Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Boas Festas !!!

Com muita alegria este blog deseja a todos os seus leitores e seguidores, um Natal repleto de bênçãos, com muita paz e felicidade. Que estas bênçãos se estendam a todo o ano de 2016, trazendo a saúde, a prosperidade e a qualidade de vida. 

Nesta oportunidade de congratulações, agradecemos a todos pela confiança no conteúdo deste blog, refletido nas contínuas visitas. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

"Nossa Sempre Padroeira"

Nossa Senhora do Pilar é a padroeira de São João del-Rei, bem como da Diocese sediada nesta cidade. 

A devoção a Nossa Senhora do Pilar tem origem ibérica. Conta-se que nos primeiros anos do cristianismo o apóstolo São Tiago Maior em pregação na Espanha, na região de Saragoça, viu maravilhosa aparição da Virgem Maria, sobre uma coluna ou pilar de pedra (mármore ou jaspe conforme a referência), rodeada de anjos. Acontece, que naquela época Nossa Senhora ainda vivia encarnada, por volta do ano 40, sendo pois um extraordinário caso de bilocação. 

Em razão de sua aparição sobre o pilar o título logo surgiu e no local se edificou uma igreja.

Tal devoção se esparramou pelo mundo católico através das grandes navegações dos povos ibéricos e foi assim que desembarcou no Brasil. Especificamente no interior de Minas Gerais colonial, nos núcleos de mineração aurífera, como São João del-Rei, foi indubitavelmente trazida pelos bandeirantes paulistas.

E assim ela aqui chegou também em nossos primórdios. Em 1701 o taubateano Tomé Portes del-Rei ganhava o título de Guarda-mor desta região, nosso pioneiro, fundador, patrono e primeira autoridade local, afazendado com sua família no Porto Real da Passagem. Já em 1703 iniciou-se a construção de uma igreja em honra a Nossa Senhora do Pilar, no mesmo Porto Real da Passagem, arredores do atual Matosinhos, São João del-Rei, à época de seu substituto na guarda-moria, seu genro também taubateano, Antônio Garcia da Cunha, pois Tomé fora assassinado por alguns escravos no ano anterior. 

No ano seguinte porém, a descoberta de ouro na região do atual Bairro Alto das Mercês e Ribeirão São Francisco Xavier, nesta cidade, trouxe um alvoroço à parca população do Porto e esparramou-se a notícia do descoberto. Grande fluxo de pessoas se deslocou para junto das minas, onde então se fez uma humilde capela improvisada para a santa, no atual Morro das Mercês. A igreja do Porto ficou inacabada. 

Em 1708, na Guerra dos Emboabas ela foi incendiada. Felizmente a imagem primitiva foi salva. A igreja inacabada do Porto foi convertida em fortaleza durante a dita guerra e dela não existem hoje vestígios, salvo se alguma futura escavação arqueológica o demonstrar. 

Finda a refrega, construiu-se outra capela, no Morro do Bonfim, sob a mesma invocação do Pilar e em 1721 se estabelecia a atual e definitiva Igreja Matriz. Partes aproveitáveis foram transladadas para a igreja definitiva, tal como o altar-mor daquela, possivelmente corresponde ao altar-lateral desta. 

Nos meados do século XVIII, o Sargento-mor José Álvares de Oliveira, figura de grande destaque nos primeiros tempos da cidade, membro ativo da Guerra dos Emboabas, em relato memorialístico, refere-se a Nossa Senhora do Pilar sob a enfática e poética expressão de "Nossa Sempre Padroeira", inspiração deste post, tomada por empréstimo à guisa de título. 

No final da década de 1960 foi inaugurado no Bonfim um monumento à Nossa Senhora do Pilar, rememorando que naquele bairro houve sua capela por alguns anos. A imagem da santa ainda está lá, de pé sobre uma grande pilastra.

Apesar da antiguidade temporal, a devoção a Nossa Senhora do Pilar é hoje pouco popular se comparada a outras expressões ou títulos marianos. Suas comemorações na cidade tem caráter predominantemente litúrgico, sem manifestações folclóricas e quermesses. Não obstante seja padroeira da cidade e da diocese aqui sediada, é festejada a 12 de outubro, que Brasil afora se comemora o dia de Nossa Senhora Aparecida. 

