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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 21 de setembro de 2013

Palhaços de Folias de Reis: ambiguidade e enigma - parte 1

Esta postagem é a primeira parte de um pequeno relato rascunhado a caneta esferográfica em pedaços residuais de papel, que encontrei entre meus guardados. Os rabisquei em agosto de 2008 e o novo objetivo para este blog impôs revisão e acréscimo. Dedica-se especialmente à figura do palhaço, que carrega em si uma carga imensa de simbolismos. 

* *  *

Nas folias de Reis existe um personagem em geral conhecido por “palhaço”, mas que, apesar do nome, não se confunde ou filia à arte circense. É mera analogia pelas roupas de cores vivas, largas no corpo para permitir a liberdade de movimentos e das brincadeiras que faz com as pessoas. Em vez da pintura de maquiagem no rosto usa a máscara, que figura elementos simbólicos e atávicos. De fatura artesanal, a máscara é extremamente individual. Como uma impressão digital pode-se dizer que não existem duas iguais no universo das folias, denotando uma riqueza artística de criação imensurável.

O palhaço de folia é uma figura ambígua. Não obstante ser interpretada como maléfica, recita louvores e benze os doentes. Na verdade a carga maligna que lhe é atribuída é tão somente influência das concepções catequéticas, que lhe carimbaram o selo de demoníaco. Nada, porém, ele possui de diabólico quando se perscruta suas origens, na análise dos gestos, ações, palavras e funções; ou seja: seu verdadeiro âmago. É um personagem ancestral. Não se pode julgá-lo pela mera aparência de sua máscara, cheias de barbas desgrenhadas, de um cabelo de crina, de chifres, de dentes pontudos e evidentes. Isto é uma aparência superficial que choca o observador carola, pois traz à tona a palavra do missionário religioso descrevendo o capeta de cor vermelha... O palhaço na verdade evoca o sagrado primitivo das forças naturais que, é a figuração bestial de um princípio anímico.

Palhaços da folia distrital de São Sebastião da Vitória (São João del-Rei-MG). 
O público assiste fielmente ao desempenho dos mascarados.1994.

A origem pagã se prende a rituais agrários e a ritos de passagem da adolescência, como demonstrou sobejamente Pinelo Tiza com os caretos, chocalheiros, máscaros, filandorras, etc., seus arquétipos ibéricos.
As roupas vermelhas, a máscara de careta, a voz cavernosa, as estripulias fazem parte da composição figurativa de um personagem e são elementos muito mais extrínsecos que intrínsecos, embora possam estar eivados de simbolismos. As lambadas de seu “rêio” (relho) são purificadoras, posto que disciplinares. Se ele carrega um ramo de espada de São Jorge (gênero Sansevieria, família asparagaceae) ou uma espada de madeira ou uma lança é como uma arma simbólica, que defende todo o grupo, espantando o adversário espiritual; os chocalhos atados à cintura ou ao tornozelo tinem evocando espíritos benfazejos, forças do bem, como as campainhas rituais (sinetas, carrilhões, adjás) e os guizos dos moçambiqueiros (paiás, gungas, maçaquaias).  

Sua passagem nas casas e sítios ajuda expurgar pragas, doenças, maldições, espíritos perturbadores. Nesse papel de catarse o "medonho-bonito" de sua máscara se equipara às carrancas do vale do São Francisco, que outrora podem ter tido papel de adorno como figuras de proa das barcas e hoje são considerados amuletos no conceito popular. A cara feia espanta, afasta, amedronta, isola.

Este post foi idealizado curto e não permite destrinchar muito o assunto, mas seria o caso de se aprofundar pelo conceito e significado da máscara, elemento religioso e cultural cosmopolita, presente em muitas civilizações, desde a antiguidade remota.

O palhaço das folias é conhecido por vários outros nomes Brasil afora: marungo, bastião, tenente, matias, pastorinho, boneco, alferes, saca-trapo. O nome palhaço é sem dúvidas o mais divulgado.  Nem por isso goza de unanimidade, porque entendem alguns mestres que é um nome desrespeitoso para a função religiosa que exerce, ou seja, ele faz brincadeiras, mas não “palhaçada”.

