Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 11 de junho de 2013

A Oeste de Minas e Matosinhos

Os antigos jornais de São João del-Rei do fim do século XIX e começo do seguinte estão repletos de notícias sobre a Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM). Como ela foi fundamental ao progresso e economia da região, nada mais natural que chamasse a atenção da imprensa da época e que fosse um elemento social importante.  Neste contexto tudo que envolvia a ferrovia era o centro das atenções.

Em Matosinhos não foi diferente. Sendo o mais próspero e querido subúrbio da cidade - querido literalmente! - a crescente evolução obrigou ao surgimento da estação própria, mas não sem polêmicas quanto à localização, como se deduz pelo fragmento jornalístico abaixo:


"(...) É assim natural que eu chame de trancendentaes as questões aqui em ordem do dia: a questão do modo de fazer a imprensa suas reclamações e o logar mais conveniente para a futura estação de Mattosinhos.(...) " (O Grypho, n.10, 24/11/1907)

A ferrovia tinha uma imensa demanda a cumprir. Além do movimento normal de passageiros e cargas, em outras ocasiões não cotidianas a sua administração era cobrada pela população, afoita por um apoio, a exemplo da atividade esportiva abaixo citada pelo hebdomadário: 


"Com a Oeste. No último domingo, com a realização do torneio irácio da A.S.E.A. no campo do Athletic, em Matosinhos, foi pedida á estação local uma composição especial para transporte dos que lá desejassem ir, mas isso foi negado... por falta de carros. Nós desejavamos saber onde foram parar os carros só para informar, é claro." (Folha Nova, n.10, 08/05/1932)

E nas atividades festivas tinha a empresa de se desdobrar. Nas pesquisas hemerográficas um grande número de referências se fazem claras e irrefutáveis, no sentido de provar o formidável movimento de composições ferroviárias entre a cidade e Matosinhos, como pode ser lido neste blog (ver o post Transcrições hemerográficas). Em 1917 o expressivo número de 154 trens (ver o post EFOM: algumas glórias do passado) foi registrado para as festas anuais de Pentecostes e da excelência do serviço prestado a nota jornalística abaixo nos dá conta: 


"A Oeste brilhou. O serviço de trens durante os festejos de Mattosinhos esteve irreprehensível. Não houve um desastre, um inconveniente, uma reclamação só, que viesse turvar a boa marcha do serviço que foi delineado por mão de quem conhece, a valer, o "metier" do movimento. Ao sr. Pinto da Silva, inspector do Movimento é que o povo deve irreprehensível serviço de trens, durante os dias de festa em Mattosinhos. Cabe também ao Movimento, repartição affecta ao Trafego, as nossas felicitações. Ao sr. Carlos Senna, inspector do 1º Districto que também eficazmente collaborou no serviço de trens, aos srs. conductores, emfim, ao Trafego, apresentamos nossas felicitações pelo exemplar e correcto serviço." (A Nota, n.24, 30/05/1917). 

Porém, mais que tudo isto, denota a grande importância de Matosinhos para o contexto de São João del-Rei, o saber, pelo recorte seguinte, que o grande bairro foi alvo de um planejamento da EFOM, para a instalação de oficinas ferroviárias, chegando-se a adquirir para tanto o terreno antes pertencente à Escola de Laticínios


"As officinas em Mattosinhos. Cessou de vez a grande influencia para a construcção das officinas da Oeste em Mattosinhos, nos grandes terrenos da extincta E. de Laticinios. Foi adquirido o terreno, levantada a planta... e nada mais, tudo como d' antes. Neste interim a officina de Lavras, que demanda grande orçamento, tornou-se na realidade mais real que imaginar se possa. A E. Saboia, empreiteira das obras, alli trabalha activamente, já estando muito adeantadas as obras do edificio, que parece ser de grande vulto. E parece, e o será, muito breve, emquanto que nós... ficaremos a ver navios." (A Nota, n.25, 31/05/1917)

Estas notícias de outrora são reveladoras da importância do bairro-cidade para São João del-Rei e da ferrovia para o contexto da época. Simples notas como as acima selecionadas, pinçadas ao acaso na poeira do passado, nos revelam por fim que as pesquisas tem de continuar, qual a ferramenta de um arqueólogo, a nos revelar relíquias de antanho.

