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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 30 de maio de 2013

Folclore das Cobras - parte 1

Algumas crendices sobre as serpentes

            “A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado.”





Carranca fotografada em
São João del-Rei, 1998.

Uma cobra sai de sua boca.
Procedência ignorada. 

                   Assim principia na Bíblia Sagrada, o terceiro capítulo do livro Gênesis. A narrativa de como a serpente, símbolo do mal, figuração satânica no ato da criação humana, impregnou profundamente a mitologia, sobretudo a ocidental. O animal tentador, que corrompeu os planos que Deus tinha traçado para a humanidade, induzindo a desobediência de Adão e Eva, foi amaldiçoado pelo próprio Criador: “serás maldita entre todos os animais e feras dos campos” (Ex.3, 14).
            Todo um complexo sistema de crenças recai de forma cosmopolita sobre as serpentes. Por toda parte onde ela vive gera no homem uma mescla de sentimentos atávicos, que confluem para compor a temática de uma série de estórias, crenças, tabus, mitos, lendas. A riqueza cultural é gigantesca. Nos verbetes “Cobra” e “Serpente”, Luís da Câmara Cascudo em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, resumiu de forma magistral o poderio imaginário que estes répteis despertaram nos meios populares, notadamente nas áreas de influência indígena.
            Mas longe está a pretensão deste pequeno texto de perpassar por estas tradições em análise, revisão ou coletânea. As palavras acima são meros pretextos para expor algumas informações a seguir, que ao longo da minha caminhada de pesquisas ouvi em São João del-Rei e arredores _ Campos das Vertentes _ desde a infância, salvo indicação contrária, e que, ora passo em breve revista.

*  *  *

- Cobra que mama: impossível é à serpente fazer a sucção necessária ao ato de mamar, dada a conformação de seus músculos e articulações da mandíbula. Contudo, uma velha crença portuguesa esparramou-se pelo Brasil e chegou a esta região, contrariando os ensinamentos anatômicos. Dizem que foi para os lados de Resende Costa, que numa antiga fazenda de chão assoalhado, com porão por baixo, onde tuias de mantimento atraíam ratos, e no seu rastro, uma imensa cobra veio morar. Tarde da noite, a senhora, cansada da labuta diária, sentava-se numa velha cadeira onde aleitava sua criança. O pai, sempre ia mais cedo dormir e a mãe, esgotada, cochilava no assento. A serpente, conhecedora do horário e astuta como sempre, saía do porão e passando por um buraco entre as tábuas do assoalho, vinha sorrateiramente à mãe, que não se dava conta do réptil, devido ao sono profundo que estava. A cobra, subindo mansamente ao colo maternal, metia a ponta do rabo na boca do bebê, qual fosse uma chupeta e livrando assim a mama punha a sugar o leite. Quando fartava-se, voltava ao seu esconderijo, sorrateira como de costume. A criança pouco a pouco ia emagrecendo, sem se saber a razão. Um dia, por sortes do destino, o pai acordou e estranhando pelo avançado da hora, não ter até então a esposa chegado ao quarto, foi à sala, onde viu estupefato a cena da cobra mamando. Tomou de um porrete e batendo de propósito o pé no chão fez a cobra pelo barulho largar o seio e sair às pressas, mas antes que entrasse no buraco da passagem para o porão foi morta a cacetadas. Em São João del-Rei tivemos notícia de estórias de cobra que mama em vaca, no curral. 

- Comer cobra: acredita o povo que a serpente pode servir como alimento humano, desde que ao matá-la se deixe sangrar totalmente, pendurada, e se corte a partir da cabeça e da ponta da cauda, um palmo de comprimento de cada lado, eliminando as possibilidades de envenenamento.

- Espinho de cobra: o pior veneno da serpente não está na presa mas nas pontas das costelas (espinhos). Se alguém se ferir neles quando de uma carcaça em decomposição, terá uma ferida incurável no local. Se fincar no corpo humano, não pode ser retido facilmente, pois, como se fosse vivo, caminha por dentro dos músculos, gerando dor e mal estar, até chegar ao coração, ponto final da maldita jornada, causando a morte irremediável. Por isto o homem do campo ao matar uma cobra a enterra, para que seus ossos não fiquem expostos.

- Chocalho de cascavel: a medonha serpente viperídea Crotalus durissus pode ter sua idade contada pelo número de anéis de seu guizo: um para cada ano de vida. A ciência desmente, afirmando que cada anel corresponde a uma troca de pele, que pode acontecer mais de uma vez por ano. O povo não aceita, lógico. O chocalho é um aviso de periculosidade que Deus conferiu ao cascavel, para que alerte pelo som idiofônico aos humanos sobre a iminência do perigo. Esta crendice é contextualizada na disputa em forma de fábula entre a letalidade do cascavel com a urutu (Bothrops alternatus): dizem que as duas nutrem entre si uma inveja _ no tempo que os bichos falavam elas se encontraram no mato _ urutu logo disse que era pior. Tinha até um sinal de cruz na testa (daí ser chamada urutu-cruzeiro, devido ao desenho cruciforme que traz no couro) para atestar a morte que provoca, a que, replicou cascavel, que a peçonha dela era pior... batia o guizo antes da picada para que a vítima alertada, se movesse do lugar e assim não caísse sobre o próprio cascavel.

