Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




Mostrando postagens com marcador Festa Junina. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 17 de julho de 2024

A tradicional quadrilha junina de Coronel Xavier Chaves

O município de Coronel Xavier Chaves está localizado no centro-sul do estado de Minas Gerais, na Mesorregião Campo das Vertentes, Microrregião e Região Imediata de São João del-Rei, Região Intermediária de Barbacena. Área territorial de 140.954 km2, população 3.486 habitantes (senso IBGE/2022). Seus primórdios remontam à primeira metade do século XVIII, com histórico de mineração aurífera e atividades de fazendas. 

Nos dias atuais a sede municipal se destaca pelo patrimônio edificado bem cuidado, ruas extremamente limpas, boa arborização, tradição consolidada na produção de esculturas em pedras ("Cidade das Pedras"), notável artesanato de bordados e rendas de abrolhos, eventos culturais concorridos e bem organizados, grupos da cultura popular bem ativos e genuínos (Boi de Caiado, Folia de Reis, Congado, Quadrilha), além de Banda de Música em plena atividade e um grupo de trabalhos de inculturação com valores afro, que trabalha fortemente na conscientização contra o racismo e a discriminação. Afamados são os torresmos dessa terra e a produção de cachaça tem muita relevância, com destaque para a existência de um engenho que remonta ao século XVIII (considerado como o mais antigo em funcionamento no país).

Nesta postagem o Blog Tradições Populares das Vertentes focará suas atenções no grupo de quadrilha junina local, batizado "Arraiá dos Fundos", sediado no bairro Vila Mendes, abordando um pouco da história oral de seu surgimento. 

Os grupos de quadrilha junina na região se rarefizeram com os anos, diluídos diante de novas influências aportadas nas festas de inverno, onde habitualmente ocorrem (junho-agosto). Neste sentido, os grupos independentes, com organização de base comunitária são poucos nesta região atualmente. Entretanto são mantidas as danças de quadrilhas juninas no contexto das escolas e feiras, mais ou menos improvisadas e sujeitas aos modismos impostos pela cultura massiva, muitas vezes se aproveitando dos ritmos em voga a cada época (sertanejo, country, funk, etc), com estilizações acentuadas de figurino e coreografia, que as distanciam imensamente de suas raízes. 

No entanto, o Arraiá dos Fundos se comporta como uma exceção neste cenário regional, pois se mantém como uma quadrilha independente de outra instituição, algo que até quarenta anos passados era relativamente comum. Tanto mais, conserva o figurino típico, marcação e coreografias tradicionais. Para falar deste grupo cultural irremediavelmente é preciso mencionar que, de um modo geral, o povo xavierense participa de seus aspectos culturais com muita autenticidade e afinco. Destaca-se no campo cultural por cultivar diversas manifestações populares em plena autenticidade.  

Num segundo aspecto é preciso referenciar com louvores o papel do marcador da dança de quadrilha aqui abordada: Rosnei José Silva, mestre de obra de profissão. Natural de Coronel Xavier Chaves, nascido na Canoa de Cima, em 1966. Sua sensibilidade para os movimentos culturais e sociais o torna muito ativo na participação na banda (tocando pratos) ou na folia (pandeiro). Já organizou um time de futebol infantil, batizado Ypiranga, entre 1993 e 1996. Mas é na quadrilha que expande suas potencialidades, na qual, de fato tornou-se um mestre. 

Narrou que em sua infância (aos 12 anos de idade) havia uma antiga quadrilha de adultos na sua cidade. Ele ia com a irmã para dançar. O organizador da época não consentia a participação de crianças, mas a irmã podia dançar, pois já era maior um pouco. Rosnei nutria grande desejo de ingressar nas fileiras de dançadores, mas ante a proibição, sentava-se nos degraus do salão paroquial a observar a dança, gostando do que via, mas, decepcionado por não poder fazer parte, jurava a si mesmo que um dia ainda marcaria uma quadrilha. Desta passagem inicial, que reflete o sonho de uma criança, o vislumbre de planejamento do futuro, Rosnei fez um desenho, muito representativo, aqui exposto: 


Segundo sua narrativa, certa ocasião faltou um par na dança e o marcador o chamou a participar. Foi quando começou. Uma vez, numa quadrilha da escola estadual, o marcador não foi ensaiar e Rosnei se candidatou, dizendo à professora que marcaria a quadrilha. Continuou marcando na escola desde os 13 anos e seguiu. Aos 18 anos intensificou a atividade já fora da escola, em quadrilhas improvisadas. Até que um dia, no povoado da Água Limpa, o convidaram a marcar e foi então a primeira vez que marcou uma quadrilha oficial de adultos, e desde então continuou. Desta quadrilha marcada na Água Limpa, em 1991, é que  Rosnei conheceu Maria Aparecida  Silva (conhecida Cida), que se tornou sua esposa e ela é a atual Presidente do grupo, nos seus dizeres, seu braço direito em tudo, no sentido do protagonismo. Destacou também o papel do sr. Benedito Trindade da Silva,  conhecido Bené, Vice Presidente. 

Mais tarde, porém, resolveu fundar um outro grupo. Isto foi nos idos de 1993. Os ensaios aconteciam na rua, diante da sua residência, como organizador, à Rua Geraldo Passarini, nº267, no bairro Vila Mendes. Inicialmente ele marcava um pouco da quadrilha, e um senhor idoso, José Catarino, marcava outro tanto, intercalando ambos para cumprir as quatro partes. Nos ensaios não havia sanfoneiro, dançavam ao som mecânico (disco de vinil), mas no dia da apresentação iam com sanfoneiros. A ausência de cobertura levou-os num segundo momento a transferir os ensaios para a sede do salão comunitário do bairro, onde ainda permanecem. Rosnei informou, que ao contrário do antigo marcador de quadrilhas que não consentia a participação das crianças ele incentiva sua presença, como aposta na semente da continuidade da tradição pela força do aprendizado e prática, sem excluir ou menosprezar os adultos e idosos. Desta disposição decorre que em 2018 o grupo tinha participantes na faixa etária dos 10 aos 84 anos. Sua paixão pela quadrilha se revela também pela afirmação que, a serviço, residiu por dez anos na capital mineira, donde vinha aos finais de semana para ensaios e apresentações da quadrilha. Ao longo dos anos muitas pessoas passaram pelo Arraiá dos Fundos como participantes, que se tornou um grupo de convívio, prática cultural e aprendizado. 

