Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Moçambique de Ibituruna

Apresentamos nesta postagem um vídeo curto que mostra o momento da chegada do Moçambique "Nossa Senhora do Rosário", de Ibituruna, na voz do Capitão Antônio Salvador, em toque de jomba, ao café da manhã, durante o 3º Encontro de Congados de Tiradentes/MG, a 17/07/2016.








 Imagens do moçambique de Ibituruna durante o encontro. 

Ibituruna é cidade do Campo das Vertentes às margens do Rio das Mortes já em seu trecho de baixo curso. Junto à imponente serra homônima, se orgulha de ser, conforme dizeres de Diogo de Vasconcelos, "o mais antigo lar da pátria mineira". Com essa pomposa frase referia-se o autor nas páginas da história ao fato de ter sido a primeira povoação fundada em Minas Gerais, no remoto 1674, pelo célebre bandeirante paulista Fernão Dias Paes. Chefiando a Bandeira das Esmeraldas, que subiu do Vale do Paraíba para o ermo interior através da Mantiqueira, após atravessar o sul mineiro chegou ao vale do Rio das Mortes onde se viu obrigado a estacionar até o fim da estação chuvosa. Foi então oportuno fundar uma feitoria: Ibituruna. Eram pequenas povoações ou núcleos de fornecimento de mantimentos e víveres com o intuito de ser uma base permanente de suporte para a passagem das caravanas de bandeirantes.

Serra de Ibituruna, vista da cidade.  

Panorama da praça da matriz. 

Placa comemorativa do tricentenário nas imediações do Rosário. 

Marco de sesmaria, exposto na mesma praça da foto anterior. 

Igreja do Rosário no dia maior de sua festa,
repleta de assistência e congadeiros. 

A palavra Ibituruna é de origem indígena, de base tupi, significando "serra negra".

A cidade, cujo padroeiro é São Gonçalo do Amarante, possui ainda elementos significativos da arquitetura histórica. A Festa do Rosário é um grande atrativo turístico-cultural, no mês de junho, último final de semana, congregando congados visitantes de toda a redondeza, numa demonstração de ser um dos festejos congadeiros mais pujantes dessa área geográfica. 

Seu moçambique conserva os aspectos típicos autênticos dos moçambiques regionais, batendo na jomba velhas cantigas que rememoram o sofrimento do escravo e a devoção a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. 



Letra do canto

"Pai e Filho, Espírito Santo,
anjo da guarda do lado,      BIS
com as três palavras divinas,
trago o meu corpo fechado!"   BIS

"_ Aqui nesta casa, 
oi, mora quem é?
_ Bom Jesus!
Maria, José!"

"_ Na casa de nhônhô, 
nós reza sem santo...
_ Pai e Filho!
Espírito Santo!"

Referências Bibliográficas

VASCONCELOS, Diogo Pereira Ribeiro de. Breve descrição geográfica, física e política da Capitania de Minas Gerais. Estudo crítico por Carla Maria Junho Anastasia; transcrição e pesquisa histórica por Carla Maria Junho Anastasia e Marcelo Cândido da Silva. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1994.  188p. Coleção Mineiriana, Série Clássicos. 

Notas e Créditos

* Texto e vídeo: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 17/07/2016 (moçambique) e 30/06/2013 (cidade)
*** Para saber mais sobre moçambique, leia neste blog a postagem:

JOMBA: UM OUTRO TIPO DE MOÇAMBIQUE

sábado, 4 de junho de 2016

Moçambique na Jaguara





Moçambique "Santa Efigênia", de São João del-Rei/MG, Bairro São Geraldo,
cantando na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Jaguara
(Nazareno/MG), durante as comemorações da Consciência Negra. 


"Na igreja eu vou,
na igreja eu vou,
na igreja eu vou
ver Nossa Senhora 
e Nosso Senhor!"

Notas e Créditos

* Vídeo e fotografia: Iago C.S. Passarelli, 29/11/2015
** Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli

domingo, 22 de novembro de 2015

Moçambique: toque - jomba



Terno de Moçambique "Kincongo", de Nova Pedra Negra
(Ijaci/MG), durante a Festa do Divino no Bairro Matosinhos,
em São João del-Rei, batendo uma das variações do toque de jomba.
O começo do vídeo mostra o berimbau (urucungo), com sua corda 
única friccionada por um pano molhado. 

