atitude. No geral se refere às pessoas que exacerbam pequenos problemas para aparentar ao outro grande sofrimento.

Quem não arrisca não petisca – quem não tenta, aposta, arrisca, não terá chance de alcançar resultados.

Quem nasceu para ter coleira é cachorro – provérbio que renega a submissão, afirmando com convicção a condição de independência e liberdade.

Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza – quem não experimentou um prazer da vida, quando o prova, insiste nele até ao exagero.

Quem quebra galho é macaco gordo – a expressão “quebrar galho” significa fazer favores, prestar benesses. O ditado, em forma de analogia, renega esta atitude, estimulando que cada um resolva seus próprios problemas.

Quem tem filho barbudo é gato – sentido: que tem de cuidar de pessoa já adulta, barbado, é a própria pessoa, não outrem. Ditado contrário ao abuso de quem sem agir, conta com a ajuda alheia.

Quem tem quem por si chora, todo dia morre – quem vive lamentando e encontra quem consola, não deixa de lamentar; vicia na prática do queixume.

Quem vê cara não vê coração – quem observa apenas a aparência não capta a essência da pessoa, seu caráter, a personalidade, os valores humanos.

Sua cabeça é seu guia – cada um faz o que quer; o que deve fazer, orientado pela própria consciência ou desorientado pela falta dela.

Todo pé torto tem seu chinelo velho para calçar – a pessoa por mais desprovida de atributos que seja _ sempre encontrará alguém que possa agradar dela e fazer par. Um ditado equivalente é: “Toda panela velha tem sua tampa”.

Um boi solto lambe-se todo – a pessoa que vivia sem liberdade, quando a alcança, perde-se inebriado pela sensação da liberdade.

Um burro carregado de livro não é doutor – uma pessoa com muito estudo, mas sem polimento no trato com o próximo não é digno da intelectualidade adquirida. “Burro” se diz de quem tem pouca inteligência ou estudo, ou no sentido exato deste provérbio, “burro” é o indivíduo grosseiro, deselegante, que trata o próximo com rispidez. “Coiceiro”.

Um pai cuida de dez filhos, dez filhos não cuida de um pai – quando o progenitor precisa de atenção e ajuda, os filhos não fazem pelo pai o sacrifício correspondente que o pai fez por eles. Uma variante substitui a palavra “cuida” por “trata”. Esta expressão consta de uma famosa e educativa e emblemática canção da música caipira, “Moda do Couro de Boi”.

Um tatu cheira o outro – as pessoas se aproximam para convívio por afinidade de comportamento.

Uns agradam dos olhos, outros da remela – tem pessoas que aparentam se prender aos defeitos explícitos que o companheiro apresenta, renegando outras pessoas quem excedem em qualidades. “Remela” é termo popular para a secreção que se junta no ângulo interno dos olhos.


Notas e Créditos


*Texto: Ulisses Passarelli

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