Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 21 de junho de 2016

Pastorinhas de Tiradentes

O tradicional folguedo natalino das pastorinhas está hoje praticamente extinto nos Campos das Vertentes. Outrora os festejos natalinos em São Tiago, São João del-Rei, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, São Sebastião da Vitória e Tiradentes _ talvez em outras localidades _ eram marcados pelos louvores singelos das pastoras cantando nos presépios armados nas igrejas, salões comunitários e residências. 

Formados tipicamente por crianças e adolescentes, sob a coordenação de abnegadas mestras, os grupos foram pouco a pouco se desativando. O vídeo abaixo resgata uma apresentação das pastorinhas da Vargem de Baixo, bairro da cidade de Tiradentes/MG, no natal de 1995, no interior do Santuário da Santíssima Trindade, logo após a missa das 10 horas. 

No vídeo vemos os cantos das personagens: Pastoras e Pastores, Ciganas, Libertina e Reis Magos sob a coordenação da saudosa senhora Ana de Meneses, que conduzia o grupo com dedicação e respeito.  

Pastorinhas da Vargem de Baixo, 25/12/1995 - vídeo

Segue por fim algumas fotografias ilustrativas da autenticidade deste grupo. Os links ao fim da postagem possibilitam maiores informações sobre esta tradição. 

1- Pastorinhas da Vargem de Baixo na mesma ocasião do vídeo acima,
no adro do Santuário da Santíssima Trindade.

2- Pastorinhas da Vargem de Baixo cantando no coreto durante a Festa do Divino
em Matosinhos, São João del-Rei. Em evidência os Reis Magos. 23/05/1999. 

3- Pastorinhas da Vargem de Baixo cantando no coreto durante a Festa do Divino
em Matosinhos, São João del-Rei. Em evidência a Libertina. 23/05/1999. 

Notas e Créditos

* Texto, vídeo, edição e acervo (fotos e vídeo): Ulisses Passarelli
** Fotografias: 1- Ulisses Passarelli; 2 e 3 - João Hipólito
*** Para saber mais sobre as pastorinhas acesse os links abaixo:


PASTORINHAS DE TIRADENTES

ACHEGAS AO ESTUDO DAS PASTORINHAS

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Os presentes na tradição popular

O intenso costume de dar presentes encontra sua culminância no ciclo festivo do Natal. Ainda é tempo de tecer alguns breves comentários a este respeito, pois segundo as tradições populares este período só encerra no dia de Nossa Senhora das Candeias (02 de fevereiro). 

A pesquisadora paraense Maria Brígido estudou a origem da troca de presentes natalinos, atribuindo-a a antiquíssima tendência gregária humana, desde os clãs primitivos, passando pelos pagãos da antiguidade, lembrando das ânforas de perfume nos túmulos reais egípcios; os presentes fartos a Janus, deus romano do primeiro mês do ano; os Pastores de Belém, ofertando na tradição oral leite e lã ao Deus Menino, ou os Magos do Oriente, trazendo o ouro, o incenso e a mirra; os presentes de fundo fetichista dado às crianças, como amuletos para lhes livrar de mal olhado e os presentes doados pelo bispo europeu de Myra, São Nicolau, origem do personagem Papai Noel. 

Outrora o costume rural do leste das Vertentes (Bias Fortes, Antônio Carlos) adentrando pela Zona da Mata era uma troca de presentes em seqüência: quem o recebia no Natal, retribuía na passagem do ano. Entre estas pessoas, novo presente era dado no Dia de Reis e retribuído no Dia de São Sebastião, segundo nos informou a saudosa dona Elvira Andrade de Salles, nos idos dos anos noventa.

A crença popular, segundo anotações feitas de diversos informantes de São João del-Rei, enxerga alguns sinais indicativos de que a pessoa ganhará algum presente: 

1) se lhe pousar na roupa uma joaninha irá ganhar uma roupa nova; 
2) vestir por distração uma roupa do lado avesso, sem o propósito de fazê-lo; 
3) se a manga da camisa ficar virando do avesso sozinha, mesmo se for repetidas vezes desvirada; 
4) se aparecer uma mancha branca na unha (leuconiquia), circunscrita, à guisa de pinta. 

Mancha na unha à qual se credita um sinal de que a pessoa em breve ganhará um presente. 