Notas e Créditos

* Texto, acervo e edição: Ulisses Passarelli
** Vídeo: Iago C.S. Passarelli, 19/05/2013. 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Jomba: outro tipo de moçambique

Um dos tipos mais conhecidos do congado mineiro é o moçambique, bastante divulgado no território estadual. Sua ocorrência é abundante desde a região do Triângulo, área central _ inclusive na zona metropolitana _ Campos das Vertentes, Oeste, Centro-oeste, Sul e Sudoeste de Minas Gerais. Eis a área principal. Fora esta, as ocorrências são mais pontuais. Mas o moçambique é também bastante conhecido em São Paulo, ou pelo menos sua modalidade "bate-paus", e o típico, em Goiás.

Mas assim como acontece com outros grupos da cultura popular de ampla ocorrência geográfica, o moçambique apresenta-se em diversas fisionomias conforme a região do estado. Então, quem assistir a um de Uberlândia e depois ver outro de Perdões, ou de Passos, ou de Ibertioga, se espantará com as diferenças. Conceitualmente, porém, todos são moçambiques.

O estudo da geografia dessas guardas é um trabalho de gigante, que demanda anos de pesquisas e viagens e que obviamente aqui está apenas tracejado.

Fato é que na Mesorregião Campos das Vertentes o tipo predominante é a "jomba", que relativamente tem bastante unidade estilística na área que ocorre, hoje mais reduzida, mas que já abrangeu a Microrregião de São João del-Rei e desta toma rumo oeste, até pelo menos arredores de Camacho. Rumores indicam que se esparramou em parte do sul mineiro, pelo menos aquelas mais influenciada pela cultura da zona contígua, mas não pude averiguar a veracidade. Informações verbais dão conta que no passado estes moçambiques já existiram em Lagoa Dourada, Resende Costa, Tiradentes, Ritápolis e Conceição da Barra de Minas, donde teriam desaparecido a várias décadas.

A jomba se diferencia do moçambique típico por alguns aspectos bem nítidos. O mais perceptível é o musical: ela não tem o vigor dos batidos firmes, pesados, típicos dos toques de serra-abaixo, serra-acima, marcha, angolano e indiano, ou o moçambique-liso do sudoeste mineiro, de repique contínuo, dentre outros, mas é uma marcação suave, de compasso mais lento, manhoso, quase arrastado, fazendo com que o dançante apenas balanceie o corpo em meneios cadenciados. Já por isto dizem, é "dança de negro velho": pouco acelerada, não se agita.

"Moçambiqueiro não pode correr,
não pode parar, não pode pular..."

E assim vão o dia todo. 

 Alguns grupos tem ritmo um pouco mais ligeiro, mas em geral há uma grande unidade musical. Outros, nos intervalos, introduzem toques de outros ritmos que chamam "moçambique-carijó", como com frequência vemos em São João del-Rei, ou marchas, à moda dos congos, como no grupo atual de Tiradentes. 

Outro diferencial são os instrumentos. Enquanto o moçambique típico se prende exclusivamente às caixas e pantagomes, além é claro das gungas (muitas...), na jomba, além destes, é permitida uma mescla: sanfona, puíta (cuíca) e urucungo (berimbau de barriga, mas sem percussão por varinha como na capoeira - um pano úmido é deslizado ritmadamente sobre a única corda, produzindo um gemido que faz par com o som da cuíca). Eventualmente violão e cavaquinho. O número de gungas é sempre menor que o moçambique típico e em algumas circunstâncias só o capitão usa; por vezes os guizos em jarreteiras substituem as gungas típicas. 

Em marcha pelas ruas a disposição espacial também muda. Não há a formação típica de duas filas de dançantes, ou, se há, ela vem desordenada. O grupo é adensado numa massa única, dançantes embolados, lado a lado e uns após os outros, o que gera a zombaria de outros congadeiros, que os grupos de jomba parecem enxame de abelha, tudo juntinho. Dançam assim mexendo os ombros, quase se esbarrando uns nos outros. 

A vestimenta é muito simples, quando muito a padronização da camiseta, ou um simples roupa branca. Alguns grupos usam casquetes, outros, chapéus. raramente turbantes ou lenços atados à cabeça, como é tão frequente ao moçambique típico. Outras vezes não tem qualquer tipo de cobertura na cabeça. É comum os capitães dançarem de paletó. 