Com o passar dos anos o grupo adotou uma bandeira e um hino, em 2014. A primeira bandeira  foi pintada por Romulo, irmão de Rosnei, a atual foi pintada pelo próprio Rosnei. 

Rosnei e o autor deste texto segurando a bandeira da quadrilha Arraiá dos Fundos. 
Foto: Betânia Nascimento Resende, 12/09/2022. 

Trajes da quadrilha, no salão onde ensaiam, fotografados durante a pandemia de COVID-19. 


O hino foi uma criação conjunta de Rosnei, sua esposa Maria Aparecida; Rosiana - irmã do marcador, Tamara e Márcio Natal.  É cantado na mesma melodia da conhecida música sertaneja "Moreninha linda!" (canção da dupla Tonico e Tinoco). Rosnei também desenha e corta parte dos figurinos dos vestidos. 



Conjunto de bonecas vestidas com manequins da quadrilha. 

O grupo ensaia alguns meses antes do período de apresentações (junho a agosto). Formado por voluntários e sem fins lucrativos, atende aos convites do poder público e da iniciativa privada para suas exibições coreográficas, bastante variadas e bem ensaiadas, caracterizadas por movimentos bem sincronizados e marcação irreverente. O grupo sobrevive de doações para custeio geral das despesas, sobretudo do figurino. Faz se acompanhar por músicos populares, tocando acordeon, violão, pandeiro e caixa, com grande animação.

Desde o ano de 2017 o grupo ocupa o restante do ano que não há apresentações e ensaios da quadrilha com práticas de teatro amador, promovendo ensaios e apresentações.


Desenhos de Rosnei, alusivos à tradição da quadrilha junina. 

Ao comentar sobre esta quadrilha, quando de uma participação em festa junina acontecida na cidade de São João del-Rei, Sacramento (1999) afirmou: "Aquela quadrilha, com seus trajes típicos representou, com a maior autenticidade e valor folclórico, o Casamento Caipira e, em meu modesto entendimento, está apta a animar qualquer Festa Junina que tenha o desejo de ser eminentemente autêntica."

Recorte de jornal contendo matéria de autoria de SACRAMENTO (1999), colada em caderno,
conservada pelo Marcador e Coordenador da Quadrilha Junina, Rosnei. 


O grupo de Quadrilha Arraiá dos Fundos, da Vila Mendes, foi formalmente constituído em cartório no ano de 2002, contando com diretoria e é um bem inventariado (ano 2019) e por este mecanismo reconhecido formalmente como patrimônio cultural do município de Coronel Xavier Chaves.



Fotografias da Quadrilha Arraiá dos Fundos, apresentando-se na festa de Santo Antônio,
no povoado do Sumidouro (Coronel Xavier Chaves). Fotos: Ulisses Passarelli, 15/06/2024. 


Referências

Coronel Xavier Chaves. Portal do IBGE - panorama.  (Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/coronel-xavier-chaves/panorama - acessado em 23/06/2024) 

Prefeitura Municipal de Coronel Xavier Chaves / Prefeitura / Patrimônio Cultural / Lista de Bens Protegidos. (Disponível em: https://coronelxavierchaves.mg.gov.br/prefeitura/wp-content/uploads/2021/12/CXC_Divulgacao-1.pdf  - acessado em 11/07/2024) 

SACRAMENTO, José Antônio de. Festas Juninas: tradições ainda vivem! Gazeta de São João del-Rei, 03/07/1999; Tribuna Sanjoanense, n.986, 06/07/1999. São João del-Rei. (Disponível em: https://patriamineira.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Tradicoes-das-Festas-Juninas-Sao-Joao-del-Rei-1.pdf - acessado em 11/07/2024) 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

- Fotografias: conforme legendas. As legendas sem informação autoral são de fotos do acervo do Marcador e Coordenador da quadrilha

- Rosnei José Silva: informações pessoais e via aplicativo Whats App - a quem agradecemos inclusive por ceder para esta postagem, as fotos das bonecas e de seus desenhos. 

                                                                                Notas

- Sobre esta quadrilha, ver: 

Quadrilha Arraiá dos Fundos, Lei Aldir Blanc, 2020  

Quadrilha Arraiá dos Fundos na Festa do Sumidouro, 2023 

Grupo de Quadrilha Arraiá dos Fundos da Vila Mendes - Coronel Xavier Chaves/MG  

Quadrilha Junina, Coronel Xavier Chaves/MG, 2023

- Sobre a música instrumental de quadrilhas antigas (não juninas), ver: 

A música para quadrilhas no arquivo musicográfico da Orquestra Lira Sanjoanense 

- Revisão: 12/05/2025. 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Roda, morena!

Uma antiga tradição nesses dias frios de junho era a dança em redor das fogueiras dedicadas aos santos desse mês: Santo Antônio, São João Batista e São Pedro, em festas de intenso valor comunitário e de forte apelo rural. A confraternização se fazia por gestos simples de alegria espontânea e através das danças, das quais a quadrilha se tornou a soberana. 

Mas além desta, outras danças existiram pelos povoados semeados entre as serras do interior. Algumas, de herança cultural africana, como os batuques, caxambus, quimbetes e lundus; outras, evocando movimentos ibéricos, como o desaparecido esquinado, o engenho-novo, a cana-verde e a roda-morena (também chamada rodinha, roda de São João, chora-morena). 

Sobre esta última em especial, acontecia sem época certa para ser efetuada, conquanto fosse comum nas festas juninas. Nesta dança rural os dançantes, sem distinção de sexo ou idade, formavam um círculo e dançavam, com um personagem solista ao centro, que cantava uma quadra dentro do ritmo certo. Os demais respondiam com o refrão. Voltava à roda e outro vinha ao centro, cantando outra quadra. O coro repetia o refrão e assim por diante. 

A título de exemplo eis uma roda procedente de Coronel Xavier Chaves [1]:

Refrão (coro): 
"Roda, Morena! 
Morena, roda!” - bis

Estrofes (solista): 
“Eu vim de longe, 
tô chegando agora, 
eu vim com Deus 
e Nossa Senhora!” 

ou 

“Você disse que vai, 
eu também quero ir; 
você não vai mais 
também já decidi ...” 

Mas além da dança, sob o mesmo nome foi conhecida uma modalidade de canto de trabalho adotado nos mutirões e nos serviços pagos de roçar pasto. Os trabalhadores mais rápidos ficavam nos extremos do eito e os menos habilidosos ao centro. Na medida que o eito avançava, os da beirada adiantavam mais com os golpes da foice fechando gradativamente um semicírculo. Uma vez formado, trabalhavam no sentido de desfazê-lo e assim caminhava o eito. Numa versão de Antônio Carlos, cantavam [2]: 

Refrão (coro): 
“Roda morena! 
Roda morena! 
Você vai, não me leva, 
oi, morena!...” . 