A tradição da mancha na unha pode ter porém um sentido muito diverso. Entre 1992 e 1998, residindo em Natal/RN, ouvi várias vezes dizer que mancha na unha é sinal de que a pessoa falou alguma mentira. 

Como práticas favoráveis ao recebimento de presentes,  colhidas ainda em São João del-Rei, registra-se: 

1) o papel de presente deve ser guardado debaixo do colchão, entre este e o estrado da cama, pois logo se ganhará outro presente. O próprio presente de Natal que recebem as crianças é posto sob a cama, exceto se seu tamanho for muito grande, quando então é posto junto à árvore natalina. 
2) pendurar numa janela uma meia ou sapatinho de criança, às vezes alegórico, dentro do qual se põe uma cartinha a Papai Noel, com o pedido deste ou daquele presente. 

O conteúdo destas cartas, que as crianças escrevem, serve de excelente motivo à pesquisa de folk-comunicação, conforme será abordado neste blog oportunamente.

Carta a papai-noel. São João del-Rei, Centro, 1996.

 Referência Bibliográfica

SANTOS, Maria Graziela Brígido dos. Coletânea de textos sobre o Ciclo do Natal. In: Cadernos de Folclore, São José dos Campos, Museu do Folclore, [s.d.]. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Ulisses Passarelli  (carta) e Iago C.S. Passarelli (unha)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

As folias estão em jornada

Nesse tempo das oitavas do Natal, as folias de Reis estão em giro de visitação às residências, buscando presépios para diante deles cantar louvores, anunciar a profecia messiânica, a anunciação do Anjo Gabriel, o nascimento do Menino Jesus,  reviver em versos a humilde visita dos pastores de Belém e a epopéia dos Magos do Oriente.

Embora as folias sejam em verdade conhecidas em várias partes do Brasil, é dever destacar os grupos regionais porque aqui, em virtude de singularidades do processo histórico de formação de nossa gente, foi amalgamada uma cultura de notável riqueza e no caso em questão, os grupos de folia tem um profundo enraizamento.

Infelizmente as mudanças de costumes sociais tem sacrificado bastante esses grupos da cultura popular, já bem reduzidos, mas ainda perseveram alguns baluartes, mestres que se esforçam em manter a velha tradição reiseira, em São João del-Rei e vizinhanças: Tiradentes, Barroso, Prados, Nazareno, Conceição da Barra de Minas, Ritápolis, Bom Sucesso, São Tiago, Resende Costa, Coronel Xavier Chaves e outros municípios em derredor e nos limites da mesorregião. Passaram por modificações rituais, mais simplificados, mas a sua essência continua a mesma.

Neste sábado, dia 28, a partir das 19 h e 30 min., no Largo de São Francisco (Praça Frei Orlando), os apreciadores poderão assistir a oito folias, todas de São João del-Rei, convidadas para um encontro, promovido pela Atitude Cultural: folia do Didinho (Bairro Bom Pastor), folia da Lilia (Jardim São José, Bairro Tijuco), folia do Geraldo Elói (das Águas Férreas, Bairro Tijuco), folia do Antônio Ventura (da Rua São João, Bairro Tijuco), folia do João Matias (do Bairro Guarda-mor), folia do Luisinho Sanfoneiro (conhecida por "Embaixada Santa", do Bairro Araçá), folia do Carlão (da Colônia do José Teodoro) e folia do Vavá (de São Gonçalo do Amarante). Os grupos tocarão em um coreto, especialmente montado para o evento.

A folia do distrito de São Gonçalo do Amarante, um dos grupos a se apresentar, aqui retratado no encontro de 2010.

* Texto e foto: Ulisses Passarelli. 
** Para saber mais sobre as mudanças desses grupos ver: Folias de Reis nas Vertentes: ontem e hoje

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Natal !!!

O blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES deseja a todos os seus leitores um feliz e santo Natal e um excelente ano novo, repleto de paz, saúde, prosperidade e alegria. Que a divina providência e misericórdia guiem nossos passos e o espírito da concórdia reine nesta terra ferida. 