Palhaço da folia de Ritápolis/MG conduz sua vara enfeitada e com chapinhas idiofônicas na ponta, 
além da bandeira do grupo. 1996. 

Nesta afirmação encontra-se a pista da verdadeira função do palhaço: a religiosa e/ou mística. A visão dos mestres (interna) é lendária e de uma interpretação de ordem funcional. Cada área geográfico-cultural tem sua versão dominante. Uma das mais conhecidas narra que os palhaços representam soldados da guarda do Rei Herodes, disfarçados, mandados para seguir a Sagrada Família e descobrir seu paradeiro. Voltariam para avisar ao malvado monarca onde era o local para que mandasse matar Jesus. Descobriram, mas se converteram e não retornaram, passando a acompanhar o Menino Deus dali para frente, fazendo brincadeiras para distrair a atenção dos judeus e romanos enquanto José e Maria fugiam para o Egito com o Messias no colo.

Em São João del-Rei/MG, corre a crença que o palhaço é um centurião que acompanha a bandeira, como um guardião, um soldado disfarçado que usa de brincadeiras para dissimular sua verdadeira identidade. É o defensor da folia e por conseguinte dos folieiros. Graças a esta concepção, é possível nesta região que o palhaço se aproxime da bandeira, a segure, e até que seja o próprio bandeireiro, situação inimaginável na maioria das outras regiões onde existe.

A ambiguidade está nele. É um convertido, mas o peso da perseguição inicial ainda o faz pecador. Ser um palhaço é um ato penitencial e até mesmo votivo. Não é mera diversão. Brincar faz parte de sua personalidade, contudo entrar na farda e se ocultar na máscara é uma missão árdua que obedece a uma rigorosa praxe estipulada pelo mestre de cada grupo. Algumas folias fazem um ritual de proteção especial ao palhaço na abertura e encerramento da jornada, para vestir e retirar a farda. Existem casos de sincretismo religioso.

Em sua chegada nas residências o palhaço é aquele que primeiro intermedia o contato entre visitantes e visitados. Enunciando um verso de chegada, ou apitando, ou com gritos e exclamações, alerta aos moradores acerca da chegada da folia: “Ôôôô...pá!” ; “Óia nóis chegando aí, gente!” ; “ô, patrãozinho: prende os cachorro que Santos Reis está chegando na sua morada!” ; “ ô nhánhá: é de vosso agrado recebe nossa bandêra?” ; “Óia nossa chegada” ; “Dá licença, aí!!!” ; “Boa noite, gente!”

Exemplo de versos coligidos em São João del Rei nos anos noventa:

“Santos Reis aqui chegô
“Aqui chegou bandeira santa,
Com a sua companhia,
Do mártir São Sebastião,
Procurando a bela rosa
Nós somos seus soldados
Para festejar seu dia!”
Ele é o nosso capitão!”

Assim acontece nas casas em geral. O anonimato do palhaço leva o primeiro pedido de licença e a saudação inicial. É protocolar, antes mesmo da bandeira ou do mestre. Se a chegada é numa fazenda é de regra que a folia espere de fora do terreno, antes da porteira. Compete ao palhaço abri-la, pedindo licença, e começando a gritar desde longe da sede, vai até a moradia chamando pelo dono da casa. Estabelece com ele um diálogo breve, do tipo “como vai, como passou”; pede as licenças devidas para a chegada, pergunta se é do agrado receber a bandeira e os nobres foliões, etc. Obsequiado pela permissão, volta acelerado ao grupo, gritando a resposta positiva e abre a porteira para a folia entrar. Agora entra junto com o grupo sem passar de novo na frente da bandeira.

Dentro da residência desenvolvem-se vários outros procedimentos protocolares quando o palhaço está presente. Eles estarão tematizados na segunda parte desta postagem, em breve. Aguardem!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TIZA, António Pinelo. Inverno Mágico: ritos e mistérios transmontanos. Lisboa: esquilo, 2004. 287p.il. 
BITTER, Daniel. A Bandeira e a Máscara: a circulação de objetos rituais nas folias de reis. Rio de Janeiro: 7 Letras; Iphan/CNFCP, 2010. 224p.il. 

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli



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