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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 18 de abril de 2015

Peladas e pelados

A palavra "pelada" e seu masculino, ou ainda "péla", possibilita algumas concepções na cultura popular. 

"Péla-saco" é expressão corriqueira usada para se referir de forma desdenhosa à pessoa indesejável, chata, desagradável. "Fulano é um péla-saco!"

Já o péla-égua é um alimento à base de milho, servido quente. 

Desgraça pelada é o nome de um mito assombroso, ser das trevas, que o povo teme e respeita. 

Pinto pelado é outro espectro, demoníaco, aparição do mal, sobretudo na quaresma. 

Existe também uma doença de cães caracterizada pela queda dos pelos e enrugamento da pele. É a pelada ou peladeira. Diz-se que pode passar para humanos. Nos meios populares é tratada com uma mistura de óleo automotivo “queimado” (retirado do motor pelo uso excessivo) de mistura a uma porção de pó de enxofre. Pincela-se na área afetada, repetindo de duas a três vezes com intervalos de poucos dias. É assim que sem consulta a veterinário o povo cuida dessa doença.

Diz que o Brasil é o país do futebol. A julgar pelo resultado da última copa... não, mas o que vem ao caso agora é que no jogo de futebol informal, de regras mais ou menos flexíveis, a chamada "pelada" é que reside a popularíssima escola do esporte mais querido do país. 

A pelada não exige uniforme (não é raro jogar o time “com camisa” contra o “sem camisa”), nem chuteira (vale descalço e na roça até de botina). O campo serve de qualquer tamanho e a distância entre as traves é subjetiva. Estas aliás marcadas com dois paus fincados em geral, apenas dois chinelos e pedras nos piores campos e uma armação de bambu ou eucalipto nos melhores. Irregularidades no campo são comuns pois se improvisa nos pastos e várzeas, por vezes em terra batida levantando grande poeira ou gerando escorregões. Correm estórias engraçadas de campos com moitas, cupinzeiros e buracos de tatu.

Os jogadores não tem necessariamente time fixo e por vezes a equipe é montada na hora, escolhendo cada líder por sua vez um jogador, de praxe equilibrando-se um bom para cada lado, e da mesma forma compartilhando os ruins (chamados “pernas de pau’, “pelonha” ou "café com leite"). O par ou ímpar decidi quem escolhe primeiro e daí, perdida a oportunidade da primeira sorte que pode garantir o mais habilidoso, os demais são escolhidos um por vez, por cada lado. Assim hoje pode o jogador estar neste time, amanhã naquele e depois voltar, indiferentemente. Não implica amor à camisa. De qualquer lado se joga com garra.

Vale bola de borracha ou de couro (“bola de capota”, artesanal). Apesar do improviso e falta de condições a pelada é esporte querido e muitas vezes revela jogadores talentosos. 

Campo de pelada. Águas Gerais, Bairro Tijuco.
São João del-Rei/MG, 18/06/2017. 

Notas e Créditos

* Texto e fotografia: Ulisses Passarelli

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