***

"Natal, Natal!
Natal chegou ...
Natal querido, 
do Redentor!"
(Pastorinhas, Tiradentes / MG, 1999)

"Natal, Natal!
Nasceu Jesus ...
Nasceu a vida, 
nasceu a luz!"
(Folia de Reis, São João del-Rei / MG, 2013)

Doce de figo em calda, sobremesa típica do Natal nos Campos das Vertentes. São João del-Rei.
Foto: Iago C.S. Passarelli, 2013. 

Presépio caseiro, feito com peças em barro da década de 1970, do sr. "Mundinho", de Santa Cruz de Minas.
Foto: Iago C.S. Passarelli, 2013.

Pastorinhas das Águas Férreas, durante encontro de folias na Colônia do Marçal. São João del-Rei.
Foto: Cida Salles, 2009. 

Folia de Reis do Morro Redondo (Tiradentes / MG), do folião e embaixador sr. Gustavo.
Foto: Ulisses Passarelli, 1994. 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Tradições pré-natalinas

          O Dia de Nossa Senhora da Conceição e as tradições natalinas

Ulisses Passarelli

          A pouco passou o Dia da Imaculada Conceição. Muitas manifestações religiosas correram nas Vertentes, dentre novenas, missas, procissões, destacando-se na Colônia do Marçal (São João del-Rei), Igreja de São Francisco de Assis (idem), e Conceição da Barra de Minas (donde a Virgem da Conceição é padroeira). O oito de dezembro tem um significado especial na cultura popular pelo sentido litúrgico que a Igreja Católica imprimiu no meio de vida do brasileiro devoto, mas também porque nos meios folclóricos marca o limite entre o ciclo do rosário (o período dos congados) e o ciclo natalino (o período do reisados - folias, pastorinhas, etc.).
          Nos idos da escravidão a Senhora da Conceição era padroeira dos senhores da casa grande e a Virgem do Rosário dos escravos da senzala. A mesma mãe santa e não foi possível ao homem compreender o espírito de irmandade!
          Certa feita, em, 1996, Dona Josefina, em Barbacena, cantava-me uns versos de marujos (congado) assim:

Nossa Senhora da Penha
é madrinha de João,
eu também sou afilhado
da Virgem da Conceição. 

Nossa Senhora da Penha
é madrinha de João
eu também fui batizado
nessa mesma ocasião.

       Estes versos me fazem lembrar do velho costume dos terreiros das religiões mediúnicas afro-brasileiras promoverem o batismo de seus iniciados no dia de Nossa Senhora da Conceição, consagrado ao orixá Oxum, a senhora das águas doces, com domínio sobre as fontes e cachoeiras. Daí as visitas que umbandistas e candoblecistas fazem às cascatas nesse dia, levando ofertas de velas, flores, champagne e frutas (uvas, melões). Eis um ponto de louvação cantado num centro de São João del-Rei:

Eu vi mamãe Oxum lá na cachoeira,
apanhando lírios, para enfeitar nosso congá. 
Apanhando lírios, lírio - êh!
Apanhando lírios, lírio - ah!
Apanhando lírios para enfeitar nosso congá!

          Como Oxum é Senhora das Águas o seu dia (8 de dezembro) costuma ser chuvoso. 
      Por esse período que antecede ao Natal, que católicos consideram como tempo do advento é justamente quando os foliões reiseiros começam seus preparativos, vendo se os instrumentos precisam de reparos; ajeitam novas fitas e flores para os chapéus, a poeira é espanada da bandeira, um ou outro ensaio é marcado. Reafirmam-se laços com o colaboradores -os antigos- e novos, um reforço por exemplo, para melhorar os cordofones  da folia por meio de um novo tocador de violão ou cavaquinho. Isto é sempre bem vindo. É agora que os foliões correm atrás de tocadores para seus grupos.

Folião e Embaixador de Reis, Vicente José de Sousa, São Tiago, 2001.

          Houve um tempo que alguma folia já saía mesmo antes do Natal com uma bandeira com a efígie do Deus Menino. A oferta recolhida até a véspera do natalício sagrado era revertida ao Natal dos pobres (compra de presentes e mantimentos). Dizia-se então "Folia do Menino Jesus", sem palhaço (bastião).
         Só depois no dia 25 é que de fato começava a Folia de Reis propriamente dita, até o 6 de janeiro. Ela ainda se mantém pelo esforço abnegado de uns poucos remanescentes.
         No Dia da Conceição se montava o presépio e a árvore de Natal. Escrevi no passado porque hoje embora sejam armados os prazos tradicionais não gozam mais da mesma rigidez temporal.