Créditos
Fotomontagens e texto: Ulisses Passarelli.
Acervo de jornais: Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG. 

Notas

Nas transcrições foi respeitada a grafia de época.
Revisão: 08/04/2025. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A Chegada da Maria Fumaça

A ferrovia foi um progresso incomensurável por toda parte, unindo regiões antes inimagináveis. A terceira ferrovia construída no país foi a E.F. Dom Pedro II, inaugurada em 29/03/1858, no Rio de Janeiro, com 48,2 km iniciais, bitola de 1,60 m. Passou mais tarde por várias ampliações de trajeto e chegou a Minas Gerais.

Uma lei provincial, a de nº 1.914, de 19/07/1872, contemplava a possibilidade de uma ligação ferroviária entre a cidade de São João del-Rei e a supracitada E.F. D. Pedro II. Mas se desvalidou sem efetivação. Com algumas diferenças, que não cabem tratar aqui, as províncias daquela época podem ser consideradas equivalentes aos atuais Estados.

Surgiu outra lei da província, a nº 1.892, de 11/11/1873, prevendo uma ligação por via férrea de algum ponto da ferrovia D. Pedro II para rumo oeste atingir um trecho navegável do Rio Grande e do término deste, de novo rumo oeste, até as fronteiras provinciais. Esta lei nos favoreceu, pois São João del-Rei estava na direção pretendida.

Posteriormente, outra lei da Província, a de nº 2.398, de 05/11/1877, revogou-a. Com este respaldo, logo formou-se uma sociedade anônima em São João del-Rei, sob os auspícios dos empreendedores Luiz Augusto de Oliveira e José de Resende Teixeira, que conseguiram a concessão com o privilégio de 50 anos. Em 02/02/1878 estava criada a Cia. Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), dirigida por Aureliano Martins de Carvalho Mourão (presidente), José da Costa Rodrigues (secretário) e Antônio José Dias Bastos (tesoureiro). Graças a eles e aos acionistas, conseguiu-se levantar considerável soma em dinheiro, não todo, porém. Mas tendo baixado bastante o custo/quilômetro com redução da bitola para 76cm, foi assim possível iniciar as obras em junho seguinte. José Cláudio Henriques considerou esses acionistas como patriotas [1].

A notável figura de Aureliano Mourão nunca poderá deixar de ser frisada nesse processo. Era advogado e tinha escritório em São João del-Rei à Rua da Prata (atual Padre José Maria Xavier), nº 7 [2]. Foi Imperador do Divino nesta cidade, no ano de 1892.

A fiscalização das primeiras obras coube ao engenheiro Paulo Freitas de Sá.

O primeiro trecho ia de Sítio (atual Antônio Carlos – Km 0 da EFOM, entroncamento com a D. Pedro II) até Barroso. Tinha 49 km. Foi inaugurado em 30/09/1880 e logo iniciou o tráfego. Entre Sítio e Barroso só havia então uma unidade telegráfica, estabelecida em Ilhéus.

Continuaram as obras rumo a São João del-Rei já inauguradas no ano seguinte, com a presença do próprio Dom Pedro II. Neste segundo trecho só havia então a estação de Tiradentes (ex São José del-Rei) e o posto telegráfico do Morro Redondo. Mais tarde surgiram outras estações e paradas.

Em 24/08/1885, a companhia obtém concessão para estender os trilhos até Oliveira com ramificação para Ribeirão Vermelho, então nomeada como Lavras, onde a ferrovia atingia um ponto navegável do Rio Grande, cumprindo um dos objetivos da primeira concessão citada. As obras iniciaram em julho do ano seguinte. A velocidade do trabalho braçal foi extraordinária. Não se dispunha de tratores ou caminhões, senão ferramentas manuais, carroças, zorras e carros-de-boi. Machados, picaretas, enxadas, tração animal e a força do braço, abriram caminho sertão adentro. A ação implicava em derrubada de árvores, extração de rochas das pedreiras, terraplenagem, fundação de pontilhões, arrimamentos, edificação de estações, assentamento de dormentes e trilhos.

