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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 6 de junho de 2013

Esquinado: uma dança desaparecida

Existem alguns poucos relatos na literatura sobre uma velha dança folclórica brasileira chamada ESQUINADO, ao que parece extinta. Uma fonte básica de consultas é o trabalho de Câmara Cascudo (1), que esclarece: 

"Dança outrora popular no Norte do Brasil, Espírito Santo, Ceará, Piauí e Maranhão (...) Damas de um lado e cavalheiros do outro avançavam em passo rítmico, diagonalmente, em esquina: 
Vamos dançar, minha gente, 
A dança do esquinado;
é um pouco de baiano
Um tanto balanceado,
Cavalheiros duma banda
e as donas de outro lado...
Esquinado!
Esquinado! Esquinado!
Esquinado!
O maestro Vila-Lobos aproveitou o tema do esquinado no seu Choro nº12".

Informa ainda que a versão dada ao ilustre compositor em 1912 era capixaba. 

Sobre a dança no Espírito Santo, outra fonte (2), além de atestar o desaparecimento da dança naquele estado, oferece ainda uma luz sobre o nome, dizendo que esquinado quer dizer embriagado, daí os dançantes ficarem se esbarrando pela altura dos ombros, como se estivessem bêbados. 

Embora Cascudo não tenha citado esta dança para Minas Gerais, foi também conhecida neste estado. No norte mineiro “a ação é de acordo com a letra. Após cada frase, é repetido esquinim, esquinado: ‘Balancê, balancê, / balancê, balanciado, / cavalheiro um passo atrás / pra ficar desencontrado.” (3)

FRAGA se referiu a essa dança em Cataguases / MG, como modalidade de quadrilha, segundo referências organizadas por Oneyda Alvarenga, contendo registro musical. Escreveu também sobre o esquinado em Matilde (Alfredo Chaves/ES), concluindo com um caso pitoresco de uma cantoria. Afirmou: "pelo menos, até a década de 1930 o esquinado estava vivo no Espírito Santo." Supunha que fosse dança portuguesa e traduziu o significado do termo "esquinado" como embriagado.

Em São João del-Rei também ocorria. Assim verifiquei por fontes orais. Desenvolvia-se nas mais diversas festas da zona rural, sem especificidade de tempo de ocorrência. Porém era comum em junho, junto às fogueiras de inverno, pois era por aqui um tipo de quadrilha, garantiu-me a unanimidade dos informantes, nos bairros São Dimas, Tijuco e Bonfim. 

Luís Santana, velho conhecedor das tradições conterrâneas, disse-me de lembrança que a dança do esquinado foi conhecida e noutros tempos praticada ao som de sanfona, violão, pandeiro e caixa. Na coreografia desenvolviam movimentos angulosos, de 90º, como se virassem em esquinas, na hora do refrão, daí o nome. Tinha uma forma de solo instrumental, sem canto, conforme gravei do mesmo tocada numa sanfona de oito baixos;  e  ainda, uma versão cantada. Nisto residia uma diferença da quadrilha típica que não tem canto, só marcação.  Uma fila de homens, outra de mulheres, vis-a-vis, cantavam:

“Balancê, balanceado! 
Chê de dama!  Chê de lado! 

Eu de cá, você de lá,  
ribeirão passa no meio! 
É de esquininha, de esquinado! 
Eu de cá dou um suspiro,  
você de lá, suspiro e meio! 

Balancê... (etc.)  

Luís Santana, fotografado enquanto tocava um esquinado. Fev.1996. 

Várias rimas eram feitas em “ado”, como este verso típico, que recolhi no Bairro Bonfim, nesta cidade:

“Isquei o meu anzol
fui no rio pegar dourado!
Lambari comeu a isca
eu perdi meu requebrado...” 

Corre na oralidade são-joanense o caso de um esquinado que acabou em briga violenta e destruição do barracão de festas, feito com bambu, pita, folhas de bananeira, no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. O fato se consumou porque lá pelas tantas, o sanfoneiro, já movido pela aguardente e de olho numas mulheres do lugar  _ todas comprometidas _ que estavam num canto assistindo a dança, voltou-se para elas após o refrão típico e cantou atrevidamente: 

_ Êh mulherada!
Chê de dama, Chê de lado!
Vira a cara pra parede,
vira a bunda pro meu lado...

Foi então que o pau quebrou!

* * *

(1) CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 
(2) NEVES, Guilherme Santos. Folclore Brasileiro: Espírito Santo. Rio de Janeiro: FUNARTE/CDFB, 1978. (Com registro musical).
(3) JANUÁRIA CANTA: folclore do município de Januária. InBoletim de Registro e Divulgação do Folclore do Norte de Minas, Montes Claros, Universidade Estadual, 1994. (Com registro musical).
(4) FRAGA, Christiano Ferreira. Notícias do Esquinado. In: Folclore, Vitória, Comissão Espírito-santense de Folclore, n.92, agosto/1979. p.8-9.

Notas e Créditos

* Texto e fotografia: Ulisses Passarelli

Um comentário:

  1. Quadrilha: Dança típica, na festa junina. Ainda existe esta cultura no Brasil?

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