A relação hierárquica com outros congados é mesma de prevalência dos moçambiques em geral, com a prerrogativa de levar a coroa e o andor. Mas observei diversas vezes que quando numa festa se encontram moçambiques típicos e jombas, os primeiros tem prioridade no cortejo. 

A cantoria da jomba é um eterno lamento. Chorosa, lembra bastante os cantos de trabalho, dos mutirões de capina de plantação e de roçada de pastos. Talvez por eles influenciada, tem um quê de mistério, ou antes de linguagem cifrada, sendo comum o capitão entoar versos pouco inteligíveis aos não iniciados ao universo do congado, muitas vezes querendo dizer algo, mas se fazendo entender por outra coisa. Daí um verso muito comum entre eles: "Eu falo jombê, você entende jombá..." A língua da jomba é quase um dialeto congadeiro: 

"Vovô pegou o machado
e foi no rio pescar;
vovó pegou o anzol
e foi a lenha cortar..."  

"Fala jombê!
Fala jombá!
Farinha na cuia,
nós vamos rezá..."

A cantoria perpassa os mesmos caminhos laudatórios dos outros congados, enaltecendo São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, além de relembrar fortemente os valores herdados do sofrimento do escravo e por fim, também recantando os valores espirituais da linha africana. 

"Que bom que acabou!
Que bom que acabou!
Dia treze de maio,
deu muito trabalho,
cativo acabou..."

"O vovô en'vém de Aruanda!
O vovô en'vém de Aruanda!"

"Nossa Senhora, 
mandou um recado,
festa do Rosário...
Me chamou! Me chamou! Me chamou!
Eu sou filho dela 
criado no congo, nhônhô,
eu vou! Eu vou! Eu vou!"

Uma peculiaridade é que os cantos, ou antes refrões são habitualmente compartilhados por vários grupos, variando apenas as estrofes improvisadas pelos capitães de acordo com o ditame da circunstância. 

"Puxa a serra, Maria!
Puxa a serra, Maria!
Que promessa pesada,
que a Maria fazia..."

"Vocês pensa que eu sou estrela,
estrela eu não sou não!
A estrela mora lá em cima
e eu moro aqui no chão...
eu vi ela caindo, 
ela me disse que não;
mais era a Nossa Senhora,
com seu rosário na mão!

Vou chegando, vou chegando, vou chegando..."

Uma outra peculiaridade é os capitães no ato de uma louvação tirarem o chapéu da cabeça e o trazerem junto ao peito, num gesto de humildade. De forma equivalente, dançante põe a mão espalmada sobre o peito. 

Na Mesorregião Oeste de Minas é comum os participantes das jombas serem trabalhadores das lavouras de café. Aliás, como observação prévia cuja confirmação demanda aprofundamento da pesquisa, evidencia-se uma forte ligação da cultura rural com o universo simbólico abordado pelas jombas, em suas cantorias moçambiqueiras. 


1- Moçambique "Nossa Senhora do Rosário", Ibituruna/MG.
Participação na Festa do Rosário em Passa Tempo/MG, 18/10/2015. 

2- Moçambique "Nossa Senhora do Rosário", Solar da Serra, São João del-Rei/MG.
Participação no 1º Encontro Congadeiros das Vertentes, São João del-Rei, 26/05/2013.

3- Moçambique "Kincongo", Nova Pedra Negra (Ijaci/MG).
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 08/06/2014.

4 - Moçambique "Nossa Senhora do Rosário", Santo Antônio do Amparo/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 08/06/2014. 

5- Moçambique "São Benedito e Santa Isabel", Santo Antônio do Amparo/MG.
Participação na Festa do Rosário em Passa Tempo/MG, 18/10/2015.  

6- Congado "Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia", Tiradentes/MG.
Participação no 2º Encontro de Congados de Tiradentes, 26/07/2015. 

7- Moçambique "Santa Efigênia", Santana do Jacaré/MG.
Participação no 2º Encontro de Congados de Tiradentes, 26/07/2015. 

8- Moçambique "Santa Efigênia", Bairro São Geraldo, São João del-Rei/MG.
Participação no 2º Encontro de Congados de Tiradentes, 26/07/2015.