Outra concessão, de 27/12/1888, autorizada pela lei mineira 3.648, de 1º de setembro daquele ano, possibilitou nova extensão da via. Deveria ir ao Alto Rio São Francisco, na barra ou imediações do Rio Jacaré e conter um ramal para Itapecerica. Iniciaram os trabalhos. Pelas tantas, a companhia conseguiu alterar a concessão esticando-a até a confluência do Rio Paraopeba com o Rio São Francisco e aí fundou-se a estação de Barra do Paraopeba em 10/02/1894, km 602 da bitolinha e seu ponto final. Pretendia a EFOM explorar navegação no São Francisco.


Sobre navegação aliás, o que se sabe com certeza é que houve em 208 km do Rio Grande, alcançada pela ferrovia em Ribeirão Vermelho, entroncamento ferroviário importante e ponto de partida da navegação fluvial a vapor, rumo sudoeste, até Capitinga, acima da Cachoeira de Furnas [3]. Tal navegação iniciou-se em 1880, antes mesmo da ferrovia, por iniciativa de lavrenses.

A EFOM continuou ampliando sua extensão, noutra bitola (1 metro). Mas está circunscrito para este texto apenas o assunto da bitola estreita (no caso, distância entre trilhos de 76 cm), motivo pelo qual não se irá enveredar nesse outro histórico.

Em dois textos, Bruno Nascimento Campos abordou a inter-relação entre a expansão das atividades econômicas do final do período oitocentista, a fixação dos imigrantes e a chegada do trem, considerando ainda a conotação política que a ferrovia alcançou, enquanto emblema do progresso [4].  

 Após várias mudanças administrativas, a linha de bitola estreita da EFOM foi erradicada, ficando reduzida a 12 km, de função turística, entre São João del-Rei e Tiradentes. 


Composição ferroviária passando entre o Bairro Matosinhos e o Rio das Mortes. 


Créditos


- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, dez.2012.

 

Notas

- Revisão: 29/07/2025.

- Agradecimentos especiais ao historiador Bruno Nascimento Campos, pelas preciosas informações prestadas e amparo na revisão desta postagem.


 [1] Jornal O Grande Matosinhos, n. 11, set./2000. São João del-Rei.

[2] Jornal Arauto de Minas, n. 6, 13/04/1883. São João del-Rei.

[3] Com os seguintes portos intermediários: Congonhal, Ferreiros, Jacaré e Osório.

[4] In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n. 12, 2007.

- A imigração e a Oeste de Minas em São João del-Rei

- A apropriação do trem: luta política em periódicos são-jonenses (1878-1889).

 



A Ferrovia em Matosinhos

A chegada do trem a São João del-Rei (vindo de Antônio Carlos, ex-Sítio) se dava por Matosinhos, único trecho ao qual esta postagem vai se ater, para o foco deste blog. De início, a via férrea passava em trajeto diferente do atual: de súbito, abandonava a vargem do Rio das Mortes, à altura aproximada da ilha que existe acima do Porto Real da Passagem [1], fletindo à esquerda e pelo platô do bairro, passava atrás da igreja uns 300 a 400 metros, aproximadamente, em diagonal, até alcançar o Ribeirão da Água Limpa, o qual atravessava pelo pontilhão, no mesmo lugar do atual. Daí para frente era como ainda hoje. Esse antigo itinerário corresponde ao traçado da atual Rua Amaral Gurgel, que surgiu no leito da ferrovia após a retirada dos trilhos. Por isto ficou conhecida por “Linha Velha”, nome que até hoje persiste. 