Estrofes (solista): 
Eu desci pra rua abaixo 
num cavalo marchadô, 
uma moça na janela 
abanou lenço e me chamô... 

Moça tu não me conhece, 
não sabe da onde eu sô, 
da macega eu faço a cama, 
do sereno o cobertô...

Eu sou o cravo da Índia, 
que o destino estraçalhô! 
Abrandai meu coração 
que a saudade me deixô... 

“Querido cravo da Índia, 
que o destino estraçalhô, 
se o cavalo der garupa, 
me leva, qu’eu também vô!”


Créditos

[1] Informante: Sr. Luís Santana, 1996. 
[2] Informantes: Sr. José Cândido de Salles e Sra. Elvira Andrade de Salles, 1999. 
- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 
- Revisão: 30/04/2026.
- Vídeo: 


Apresentação de "chora morena" em Itutinga/MG, 2019

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Rua São João festeja seu padroeiro

São Pedro é que deve estar meio tristonho com o são-joanense ... Porque da santificada tríade junina [1], aqui em São João del-Rei, só ele ficou de fora. No Bairro Tijuco tem Rua Santo Antônio com festa do orago em capela própria, setecentista; no mesmo bairro tem Rua São João, sem capela [2], mas com grande devoção, numa festa que já conta com 69 anos de existência. 

Na 1ª Travessa da tradicional via pública, fechada e enfeitada para a ocasião festiva, desenvolve-se uma animada festa em honra ao precursor e primo de Jesus, filho de Isabel e Zacarias, que profeticamente teve a árdua missão de preparar o caminho para as pregações do Divino Mestre. Santo queridíssimo no Brasil, São João Batista goza de grande popularidade e ricos festejos em todo território nacional. 

As barraquinhas de São João aguardam o fim das celebrações para o movimento,
enquanto as pessoas se concentram na missa sob uma tenda, diante do andor do padroeiro. 

Na festa local, conta o santo com ativa parte religiosa que inclui novena, reza do terço e celebrações. O movimento de barraquinhas é animado e tradicional. O dia maior, 24 de junho, desponta logo cedo com alvorada festiva, às 6 horas pipocando fogos de artifício e rompendo acordes d'A Furiosa, título carinhoso alcunhado pelo povo à Banda Municipal Santa Cecília. A corporação querida e de grande qualidade técnica, cumpriu sua missão na gelada manhã festiva, que se segue àquela que se diz ser a noite mais fria do ano. 

Durante o dia, a imagem de São João Batista fica exposta na entrada da travessa, sobre uma mesa revestida de toalha branca, cercando a rua, como se chamasse os devotos ao festejo. E de fato, logo mais, se vê que o chamado foi efetivo. Muitos devotos concentram-se para participar da missa campal. Para a procissão surgem mais dois gigantes de nossa tradição musical: a centenária Banda Theodoro de Faria e a salesiana, Meninos de Dom Bosco. Grande afluxo de fiéis e visitantes acompanharam atentos o concorrido cortejo com o andor enfeitado e depois se confraternizaram no intenso movimento das barraquinhas. 

Imagem de São João Batista acena aos fiéis,
convidando-os para as comemorações na entrada da 1ª Travessa. 

É de se esperar para 2015 uma festa ainda mais especial, comemorando o septuagésimo aniversário da comemoração nesta rua. Que venha, com as bênçãos do padroeiro.

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli. 

Notas

[1] Para saber mais sobre o assunto leia também: AS FESTAS JUNINAS E OS TRÊS SANTOS  
[2] Em 2025 foi benta uma capela no local da festa. 

- Revisão em: 23/06/2026. 

terça-feira, 17 de junho de 2014

Festejos de São João Batista

Aproxima-se o dia de São João Batista, 24 de junho, ponto alto das chamadas festas juninas, tão queridas no Brasil. Segundo OBERACKER, consta num relato carioca setecentista: “assisti ainda a um oratório em homenagem a São João”, denotando sua tradicionalidade no país. 

Seu festejo é antigo nesta região de Minas Gerais. SPIX & MARTIUS o viram em Lagoa Dourada no século XIX (1817-1820): “algumas barracas ofereciam à venda chitas, tecidos de algodão, chapéus, ferramentas, pólvora, etc; os negros ali presentes formavam grupos e faziam ressoar a sua música plangente, num instrumento de madeira com fios de seda esticados, acompanhando-a com sons estridentes da fricção de dois paus. Pouco a pouco, foram chegando os vizinhos, montados em bestas, para assistir à missa de festa; eles mais pareciam empenhados na compra de mercadorias baratas para as necessidades domésticas, do que tomar parte no regozijo geral.” 

BURTON, em 1867, acerca da mesma cidade, anotou: “os habitantes reúnem-se nas cidades paroquiais, vindos de todas as direções; cada lugar tem sua fogueira, desfile de bandas e as pessoas ficam sentadas toda a noite e hasteiam, alegremente, o “mastro de São João” (...) A animada festa é mais agradável na roça do que na cidade, onde o bimbalhar dos sinos e as explosões das girândulas começam antes do amanhecer [alvorada festiva]. A gente fica surdo com os ridículos foguetes, e os moleques, isto é, os negrinhos, tornaram as ruas, supinamente desagradáveis, lançando buscapés, que fazem tudo o que podem para queimar as pernas das pessoas.” Ainda este autor vira no mesmo ano, um mastro junino na Serra da Mantiqueira, no Caminho Novo, próximo a Barbacena: “Retiro é um grupo de palhoças habitadas por negros, que tinham hasteado um mastro de São João, e um santo também negro.” 


Vale mencionar também a festa de São João na Capela de Nossa Senhora do Pilar, no Elvas (Tiradentes), popularmente conhecida por “Capela do Padre Gaspar” ou "Igreja do Gaspar". 

Junto com Nossa Senhora do Pilar é co-padroeiro de São João del-Rei. Em 12/10/2003 foi bento pelo Bispo da Diocese de São João del-Rei, Dom Waldemar Chaves de Araújo um monumento em sua homenagem na Praça Professor José Batista de Sousa (atrás da Catedral do Pilar), estátua esculpida por Miguel Randolfo de Ávila.

Estátua de São João Batista, São João del-Rei. 