9- Moçambique "Nossa Senhora do Rosário e São Benedito", Lavras/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 30/05/2004.   

10- Moçambique "São Benedito", Ribeirão Vermelho/MG.
Participação na Festa do Rosário em Ibituruna/MG, 30/06/2013.

11- Moçambique "Os Vergilhos", Bom Sucesso/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 24/05/2015.  
12- Moçambique "São Bernardo", Macaia (Bom Sucesso/MG).
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 24/05/2015.   


Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli
** Fotos: 1, 5 e 10, Ulisses Passarelli; 9, David Passarelli; demais fotografias, Iago C.S. Passarelli
*** Assista aos vídeos abaixo lincados: 

"Moçambique Santa Efigênia", São João del-Rei.

"Tradição de Congado Júlio Antônio e Cia.", Santo Antônio do Amparo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Moçambique de Ribeirão Vermelho


Moçambique "São Benedito" (jomba), de Ribeirão Vermelho/MG,
durante a Festa do Rosário em Ibituruna/MG. 30/06/2013.

Notas e Créditos

* Texto, vídeo e acervo: Ulisses Passarelli


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Festa do Rosário no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei

Iniciou-se ontem, no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei, mais uma festa congadeira dedicada a Nossa Senhora do Rosário, a se concluir no próximo domingo, dia vinte do corrente. Por volta das 19 h, duas guardas de congado da cidade se apresentaram no Salão Comunitário: o "Santa Efigênia" (moçambique, do próprio bairro), sob a direção do Capitão Tadeu Nascimento de Sousa e o "São Benedito e Nossa Senhora do Rosário" (catupé), capitaneado por Moacir Santana. 

Quatro mastros, pintados em azul claro e branco, cores estas dispostas em largas faixas, com a base pintada em preto, aguardavam deitados no fundo do salão o momento do levantamento. Diante de cada um, zeladoras seguravam os respectivos quadros emoldurados, enfeitados de fitas multicores: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e Santo Antônio Catigeró, os dois primeiros erguidos pelo Capitão Moacir e os dois últimos pelo Capitão Tadeu. A disposição dos mastros forma um amplo quadrilátero no largo, delimitando simbolicamente o espaço sacralizado onde dançarão os demais congados no dia maior. 

Cumpridos todos os rituais da cultura popular, os dois grupos se encaminharam à capela, onde, diante do altar, congadeiros, festeiros, comunidade e membros do Terço dos Homens deram início ao primeiro dia do tríduo preparatório, com a reza de um terço em favor da paz. Aliás, segundo o programa, os terços serão todos por esta intensão, na comunidade, na família e no mundo. 

Finda a oração, foram homenageados alguns membros de destaque na preparação da festividade, recebendo certificados mediante o rufar das caixas e chocalhar das gungas. 

Na sequência foi servido um lanche para os congadeiros no salão, despedindo-se em clima de confraternização até domingo, se Deus quiser, que terá animada programação a partir da alvorada, até a descida dos mastros 18 horas, que encerra as comemorações. 

"Olha que mastro bonito!  - bis
Quem levantar esse mastro,
ôh, mamãe ...
vai para Angola comigo!"
(jomba, cantada pelo Capitão Tadeu)


Cartaz da Festa do Rosário no Bairro São Geraldo,
São João del-Rei. Papel couché, 29,5 x 42cm.
 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 27/05/2026. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Segundo Encontro de Congados de Tiradentes

No último domingo do corrente, coincidindo com o dia de Santana, aconteceu em Tiradentes o 2º Encontro de Congados, promovido pela guarda "Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia", do Bairro Capote, sob a direção do Capitão Claudinei Matias do Nascimento, que carinhosamente todos chamam de "Prego" ou "Preguinho". O ano passado o 1º Encontro também aconteceu no último domingo de julho. 