Na Rua Amaral Gurgel ainda existia até poucos anos, a casa que serviu de parada ferroviária, mas foi demolida nesta década. Segundo consta por via oral, também existe a que era do guarda-chaves, embora seu aspecto tenha sido modificado e depois demolida. Tal rua conserva ainda o traçado irregular, tortuoso, característico do antigo trecho férreo. Sua parte final ficou apelidada em meados do século XX, de “Beco do Jalão”, devido à grande quantidade ali existe de jalão, jambolão, jambolano, jamboleiro ou jamelão (Eugenia jambolana), árvore mirtácea, plantada nos arredores, produzindo fruto comestível, roxo, agridoce e adstringente. 

Uma citação deixa a entender que já nesta época (fim do século XIX) havia em Matosinhos pontos de parada do trem [2]“não há quem ponha em duvida o grande melhoramento que significam os trens suburbanos entre esta cidade e a de Tiradentes, com estações (sic) na Agua Limpa, Mattosinhos e Casa da Pedra.” Ao que parece não eram bem estações, no sentido estrito da palavra, mas sim paradas, segundo o contexto ferroviário. A da Água Limpa ficava na cabeceira do pontilhão sobre o ribeirão homônimo, do lado do bairro. Sabe-se que em tempos recuados teve um ramal daí até a olaria que existe mais acima, junto à Avenida Santos Dumont. A da Casa da Pedra ficava muito além, já quase no Rio Elvas. Nela se embarcava calcário. Da plataforma de embarque só restam as ruínas no meio do mato [3]

Matosinhos assistiu à festiva passagem das tropas que se dirigiam para a nova Linha de Tiro da Colônia do Marçal (situava-se na encosta do morro onde hoje está o Recreio das Alterosas). A inauguração foi a 1º de janeiro de 1908 [4]“Da estação desta cidade largou um comboio especial para o suburbio de Mattozinhos, conduzindo o Cel. Carlos F. de Mesquita, grande numero de officiaes do 28º batalhão, convidados civis e a excellente fanfarra do 28º. De Mattozinhos á linha fez-se o transporte em carruagens e cavallos”.

A partir de 1908 surgem mudanças significativas. A partir da linha em questão é construído o "Ramal de Matosinhos", que dela partia em curta extensão, terminando numa edificação de parada ferroviária construída bem diante da atual Estação Chagas Dória. Em 25/05/1908 foi inaugurada essa segunda Parada de Matosinhos (que já está demolida há muitos anos e da qual somente resta uma plataforma de pedras como vestígio). No ato da inauguração, o primeiro trem partiu de S. João às 11 h 45 min trazendo autoridades e a diretoria da estrada de ferro. Logo a seguir vieram várias outras composições, franqueadas ao povo, trazendo os são-joanenses para a inauguração. O Dr. Chagas Dória através da Câmara Municipal fez expedir diversos convites às autoridades e à imprensa. A estrada de terra ligando a cidade ao arraial foi reparada, inclusive fizeram alguns consertos na Ponte da Água Limpa, para maior facilidade dos que não viessem de trem. A parada estava “garridamente enfeitada, onde tocavam as bandas do 28º Batalhão e dos Operários da Oeste”. Foi lavrada uma ata e lida pelo secretário da estrada, Capitão Leopoldo Araújo. A bênção foi dada pelo Padre Gustavo Ernesto Coelho “sendo depois cantado na egreja um solemne Te-Deum”. A Câmara serviu aos convidados uma mesa de doces na parada. Houve vários discursos [5]

Apenas oito dias depois da inauguração seu nome foi alterado para Chagas Dória [6]

No outro mês os vereadores são-joanenses solicitaram da diretoria ferroviária a construção de um ramal interligando Matosinhos às Águas Santas. Para sua obra, após o pontilhão da Água Limpa, foram postos novos trilhos e todo o trecho férreo contido no bairro foi retificado. A partir do pontilhão, a linha assumiu uma reta, passando em frente à igreja, para uns 300 metros abaixo, virar à direita e noutra reta seguir a Tiradentes. É o trajeto ainda hoje mantido. Foi construída uma estação junto ao largo da igreja. Com isto a parada de 1908 ficou abandonada e virou residência e enfim a linha do primeiro itinerário foi erradicada, surgindo em seu lugar um caminho. que tornou-se a Rua Amaral Gurgel, como já referido. A inauguração da nova se deu em 21/03/1910. 