Nossa Senhora do Pilar tem outrossim uma capela própria no arraial do Cruzeiro da Barra, zona rural de São João del-Rei, onde é festejada animadamente em setembro, junto com São José, congregando a população rural dos arredores.

Também em setembro goza de outra festa na região, na sua igreja setecentista no Elvas, município de Tiradentes, alcunhada "Igreja do Gaspar" ou "do Padre Gaspar". 


Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, São João del-Rei,
retratada durante a festividade de São Sebastião, 20/01/2014. 

Referências Bibliográficas


MEGALE, Nilza Botelho. 112 Invocações da Virgem Maria no Brasil: história, folclore e iconografia. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1986. 376p. p.302-305. 

Referências na Internet

Últimas e derradeiras graças. Acesso em 21/12/2015, 03:20h.
 http://www.derradeirasgracas.com/4.%20Apari%C3%A7%C3%B5es%20de%20N%20Senhora/Nossa%20Senhora%20%20do%20Pilar.htm

Notas e Créditos

*Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografia: Iago C.S. Passarelli
*** Sobre a Igreja do Gaspar veja o excelente relato de Luís Cruz sobre seu restauro:
IGREJA DE N. SRA. DO PILAR / TIRADENTES (in: Vírus da Arte & Cia, acesso em 04/04/2015, 14:47h)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Congado de Conceição da Barra de Minas


Congado (catupé) de Conceição da Barra de Minas/MG
se apresentando na Festa do Divino em São João del-Rei. 
Capitão: "Vicente Cristino". Letra dos cantos do vídeo:

"Bateu  na porta, mamãe,
vai ver quem é ...
é um preto velho, mamãe,
é do congo, é!"

"Negro na senzala,
chora sem parar ...
Senhora do Rosário
é que vai te abençoar!"


Notas e Créditos

* Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli
** Vídeo: Iago C.S. Passarelli

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Anjos de Procissão

Um costume dos mais tradicionais em nossas procissões é a presença dos "anjinhos", que são crianças vestidas com asas postiças e portando auréolas, bem na forma imaginária da concepção popular dos anjos. 

No Brasil a presença dos anjinhos é muito antiga. Segundo TINHORÃO (2000), já no ano de 1583 havia o costume dos anjos de procissão no país: na Bahia, durante a Procissão das Onze Mil Virgens daquele remoto ano, já os anjos processionais estavam presentes e assim também no ano seguinte: "uns anjos todos ricamente vestidos" (pp.36-37)

No século XIX o pintor Frederico Guilherme Briggs (*), fez uma litografia representando um desses anjinhos, de vestido de roda, adornado, asinhas delicadas, capela à cabeça, mãos dadas a um membro de irmandade religiosa, de opa e vara.

Também nos Campos das Vertentes a presença desses anjinhos é bem tradicional. Richard Burton em 1868, passando por São João del-Rei, observou-os numa procissão de Corpus Christi escrevendo: “não faltavam os anjinhos, de saias curtas,calças compridas com babados, sapatos de cetim e asas, todos com menos de dez anos.”

O povo distingue duas categorias pelo detalhe da vestimenta: anjos (crianças com asas postiças) e virgens (crianças vestidas como os anjos, mas sem asas postiças; costumam trazer um arco enfeitado de pequenas flores à cabeça, simbologia de pureza). No conjunto da procissão se misturam ou marcham no préstito religioso em dois grupos distintos. Na prática porém, ou de forma genérica, todos são indistintamente considerados "anjinhos". 

GAIO SOBRINHO (2014) as soube distinguir claramente, referindo-se à sua presença nas procissões de Conceição da Barra de Minas: "No meio das alas, desfilavam os buliçosos anjinhos de asas brancas ou rosas, azuis ou amarelas, e, mais humildemente vestidas, as virgens".

Em outra cidade vizinha, São Tiago, igualmente a tradição é arraigada, conforme testemunhou RESENDE (2008) ao descrever a procissão do padroeiro: "Gente que não acaba mais para acompanhar São Tiago, na procissão. Muitas crianças vestidas de anjo."