Esta guarda nova (surgida em meados de 2012 *) é por assim dizer o resgate da antiga jomba que já existiu a muitos anos naquela cidade. Prego é um exímio artesão e além disto professor de capoeira. Seu trabalho abnegado, de âmbito familiar, se estende à comunidade e com a ajuda de algumas pessoas dedicadas consegue manter sua guarda de congado e envolver muitos jovens aprendizes, deixando a esperança de prosseguimento. Em sua humildade, sem alardes, vai fazendo um excelente trabalho cultural, repetimos, com a ajuda de poucos, diante de dificuldades gigantes. A guarda conserva elementos mistos de congos e moçambiques, e bate, sobretudo, marcha. Ao cantar sua toada lamentosa, parece que transporta nossa imaginação ao fundo de uma senzala ou de um eito de café, onde escravos trabalhavam. O canto ecoa com alma, anuncia o sofrimento, mas também a fé, a esperança e a resistência. No silêncio da Escrava Anastácia, de boca amordaçada, muita coisa é dita! Seu silêncio grita alto... Milagrosa para o povo, não tem sua santidade oficialmente reconhecida, mas é um ícone para a luta do negro. 

Mas a vitória ficou clara ontem. A jovem equipe do Prego, conseguiu arrastar para Tiradentes vários tipos de congados visitantes e alguns grupos de inculturação. Vieram de Dores de Campos, Carandaí, Ouro Branco, Miguel Burnier (Ouro Preto), Congonhas, Senhora de Oliveira, Conceição da Barra de Minas, São João del-Rei, Santa Cruz de Minas, Santana do Jacaré, Raposos e Conselheiro Lafaiete.

Os grupos se reuniram no Parque das Abelhas onde lhes foi ofertado o café da manhã, em espírito de grande cordialidade. Tocaram bastante naquelas imediações e depois seguiram em cortejo rumo ao centro histórico, atraindo bastante a atenção dos turistas, que se encantaram como a colorida movimentação. O ritmo parece que a todos cativava. Na escolas foi servido o almoço, com o sabor do tempero caseiro, que de fato só é possível quando se cozinha com amor. 

Na sequência passaram os grupos pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário e em procissão, trouxeram num andor uma imagem da Virgem Padroeira, até a acolhedora Igreja das Mercês, onde os grupos adentraram e participaram da celebração ministrada pelo Reverendo Padre Ademir Longatti, que tão bem recebeu os grupos culturais, que inclusive fizeram os cantos da celebração. 

Finda a missa, aconteceu o tocante rito da coroação da rainha do grupo de Tiradentes, com a participação do sacerdote e logo os capitães presentes foram homenageados. 

Os grupos cantaram seus agradecimentos e despedidas e partiram de volta para suas cidades. O grupo tiradentino permaneceu no adro, onde fez baixar os cinco mastros: Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e Escrava Anastácia. 

A todos os envolvidos no festejo este blog transmite a mais efusiva parabenização. A missão foi cumprida com aprumo, a despeito das dificuldades. Aqueles que não contribuíram ou não acreditaram perderam a chance de participar de um pedaço da história do lugar que vai sendo construída e pelo que se viu, tem futuro e potencial.

Abaixo segue por fim fotografias de alguns congados presentes neste evento, com a identificação da cidade de origem.

Claudinei, capitão e festeiro.
Tiradentes.
Carandaí. 

Conceição da Barra de Minas. 

Congonhas. 

Dores de Campos.

São João del-Rei, Bairro Matosinhos. 

Miguel Burnier (Ouro Preto). 

Ouro Branco. 

Raposos.

Santa Cruz de Minas. 

Senhora de Oliveira.

São João del-Rei, Bairro São Geraldo.

São João del-Rei, Bairro Solar da Serra.
Santana do Jacaré.

Mastros.

Notas e Créditos

* Esta guarda foi fundada inicialmente com o apoio do saudoso Capitão Luís Pereira do Santos, ligado ao povoado da Candonga. Tinha a princípio alguns elementos de influência rítmica de outras modalidades de congado. Logo o grupo ficou totalmente a cargo do Capitão Claudinei e se fixou na forma atual, na cidade de Tiradentes. Para uma visão breve de sua primeira participação em festa pública, ainda com poucos meses de fundação, ver a postagem: Congado de Tiradentes
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotos: Iago C.S. Passarelli

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O que é, o que é? Adivinhe se puder!

Adivinhações & Enigmas

O universo do folclore se descortina abrangente no horizonte da cultura. Existem muitas expressões culturais que nem sequer imaginamos, à primeira vista, que façam parte deste contexto das ciências humanas. Porque nós mesmos somos portadores de certos saberes que nos parecem tão simplórios, comuns, que não sugerem necessidade de abordagem especial.