Mas com apenas um ano o crescimento surpreendente de Matosinhos exigia uma estação ainda maior. Uma remodelação inaugurada em 15/04/1911 a transformou naquela estação que, com algumas reformas, chegou aos nossos dias. Está a 856 metros de altitude e sua posição quilométrica original era 96,432 [7].

Portanto, recapitulando, houve em Matosinhos uma primeira parada na linha velha, na atual Rua Amaral Gurgel; uma segunda parada inaugurada em 25 de maio de 1908, em frente a atual Chagas Dória; em 1910 a terceira construção, a estação propriamente dita, exatamente onde se encontra hoje; e uma quarta inauguração, em 1911, a partir de remodelação daquela de 1910 e que segue até nossos dias [8].  

A atividade em Chagas Dória foi muito grande e já um ano depois de inaugurada, tinha nada menos que cinco horários de viagem nos dias úteis e oito aos domingos, feriados e dias santos, atesta Henriques (2003). Contudo, o crescimento na demanda de passageiros de tão acentuado, induziu ao acréscimo de novos horários em 1912, passando para sete por dia [9]: “partida dos trens de S. João d’El-Rey – Mattosinhos – 6,15; 10,00; 11,30; 2,00; 5,00; 5,40; 8,30.” 

Para se ter uma ideia de sua importância (e do movimento por ocasião das festas), basta este impressionante e curioso relato [10]"Por occasião da festa de Mattosinhos, correram 148 especiaes, entre esta cidade e aquelle bairro, os quaes transportaram 23.124 passageiros, rendendo 3:468$600, não havendo nenhum accidente, sendo a primeira vez que os carros desses trens trafegaram illuminados á electricidade, inclusive os bonds."

A parada ferroviária Chagas Dória alcançou tamanha relevância, que sugestionou ainda em 1908 a troca da antiga denominação de Largo de Matosinhos (nome que vinha desde os tempos coloniais), para Praça Dr. Chagas Dória [11] (hoje Praça Senhor Bom Jesus de Matosinhos). Mais tarde, nas décadas de 1940 e 1950 era comum chamar-se ao próprio Matosinhos de Bairro Chagas Dória. Ainda no final da década de 1960, essa estação tinha documentadamente intensa atividade de carregamento de minério.

No aspecto social, em meados do século XX, a estação de Chagas Dória graças à sua grande movimentação ferroviária, era ponto de concentração de vendedores ambulantes. No mais muita gente das redondezas vinha a ela para assistir às passagens dos trens e manobras e além disso era local de namoro, já que as moças vinham em peso à plataforma e os rapazes vinham atraídos por elas [12]

Estação de Chagas Dória em 1998, vendo-se o acréscimo de moradia
feito na sua frente, demolido na reforma de 2005. 

Das duas linhas remanescentes apenas uma é usada, a que beira a Rua Elói Reis. A que margeia as casas da Rua Bernardo Guimarães com fundo para a linha está abandonada. O uso efetivo da estação estava encerrado na década de 1970. Daí para frente, até 1984, apenas paradas eventuais e os trens especiais que serviam ao Jubileu da Santíssima Trindade em Tiradentes, paravam em Chagas Dória para desembarque. 

O grande movimento da estação para passageiros e cargas se transfigurou em ocupação por moradores de rua, sujeira e local de atos ilegais. O telhado esteve caindo e foi alvo de muitas pedradas vandálicas; um acréscimo descaracterizador foi feito para servir de moradia. A ASMAT (Associação de Moradores do Grande Matosinhos) lançou significativo projeto de restauração do monumento, sob a competência da arquiteta Zuleika Teixeira Lombardi, em março de 2000, como se pode ver nas páginas de “O Grande Matosinhos”, em diversas edições, emitindo apelos em prol da dita reforma. Mas apesar dos esforços da ASMAT, sobretudo de seu então Presidente, José Cláudio Henriques, o projeto não se efetivou e a estação continuou largada e depois foi cercada por um alambrado (por volta de 2003/2004), que tentava impedir a entrada de invasores. A gaiatice popular não tardou lhe apelidar “Granja Chagas Dória”, pois ficou com aparência de galinheiro. 