A inocência da criança, tão decantada e enaltecida pelo próprio Cristo nas passagens evangélicas, marcou o imaginário popular, equiparando-as a seres celestiais. Assim, quando uma criança morre, por eufemismo, diz-se que virou anjinho, ou que Deus levou um anjo daquela família para o céu. Autores dedicados à cultura popular como Frei Chico e Edmilson Pereira, tem nos brindado com importantes registros do "louvor de anjo" em Minas Gerais, assim chamado o canto fúnebre nos velórios de criancinhas, muito específico e um tanto diferente das excelências (destinados à velação de adultos), embora ambos tendo a mesma função. 

É costumeiro entre várias irmandades e festeiros presentear as crianças que saem vestidas de anjos nas procissões com alguma guloseima como agrado de incentivo e reconhecimento de esforços, no geral um saquinho de pipoca doce ou um cartucho de amêndoas, doce prêmio de sabor celestial. 

O costume é muito antigo na região. VALE (2000), citando-o em Tiradentes e Prados escreveu: 

"Desde o ano de 1729 já se fazia a Procissão dos Passos, na vila de São José (hoje Tiradentes). Em 1744, conforme demonstrativo de recebimentos e despesas da Irmandade dos Passos que naquela vila existia antes de 1728, já eram servidas amêndoas feitas de coco e açúcar nas Festas dos Passos: 'pelo que custaram 25 libras de amendoas para os anjos, na procissão, 6 oitavas'. Admiti-se que, pelo menos, de 1766, quando se fez o novo altar do Senhor dos Passos, já se comemorava a Semana Santa, na freguesia de Prados, e que, por certo, também eram distribuídas, todos os anos, amêndoas aos anjos (crianças que se vestiam de anjos) que participavam da Procissão dos Passos". 

Houve porém uma época recente que vimos a presença dos anjinhos tornar-se rarefeita nas procissões são-joanenses. Pouco a pouco foram diminuindo, mas, felizmente, nos últimos tempos, estão reaparecendo, não ainda com o vigor de antanho, mas já mostram sinais de revitalização. A criança vem à procissão católica no ventre materno, depois no colo do pai, mais um pouco já marcha de anjinho. Na prática parece ser a primeira forma concreta de admissão da criança ao cerimonial do cortejo sagrado, ocasião interativa e de aprendizado, onde o jovem contacta com sons, cheiros, imagens, sensações, certamente inesquecíveis e construtoras de sua identidade. 

1- No cenário barroco da Procissão do Carmo, um anjinho
vislumbra a multidão no colo materno. São João del-Rei, 2015. 

2- Anjos e Virgens na Rasoura dos Passos de 1999.
São João del-Rei. 

Referência Bibliográficas

Arte no Brasil, São Paulo, Nova Cultural, 1986, fascículo 5, p.150-1).

BURTON, Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868) . 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5a, v. 197, p. 188.

GAIO SOBRINHO, Antônio. Memórias Sentimentais de Conceição da Barra de Minas. São João del-Rei: UFSJ, 2014. 230p. p.59. 

PEREIRA, Edmilson, MARQUES, Núbia. Do Presépio à Balança: representações sociais da vida religiosa. Belo Horizonte: Mazza, 1995. 452p. p.298-300. 

POEL, Francisco van der, Frei Chico. Cadê a mãe deste anjinho. Revista da Comissão Mineira de Folclore, n. 18, novembro/1997. 207p. p.69-79. 

RESENDE, Ermínia de Carvalho Caputo. Acaso são estes os Sítios Formosos? Brasília: 4 Estações, 2008. 211p. p. 183. 

TINHORÃO, José Ramos. As Festas no Brasil Colonial. São Paulo: Ed.34, 2000. 176p.il. 

VALE, Paulo de Carvalho. De Prados, da "Ponta do Morro", para a liberdade. Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 2000. p.350. 

