Chocalhos moçambiqueiros
Uma manifestação cultural bastante frequente em Minas Gerais é o chamado moçambique, uma modalidade de congado que, na ausência do candombe, tem no contexto das Festas do Rosário, a primazia de escoltar o reinado. É fato típico que dentre seus instrumentos musicais os moçambiqueiros usem certos tipos de chocalhos atados às pernas, de modo que no ritmo da pisada durante a dança faça um efeito idiofônico.
O uso desses instrumentos já era conhecido na África, atesta Cascudo (1984), sobre a cultura dos naturais de Manavane, da etnia Macambane. O bailado guerreiro ao som de timbas se fazia destacado pelos "tschivangos nos tornozelos, enfiadas de barulhentos bugalhos, e sevandos nas pernas vivas e fortes". Também os indígenas do Brasil o conheciam, pois os registra em verbete de seu Dicionário do Folclore Brasileiro, com o nome de zuzá: "de frutos secos do piqui fazem chocalhos, zuzá, que atam aos tornozelos, como guizos para dançar." (baseado em Roquete Pinto, Rondônia).
Em alguns lugares da América do Sul, em países que passaram pela colonização espanhola, existe como jarreteiras, atadas aos tornozelos.
A forma desse chocalho é variável. Alguns são
guizos, de fatura artesanal ou industrial, presos a correias e fivelas. São chamados simplesmente guizos ou por vezes
paiás (sul de Minas, Vale do Paraíba paulista).
Outros são feitos de latinhas cilíndricas vedadas nos extremos, contendo grânulos de chumbo, contas, sementes de finalidade mística. São chamados gungas. Com frequência trazem desenhos simbólicos (astros, cruzes, pontos), abreviaturas de nomes de santos padroeiros, perfurações alinhadas para sair o som, mas o alinhamento dos furos segue a forma de uma cruz ou estrela de cinco pontas, com objetivo de proteção. Por vezes são confeccionados em folha de flandres ou outro tipo de chapeado, outras, pelo aproveitamento de embalagens de enlatados industriais, tais como latinhas de extrato de tomate, milho verde e ervilha, portanto, um processo de reciclagem.
Gungas e paiás são os modelos padrões. Mas por vezes surgem variações, combinando os dois, como observado em uma guarda de moçambique de Divinópolis. O moçambique "São Bernardo", de Macaia (Bom Sucesso/MG) tinha entre seus dançantes um moçambiqueiro cuja gunga era confeccionada com chifres de boi, um material alternativo que também remete à ideia de firmeza, elemento natural que traz consigo a força energética do próprio animal e tem vasta simbologia.
Outro modelo é a
maçaquaia, usada pelo moçambique da cidade de Osório/RS. A maçaquaia gaúcha é uma gunga trançada, como um pequeno cesto cuja foto aqui incluída (abaixo) é de autoria e gentileza do folclorista pernambucano Roberto Benjamim (set.2000).
Um saudoso capitão de congado (catupé) são-joanense, sr. Luís Santana, do Bairro São Dimas, informou em 1993 que viu um moçambique, certa vez, numa festa, que tinha no meio do grupo um dos dançantes com uma grande gunga achatada amarrada nas costas, como uma mochila. Conforme dançava o instrumento sacudia produzindo o som. O mesmo informante contou, quatro anos mais tarde, que a origem da dança liga-se diretamente a São Benedito. A lenda diz que quando ele foi escravizado, o dono dele amarrou no seu tornozelo uns guizos, porque se ele fugisse era fácil de achar. Um dia procurou ele na cozinha, pois era cozinheiro e ele não estava lá. Tinha saído escondido com um punhado de pães para dar aos pobres. O dono pegou o chicote e foi atrás, seguindo o barulho dos guizos. Quando Benedito viu a chegada do senhor, pediu proteção a Nossa Senhora. Ela apareceu para ele sorrindo e abrindo a capa escondeu ele debaixo do manto. Ele, muito alegre dançava em redor dela. O senhor ouvia o guizo tinir, com o chicote na mão, mas não podia bater pois não via o escravo, que estava invisível. Assim até desistir e voltar para a casa. O moçambique, explicou Luís Santana, é a imitação de São Benedito, dançando com os guizos ao redor da santa e pedindo ajuda.
