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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 15 de junho de 2016

Alecrim cheiroso, alecrim dourado!

Alecrim é o nome popular aplicado a alguns vegetais aromáticos. Basicamente formam dois grupos:o de horta e o do campo.

1- O alecrim-de-horta: Rosmarinus officinalis, planta lamiácea originária da região mediterrânea, bem aclimatada ao Brasil. A tradição popular do Campo das Vertentes deu-lhe alguns usos:

a) como remédio (*), em decocção, na função de regulador da pressão arterial, febrífugo, estimulante da função estomacal; 
b) em banhos, de finalidade espiritual, da cabeça para baixo, abrindo a mediunidade e descarregando. É considerado uma erva de Oxalá (São João del-Rei, 2000). Para plantá-lo, deve-se estar com o coração puro, do contrário, ele não "pega" (nasce, brota). Há o verso próprio para plantá-lo: 

“Eu planto este alecrim 
na hora de Deus, amém!
Se este alecrim pegar, 
meu amor pega também.” 
(Santa Cruz de Minas, 2000); 

c) como tempero, para carnes vermelhas sobretudo, em pequenas porções. 

2 - Alecrim-do-campo: nome de algumas plantas asteráceas arbustivas do gênero Baccharis, próprias das áreas abertas, nativas do Brasil.  Existem alguns usos populares: 

a) os ramos ajuntados em feixe e amarrados a um pau como um cabo, são usados para confecção de vassouras de uso geral, para limpeza de casas, terreiro de fazenda, quintais, forno de fazer quitanda; 
b) especificamente para fazer vassouras de finalidade espiritualista, varrendo o ambiente no sentido de descarregá-lo. Acredita-se que varrer um lugar com uma vassoura de alecrim traz calmaria, serenidade, sossego; 
c) como incenso ou defumador, afastando males se queimadas as folhas secas; 
d) banho espiritual de descarrego, puro ou misturado a outros ingredientes, tomando-se o cuidado de usar o alecrim "macho" para homens (Baccharis dracunculifolia) e o "fêmea" para mulheres. Considerado erva da linha de caboclos. Uma variedade contudo, conhecida tradicionalmente por "cabelo de negro" é considerada erva dos guias da linha africana, ou seja, dos negros velhos; 
e) banho medicinal da cultura popular contra edemas e feridas de perna; 
f) esfregado na roupa é usado para espantar carrapato quando se tem que caminhar num pasto em época de seca. 

O alecrim nas pastagens motivou uma peça cantada no cancioneiro geral muito difundida e também conhecida nesta região, sobretudo como canto infantil,como esta versão são-joanense:  

“Alecrim, alecrim dourado,   BIS
que nasceu no campo sem ser semeado!
Foi meu amor, que me disse assim,    BIS
que a flor do campo é o alecrim!” 

 Também o registramos como canto de congado, entre os anos 2000 e 2001, num catupé de São João del-Rei:

"Alecrim cheiroso, alecrim dourado,
nasceu no campo sem ser semeado!"

1- Alecrim do campo "cabelo de negro". Bairro Guarda-mor, São João del-Rei. 
2- Alecrim do campo "macho". Bairro Caieira, São João del-Rei. 

3- Alecrim do campo "fêmea". Bairro Córrego, Santa Cruz de Minas. 


3- Alecrim da água: variedade muito parecida ao alecrim do campo, porém viceja à beira dos regatos. O uso na cultura popular é praticamente idêntico. Nos banhos de descarrego atribui-se que traz a força do elemento água. 

É citado num verso de congado: 

"Ora vamos, ora vamos,  BIS
ora vamos, devagar...
Alecrim na beira d'água,   BIS
meus peixinhos vai nadar!"
(Congo, São Gonçalo do Amarante - São João del-Rei. Canto em ocaso. Informante: Capitão Lourival Amâncio de Paula, 11/10/2015)

4- Alecrim de água no habitat. São João del-Rei. 

5- Detalhe de um ramo de alecrim de água. 

Notas e Créditos

* Como é de praxe neste blog não aconselhamos nem recomendamos o uso de qualquer substância com finalidade medicinal pelo eventuais riscos que podem causar à saúde. Apenas registramos o uso popular pelo valor folclórico e etnográfico.  
** Texto: Ulisses Passarelli


*** Fotografias: 1 e 4- Iago C.S. Passarelli; 2, 3 e 5- Ulisses Passarelli

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