Notas e Créditos

*In: Arte no Brasil, op.cit.
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: 1- Iago C.S. Passarelli; 2- Ulisses Passarelli
**** Leia também:

ANJOS DEL-REI


sábado, 5 de dezembro de 2015

Catupé: mais um congado da grande irmandade do rosário

Catupé, catupê, catopé, catopê, cato-pé, quatrupé. Sob estas variações de grafia é conhecido um tipo de congado atualmente realizado em Minas Gerais e Goiás, o qual não dispõe de entrecho dramático, como bem observou CASCUDO (s.d.): "Préstito dançante, de negros, em Minas Gerais (...), modalidade de congos, mas praticamente sem enredo". Em terras mineiras distribui-se desde o norte do estado, centro-norte, centro, centro-oeste, oeste até o centro-sul (Vertentes).

A mais antiga referência conhecida data do século XVIII, do Rio de Janeiro, quando, segundo Guilherme de Melo (*) "durante as festas pelo casamento da Princesa Real D.Maria com seu tio D.Pedro, realizadas em junho de 1760, apresentou-se a dança de Catupé."

De sua notícia no Rio de Janeiro nunca mais se soube. Praticamente nada se conhece sobre a história dessa guarda. Além citação setecentista acima referida, nenhuma outra é difundida, tão pouco do século XIX, pelo que não se tem ideia como esse congado se desenvolveu ao longo dos anos. 

A citação mais antiga a seguir é a de DORNAS FILHO (1938): "No Serro e Conceição, o "reisado" tinha a peculiaridade de ser acompanhado pelos "catopês", nome que dão a uma dansa de belos lances coreograficos.", e os descreve em sequência (pp.109 e 110).

E mesmo no século XX, com toda a vasta produção literária sobre a cultura popular, muito pouco se escreveu sobre os catupés. Chega ser intrigante como possa ter passado praticamente despercebido dos estudiosos em geral ou, em outra consideração, talvez não tenha despertado maior interesse. 

MARTINS (1988) esclareceu: "a função do catopê na Irmandade é alegrar o ambiente, oferecer boa música e divertir o povo com loas e cantos irônicos ou chistosos."

O significado do nome permanece incógnito.

Como acontece com outros congados, o estilo dos catupés varia de uma região para outra. Assim, os grupos setentrionais são completamente diferentes daqueles do oeste e centro-oeste do estado, por exemplo.

Conforme a região guardam similitude com os congos, por vezes bem acentuada, como vemos por exemplo na Mesorregião Oeste de Minas. Noutras áreas porém se distingue muito, e, à guisa das guardas de caboclos, os catupezeiros vestem-se emplumados, com vistosos cocares, como acontece na região do Serro, Montes Claros, Bocaiúva. 

É tradicionalíssimo o grupo de Pinhões (Santa Luzia), o qual mereceu um estudo muito significativo por SOUZA (2004), contextualizada na vida sócio-econômica do lugar, zona metropolitana da capital mineira.

Uma das modalidades bastante difundidas no oeste e em Goiás é o catupé-cacunda; uma variante coreográfica na qual os dançantes fazem movimentos das duas fileiras ao centro à altura dos ombros, quase se tocando nas espáduas. Como se sabe, no dizer popular, "cacunda" quer dizer ombro. É um africanismo. O cacunda não é bem conhecido nas Vertentes. Soubemos de um único grupo, que no passado existiu na cidade de Resende Costa, cujo capitão era conhecido por "Geraldo Macio" (**)

Nos Campos das Vertentes é o mais frequente dos congados, abundante desde Lavras até Resende Costa, passando por vários municípios (Nazareno, Conceição da Barra de Minas, São João del-Rei, Santa Cruz de Minas, Ritápolis, Prados, São Tiago, Coronel Xavier Chaves).

Nesses lugares, muitas vezes a vivência com outras modalidades de ternos se construiu de forma tal que assimilou elementos, mesclando estilos num processo de intercâmbio contínuo. Talvez esta maneira flexível de existir se responsabilize pelo fato de em alguns lugares não o chamarem "catupés", mas tão somente "congados", em sua extensão mais genérica. 