Ledo engano. Tudo no folclore é importante. Uns folcloristas se especializam numa certa área, focam um tema em especial e, por vezes, algumas áreas ficam mais privilegiadas em volume de estudos. Brincadeiras de nossa infância passam-nos despercebidas na fase adulta, o que é o mesmo que matar a criança que há em nós.

No campo da literatura popular e da folk-comunicação se encontram muitas manifestações típicas do saber humano nessas condições supra. Este Blog nas próximas postagens fará breves revistas nesses temas a começar das adivinhações [1].

Alguns folcloristas tem se debruçado sobre a coleta e o estudo das advinhas. Elas não são exclusivas de nosso país, muito menos da região aqui estudada. Contemplando esta proposição, segue exposta uma curta coletânea de advinhas do Campo das Vertentes, especialmente ouvidas em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas, durante a década de 1990, exceto indicação em contrário.

***

É uma casinha de bom parecer,
Não há carpinteiro que saiba fazer...

(Resposta: amendoim em casca. Referência à casca seca com duas metades, que se prende às raízes da planta, dentro da qual ficam os grãos comestíveis.)

Trempe de ferro,
Barriga de pau,
Três crioulinhos
Tocando berimbau...

(Resposta: feijão, cozinhando na trempe. É uma referência às velhas panelas de ferro de fundo arredondado, com três pontas de ferro no fundo, fazendo de “pé” ou suporte. Ficam sempre tisnadas pelo fogo do fogão à lenha).  

Subi em cima de você,
Fazendo meu vai-e-vem;
N’eu subi, o leite desce,
N’eu descê, o gostoso vem...

(Resposta: a colheita do mamão. Quando se tira o fruto do mamoeiro escorre parte da seiva leitosa).

Menina vamos deitar,
Fazer o que Deus mandou;
Um por baixo, outro por cima,
A menina presa ficou.

(Resposta: menina dos olhos. Referência às pálpebras, que cerradas pelo sono escondem a pupila, popularmente chamada “menina dos olhos”).

Preto por fora,
Amarelo por dentro.
Tacho é, tacho é...

(Resposta: tacho de cobre. A resposta vem no próprio enunciado, curiosamente armado para causar confusão. O tacho, usado na produção caseira de doces, tem pelo lado interno a viva cor deste metal e pelo exterior o escuro do uso no fogão à lenha.)

Sou branco por nascença,
Preto por natureza,
A morte me faz alegria,
A vida me traz tristeza.

(Resposta: urubu. Esta ave necrófaga, da família cathartidae, Coragyps atratus, ainda ninhego, tem as penas brancas. Só na fase juvenil passa por muda, surgindo a plumagem preta).

A mãe é verde,
A filha encarnada;
A mãe é mansa,
A filha danada.
(Resposta: pimenta e pimenteira)

Um sobrado,
com duas janelas,
Que abre e fecha
Sem ninguém tocar nelas.
(Resposta: olho.)

Verde nasci,
De luto me cobri,
Para dar gosto ao mundo,
Para os ares me sumi.
(Resposta: tabaco)

Nasci no meio dos espinhos,
Nos espinhos fui criado.
Eu trouxe o nome de Ana,
Por Ana fui batizado.
(Resposta: ananás)

Meu estado é verde,
Visto-me de luto para morrer arrebentada...
(Resposta: jabuticaba)

O que é, o que é:
Que entra duro e sai mole pingando?
(Resposta: macarrão cozinhando)
O que é, o que é:
Que cai em pé e corre deitado?
(Resposta: chuva)

Qual é o céu que não tem estrelas?
(Resposta: palato, “céu da boca”)

O que é, o que é:
Que tem bico e não belisca,
Tem asa mas não avoa?
(Resposta: Bule)

Xará no nome,
Não no parecer;
Um canta dentro do outro,
O quê que pode ser? [2]

(Resposta: capoeira. A palavra capoeira tem aqui duplo significado: porção de mato no meio do campo ou cerrado, com árvores altas; pequena mata ou capão. Outro significado: nome de uma ave galiforme, odontoforídea, Odontophorus capueira, também conhecido por uru. A ave chamada capoeira canta dentro da mata chamada capoeira.)