A gunga e suas variantes é considerada sagrada pelo dançante, um objeto de muito respeito. É como uma sineta ritual (agogô, adjá, campainhas...), que zoando próximo ao solo (terra), invoca as forças para ajuda do dançante. Conecta-o às energias. Interligam-no à mãe-terra. Seu chocalhar saúda o chão.
Eu estava dormindo,
eu estava sonhando,
quando acordei,
gunga está malhando...
(Moçambique, Perdões/MG)
O toque da gunga é como um choro, um lamento, que evoca as agruras do antepassado cativo e o sofrimento do moçambiqueiro de hoje:
Oi, serena. minha gunga, serena!
Serena, serena, serena!
Ei... Deixa a gunga serenar! [1]
Gunga, serena devagar!
(Moçambique, Passos/MG, 1997)
A gunga se torna parte do corpo do moçambiqueiro, uma extensão musical. É como se a música ou ao menos o ritmo emanasse de seu próprio corpo.
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01- Moçambique, Santana do Garambéu/MG, durante o Jubileu do Divino em São João del-Rei. 31/05/1998.
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02- Moçambique, Santana do Garambéu/MG, durante o Jubileu do Divino em São João del-Rei. 14/05/2012. |
03A- Moçambique, Divinópolis/MG, durante o Jubileu do Divino
em São João del-Rei. 14/05/2012 - Gungas
03B- Moçambique, Divinópolis/MG, durante o Jubileu do Divino em São João del-Rei. 14/05/2012 - Guizos
04- Moçambique, Macaia (Bom Sucesso/MG), durante o Jubileu do Divino
em São João del-Rei. 19/05/2013.
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05- Maçaquaia, do moçambique de Osório/RS. Set./2000. Foto: Roberto Benjamim.
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06- Gungas convencionais no tornozelo e "maçaquaias" complementando. Capitão do moçambique de Santo Antônio do Amparo/MG. Festa do Divino em São João del-Rei, 04/06/2017. |

07- Moçambique "N.S.Aparecida", Passa Tempo/MG, durante o Jubileu do Divino
em São João del-Rei. 05/06/2011.
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08- Gungas retangulares flagradas na guarda de Moçambique "Nossa Senhora do Rosário", de Carmópolis de Minas, durante a Festa do Rosário em Passa Tempo/MG. 18/10/2015. |
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09- Gungas atadas na parte de trás da coxa, na guarda de Moçambique "São Benedito e Santa Isabel", de Santo Antônio do Amparo, durante a Festa do Rosário em Passa Tempo/MG. 18/10/2015. |
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10- Correntes atreladas às gungas flagradas na guarda de Moçambique "Nossa Senhora Aparecida", de Passa Tempo, durante o Jubileu do Divino em São João del-Rei/MG. 24/05/2015. |
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11- Jarreteira boliviana, de Puerto Aguirre, feita com cascos de cabrito (estojo córneo), costurado com linha de nylon sobre tecido típico. Peça de 2005, fotografada em 2014. |
12- Gungas em ação: Moçambique "Nossa Senhora Aparecida",
Passa Tempo/MG, durante a Festa do Divino no Bairro Matosinhos,
em São João del-Rei/MG. 24/05/2015.
Referências bibliográficas
CASCUDO, Luís da Câmara.
Literatura Oral no Brasil. 3.ed. Belo Horionte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1984. 435p. p.37.
CASCUDO, Luís da Câmara.
Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.
Créditos
- Texto, acervo (exceto foto 5) e fotos 1, 8 e 9: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: 2, 3, 4, 6, 10 e 11, Iago C.S. Passarelli; 5, Roberto Benjamim, gentilmente ofertada pelo próprio para esta postagem; 6, Maria Aparecida de Salles.
- Vídeo: Iago C.S. Passarelli
Notas
[1] Serenar: eufemismo poético-popular equivalendo a chorar. Serenou = chorou.
- Revisão: 01/05/2026; foto adicional (abaixo) acrescida - autora: Betânia Nascimento Resende, 10/06/2025
Gungas contendo inscrição "preto velho", uma referência à ancestralidade
banto cultuada nos terreiros de umbanda, símbolo de bondade, conselho, cura, superação e sabedoria.
Muito obrigada pelas valiosas informações, Ulisses.
ResponderExcluirUm grande abraço