Até a primeira metade dos anos noventa, os catupés regionais por força de velho padrão, vestiam-se de forma simplificada, de calça e camisa, no geral na cor branca ou de colorido mais chamativo, mas praticamente sem atavios; chapéu de palha à cabeça, com enfeites florais, fitas, papel picotado colado em tiras, como aparece por exemplos nas fotografias de número 8 e 16. Na Restinga (Ritápolis), o grupo usada chapéus de palha com flores pintadas em elementos de arte popular. Não tardou contudo e em verdade já havia concomitantemente ao modelo tradicional e típico, a existência do boné, cada vez mais difundido entre os grupos, ou ainda, quépis (à moda dos marujos), boinas, casquetes, chapéus à moda country e ainda outros tipos de chapéus. As camisas acabam cedendo espaço para as camisetas com estampas em silk-screen

O ritmo dos catupés regionais por outro lado é bastante padronizado. Cada qual com sua peculiaridade, conquanto no geral guardem uma considerável unidade. 

O instrumental é variado mas centra-se em caixas (em geral há duas de guia, ou seja, encabeçando cada uma das filas de dançantes, entremeando-se outras no meio do grupo), sanfonas, pandeiros, reco-recos de bambu (ganzás). Em complemento surgem outros instrumentos: xique-xique, cuíca, cordofones. O capitão via de regra traz o tamborim. Outras vezes o dispensa por um bastão ou bengala. 

Na dianteira a indispensável bandeira traz a unidade de cada terno, nas mãos do(a) bandeireiro (a). 

Nossos catupés também trazem seus reis, rainhas, príncipes e princesas e existem muitos cantos específicos para escolta do reinado:

"Ô Senhora de Nazaré!       BIS
Eu levo a rainha, se Deus quiser..."

"Que suspiro triste,
quer a rainha deu...
torna a suspirar,
pelo amor de Deus!"
(Capitão Luís Santana, São João del-Rei, Bairro São Dimas)

"Eu cheguei lá na beira do rio,
para ver os peixinhos nadar,
avistei a coroa do rei,
ela estava do lado de lá!"
(Capitão Geraldo Venâncio, Ribeirão de Santo Antônio, Resende Costa)

As guardas tem um forte elemento devocional com respeito a Nossa Senhora do Rosário, a São Benedito e a Santa Efigênia, dentre outros santos em posição mais eventual. 

Ao que parece, a versatilidade dos catupés em relação a outros congados de estrutura mais rígida pode ter contribuído regionalmente a que se mantivessem ano a ano. A facilidade de seu ritmo, a fluidez, a leveza de muitos cantos seria talvez um fator facilitador para principiantes, que acabam por fazer escola no grupo e perseveram. Assim, nas Vertentes, enquanto os catupés dominaram numericamente o contexto do rosário, os congos típicos por exemplo, de estrutura musical mais intrincada tornaram-se rarefeitos, mantidos apenas em algumas comunidades mais preservadas. 


1- Tocador de cuíca no Congado N.S. do Rosário, Resende Costa/MG.
Participação na Festa do Rosário da Restinga (Ritápolis/MG), setembro/1996. 

2- "Catupé de São Benedito", Santana do Jacaré/MG.
Participação na Festa do Rosário de Passa Tempo/MG, 18/10/2015.
3- Congado 'N.S. do Rosário', Restinga (Ritápolis/MG).
Participação na Festa do Rosário no Ramos (Ritápolis/MG), 24/09/2000. 

4- "Congado Nossa Senhora do Rosário", Içara (São Tiago/MG).
Participação na Festa do Rosário em São Gonçalo do Amarante, 08/10/2000. 

5- "Catupé São Benedito e Nossa Senhora do Rosário", 
São Sebastião da Estrela (Santo Antônio do Amparo/MG).
Participação na Festa do Rosário de Ibituruna/MG, 30/06/2013. 

6- "Congado Nossa Senhora do Rosário", Santa Cruz de Minas/MG.
Participação no 2º Encontro de Congados de Tiradentes/MG, 26/07/2015. 

7- "Catupé Nossa Senhora Aparecida", Piracema/MG.
Participação na Festa do Rosário de Passa Tempo/MG, 18/10/2015. 


8- Congado de Ribeirão de Santo Antônio (Resende Costa/MG).
Participação na Festa do Rosário na Restinga (Ritápolis/MG), setembro / 1998.
9- Congado São Benedito, Resende Costa/MG.
Participação na Festa do Rosário de Ibituruna/MG, 30/06/2013.



10- Congado Nossa Senhora Aparecida, Resende Costa/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 2005.



11- Congado Santa Efigênia, Resende Costa/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 30/05/2009.  

