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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Anjos de Procissão

Um costume dos mais tradicionais em nossas procissões é a presença dos "anjinhos", que são crianças vestidas com asas postiças e portando auréolas, bem na forma imaginária da concepção popular dos anjos. 

No Brasil a presença dos anjinhos é muito antiga. Segundo TINHORÃO (2000), já no ano de 1583 havia o costume dos anjos de procissão no país: na Bahia, durante a Procissão das Onze Mil Virgens daquele remoto ano, já os anjos processionais estavam presentes e assim também no ano seguinte: "uns anjos todos ricamente vestidos" (pp.36-37)

No século XIX o pintor Frederico Guilherme Briggs (*), fez uma litografia representando um desses anjinhos, de vestido de roda, adornado, asinhas delicadas, capela à cabeça, mãos dadas a um membro de irmandade religiosa, de opa e vara.

Também nos Campos das Vertentes a presença desses anjinhos é bem tradicional. Richard Burton em 1868, passando por São João del-Rei, observou-os numa procissão de Corpus Christi escrevendo: “não faltavam os anjinhos, de saias curtas,calças compridas com babados, sapatos de cetim e asas, todos com menos de dez anos.”

O povo distingue duas categorias pelo detalhe da vestimenta: anjos (crianças com asas postiças) e virgens (crianças vestidas como os anjos, mas sem asas postiças; costumam trazer um arco enfeitado de pequenas flores à cabeça, simbologia de pureza). No conjunto da procissão se misturam ou marcham no préstito religioso em dois grupos distintos. Na prática porém, ou de forma genérica, todos são indistintamente considerados "anjinhos". 

GAIO SOBRINHO (2014) as soube distinguir claramente, referindo-se à sua presença nas procissões de Conceição da Barra de Minas: "No meio das alas, desfilavam os buliçosos anjinhos de asas brancas ou rosas, azuis ou amarelas, e, mais humildemente vestidas, as virgens".

Em outra cidade vizinha, São Tiago, igualmente a tradição é arraigada, conforme testemunhou RESENDE (2008) ao descrever a procissão do padroeiro: "Gente que não acaba mais para acompanhar São Tiago, na procissão. Muitas crianças vestidas de anjo."

A inocência da criança, tão decantada e enaltecida pelo próprio Cristo nas passagens evangélicas, marcou o imaginário popular, equiparando-as a seres celestiais. Assim, quando uma criança morre, por eufemismo, diz-se que virou anjinho, ou que Deus levou um anjo daquela família para o céu. Autores dedicados à cultura popular como Frei Chico e Edmilson Pereira, tem nos brindado com importantes registros do "louvor de anjo" em Minas Gerais, assim chamado o canto fúnebre nos velórios de criancinhas, muito específico e um tanto diferente das excelências (destinados à velação de adultos), embora ambos tendo a mesma função. 

É costumeiro entre várias irmandades e festeiros presentear as crianças que saem vestidas de anjos nas procissões com alguma guloseima como agrado de incentivo e reconhecimento de esforços, no geral um saquinho de pipoca doce ou um cartucho de amêndoas, doce prêmio de sabor celestial. 

O costume é muito antigo na região. VALE (2000), citando-o em Tiradentes e Prados escreveu: 

"Desde o ano de 1729 já se fazia a Procissão dos Passos, na vila de São José (hoje Tiradentes). Em 1744, conforme demonstrativo de recebimentos e despesas da Irmandade dos Passos que naquela vila existia antes de 1728, já eram servidas amêndoas feitas de coco e açúcar nas Festas dos Passos: 'pelo que custaram 25 libras de amendoas para os anjos, na procissão, 6 oitavas'. Admiti-se que, pelo menos, de 1766, quando se fez o novo altar do Senhor dos Passos, já se comemorava a Semana Santa, na freguesia de Prados, e que, por certo, também eram distribuídas, todos os anos, amêndoas aos anjos (crianças que se vestiam de anjos) que participavam da Procissão dos Passos". 

Houve porém uma época recente que vimos a presença dos anjinhos tornar-se rarefeita nas procissões são-joanenses. Pouco a pouco foram diminuindo, mas, felizmente, nos últimos tempos, estão reaparecendo, não ainda com o vigor de antanho, mas já mostram sinais de revitalização. A criança vem à procissão católica no ventre materno, depois no colo do pai, mais um pouco já marcha de anjinho. Na prática parece ser a primeira forma concreta de admissão da criança ao cerimonial do cortejo sagrado, ocasião interativa e de aprendizado, onde o jovem contacta com sons, cheiros, imagens, sensações, certamente inesquecíveis e construtoras de sua identidade. 

1- No cenário barroco da Procissão do Carmo, um anjinho
vislumbra a multidão no colo materno. São João del-Rei, 2015. 

2- Anjos e Virgens na Rasoura dos Passos de 1999.
São João del-Rei. 

Referência Bibliográficas

Arte no Brasil, São Paulo, Nova Cultural, 1986, fascículo 5, p.150-1).

BURTON, Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868) . 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5a, v. 197, p. 188.

GAIO SOBRINHO, Antônio. Memórias Sentimentais de Conceição da Barra de Minas. São João del-Rei: UFSJ, 2014. 230p. p.59. 

PEREIRA, Edmilson, MARQUES, Núbia. Do Presépio à Balança: representações sociais da vida religiosa. Belo Horizonte: Mazza, 1995. 452p. p.298-300. 

POEL, Francisco van der, Frei Chico. Cadê a mãe deste anjinho. Revista da Comissão Mineira de Folclore, n. 18, novembro/1997. 207p. p.69-79. 

RESENDE, Ermínia de Carvalho Caputo. Acaso são estes os Sítios Formosos? Brasília: 4 Estações, 2008. 211p. p. 183. 

TINHORÃO, José Ramos. As Festas no Brasil Colonial. São Paulo: Ed.34, 2000. 176p.il. 

VALE, Paulo de Carvalho. De Prados, da "Ponta do Morro", para a liberdade. Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 2000. p.350. 

Notas e Créditos

*In: Arte no Brasil, op.cit.
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: 1- Iago C.S. Passarelli; 2- Ulisses Passarelli
**** Leia também:

ANJOS DEL-REI


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