- Disputa das cobras: a crendice popular da primazia de poder das serpentes reflete-se em versos do nosso folclore. “Dona Josefina”, em 1996, cantou-me em Barbacena a seguinte quadra de calango:

Toda cobra carijó
Vive sempre de porfia:
Cascavel anda de rastro,
Caninana de rodia.

A caninana (Spilotes pullatus), serpente colubrídea de grande porte, é temida por sua agressividade, formando rodilhas e correndo atrás da vítima, embora a ciência não lhe atribua o caráter de peçonhenta.

- Lidar com cobras: valentia e poder sobrenatural teriam aqueles capazes de lidar com serpentes sem serem molestados. Propalar isto em versos é índice de firmeza espiritual. Tal acepção impregnou a cultura popular. Uma sextilha cantada no jongo de roça (canto de trabalho por ocasião dos mutirões de capina agrícola), me foi dada pelo Sr. Luís Santana em 1995, no Bairro São Dimas, em São João del-Rei:

Cascavel não me pica,
Tenho boa oração.
Jararaca perigosa,
Esse é meu lenço de mão.
Urutu por ser valente
É bainha do meu facão.

Um fragmento de calango do mesmo bairro, informado um ano antes, pelo saudoso José Camilo da Silva, dizia:
Fiz uma cama da onça,
Travesseiro do leão;
Cascavel do olho cinzento
Enrolado em minha mão ...

- Parentesco com as cobras: não adentrarei no hipotético totemismo, quiçá rastreável neste tema, em heranças africanas. Tão somente citar com brevidade que algumas criações poéticas do povo colocam o cantador como se fora uma serpente ou como seu parente, mais um alerta de não ser ofendido pois tem seu próprio “veneno”, como cantou num calango em 1999 o mestre “Faixa Preta” (José Francisco Sales), no Bairro Tijuco, aqui nesta cidade:

Eu sou filho da cobra-gira,
Neto da cobra-corá [coral]
Quero que você me diga
Quem ensinou Deus a rezar...

Presenciei na Festa do Divino de 2004, no Bairro Matosinhos, a uma demanda curiosa: um catupé daqui cruzou na frente do moçambique da cidade de Passa Tempo, em tom desafiador:

Cobrinha miúda, eu pego com a mão!
Cobrinha miúda, eu pego com a mão ...

Na voz do Capitão Luís Maurício a resposta veio certeira e imediata:

Eu sou cascavel dos brejos,
Da beirada do olho cinzento.
Quando eu dou minha picada
Não adianta gritar: São Bento!

- Na medicina popular: a banha (gordura) da sucuri (Eunectes murinus, boidae), conservada num vidro, serve de remédio ao reumatismo, bastando-se dissolver uma porção no café quente para beber. Uma quadrinha cantada no catupé do Bairro São Dimas, em São João del-Rei, do Capitão Luís Santana (1995) cita a imensa serpente, com o sentido provocativo da perda de congadeiro do terno por força de demanda:


"Mestre carreiro,
me conta como é que foi:
na várzea leve, 
sicuri laçou seu boi..."

- A origem do veneno: a peçonha das serpentes é benéfica no sentido que Deus as criou para que tirem o “mal ar”, convertendo-o em veneno, ou seja, as toxinas, fluidos, elementos que causam doenças e acometimentos espirituais pelo ar contaminado. Estas substâncias as serpentes absorveriam pela pele e depois seriam transformadas (quimicamente) em peçonha. Assim purificam o ar.

- O veneno da cobrinha: duas crenças curiosas são correntes por aqui _ a jovem serpente logo ao nascer do ovo não possui veneno algum. A mãe cobra então a engole, sem mastigar. Ilesa, a cobrinha vai passando viva por seu sistema digestivo, até então ser parida direto, isto é, sem intermédio de ovo. Nessa passagem por dentro da mãe é que adquiri desta o veneno. A outra crendice diz que o réptil jovem oferece mais perigo à vida que o adulto pois seu veneno é concentrado e mais forte, pois nunca foi diluído em outras picadas.

- O ardido da picada das vespas: a ferroada das vespas dói tanto porque nos transmite uma pequena parcela do veneno das cobras, não suficiente para matar. Assim me informou “Tião Abelha” em Santa Cruz de Minas por fevereiro de 1998. Isto porque, quando uma serpente morre, as vespas pousam sobre ela e chupam (absorvem...) seu veneno, bebendo seu sangue talhado (coagulado). Nesta terrível reciclagem duas espécies se sobrepujam: o marimbondo-pólvinha (de pólvora, alusão ao queimor da ferroada) e a abelha caga-fogo.