12- Congado de São Cosme e São Damião, Resende Costa/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 08/06/2014.   
13- Congado N.S. do Rosário e Divino Espírito Santo, Ritápolis/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei/MG, 2006. 



14- Congado Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, Ritápolis/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 24/05/2015. 
15- Congado N.S. do Rosário, Prados/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei/MG, 2006. 

16- Congado do Capitão Zé Carreiro, Coronel Xavier Chaves/MG.
Participação na Festa do Rosário do Bairro São Geraldo, São João del-Rei/MG, 1997.

17- "Congada N.S. do Rosário", Conceição da Barra /MG.
Participação no 2º Encontro de Congados de Tiradentes/MG, 26/07/2015.

18- "Congada Azul e Branca de Nossa Senhora Aparecida", 
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG).
Participação na Festa do Rosário em sua própria comunidade, 11/10/2015.
19- Congado da Capitã Maria Auxiliadora, Bairro São Dimas, São João del-Rei/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 08/06/2014.

20- Congado do Capitão Moacir Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 24/05/2015.

21- "Congado São Benedito e São Sebastião", São João del-Rei/MG.
Participação no 2º Encontro de Congados de Tiradentes/MG, 26/07/2015. 

22- Catupé, Lavras/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 2006.




 23- Congado, Perdões. 
Participação na Festa do Rosário de Ibituruna/MG, 30/06/2013. 

24- Catupé, Itaguara/MG.
Participação na Festa do Rosário em Passa Tempo/MG, outubro/2001. 

Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. 

DORNAS FILHO, João. A Influência Social do Negro Brasileiro. In: Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Departamento de Cultura, out./1938. Ano 5, v.51, p.97-134.

MARTINS, Saul. Congado: família de sete irmãos. Belo Horizonte: SESC, 1988.

SOUZA, José Moreira de. Pinhões: mito e folclorização. Revista da Comissão Mineira de Folclore, Belo Horizonte, dez.2004. 161p. p. 85-109. 


Notas e Créditos

* MELO, Guilherme de. A Música no Brasil, 53, Rio de Janeiro, 1947 (apud CASCUDO [s.d]).

** Informante: Sr. Luís Santana, 1995. Foi posteriormente confirmado pelo Capitão "Vino" (Valdivino Martiniano Nascimento), em Resende Costa, a 27/09/1998. Na ocasião, o Sr.Vino relacionou os congados que chegou a conhecer naquele município mineiro, além do citado cacunda: um congo, funcionando na zona urbana sob o comando de "João Jacaré" e nada menos que treze guardas de catupé, que foi nomeando de memória pelo nome popular ou alcunha dos capitães: Izidoro (no Bairro Santo Antônio), Zé Tomaz (na Rua Nova), Geraldo Chica, Antônio Jacaré (Ferreira), Mário da Vininha, Dico da Lena, Zé Macedo, Euclides Maromba, o do próprio Vino (fundado em 1958 sob a bandeira do Rosário), Argilino (no distrito de Ribeirão de Santo Antônio), João Domingos (distrito de Ribeirão dos Pintos), Anésio/Milton (no povoado do Cajuru), Vicente Martiniano/Geraldo Venâncio (Ribeirão de Santo Antônio). Por esta listagem se avalia a popularidade deste terno em Resende Costa, ainda que à época da entrevista só estivessem ativos o grupo do Capitão Vino e o Geraldo Venâncio, mas posteriormente à data da entrevista, na década seguinte, surgiram naquela cidade novos congados deste tipo: o "São Benedito", o "Nossa Senhora Aparecida" e o "São Cosme e Damião". 

*** Texto e acervo: Ulisses Passarelli

**** Fotografias: 1-5, 7-11, 13, 15, 16, 22-24; Ulisses Passarelli;6, 12, 14, 17-21: Iago C.S. Passarelli

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Pratos e Iguarias da Cozinha Mineira

Dando continuidade à breve relação, ligeiramente descritiva, dos mais tradicionais pratos da culinária mineira correntes na região das Vertentes, ora este blog apresenta esta nova postagem, em verdade uma continuação ou "parte 2" do texto "Quibebe?! Bacupariu... Jacuba?"

