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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 1 de setembro de 2013

Africanismos

Na cidade de Coronel Xavier Chaves, o experiente capitão de congado (catupé), José do Rosário Anacleto, carinhosamente conhecido por “Zé Carreiro”, baluarte da cultura popular local, havia me informado pessoalmente, em 1997, uma série de curiosas palavras, aparentemente estranhas e foi traduzindo o seu significado. 

Dizia-me que esse palavreado vinha de seus antepassados e nos tempos da escravidão era língua dos africanos, que conversavam entre si em modo dialetal, incompreensível aos brancos. Mesmo quando o regime da servidão havia acabado a tempos, algumas pessoas daquela cidade dos Campos das Vertentes conservaram estes fragmentos linguísticos banto. 

Zé Carreiro, líder das manifestações folclóricas locais (congado, folia de Reis, calango, boi-de-caiado), puxando de sua excelente memória passou-me o seguinte glossário:

Zé Carreiro à frente de seu congado, num dia de Festa do Divino. 
Foto: Cida Salles, 2011. 
Amaiaque: ovo
Arufuno: lenha
Arunanga: roupa
Arussanjo: galinha
Camboá: cachorro
Catira: baile
Condoboro: galo
Curimba: roça
Curucuta: sapato
Cussacaná: casamento
Gadanho: dedo
Homenha: água
Ingorosa: cachaça
Marungo: olho
Môro: arroz
Mussanja: roupa
Mutanga: vara, manguara
Ngana jamba: igreja
Ngana: padre
Ocema: fubá
Papai cucuruto: forno
Tipoquê: feijão
Tuê: cabelo
Uíque: açúcar

Muitas outras palavras foram detectadas na região. Algumas se fixaram na toponímia (Candonga, Muxinga, Caxangá, Cassôco, Caxambu, Cassanje...), outras, ficaram restritas ao uso religioso (menga, cambono, marungo, obará...) ou ainda ao linguajar cotidiano (indaca, quizila, mandinga, fulo...). 

Elas são elementos culturais muito importantes das tradições afro-brasileiras e enriquecedoras do nosso vocabulário. Outrora a mescla dessas palavras com o português coloquial era muito maior, gerando um modo próprio de falar, algo como um sotaque, misturando africanismos e corruptelas, criando o que se costuma chamar "português crioulo", expressão que nada tem a ver com discriminação. Pelo contrário, ela se firma em valores, indicando que foi nascido aqui no novo mundo, criação nossa. Da mesma sorte, no sul do Brasil existe uma referência de pecuária ao "gado crioulo", indicando brasilidade, identidade à nossa nação, criação brasileira. 


Notas e Referências

* Para saber mais a respeito leia: Apontamentos sobre Português Crioulo   
**Texto: Ulisses Passarelli

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