Sua festa outrora marcou época, com os festejos litúrgicos na dita Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, onde a orquestra tocava numa missa solene e os festejos profanos se desenvolviam no Largo do Rosário a princípio. Depois passaram para o Largo Tamandaré (atual Praça Severiano de Resende). Em 1918 já estavam nesse largo, atestam as páginas d'A Tribuna. Até a década de 1980, tornaram-se afamadíssimos os encontros de quadrilhas juninas, cada qual de um bairro diferente, que se orgulhavam e esmeravam em bem montar seus grupos. A festa era o maior incentivo. Destacava-se pela organização atenciosa dessa festa o sr. Djalma Assis. Finda esta, as quadrilhas se dissolveram na maior parte. 

É destaque hoje seu festejo realizado na tradicional Rua São João (Bairro Tijuco), encabeçado pelos moradores da comunidade. Uma nota de destaque é a alvorada festiva, que inclui uma tocata da Banda Municipal Santa Cecília, às 6 horas. 


Referências bibliográficas


BURTON,  Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868) . 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5a, v. 197, p. 188.
OBERACKER JR. Carlos H. O Rio de Janeiro em 1782 visto pelo pastor F.L.Langstedt. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.299, abr./jun.-1973. p.3-15.
SPIX, Johann Baptiste von, MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1938. 


Referências hemerográficas

A Tribuna, São João del-Rei, n.206, 09/06/1918 

*Texto e foto (17/06/2014): Ulisses Passarelli  

sábado, 14 de junho de 2014

Viva Santo Antônio!!!

Cada paróquia festeja seus santos. Alguns nem tão populares possuem um círculo mais restrito de fiéis e só encontram comemoração em poucas capelas. Outros, como São Sebastião, por exemplo, ou Nossa Senhora do Rosário, tem festa esparramada por toda redondeza. Mas feliz mesmo é o devoto de Santo Antônio, que ontem pode se dar ao luxo de escolher onde acompanhar a festa do taumaturgo. Antônio era o nome religioso de Fernando de Bulhões. Nasceu em Lisboa, Portugal, a 15/08/1195 e faleceu em Pádua, Itália, a 13/06/1231. Por isso há quem lhe chame Santo Antônio de Lisboa e outros, Santo Antônio de Pádua.

Em Tiradentes é o padroeiro, com igreja matriz setecentista, artisticamente adornada pela arte barroca. Tem ainda a Capela do Canjica, de que é orago no bairro onde a história conta sobre a mineração aurífera pretérita. A atual Capela do Canjica não corresponde mais à original, pois, segundo se sabe, pelo menos outras duas capelas sob o mesmo orago a antecederam nas imediações, tendo sido demolidas, possivelmente sendo a primeira delas contemporânea dos primeiros tempos da extração de ouro (Velloso, 2013). [1]

Em Conceição da Barra de Minas há também importante templo a ele dedicado, também palco de festas em honra a Santo Antônio. Tal igreja foi edificada em 1854, sob a liderança de “Joaquim José da Matta, proprietário da fazenda Barra. Em 1945, passou ela por uma reforma, tendo nesse ano, recebido uma torre no ângulo lateral direito”. Foi restaurada em 1987. Na capela existe um ex-voto cujo texto se refere ao livramento do construtor de um acidente com carro de boi (Gaio Sobrinho, 1990, p.49-50).

É queridíssimo em Lagoa Dourada e Itutinga, de ambas padroeiro. Sem contar outros pontos de festejos nas comunidades rurais. 

Em São João del-Rei, Santo Antônio goza de festejos variados. Mastros, distribuição de pães bentos, bênçãos, missas, música, procissões, trezenas, novenas, tríduos, quermesse e leilão. São alguns elementos, que variam com o ponto que a festa acontece. Quiçá, o mais tradicional seja o da antiga Rua Santo Antônio, no Bairro Tijuco, onde a histórica capela rococó do século XVIII, incrustada no casario, sedia as comemorações concorridas, graças aos esforços da Venerável Irmandade de Santo Antônio (datada de 1939) e a participação intensiva da comunidade, muito unida e participativa. É de se ver com gosto como as fachadas, a beira das calçadas, os postes, são todos ornados com esmero para passagem da procissão. As barraquinhas de víspora, comes e bebes são muito procuradas. Várias irmandades enviam representantes, participando com suas opas características. O sermão do Padre Geraldo Magela em 2014 foi de uma eloquência esplêndida, enaltecendo os valores deixados pelo santo querido na consolidação da fé cristã. A centenária Banda Theodoro de Faria (de 1902), atuou com toda experiência. 

Para quem preferiu outra festa, pode andar só alguns quarteirões, atravessando a Ponte do Rosário, "Rua da Prata" (Padre José Maria Xavier) e na Igreja de Lourdes, no Largo de São Francisco, encontrou um animadíssimo movimento de devoção ao santo lisboeta. Nessa igreja, aliás, o ano todo, há um intenso movimento de devotos deste santo franciscano e seu velário vive cheio de lumes acesos. Não faz muito, fizeram no jardim fronteiriço uma pequenina ermida para abrigar sua imagem, amplamente visitada. 

Uma capela também o festeja, donde é patrono, em comemorações bastante tradicional, no Albergue Santo Antônio, Bairro das Fábricas. A instituição data de 1912 e prossegue em pleno funcionamento e respeitada atividade de cuidado com os idosos. 

O grande Bairro Matosinhos, possui uma comunidade chamada Vila Santo Antônio, onde, no Salão Comunitário consagrado a este santo, na beira da linha férrea, as festas acontecem com grande animação e já se fixa no calendário de eventos deste bairro tão festeiro. Usa-se fincar um mastro para o santo e em alguns anos houve apresentações de congado. É mister lembrar que a grande Paróquia do Senhor Bom Jesus de Matosinhos possui na zona rural uma capela consagrada a Santo Antônio, no povoado do Carvoeiro, cujos festejos tradicionais acontecerão no mês vindouro [2]. Sobre a capela do Carvoeiro, consta que: 

"Em 1919 a imagem de Santo Antônio foi encontrada por Sr Firmino Antônio de Paula, no município do Ribeirão do Elvas (Pitangueiras). Sr Firmino construiu então um Cruzeiro e um imédia de adobo para se celebrar as primeiras missas campais, no ano de 1929, pelo então padre de Ibertioga, padre Gustavo. O mesmo padre foi o primeiro a celebrar na Igreja construída pela comunidade no ano de 1939. Padre Bernardino Siqueira, padre de Tiradentes, continuou a celebrar as missas naquela Comunidade. Nesta época a Igreja era alcançável somente a cavalo ou a pé. Posteriormente padres Salesianos continuaram a dar assistência, até que se tornou uma comunidade da Paróquia de Matosinhos. Em 1957, sob a administração dos irmãos Levinho e Alcindo Vital, foi construída a nova Igreja que se conserva até hoje. Atualmente, devido à emigração dos antigos moradores para a cidade, a Comunidade ficou despovoada, mantendo somente a missa e a procissão nas festividades." (São João del-Rei, 2014). 