Perpassando a breve descrição de cada um dos alimentos típicos vemos como eles tem um forte cunho rural. Com o êxodo rural é como se tivessem invadido a cidade e trazido das roças novos sabores, já a muito incorporados ao cardápio urbano.
O costume de uso das quitandas caseiras continua forte, pois, de fato, outrora, em latas bem acondicionadas, cheias de broas e biscoitões, estava o sustento do café da manhã, do lanche da tarde, preferido aos produtos de panificadoras. 

Passamos a seguir em breve revista alguns alimentos típicos dessa região mineira. 

Conservas:nos extremos, pimenta-branca em vinagre tinto; ao centro, vagem, cenoura, cebola e chuchuzinho, em vinagre-branco; nos vidros menores, conservas de pimenta-biquinho, em vinagre-branco. São João del-Rei, 2015.

Broa de panela – broa que em vez de se despejar a massa numa forma e levar ao forno, se despeja numa panela e se leva ao fogão de lenha com brasas por baixo (nunca labaredas). Sobre a tampa se põe brasas também e se vai abanando para mantê-las “vivas” (ativas) e assim a broa assa igualmente de baixo para cima e de cima para baixo. É uma iguaria muito usada nas roças, consumida com café ou com mistura de café com leite.

Caldo Verde - sopa de batatas raladas, com couve e linguiça. Dizem-na de origem portuguesa. Especialmente degustada no tempo do frio.

Carne de Panela - carne bovina cozida aos pedaços grandes, em tempero a gosto, no geral com batatas e bastante caldo, usualmente consumido com angu.

Chouriço - embutido feito com sangue de porco, temperado, e acrescido de cubos de toicinho especial (redanho). Habitualmente se acrescenta folhas de cebolinha. O chouriço é frito e de ordinário consumido acompanhado de angu, pimenta, caldo de limão, cachaça.

Conservas - legumes conservados em vidro, curtidos em vinagre. É tradição arraigada, para se consumir no almoço, junto ao arroz. Na quadra do natal é notadamente típica a conserva de pimenta-branca, produto abundante nas feiras e mercados.

Cuscuz – Alimento à base de milho que não guarda correspondência com o cuscuz nordestino. Nas Vertentes é uma broa ordinária de fubá, com menos leite que a convencional. A massa pronta deve ser apertada com os dedos na forma em vez de despejada como a broa típica. É caracteristicamente bem mais seca que aquela.

Farinha – ingrediente indispensável no acompanhamento de vários pratos, sobretudo polvilhada sobre o feijão, ou a ele misturada na confecção do “tutu”. O povo distingue várias farinhas: a de munho (fubá torrado), a de pilão (de milho, que nas roças era preparada socando a massa de milho no pilão ou no monjolo), a de pau (a de mandioca), de rosca (feita de pão velho, torrado e moído). A farinha é ingrediente de muitos pratos oferecidos aos orixás e guias, nos rituais de umbanda e candomblé. Figura em diversos ebós. Notadamente é alimento simbólico da Linha dos Baianos. No anedotário popular, farinha é tida como “comida de baiano”(*). Quem come muita farinha é logo alcunhado de “baiano”. Todo um complexo cultural se formou em torno da farinha: farinhada é a reunião de um grupo de trabalhadores numa “Casa de Farinha” para a sua produção. Trabalho coletivo para fazer farinha. Fazer uma farinhada: produzir uma remessa de farinha. Durante as farinhadas os trabalhadores habitualmente entoam cantos de trabalho. Além do valor social de união da comunidade (às vezes em regime de mutirão), é ocasião de ouvir causos e notícias do lugar.

Feijoada - feijão cozido, tipicamente o preto, com uma série de ingredientes de origem suína: paio, orelha, focinho, rabinho, toicinho, calabresa, pele. Quando o feijão leva apenas o toicinho e/ou pele, ganha o cognome de "feijão gordo". A feijoada é tradicionalmente considerada comida de origem na escravidão, quando aos cativos era dado o que então se considerava rejeito do corte suíno, que a Casa Grande não desejava e então os escravos os cozinhavam no meio do feijão. É um dos pratos mais conhecidos e queridos na cozinha mineira.