A reforma só viria em 2005, pela própria Ferrovia Centro-Atlântica. Logo a princípio ali funcionou a Polícia Militar. Felizmente a estação ficou bem preservada, mas ora vazia e sem utilização caminha de novo para a degradação [12].

Referências

HENRIQUES, José Cláudio. Bairro de Matosinhos: berço da cidade de São João del-Rei. São João del-Rei: UFSJ, 2003.

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

                                                                             Notas

- Revisão: 03/08/2025. 

[1] - Para uma referência atual, esse ponto de mudança de direção, ficava nos fundos do atual conjunto residencial INOCOP, entre este e o Colégio Polivalente (Escola Estadual Governador Milton Campos).
[2] - O Resistente, n. 81, 11/03/1897.
[3] -  A plataforma de embarque de calcário da Casa da Pedra, assim como os fornos de calcinação e a própria caverna local encontram-se patrimonializadas pelo município por mecanismo de Inventário de Patrimônio Cultural (2017).
[4] - A Opinião, n. 53, 04/01/1908.
[5] - A Opinião, n. 91, 20/05/1908; n. 92, 23/05/1908; n. 93, 27/05/1908.
[6] - O nome que recebeu foi uma homenagem ao Dr. Francisco Manoel das Chagas Dória, afamado diretor local da EFOM. Seus esforços garantiram em absoluto a construção dessa parada e mais tarde da estação, bem como do ramal das Águas Santas. A estação é de propriedade da União, e está integrada ao Complexo Ferroviário de São João del-Rei, tombado pelo IPHAN. 
[7] - PRONTUÁRIO GERAL DAS ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS: 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Dep. de Estatística, 1947.
[8] - SÃO JOÃO DEL-REI. Estação Chagas Dória: Inventário de Patrimônio Cultural. São João del-Rei: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo / Prefeitura Municipal; Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, 2014. 26p. 
[9] - A Opinião,11/02/1912.
[10] A Tribuna, n. 46, 30/05/1915.
[11] - Segundo decisão da Câmara Municipal datada de 27 de maio de 1908 que resolveu também ajardiná-la. Fonte: A Opinião, n. 94, 30/05/1908.
[12] - Informação pessoal de Nelson Domingos de Abreu, 27/07/2008. 
[13] - A Estação de Chagas Dória passou por nova reforma em 2021, com recursos do Fundo Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (FUMPAC), ocasião que ganhou gradeamento de proteção na borda da plataforma de embarque, mas não na frente para a praça. A seguir foi cedida para funcionamento do Instância de Governança Regional (IGR) Circuito Turístico Trilha dos Inconfidentes, com inauguração da sede em 11/09/2021. Em 2024, a fim de ampliar a proteção ao bem, foi completado o gradeamento da parte dianteira, e o fontanário conhecido por "Deusa Ceres" (o Verão) foi transladado da praça, diante da igreja, para a plataforma da estação. 

Feira de produtos dos municípios durante inauguração da sede da 
IGR Trilha dos Inconfidentes na Estação Chagas Dória. 