 Na Colônia do Marçal, Igreja da Imaculada Conceição, a festa de Santo Antônio assume dimensão ampla, o que é praticamente uma redundância considerando o tamanho do adro e do templo. Não era para menos. O povo devotíssimo da Colônia acorre para os eventos litúrgicos em peso e depois de concorrida procissão, se confraterniza no adro e barracão de festas. Também não falta um mastro em honra a este santo, devidamente enfeitado. Registre-se o zelo de seu pároco, Padre Antônio Claret Albino. 

 Noutra colônia, a do Bengo, no alto de uma colina, desde 1905, a Capela de Santo Antônio, obra do insigne sr. "Emídio do Bengo" (Emygdio Apollinario dos Passos Moraes) e colaboradores sedia uma tradicional festa que reúne a população rural das cercanias, chegando à pé, a cavalo, de motocicleta, bicicleta ou carro. Fazem trinta anos, na tardinha ou boca da noite, ainda víamos romeiros em grupos vindo em caminhada pela beira da linha do Trem do Sertão desde a Avenida Leite de Castro rumo a esta capelinha para os festejos, até as imediações da Banqueta, de onde, deixado o leito ferroviário, subiam por uma trilha campo afora até a capela. 

E por fim não poderia deixar de mencionar ainda que brevemente a tradicionalíssima festa do distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, donde é padroeiro e movimenta toda a população local e ainda congrega os moradores dos povoados vizinhos. É festa queridíssima e agora ganha a partir de 2014, mais um acréscimo importante: hoje, 14 de junho, é o dia consagrado à Beata Nhá Chica (Francisca Paula de Jesus), gloriosa filha daquela terra. Um duplo padroado, comemorado em dias subsequentes.

Santo Antônio de Pádua é o santo mais popular do catolicismo no Brasil. Seu dom extraordinário de missionário pregador, cultura de largo alcance, a humildade imensa e os milagres incontestes e inumeráveis, levando-o a uma canonização quase imediata ao falecimento, transformaram-no em um modelo de santidade e sabedoria. Em torno de Santo Antônio um rico folclore se edificou. 


Capela de Santo Antônio do Canjica.
Tiradentes / MG, 17/07/2004.
 



Capela de Santo Antônio e sua imagem no Bairro Tijuco;
Banda Theodoro de Faria durante a Festa de Santo Antônio.

São João del-Rei/MG, 13/06/2014. 


Em vista póstero-lateral tomada em fevereiro de 2004,
a Capela de Santo Antônio do Bengo, São João del-Rei.

Programa da Festa de Santo Antônio.
Impresso em papel-jornal, 21,5 x 31,5cm.
Joaquim Murtinho (Congonhas/MG), 1992.

Capela de Santo Antônio vinculada ao Albergue Santo Antônio,
local de animadas festas anuais. 31/01/2025. 

Capela de Santo Antônio. Povoado do Carvoeiro. 
São João del-Rei/MG, 09/07/2013. 

Igreja Matriz de Santo Antônio, Itutinga/MG, 09/08/2019. 

Bolo de Santo Antônio, elemento típico da culinária de Itutinga/MG. 
29/01/2020. 

Mastro de Santo Antônio, diante da Igreja Matriz de Santo Antônio,
Ibertioga/MG, 16/06/2025. 


Igreja Matriz de Santo Antônio e um dos painéis pintados, representando o milagre de Santo Antônio em Rimini (Itália, ano 1227), quando os peixes puseram a cabeça fora da água para ouvir sua pregação. Lagoa Dourada, 24/10/2021. 



Festa de Santo Antônio, Bairro Matosinhos. 13/06/2015. 


Festa de Santo Antônio no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
São João del-Rei, com presença da Banda "Lira do Oriente Santa Cecília". 13/06/2017. 




Cartaz da Festa de Santo Antônio da Serra, na comunidades Águas Gerais (Bairro Tijuco) e
Serra do Lenheiro, São João del-Rei. 2019. 

Cartaz da Festa de Santo Antônio no povoado do Carvoeiro, 2019. 

Referências

GAIO SOBRINHO, Antônio. Memórias de Conceição da Barra de Minas. Belo Horizonte: Imprensa Universitária, 1990. 253 p. il. 

 SÃO JOÃO DEL-REI. Capela de Santo Antônio – Carvoeiro. Inventário de Patrimônio Cultural. Secretaria Municipal de Cultura e Turismo/Prefeitrura Municipal; Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, 2014. 33 p. il.

 VELLOSO, Herculano. Ligeiras memórias sobre a Vila de São José nos tempos coloniais. 3.ed.Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico, 2013. 108p.


Créditos


- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Alguns moradores locais guardam na memória o local onde houve uma dessas capelas anteriores, no alto de um pequeno morro nos fundos da atual capela de Santa Edwirges, entre o Canjica e o Cuiabá. Perscrutamos a região à procura de seus vestígios, mas os mesmo desapareceram, assim como estão sumindo as cascalheiras e escavações dos antigos mineiros nas suas cercanias, ainda (parcamente) visíveis, posto que tratores estão ali abrindo ruas e fazendo terraplenagens para loteamento, na febre de valorização urbana desta cidade, destruindo um dos mais importantes sítios históricos, por ser aí o seu berço. A Lagoa do Canjica com histórias e estórias de riquezas incomensuráveis infelizmente não foi preservada. Naquelas imediações existe uma igreja dedicada a Santo Antônio conhecida como Capela do Canjica. Curioso é sua data festiva. Habitualmente os santos são festejados na data de sua morte, considerando-se a simbologia de que morrem para a vida material (terrena), para nascerem para a espiritual (celeste). Assim o Santo Antônio é festejado a 13 de junho, em lembrança de seu falecimento nesse dia. Mas como Tiradentes tem uma matriz consagrada a ele, festejando-o já nessa data, acharam por bem festejá-lo no Canjica, na data de seu nascimento, 15 de agosto, uma notória exceção (pesquisa de campo realizada no ano de 2004).

