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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 11 de junho de 2014

O folclore dos dentes - parte 2

Troca da dentição

A substituição dos dentes decíduos (dentes de leite) pelos permanentes é uma fase natural do desenvolvimento da dentição humana, que merece muita atenção da população. Tenho visto mães que pegam os dentes de leite de seus filhos e encastoam em metal para confecção de pingentes, presos por correntinhas ao pescoço à guisa de amuleto ou mera lembrança da infância. Outras tratam a troca de dentição com um ritual de arremesso.

Consiste em pegar o dente decíduo extraído ou naturalmente esfoliado e jogá-lo sobre o telhado da casa, com o cuidado fundamental de atirá-lo por sobre o ombro, sem olhar para trás, para não ver onde cairá. 

No ato do arremesso enuncia-se em voz alta uma fórmula versificada, que em folclorística classifica-se como um ensalmo. Um dos mais difundidos no Brasil é o seguinte: 

"Mourão, mourão:
toma teu dente podre,
dê cá o meu são."

Há muitas variações destes versos. Na visão popular o ritual garante a erupção de um dente permanente sadio. Câmara Cascudo diz que "a tradição nos veio de Portugal, onde existe, com muitas variantes na fórmula, mas imutável no sentido." Forneceu a bibliografia portuguesa sobre o assunto. Eduardo Campos transcreveu exemplos portugueses deste ensalmo: 

"Telhado, telhadão:
toma lá meu dente podre
e dê cá o meu são."
(Alentejo)

"Palheirinha, palheirão:
tome lá este dente podre
e dê cá um são."
(Vale-do-Lobo e Idanha-a-Nova)

"Cinza, cinzão:
toma lá este dente podre
dá cá um são."
(Castelo Branco)

Em Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais anotei esta versão (1988): 

"Andorinha, andorinhão:
toma lá este dente podre
e me dá um dente são."

Em Santa Cruz de Minas, no centro-sul do estado a versão que conheci é a seguinte (1994):

"Telhado, telhado: 
toma meu dente podre,
me dá um dente são."

Em São João del-Rei igualmente, ou sob a forma variante, "Telhadinho, telhadão"

Há notícias de tal costume no Brasil já no século XIX (*). 

Outra forma ritual anotei-a em Santa Cruz de Minas e se distingue das demais no detalhe de o dente de leite arrancado ser metido num pedaço de pão ou de angu e assim jogado a um cachorro, que o devora sob o recitativo da seguinte fórmula:

"Cão, cão:
toma este dente podre,
me dá um dente são." 

Analisando a tradição, Câmara Cascudo esclareceu que o cuidado de não olhar para trás é um vestígio cerimonial das iniciações gregas. Mostrou sua difusão e completou que neste processo de transferência de moléstia ao dente de leite, não se deve olhar onde o mesmo caiu, sob pena de nascer outro defeituoso, pois há crença de que a desobediência a este preceito "reconduz os poderes maléficos quem pretendera abandonar". 

Lembrou ainda sobre a citação ao mourão numa das fórmulas: "Mourão é a pedra que divide do lume a pilheira, onde estão as cinzas. Prende-se ao culto larário e à sugestão de objetos sólidos, compactos, inabaláveis."

Dentro desta linha de pensamento, por analogias e associações, quem carrega consigo uma semente de mucunã ou olho de boi (Mucuna urens), terá boa dentição, porque a semente é rija. Um dente de jacaré, a pinça de um pitu, o ferrão de uma aranha-caranguejeira ou um dente de cachorro levados dentro de saquinhos pendurados ao pescoço ou presos a cordões, colares de caroços de azeitona, possibilitam a quem os carrega ter dentes fortes, duros, bem brancos e assim dão para as crianças levarem, para os novos dentes saírem sadios. Em São João del-Rei a receita prevista é carregar uma fava de Santo Inácio (Schizolobium parahyba)

Dentes no cocar de um congadeiro da guarda de caboblos "Divino Espírito Santo",
do Bairro Nova Cintra, Belo Horizonte/MG. 

Referências Bibliográficas

CAMPOS, Eduardo. Folclore do Nordeste. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1960. 183.p.
CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro: pesquisa do catimbó e notas de magia branca no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978. 208p.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.
PAIVA, Melquíades Pinto, CAMPOS, Eduardo. Fauna do Nordeste do Brasil: conhecimento científico e popular. Fortaleza: Banco do Nordeste, 1995. 274p. 
STUDART, Guilherme.  Usos e superstições. In: SERAINE, Florival. Antologia do Folclore Cearense. 2.ed. Fortaleza: UFC, 1983. 356p. 


Notas e Créditos

* Anotado no Pará em 1889. Conferir em: NERY, Frederico José de Sant'Anna. Folclore Brasileiro. 2.ed. Recife: FUNDAJ/Massangana, 1992. 235p.il. p.72. 
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Foto: Iago C.S. Passarelli, 27/04/2014. 

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