Antigo presépio são-joanense, numa foto de arquivo familiar.

          Os presépios caseiros são beléns variadíssimas, à moda brasileira, interpretações livres da menção bíblica e apócrifa do Nascimento de Cristo. Grutas são figuradas com pedras ou papel de saco de cimento, trabalho com tinturas e aqui parecem ambientar uma serra, tal como as nossas montanhas mineiras, não deserto do oriente médio. A estribaria lembra mais um rancho boiadeiro desses que houve ao longo do Caminho Geral do Sertão. Os bichos figuram aqui e acolá. Alguns presépios parecem mais a Arca de Noé pois animais de brinquedo das crianças também vem para a frente da manjedoura participar, por vezes em fila: girafas, elefantes, macacos, vaquinhas, etc. Na lógica popular não é premente a proporção física das peças: assim com diferentes origens materiais, pode aparecer um Menino Jesus cuja imagem é maior que a de São José e Nossa Senhora, ou a imagem de um boi menor que a do galo de cerâmica ou porcelana, comprado nas quermesses e festas de romaria e que o ano todo enfeitou a estante da sala, agora se recicla de função na lapinha bendita. 
          Os perfeccionistas e carolas dirão que tal presépio é feio ou que não é fiel à bíblia. Eu retruco, teimosamente, que é belo e valoroso, pois não prima pela arte exibicionista; sai do fundo do coração do fiel por meio daquilo que tem na mão para fazê-lo em louvor. O presépio tem peculiaridades regionais. O nosso parece uma miniatura da Serra do Lenheiro ou da de São José.
          Daí nesse momento o devoto que está armando o cenário natalino em sua casa trazer do fundo da horta um vaso de folhagem ou samambaia para fazer ambiente; bromélias e orquídeas, cactáceas, pequenos arcos de bambu, areia branca da serra (quartzítica), lascas de malacacheta apanhada na areia de um córrego, pedras secas ou lodosas, paus secos, canelas de ema (velloziáceas). Um espelho deitado na areia cercado de pedrinhas reflete a imagem de um lago onde nadam patos de plástico ou gesso. Dias antes da montagem, numa simples lata vazia de sardinha, uma devota pôs um tanto de terra e nela semeou alpiste ou arroz e agora o broto tenro representa no presépio capim fresco para o gado da manjedoura. É comum a acorrida ao mato à cata de barba de velho, musgos e líquens para o adorno.

Presépio, Santa Cruz de Minas, 1998.

          É neste presépio que o folião solta seus 25 versos (número místico representando vinte e cinco figuras necessárias a um presépio). Num pires fica uma vela e por vezes moedas. O pisca-pisca climatiza tudo.
          A árvore de Natal bem menos emblemática do ponto de vista religioso enraizou e tomou o prestígio do presépio. As mais simples são composições de um galho de árvore revestido de algodão (imitação caseira da neve do hemisfério norte!) e as bolas pendentes lampejam coloridos brilhantes, vitrais de sonhos das crianças.

Árvore de Natal, São João del-Rei, Centro, 1998. 

          Em minha infância e juventude, na Rua Antônio Rocha, São João del-Rei, por anos a fio recebemos na casa de meus avós paternos a visita de uma devota extraordinária, a sra. Nazaré Albino, que nesse período, com uma bela imagem do Menino Deus num cestinho, ia de casa em casa colhendo donativos para os necessitados e levando a imagem às famílias.

Dona Nazaré em 1993, cuidando de sua nobre missão.

          Desde criança via a proximidade do Natal como um  tempo de renovação. Muitas casas aceleravam as obras de reforma para a data fundamental, culminando com a pintura nova ou caiação. Era ainda costumeiro vasculhar a casa, jogando fora trastes e quinquilharias e passando nos forros grandes vassouras artesanais de capim e cabo de  bambu, para remover as teias de aranha e ciscos (picumã) dos telhados. 
          Em bases comunitárias a novena preparatória ao Natal tomava conta do clima preparatório e algures ainda é praticada. 
           Nas hortas a colheita do figo toma fôlego. Seu doce em calda de compota é indispensável à culinária natalina tradicional. Mas esta delícia, ah... é assunto para outro texto. Aguardem!