O Trenzinho das Águas

Ramal das Águas Santas

"Trenzinho das Águas"... É assim que a população em geral o chamava. Em 22/08/1910 foi aberto este ramal (CESAR DE PINA (ANTIGA CHACRINHA)). No entanto consta que a inauguração foi em 21/08/1911 (A ESTAÇÃO CÉSAR DE PINA). Foram assentados os trilhos do ramal das Águas Santas, imediatamente à direita da linha atual, no sentido de quem sai da cidade, no Bairro Matosinhos, em São João del-Rei. Uma casinha de guarda-chaves havia em frente à igreja velha, ambas demolidas. Exatamente na curva que existe ao fim da reta que passa diante da igreja, a linha desse ramal partia rumo ao Rio das Mortes. Através de um pontilhão atravessava o rio. Pela Vargem do Marçal, rumava para seu destino. Passava ao lado da atual Cooperativa de Produtores de Leite (antigo e popular “Bezerrão”), junto ao autoposto de abastecimento que ali existe, cruzava a atual Avenida 31 de Março a nível de seu trevo e corria ao longo de toda a atual Rua Monsenhor Silvestre de Castro e Rua Américo Deodoro Briguenti (formadas sobre o leito dos trilhos retirados), ia até a Colônia do Giarola e ao chegar em César de Pina, virava à direita e aí havia uma estação. Desta ia rumo ao famoso balneário de águas de propriedades medicinais, radiotivas e magnesianas, que ajudam no tratamento de doenças. O trem parava em alguns lugares, servindo à população em geral. Segundo o Prontuário das Estações eram as seguintes paradas e estações: 

paradas / estações
quilometragem
inauguração
Várzea do Marçal (estrada) – parada
98,000
14/11/1923
Colônia (estrada) – parada
100,149
21/08/1911
Giarola (estrada) – parada
102,108
21/08/1911
César de Pina – estação
104,945
12/10/1923
Chacrinha (estrada) – parada
108,000
21/08/1911
Águas Santas – estação
108,237
21/08/1911

Na Colônia a parada era junto à cerâmica que ali existia [1], próximo à Gruta de Nossa Senhora de Lourdes. 

Chaminé da cerâmica da Colônia, em agosto de 2004.

No Giarola a parada ficava próxima à Capela de Nossa Senhora das Mercês, construída sob a liderança do sr. Luigi Giarola [2].

Sem conhecimento de datas precisas, mas é comentado que nesse Ramal das Águas, logo após o pontilhão sobre o rio, tinha um entroncamento do qual saía sub-ramal, até o sopé do Morro do Cascalho, em Santa Cruz de Minas, passando próximo à atual escola da Fundação Bradesco, nas imediações do antigo Campo de Aviação. Sua função era carrear cascalho – fruto inclusive das inúmeras escavações auríferas ali realizadas nos setecentos, sobretudo pelos escravizados de Marçal Casado Rotier, trabalho perpetuado nas cascalheiras ainda visíveis. Esse cascalho era usado para assentamento dos dormentes.

Idealizou-se fazer um prolongamento do ramal das Águas Santas até Entre Rios de Minas, passando pelo Ribeirão do Mosquito e Lagoa Dourada, mas essa ideia não progrediu [3].

As fortes chuvas de 1911 desarranjaram as estruturas da via férrea desse ramal, que até a execução dos reparos, correu só até o Giarola [4]

Mudanças no horário do ramal das Águas Santas, determinadas para iniciarem a partir de 08 de março de 1915, também aboliram os trens Chagas Dória-São João, deixando para servir ao bairro, apenas os de Águas Santas-São João, causando o descontentamento dos usuários. Moradores de Matosinhos solicitaram então ao diretor da EFOM, Dr. Agostinho Porto, que restabelecesse os trens que haviam sido suprimidos, pois só os das Águas Santas não bastavam ao bairro. O texto interessa ser transcrito pois retrata a fisionomia do bairro à época [5]“Mattosinhos desenvolve-se extraordinariamente. Ali reside grande numero de familias. A pitoresca localidade está se tornando um ponto chic de S. João. Sob o ponto de vista comercial e industrial o seu desenvolvimento então é enorme”. 

Dr. Agostinho Porto, em fotografia de data e autor não identificados,
publicada no jornal são-joanense A Tribuna, n.147, 29/04/1917. 

Comenta a nota, que o comércio local movimentara no mês anterior, quantia superior a um conto (um milhão de réis), muito devendo neste sentido, ao “inteligente comerciante, sr. Fidélis Guimarães, que ali movimenta diversas indústrias” [6]. Ao que parece o diretor da ferrovia atendeu ao pedido desfazendo o erro. Sua popularidade cresceu, ou talvez, para refazê-la, promoveram uma animada festa em sua homenagem em Matosinhos, no Athletic Club, já no mês seguinte[7].