[2] A Paróquia do Menino Jesus de Praga, criada em 16/09/2022, sediada no Bairro Pio XII, absorveu a gestão eclesiástica da Capela do Carvoeiro desde então. Sobre sua criação, ver: 


- Revisão, ampliação textual e de fontes, acréscimo de fotografias: 26/06/2026. 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

As Festas Juninas e os Três Santos

Considerações Gerais sobre as Festas de Inverno

Há um santo para cada dia e um dia para todos os santos. Cada qual com sua particularidade comemorativa, mais ou menos popular, por vezes muito querido numa região e completamente desconhecido noutra área. Mas no Brasil, de uma forma toda especial, três santos festejados em junho se destacam por sua expressão devocional parametrizada pelos padrões dos valores rurais.

Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa), São João Batista e São Pedro Apóstolo tornaram-se muito populares de norte a sul, com festas praticamente contíguas e de tão sintonizadas, constituíram um ciclo festivo que chamamos junino. 

Uma constante nestas festas é o costume de soltar fogos de artifício, alcançando em alguns locais uma prática ostensiva, entre espadas de fogo, rojões, busca-pés, traques, estalinhos, peido-alemão, espanta-coió, bombinhas, etc. No final do século XIX, Manoel Messias do Nascimento Brito obtinha da Câmara Municipal de São João del-Rei licença para instalar uma fábrica de foguetes, conforme anunciava um antigo jornal da cidade (S.JOÃO DEL-REI, 1899). Outro jornal local, igualmente do acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, anunciava a venda de fogos de artifício para as festas de junho no comércio desta urbe: “Para os festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro grande variedade no BAZAR JAPONEZ. Rua Municipal, 5 – preços especiaes para quantidade.” (A TRIBUNA, 1925).

Tal a sua força cíclica, que os festejos desse período em muitos lugares estenderam-se julho adentro, com aspectos similares, mas com os santos meio de lado, nas já comuns festas julinas. Mas que não crie ilusão esta extensão de datas como sendo coisa recente. Um precioso informante, o senhor Luís Santana (nascido em 1926), natural do povoado do Pombal, em São João del-Rei/MG, narrava que na primeira metade do século XX já havia um período longo de festividades rurais naquele povoado, começando no dia da Santa Cruz, dia 03 de maio (data da primeira fogueira e de erguer os mastros) e ia até o dia de Santana (26 de julho), data da última fogueira e de descer os mastros juninos[1]. Alceu Maynard de Araújo já apontava essa tendência de as festas de Santa Cruz serem praticamente um prenúncio das festas juninas na cultura caipira (ARAÚJO, 1964).

Esses mastros de junho muitas vezes vem enfeitados de frutas, conforme observado em Passos, no sudoeste mineiro (1997), ou de flores do cipó de São João (Pyrostegia venusta, bignoniaceae), como era usado em São João del-Rei e Bias Fortes (1999). No norte do Brasil são enfeitados com ramos, flores, frutos e alimentos. São sinais vestigiais de fitolatria, dizem uns pesquisadores, mas outros apostam apenas no simbolismo da pujança alimentar desses festejos, que acontecem quando no campo, findas as colheitas, a lavoura descansa até o replantio[2].

O cronista inglês Richard Francis Burton, no ano de 1867, passando pelo Caminho Novo na Serra da Mantiqueira, nos arredores de Barbacena, entre esta e Juiz de Fora, notou: “Retiro é um grupo de palhoças habitadas por negros que tinham hasteado um mastro de São João, e um santo também negro” (BURTON, 1976).

Ainda o mesmo autor, assim se expressou conforme o linguajar e visão estrangeira de sua época sobre as festas juninas de 1867:

“(...) os habitantes reúnem-se nas cidades paroquiais, vindos de todas as direções; cada lugar tem sua fogueira, desfile de bandas e as pessoas ficam sentadas toda a noite e hasteiam, alegremente, o “Mastro de São João” (...) A animada festa é mais agradável na roça do que na cidade, onde o bimbalhar dos sinos e as explosões das girândolas começam antes do amanhecer. A gente fica surdo com os ridículos foguetes, e os moleques, isto é, os negrinhos, tornam as ruas supinamente desagradáveis, lançando busca-pés, que fazem tudo o que podem para queimar as pernas das pessoas” (BURTON, 1976).

O devocionário popular enxergou em Santo Antônio o casamenteiro. O taumaturgo lisboeta é festejado a 13 de junho, antecedido por treze dias de rezas preparatórias (trezena). Seu festejo via de regra contém celebrações nas igrejas, procissões, levantamento de mastros, arraiais com fogueiras e brincadeiras, como o pau de sebo e o leitão ensebado, quadrilhas, comes e bebes típicos nas barraquinhas enfeitadas de folhas de coqueiro e pita, soltura de balões, bailes à sanfona. É o santo mais popular do cristianismo e sua oração mais conhecida é o responsório, conhecidíssimo no Brasil e Portugal, com alguns variantes, como esta são-joanense (1998):

Quem milagres quer achar
Aplaca a fúria do mar,
Contra os males e o demônio,
Tira os presos da prisão,
Busque logo a Santo Antônio
Os doentes torna sãos 
Que aí há de encontrar.
E faz achar.

Sem respeitar qualquer anos
Socorre a qualquer idade,
Abone esta verdade
Os cidadãos paduanos.


Uma antiga procissão de Santo Antônio no Caburu, atual distrito de São Gonçalo do Amarante 
(São João del-Rei/MG). Data e autor não identificados. 
Fotos gentilmente cedidas por João Bosco Alves.

Cartaz de divulgação, contendo programa da Festa de Santo Antônio, 2019,
comunidade rural do Carvoeiro, distrito Sede,
São João del-Rei/MG. Impresso em papel-couché; não medido.  


Cartaz de divulgação, contendo programa da Festa de Santo Antônio, 1992,
distrito de Joaquim Murtinho, Congonhas/MG.
Destaque para o ritual de levantamento dos mastros a partir da casa dos mordomos, com cortejo; 
 comidas típicas, fogueira, quadrilha, presença de banda de música.
Impresso em papel-jornal; medidas: 
21,5 x 31,5cm.