* Fotos do autor.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Pastorinhas das Águas Férreas

Pastorinhas do Menino Jesus [1]

As representações pastoris do natal brasileiro vieram da Europa, via Portugal, onde existem desde o século XIV. Suas raízes formadoras estão nos evangelhos, especialmente o de São Lucas.

No Brasil assumiram diferentes formas, ora mais, ora menos folclóricas, algumas quase esquecidas (baile pastoril), outras em franco desuso (lapinha) e outras sobrevivendo com dificuldades (pastoril nordestino e pastorinhas do Sudeste).

Em São João del-Rei / MG, ainda persistem dois grupos: um no Bairro das Fábricas e outro no Bairro Tijuco, no lugar chamado Águas Férreas. Informaremos sobre este segundo conjunto, organizado por Júlia Maria de Lacerda e Geraldo Elói de Lacerda, desde os anos 1977-8, aproximadamente.

O casal é muito ligado aos folguedos do povo: assistindo ao grupo de pastorinhas do distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, hoje desativado, fundaram um grupo nos mesmos moldes nas Águas Férreas, continuando a tradição daquela vila. Acrescentaram por conta própria outros cantos e personagens, destacando também suas capacidades criativas.

Conjunto modesto está formado por meninas de 7 a 10 anos em média, dispostas em duas alas de pastoras, trajadas de blusa e lenço no cabelo brancos, saia e lenço no pescoço de tecido enxadrezado vermelho claro e escuro, e um avental azul-escuro ou vermelho, conforme a fila. Calçam preferencialmente tamancos ou sandálias. Cada uma traz um bastão, possível imitação de cajado. É feito em madeira aproveitada de cabos de vassouras, tendo em um extremo chapinhas metálicas presas, trespassadas por um prego. No geral são tampinhas de refrigerante batidas até achatar.

As pastoras, cinco em cada cordão, batem os bastões no chão marcando o ritmo da música com a percussão e ainda conseguem um efeito idiofônico com a vibração das chapinhas.

Três crianças se destacam à frente do grupo. Um menino de túnica parda, cruzada em diagonal por uma faixa marrom, representa São José. Calça sandálias e traz nas mãos lírios e uma sacolinha de pano vermelho (embornal), onde depositam as esmolas angariadas. É ladeado por uma garotinha vestida de anjo, segurando nas mãos um globo – representação da Terra – recoberto de papel dourado e prateado, com uma cruz em cima. E a seu lado uma menina representa a Virgem Maria, com vestido branco, manto azul-celeste, longo, pano branco cobrindo os cabelos. Traz um cesto preso ao pescoço por uma faixa, contendo uma imagem do Menino Jesus, entre rendas e flores.

Apresentações mais antigas traziam também três meninos, representando os Magos do Oriente, e ainda outro garoto no papel do Velho Simeão, com trajes de semita e cajado à mão. Foram personagens introduzidos, ausentes no modelo original, informam os organizadores.

Nas primeiras apresentações carregavam à frente uma bandeira de folia de Reis, prática logo abandonada.

Os instrumentistas vem atrás, vestidos de branco, com um colete e uma boina cor de vinho. Na lapela vem a inscrição “PMJ”, bordada em linha amarela, sigla do grupo: “Pastorinhas do Menino Jesus”. São quatro homens, tocando sanfona, violão, pandeiro e surdo. Sr. Geraldo cuida do surdo, “Juca”, irmão de D. Júlia, vem com o violão, e esta senhora vai ao lado das pastoras a tocar um triângulo. Ela “puxa” o canto (voz solista) e mantém a ordem. Os outros músicos variam com o ano. A maior dificuldade do grupo é conseguir sanfoneiro.

O conjunto é de louvor e peditório. Caminham pelas ruas, sem cantar, e param em várias casas, cantando nas salas. O período é o do Natal ao dia de São Sebastião (20 de janeiro).

Chegando numa casa cantam as pastoras:

Chegamos nesta casa
Nesta data tão querida
com amor e alegria,
viemos te visitar,
trazendo o Menino Deus - BIS
pedindo ao Menino Deus - BIS
sempre em nossa companhia!
para seu lar abençoar!