Frango com ora-pro-nobis – comida simples típica das zonas rurais, que de tão saborosa ganhou fama e veio ao cardápio dos restaurantes, contribuindo fortemente para celebrizar a comida mineira. Trata-se tão somente de frango caipira cozido à lenha com um punhado de folhas de ora-pro-nobis, Pereskia aculeata, uma cactácea. As folhas jovens são as prediletas e se acrescenta quando o cozimento do frango está quase concluído. É servido com arroz e feijão, ou com preferencialmente com angu. A pronúncia popular em geral diz “oráprunóbi”. O frango com quiabo é iguaria correspondente e tão querida quanto.

Fubá1- Pó de feitiço, mandinga, magia negra. “Jogou fubá em fulano” (fez uma magia negra para prejudicá-lo**). A palavra poeira pode ter o mesmo sentido. 2- Farinha crua de milho que se extrai simplesmente moendo os grãos no “munho” (moinho). O fubá é o ingrediente para a farinha torrada, para o angu e a polenta, para broas e biscoitos. É um dos alimentos de maior emprego na culinária típica.

Guisado - também chamado picadinho, consiste no cozimento de várias vísceras de porco ou de boi, "miúdos", como se diz, em caldo temperado a gosto, em geral bem condimentado. Guisado de porco; picadinho de boi.

Paçoca1- Doce feito com amendoim socado no pilão e dado o ponto com açúcar. 2- Iguaria de carne seca desfiada socada com farinha no pilão. 3- “Empaçocado”: expressão popular - com consistência de paçoca, embatumado, grosseiro, farináceo, granulado, seco e denso ao paladar.

Passarinha1- Designação popular do baço. Iguaria apreciada como tira-gosto, cozido com outros miúdos. Isca para peixes: piau, dourado, jaú. 2- Frango à passarinha: diz-se daquele que se prepara picando-o em pedaços miúdos, como uma ave de caça.

Peixe ensopado – muqueca. Peixe cozido em caldeirão com caldo em molho de tomate, cebola e pimentão. Para complementar, a gosto, pimenta, salsa e cebolinha. Os peixes de couro são os prediletos para ensopado, sobretudo o mandi.

Rapa1- A sobra de doce, arroz, angu, bolo ou broa, que se agarra no fundo da panela, forma, tacho ou tabuleiro, ressecada e por vezes meio queimada, devendo ser raspada para soltar, ou deixada de molho. A rapa ao leite é uma iguaria das mais queridas em nosso interior, preferida por muitos ao conteúdo principal da receita. 2- “Rapa do tacho” – por analogia a expressão se emprega para se referir ao último filho de um casal; o do fim.

Torresmo com angu - os pedaços de toicinho com pele e laivos de carne, picados em cubículos ou cortado em tiras, são fritos até ficarem crocantes e são comidos sobretudo com angu, iguaria das mais conhecidas na cozinha mineira típica.

Porção de chouriço com angu. São João del-Rei. 2015.

Notas e créditos


* O Capitão de Congado José Camilo em São João del-Rei, certa feita pelos idos de 1992, informou esta loa cheia de valentia e alusões a elementos dos terreiros, cujo enunciado declamativo, propositalmente evocava a sonoridade imaginária das vozes ancestrais das senzalas:

"Tengo-tengo, mongo-mongo,
bate-bate, devagá, Baluê!
Donde tem nêgo véio,
muleque num come torremo...
Eu sou baiano,
cabra véio da peste,
como carne seca com farinha de pau
quase num bebo água;
como beiço de porco com cabelo
e num engasgo..."

"Baluê" vale Obaluaiê, orixá dos mais prestigiados, senhor da linha esquerda, que tem domínio sobre as doenças de pele, varíola ("bexiga"), pestes.
** Com este sentido, um dos cantos do congado do Capitão Luís Santana, de São João del-Rei era:

"Oi, num joga fubá,
óia lá!
Oi, num joga fubá,
óia lá ..."

O canto é um alerta, "não joga fubá" (não manda feitiço), "olha lá" (cuidado!, pode retornar para você).
*** Texto: Ulisses Passarelli
**** Foto: Iago C.S. Passarelli (conservas) e Ulisses Passarelli (chouriço)
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