- A raiz da guaipeva: atestou-me um trabalhador rural originário de Santa Rita do Ibitipoca, por volta de 1996, o saudoso Sr. Júlio Prudente de Oliveira, grande conhecedor da cultura popular, que, certos feiticeiros, “cumba do papo amarelo”, isto é, grande conhecedores das artes mágicas, dos mistérios do além, tem o conhecimento de uma certa oração forte, inconfessável, capaz de, pronunciada adequadamente à Sexta-feira da Paixão, meia-noite (zero hora), fazer uma transformação extraordinária: tendo o feiticeiro cavado fundo ao pé da árvore chamada guaipeva e segurando uma de suas raízes pretas, a força das palavras mágicas da reza brava teriam a capacidade de convertê-la em serpente, uma perigosa jaracuçu (Bothrops jararacussu, viperidae). Ela se enrola no braço do sujeito e lhe confere fortaleza espiritual invencível. Em segundos a cobra misteriosa se enrijece, voltando a ser pau, mera raiz. Cortada em pedacinhos trazidos escondidos na algibeira, no bolso, livra o sujeito de qualquer demanda espiritual de inimigos, tornando-o invencível.

- Outra transmutação: cabelos humanos jogados em águas paradas, ferruginosas, podem se converter em serpentes, conforme ouvi e década e meia, em Santa Cruz de Minas, de minha sogra, sra. Elvira Andrade de Salles.

- Como afastar as cobras: existem várias receitas. Uma delas, um benzedor ensinou à minha mãe em São João del-Rei a três décadas: rezar para João Congo, um negro velho cujo espírito afastaria as serpentes. Outro benzedor são-joanense, do Bairro Senhor dos Montes, relatou-me, ainda este ano, que se deve fazer uma cruz com dois paus parcialmente queimados, restos de fogueira (tição), ficando o vertical com a ponta tostada para o lado do mato, onde manterá as cobras. Outra fórmula ensina queimar pneus ou outra borracha no arredor da casa. O cheiro da fumaça espanta as cobras. Andar com dente de alho no bolso também serve para o mesmo propósito. E ainda, dizia-me meu avô materno, Aluísio dos Santos, os caçadores outrora amarravam um patuá no pescoço dos cães de caça com um cordão. O patuá era um saquinho feito com couro de lobo, costurado nas margens de modo a não perder o conteúdo, que era uma substância chamada “sublimato corrosivo” (cloreto de mercúrio, veneno potente), cujo vapor, exalado por sublimação, espantaria qualquer serpente da frente do cachorro e de seu dono (*). É o princípio do contra-veneno, ou que, “um veneno combate o outro veneno”. Nesta acepção, a citada Dona Elvira dizia-me em fevereiro de 1998 que onde não há recurso, o que se pode fazer para salvar um ofendido por serpente é matar a cobrar, cortar um pedaço do meio de seu corpo (torete) e aplicar sobre o local da picada. Isto absorveria o veneno, salvando a pessoa [1].

- Briga da cobra com o lagarto: o teiú ou tejo (Tupinambis teguixin), grande lagarto teídeo, por ser muito territorialista, quando vê seu espaço invadido por uma serpente, trava corajosamente com ela uma luta, dando-lhe fortes chicotadas com a cauda. Se um bote da cobra lhe atinge, corre desenfreado pela mata. Mas não está fugindo. É uma retirada estratégica ... procura por uma árvore chamada cafezinho-do-campo ou árvore-de-lagarto, cuja raiz escava e morde tirando lascas. Mastiga e engole seu sumo. A raiz o cura do veneno da cobra e imuniza-o, correndo célere de volta ao campo de batalha, onde, às rabanadas, termina por vencer a cobra, matando-a.

- Atropelar cobra: ao ver uma serpente atravessando uma estrada deve-se evitar ao máximo atropelá-la, pois do contrário, o veículo dali por diante, como se acometido por uma maldição, passa a ter diversos problemas mecânicos inexplicáveis, ou como diz o povo, "se a roda passar na cobra, o carro vai quebrando em seguida..."


*  *  *

Estas são algumas crendices pertinentes ao rico folclore das cobras. Porém outras mais permeiam a cultura do povo. A devoção a São Bento, protetor contra picadas é um exemplo. Mas isto é assunto para outra página...

Notas e Créditos

* O antigo jornal de São João del-Rei, O Repórter, em sua edição nº28, de 19/08/1906, publicava anúncio do produto SURUCUINA, encontrado em São João del-Rei num estabelecimento comercial que era "depositario, nesta cidade, do afamado, conhecido e maravilhoso remedio", pelo preço de 7$500 o vidro, "poderoso preparado e efficaz contra mordedura de cobras venenosas". (Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida).
** Foto e texto: Ulisses Passarelli
*** Não deixe de ler neste blog o FOLCLORE DAS COBRAS - parte 2




[1] - No mesmo sentido do contra-veneno ouvia as crianças de meu tempo dizerem que se uma lagarta-de-fogo (taturana) sapecasse a nossa pele no mato, o remédio seria matá-la a aplicar sobre a queimadura suas vísceras ("tripa") que tirariam todo o veneno, bastando lavar depois.

2 comentários:

  1. Como posso referenciar esse autor em um artigo científico?

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    1. Entre em contato comigo pelo e-mail:
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