Entre cada quadra há um solo instrumental. Solicitam óbolos:

A Estrela do Oriente
(Refrão - bisado:)
e a chegada dos três Reis,
Vinde, vinde,
onde está o Menino Deus? ,
todas pastorinhas;
filho de Nossa Senhora...
pede uma esmola
visitando sua casa
para o Deus Menino!
e pedindo uma esmola!


Esta parte é repetida até ganharem o donativo. A música interrompe. Fala o Velho Simeão: “Foi ali naquela gruta, aonde os anjos cantavam: Glória a Deus nas alturas! E paz na Terra aos homens de boa vontade... Maria, eis aí o teu Filho!” Volta a música. Agradecem a esmola:

Deus lhe pague a boa esmola,
Dada de boa vontade,
Lá no céu terás o pago - BIS
Da Santíssima Trindade!

Antes ou depois do pedido de esmola podem inserir este louvor:

Pastorinhas são contentes,
Com amor e alegria,
Festeja o Menino Deus, - BIS
Filho da Virgem Maria.

Vimos também uma cena curiosa: chegaram diante de um presépio, interromperam a música de pastorinhas e tocaram música de folia de Reis. Os adultos do grupo cantaram, em toada folieira, versos em louvor ao presépio. Disseram que é obrigação cantar pelo menos três versos de louvor.

Pode haver um intervalo, ocasião que os donos da casa ofertam doces, balas, confeitos, refrigerantes. Após servirem agradecem o agrado e se retiram:

Obrigada, boa gente
pela sua cortesia;

Deus que fique com vocês - BIS

e vá em nossa companhia.

Pastorinhas pede a Deus
a Santíssima Trindade
que lhe dê muita saúde, - BIS
muita paz, felicidade!

Sendo muito bom o benefício recebido, carinhosa a receptividade e também nas casas dos mais conhecidos, cantam ainda:

Dona da casa será abençoada,
Porque o Senhor vai derramar o seu amor!
Derrama, óh Senhor! (três vezes)
Derrama sobre nós o seu amor!

É o aproveitamento de uma conhecida música religiosa de igreja e rezas. Substituem as bênçãos: as pastorinhas serão abençoadas, os tocadores, fulano, etc. Se houver espaço desenvolvem uma coreografia simples, de cruzamento das duas filas e voltando em seguida aos mesmos lugares. Sempre percutem os bastões no chão. Por fim, partem rumo a outro lar, para louvar o Natal e colher espórtulas[2].



O grupo em apresentação na Estalagem (Praça N.S.de Fátima),
São João del-Rei/MG, Bairro Tijuco, 25/12/1992.
 

Créditos

- Texto, acervo e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

- As fotografias não faziam parte da publicação original.
- Revisão: 16/04/2025. 


[1] - Originalmente publicado em: Carranca, Belo Horizonte, Comissão Mineira de Folclore, n.23, jul./1997, p.8.

[2] - Após a publicação deste texto o grupo paralisou as atividades por um tempo só a retomando no ano 2000 e desde então se mantém, exceto por eventuais questões de saúde que impediram algumas saídas, mas prossegue, graças aos esforços da sra. Júlia e do auxílio de seu esposo sr. Geraldo e algumas poucas pessoas abnegadas. Tem ainda as mesmas características ressalvando-se estes detalhes: o Velho Simeão não é mais representado. Os Reis Magos ressurgiram mas apenas na apresentação do dia 6 de janeiro (Dia de Santos Reis). Juca (José Leonardo de Paula), exímio instrumentista, ora no violão, ora no banjo, infelizmente faleceu em 05/12/2005, deixando uma saudade inapagável no grupo dada sua extrema dedicação e por ser irmão da organizadora. Passaram a se apresentar também no meio do ano durante a Festa do Divino do bairro de Matosinhos, ocasião na qual as pastorinhas carregam numa das mãos uma bandeirola com a efígie do Espírito Santo. O citado grupo que havia no Bairro das Fábricas está desativado há muito. Resta dizer que as ofertas angariadas pelo grupo são tratadas com muita honestidade por parte dos organizadores e são destinadas a obras de caridade, motivo inicial da sua fundação. 

[3] A partir de 2012 as pastorinhas paralisaram as atividades e desde então não se apresentaram mais. Sr. Geraldo Elói de Lacerda, Imperador do Divino coroado no ano 2002, faleceu em 10/03/2024.