São João Batista [3] vem na mesma linha de festejos, mas a 24 de junho, sendo em muitos lugares a festa mais importante do ciclo junino. Sua noite é tida por mágica, propícia a vários sortilégios. Quase correspondendo ao solstício de inverno do hemisfério sul é dita a noite mais fria do ano, o que nem sempre se concretiza. A água de 23 para 24, antes do raiar deste, é benta nas fontes, rios e córregos[4]. Em garrafas e potes a água é recolhida para fazer remédios o ano todo, para se beber pouco a pouco, para banhar uma ferida ou o corpo todo, banindo males e doenças. Em muitos lugares, noite tardia, é usual a procissão da lavagem do santo, quando a imagem é levada ao rio e banhada ante o canto de benditos e rezas. O carvão ou tição da fogueira joanina é bento, conservado para o ano todo riscar cruzes e estrelas protetivas nas portas, muros e porteiras. Jogado no terreiro durante uma tempestade, amansa a tormenta, previne o raio fulminante. 

Na Colônia do Marçal, em São João del-Rei era corrente esta simpatia para se fazer no dia de São João ou no de São Pedro (coletada em 1999):

“escreva no papel branco os nomes das pessoas que você gosta e depois enrola esses nomes como se estivesse enrolando um cigarro e coloque num copo com água com os papéis dentro. Tampa o copo com a mão e coloca perto do fogo e reze uma salve-rainha, até chegar ao “mostrai”. Depois coloque debaixo de uma folhagem todos os nomes que estão no copo. No outro dia sem falar com ninguém vai até a folhagem e termine a salve-rainha e fala pra São João e São Pedro com quem você vai se casar e olha o papel que está aberto”.

Um costume assaz interessante que acontecia em São João del-Rei, no Bairro Senhor dos Montes, e em Santa Cruz de Minas, no Bairro Córrego: no dia de São João, tomando-se à mão varas, correias e chicotes, se dava uma surra no tronco das fruteiras, enunciando-se o seguinte ensalmo:

Fogo na fogueira,
Estava para queimar,
O que não deu esse ano,
Para o ano vai dar!

Esta fórmula mágica é um mecanismo de catarse que garante a queda dos ramos doentios, dos frutos secos e “aluados”[5], das flores estéreis, banindo pragas e mau olhado. Então, no ano seguinte o pomar aumenta a produtividade. Eis um elemento claro da força agrária dessa festa.

Cartaz de divulgação, contendo programa da festa de São João Batista, 
Rua São João, São João del-Rei, 1992. 
Impressão em papel-jornal; medidas: 24 x 33cm. 


São Pedro vem por último, protetor das viúvas, com festejo a 29 de junho. Sua festa ultimamente esmaeceu, mas tem as mesmas linhas gerais. É em geral mais forte onde o mar ou os grandes rios tem importância econômica para as comunidades de pescadores, sendo então comuns as procissões marítimas ou fluviais com barcos enfeitados e as puxadas de mastro. São Pedro, tido como o primeiro papa, é o guardião das chaves do céu. São muitos os contos populares que narram suas peripécias apostólicas, colocando-o como um turrão, que faz trapalhadas ante Jesus. A crença indica a mãe de São Pedro como uma verdadeira megera. 

É no dia de São Pedro que o homem do povo toma de um facão ou machadinha e dá piques (talhos) no tronco das mangueiras em sentido perpendicular ou diagonal como método que garante uma melhor produtividade. Naquele talho escorre parte da seiva, num mecanismo de sangria. Ainda é muito frequente esta prática em São João del-Rei e arredores. 

 

                                                   Piques no tronco de uma mangueira, fotos do autor, 2013.

Cartaz de divulgação, contendo programa da festa conjunta de São Pedro e São Paulo,
Capela de N.S. da Saúde, Águas Santas (Tiradentes/MG),
afamada pela boa qualidade das danças de quadrilha. 
Impresso em papel off-set, tamanho 32 x 21,5 cm. 


No Maranhão e Amazônia as festas desses santos são animadas pela presença de numerosos grupos dançantes de bumba-meu-boi / boi-bumbá e os de tambor-de-crioula. No agreste e sertão acorrem os bacamarteiros, os ternos de zabumba. Pelo litoral e agreste são as rodas de coco, improviso ao som ritmado do ganzá; zambê, bambelô. Ainda em 1997 na praia de Caraúbas (Maxaranguape/RN), a capelinha de melão, espécie de pastorinhas do inverno, cantavam não ao Menino Jesus mas a São João Batista.

Vários terreiros de religiões de matriz africana por via sincrética participam do complexo devocional envolvendo estes três santos. Muitos terreiros fazem festas nos seus dias votivos. O sincretismo é variável de uma região para outra, e mesmo com o rito religioso em si, mas via de regra é o seguinte: Santo Antônio se vincula ao Orixá Exu; São João e São Pedro respectivamente ao falangeiro Xangô do Oriente e a qualidade de orixá, Xangô Agodô [6]:

Santo Antônio e meu São Jorge
São dois santos guerreiros,
Santo Antônio firma ponto,
São Jorge firma terreiro.


Outro:

Meu Pai São João Batista é Xangô,
O dono do meu destino até o fim.
Se um dia me faltar, a fé no meu Senhor,
Derruba essas pedreiras sobre mim.

Para o ciclo junino as festas externas às igrejas se climatizam na configuração cenográfica de um ambiente rural, ou pelo menos, supostamente do campo. É uma imagem idealizada, a bem da verdade, meio às avessas, porque, à primeira vista ridiculariza os valores rurais levando ao exagero o aspecto e o comportamento do rurícola. Assim os dançantes da quadrilha, a dança típica dessa quadra do ano, põe roupas com remendos avantajados, chapéus desfiados, calças esgarçadas, rabiscam no rosto cavanhaques e bigodes desgrenhados, cigarrões de palha são adereços indispensáveis. Botinas graúdas favorecem o andar trôpego. As mulheres não ficam para trás com seus vestidos de chita e outras estampas berrantes, fora da moda; tranças postiças, maquiagem exagerada e até por vezes um dente é borrado de preto simulando vasta cárie ou ausência de elemento dentário.

O local das danças é chamado arraial, ou melhor, “arraiá” e ganha nomes próprios: Arraiá do Arranca-unha, Arraiá do Pito Aceso, Arraiá da Vila Mendes, etc. É limpo e enfeitado. De terra batida, gramado ou cimentado, não importa, ganha arcos de bambu, carreiras de bandeirolas e rabiolas coloridas, balões multicores nos cantos, espigas de milho atadas às varas das barraquinhas de vender comida típica do período, sujeita a regionalismo: por aqui, canjica, quentão, broas, pamonhas, curau, pé de moleque, batata doce assada na brasa; no vasto Nordeste onde estas festas alcançam uma dimensão extraordinária e economicamente importantíssima, geradora de fluxo turístico, surge dentre outros a indispensável canjica, o mungunzá, os bolos variados (preto, de milho, de carimã, da moça, etc.). E por aí vai. Nas áreas frias sulinas o consumo do pinhão é querido e o vinho.