O “Trenzinho das Águas” como ficou conhecido, marcou época, e seus horários, assinalados pelo silvo saudoso das locomotivas, que serviam igualmente a Matosinhos, era como um relógio para a população e tinha um charme único. A desativação deste ramal se deu em 1966 (A ESTAÇÃO CÉSAR DE PINA; CESAR DE PINA (ANTIGA CHACRINHA)). O fim do "Trenzinho das Águas" deixou aberto uma lacuna de nostalgia em quantos o conheceram. Para além do aspecto utilitário cotidiano, seu papel de interligação de São João del-Rei a um balneário, lugar de entretenimento e terapia, decerto contribuiu para isto. 

Há pouco em Matosinhos ainda se via vestígios do lugar que se assentava seus trilhos, mas um aterro recente os encobriu. No barranco do rio ainda se veem os sinais do pontilhão e dentro das águas os troncos que o sustentavam (o pesqueiro local ficou por isso conhecido por “Tocos”). Outros sinais estão no começo da Avenida 31 de Março, entre o trevo e a “Ponte do Bezerrão” avista-se na vargem a elevação do lastro da linha férrea. Fazem alguns anos parte do trecho erradicado, convertido em rua, no Giarola, foi fechado, o que gerou grande confusão entre os moradores locais, pois era de servidão pública [8]. Poucos sinais restaram hoje. A estação das Águas foi demolida e a de César de Pina está arruinada [9].  

Tocos: vestígios do pontilhão do "Trenzinho das Águas" no leito do Rio das Mortes. 28/04/2012.  

Estação César de Pina, abr./1999. 

Estação César de Pina, 20/08/2005. 

Estação César de Pina, 18/05/2014. 

Referências

A Estação de César de Pina. Estação de Memórias, Tiradentes, Minas Gerais. Disponível em: https://estacaodememorias.org.br/tiradentes/a-estacao-cesar-de-pina/#:~:text=Devido%20a%20seu%20estado%20de,Acervo%20do%20autor. Acesso em 06 ag. 2025. 

Cesar de Pina (antiga Chacrinha), Município de Tiradentes, MG. Estações Ferroviárias do Brasil. Disponível em: http://www.estacoesferroviarias.com.br/rmv_efom/cesar.htm Acesso em 06 ag. 2025. 

PRONTUÁRIO GERAL DAS ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS: 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Departamento de Estatística, 1947.

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
- Sobre este ramal ver: Trem das Águas Santas. Ferrovia Oeste de Minas; memória e história. 2.ed. São João del-Rei: Vitral Bureau Cultural, 2014. Documentário (DVD). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JastN6J9dTE  Acesso em 05 ag. 2025. 

Notas 

Revisão: 06/08/2025. 


[1] - Informações orais coligidas por Francisco José de Rezende Frazão, que gentilmente me transmitiu e a quem agradeço, dão conta de que o dono da cerâmica era o sr. César Briguentti Neto (conhecido por “Cesário”); o administrador o sr. Américo Deodoro Briguentti e o mestre-ceramista o sr. Alfredo Tortieri, que plausivelmente orientou sua construção, pois era experiente no assunto, tendo inclusive construído uma cerâmica em Juiz de Fora.
[2]  - Luigi Giarola era o administrador do núcleo colonial. A seu respeito ver: OLIVEIRA, Jorge Silva de. A imigração italiana e a família Carazza em São João del-Rei.  Governador Valadares: Valadares, 2000.
[3] - A Opinião, nº ilegível, 03/09/1910.
[4] - A Opinião, n. 119, 17/12/1911.
[5] - A Tribuna, n. 34, 07/03/1915.
[6] - A Tribuna, n. 40, 18/04/1915.
[7] - A Tribuna, n. 45, 23/05/1915.
[8] - Jornal de São João del Rey, n. 142, 29/10/1989. 
[9] - A estação de César de Pina foi restaurada em 2023.