A música se faz fartamente presente através da sanfona, ou seu irmão _ acordeon. Outros instrumentos acompanham e marcam: quadrilhas, xotes, baiões, xaxados, forrós, arrasta-pés ...

Na apresentação das quadrilhas um dos momentos mais aguardados é o casamento caipira (matuto, tabaréu), um entrecho muito apreciado já comentado na postagem sobre as quadrilhas. É bem visível que esta representação é um entremeio dramatizado que foi enxertado nas quadrilhas, não fazia parte do modelo francês original. É uma criação brasileira, e em tamanha sintonia com a quadrilha que com elas compôs um corpo perfeito. Ora, um antigo jornal de São João del-Rei / MG, noticiou há um século esta representação teatral: “casamento do caipira (Nhô) é uma pantomina de successo” (O REPÓRTER, 1912). Seria uma pista? O casamento hilário foi uma representação de palco que rodou Brasil afora, caída nas graças do povo que a manteve no contexto das quadrilhas? É só uma possibilidade, aguardando pesquisa.

Por estas alturas é interessante repensar o significado do universo rural colocado com jocosidade nas festas juninas. Aqueles remendos das roupas, os trejeitos dos dançantes, os babados dos vestidos e toda a irreverência dos arraiais e seus figurantes, seria apenas mero deboche? O corre-corre urbano, a vida na selva de pedra não induz a horas tantas a saudade da paz campesina? A figuração do mundo rural nestas festas e danças parece puramente alegórica. Por fim faz parte da própria identidade destas manifestações. O olhar mais focal pode ser assaz revelador.

Estas festas além de quebrarem a rotina como todas em geral o fazem, podem também ser um oportuno canal de manifestar os valores da ruralidade, ainda que sob a ótica urbana calcada pela ironia, mas isto pode ser um disfarce social. O roceiro ainda vive em cada um de nós? Caso positivo, para manifestá-lo precisamos de uma fantasia e um contexto? Esta ambiguidade é que justifica a “imagem idealizada às avessas”. Toda esta provocação (e não afirmação) visa apenas induzir pesquisas futuras neste ramo, que quiçá podem ser frutíferas.

Referências Bibliográficas

- ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1964.
- BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1867). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EdUSP, 1976.
- CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.] 930p.il.
- IHG. Os cronistas viram e disseram. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.4, 1986. p.55
- LIMA, Rossini Tavares de. Folclore das Festas Cíclicas. São Paulo: Irmãos Vitale, 1971.
- PELLEGRINI FILHO, Américo. 2.ed. Folclore Paulista: calendário & documentário. São Paulo: Cortez/Secretaria Estadual de Cultura, 1985. 240p.il.
- SOBRINHO, Antônio Gaio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ: 2010. 260p. p.34 e 95. 
           
Referências Hemerográficas

- A Tribuna, n.651, 31/05/1925. São João del-Rei. 
- O Repórter, n.312, 02/05/1912. São João del-Rei. 
- S.João del-Rei, n.6, 04/03/1899. São João del-Rei. 

Informantes (São João del-Rei e Santa Cruz de Minas)

- Aluísio dos Santos (piques nas mangueiras, Centro, São João del-Rei)
- Cláudia Aparecida da Costa (simpatia para casamento, São João del-Rei)
- Elvira Andrade de Salles (surra nas fruteiras, mastros - Santa Cruz de Minas / Bias Fortes)
- José Camilo da Silva (mastros, São João del-Rei)
- Luiz Antônio Sacramento Miranda (surra nas fruteiras - Bairro Senhor dos Montes, São João del-Rei)
- Luís Santana (festas no Pombal, São João del-Rei)
- Luthero Castorino da Silva (responsório, São João del-Rei)

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Ulisses Passarelli (mangueira); procissão de Santo Antônio: autor não identificado, gentilmente cedidas por João Bosco Alves, a quem este blog agradece. 

Notas 
- Revisão: 04/07/2025. 



[1] - Fogueira em agosto, nem pensar! Faz mal, afirmava Luís Santana. Aliás agosto é mês do desgosto, de São Lourenço, senhor dos ventos, que morreu queimado numa grelha, dia 10 de agosto. No dia dele não se pode queimar pastos nem coivaras nos roçados. É a lógica da cultura popular. 
[2] - A origem pagã e agrária destas festas é clara e fartamente documentada por eminentes folcloristas, que sobejamente demonstraram os reais valores das festas rurais: Alceu Maynard Araújo, Américo Pellegrini Filho, Luís da Câmara Cascudo e Rossini Tavares de Lima, referenciados nesta postagem. São de consulta indispensável. Não é plano desta postagem, discorrer sobre o histórico das festas juninas. Para esta finalidade fica como sugestão este vídeo: As origens da festa junina. In: Cortes do Estranha História, 25 jun. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=y80UgePJzWs  Acesso em 04/07/2025. 
[3] Sobre a antiguidade da Festa de São João Batista em São João del-Rei, uma referência significativa é esta, dada por SOBRINHO (2010): "1719 - REC 168 PG 03 - Por trinta e duas oitavas de ouro que deu ao Pe. Fr. Antônio Xavier de Santa Rosa pelo Sermão da festa de São João de que se lhe passou mandado em 14 de setembro." (p.34). Da mesma fonte do recibo anterior emitido pelos vereadores é este acórdão de vereança: "ACOR 09 PG 69: EM 24 DE JUNHO DE 1799 - Acordaram em ir à Matriz desta Vila digo em ir assistir à Missa conventual na Matriz desta Vila como foi obrigado por ser dia de São João Batista, como de fato foram." (p.95). 
[4] - Dêniston Diamantino produziu um documentário de alta qualidade sobre as tradições juninas no vale do Rio São Francisco, vídeo “São João na Roça” (Opará Vídeos, Belo Horizonte, 2000), de consulta fundamental como fonte fidedigna de pesquisas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mc6U1alhO2A&list=RDmc6U1alhO2A&start_radio=1  Acesso em 04/07/2025. 
[5] - Aluado: aquilo ou aquele que pertence à lua. A informante, Elvira Andrade de Salles dizia que a lua sugava a energia do fruto, que assim ficava “aluado”: de crescimento afetado, sem polpa, sem adocicado, com baixo poder nutricional.
[6] - Concepções de um zelador de umbanda e uma ialorixá de candomblé de São João del-Rei. Os pontos foram ouvidos em outros terreiros da cidade, que não os dos informantes, por volta de 2001.