As advinhas do tabaco e da pimenteira foram registradas há  muitos anos no Ceará por Leonardo Mota em variantes praticamente idênticas às apresentadas no presente texto [3]. Algumas usam as palavras com um sentido duplo, que induz ao pensamento de uma resposta chula, de conotação erótica, como as adivinhações da menina dos olhos, do macarrão e do mamoeiro. Outras tem uma conformação tipicamente rural, cuja linguagem fica com a compreensão limitada aos que não são afeitos ao palavreado da roça. A este exemplo estão as adivinhas da capoeira e da panela de feijão.

Câmara Cascudo revela de forma magistral e de leitura indispensável a universalidade das adivinhas, denotando interpretações e processo classificatório. Ensinou: “as fórmulas são rápidas, na maioria susceptíveis de metrificação para facilitar a assimilação mnemônica” [4].

Nos exemplos acima nota-se formulações muito simples, de frase única, como uma mera pergunta (“Qual o céu que não tem estrelas?”). Em São João del-Rei, nos anos 70 e 80 do século passado, havia esta adivinha: “Qual a diferença entre o bule e o padre?”. A resposta típica é curiosamente versejada: “O bule é de por café; o padre é de muita fé”. O enunciado sob o sotaque mineiro soa como "pô café". No ritmo do enunciado parece que se diz "pouca fé"... Portanto, uma adivinha bem humorada. Existem várias adivinhações no padrão de simples perguntas constituindo um passatempo brincar com elas.

Certas adivinhações assumem a forma de enigmas, distantes da fórmula típica do “o que é, o que é”. Os enigmas são adivinhações mais intrincadas, que não fazem necessariamente perguntas. São enunciados aparentemente sem nexo:

Quatro pés, em cima de quatro pés, esperando quatro pés.
Quatro pés não veio, quatro pés foi embora, quatro pés ficou.”

(Resposta: um gato sobre uma mesa esperando a passagem de um rato. O rato não veio, o gato foi embora, a mesa ficou.)

Eu vi um morto,
Carregando um vivo...

(Resposta: um cadáver descendo o rio boiando e o urubu em cima por causa da carniça.)
 
Passei na porteira: bá!
Toco minha galinha: xi!
Chamo meu cachorro: cá!
(Resposta: abacaxi)

Galinha no choco...
Cachorro late...
(Resposta: chocolate)

Um morreu,
Outro, está entre nós;
O terceiro, ainda vai nascer.

(Resposta: passado, presente e futuro)

            O gosto pelas advinhas se configura em outros formatos a exemplo dos jongos de roça ou jombas de roça, assim chamados certos cantos de trabalho de turmas de capinadores, que cantam em sistema de pergunta e resposta enquanto trabalham. Aqui em São João del-Rei o finado “Chico Cumbuca” saía com esta jomba:

O quê que nasceu suruco,
No alto do chapadão?

(Resposta: inhambu, ave tinamídea. Suruco (a): diz-se do animal sem cauda ou de rabo curto)

            Neste caso a adivinhação não é típica, porque se faz cantada em vez de enunciada. Mas o espírito de entretenimento e desafio é o mesmo. Um jongueiro de Santa Rita do Ibitipoca, “seu Júlio”, cantou-me um velho ponto de capina:

Olha o sapo de cangalha,
O mantimento, de quem é?

O outro trabalhador da turma respondeu ao desafio com este canto, emendando de imediato:

É da Fazenda do Rufino,
É do tenente-coroné!” [5]

Estas fórmulas se infiltraram de forma adaptada nos calangos como desafios de perguntas e respostas aos desafiantes; assim também nas chulas dos palhaços de folias de Reis, desafiando outros palhaços nos encontros de duas folias ou apenas brincando com o público da assistência. São extensões do processo de adivinhação, além das formas típicas.

       Assim, enigmáticas são as adivinhações. Linguagem cifrada, estimuladora do raciocínio, diversão simples das horas de vacância, de guris e adultos. Cultura popular genuína, antiguíssima, cosmopolita, mencionada desde a esfinge egípcia.

       E para encerrar, deixo esta para os leitores e leitoras decifrarem:

Vinte e cinco boi parado,
Vinte e cinco boi andando,
ganhando quinhentos réis,
quantos contos dá no ano? [6]


 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Informantes: Júlio Prudente de Oliveira, Aloísio dos Santos, Maria de Carvalho Santos, Elvira Andrade de Salles, Maria Aparecida de Salles, José Cândido de Salles, Francisco de Assis Cipriano.

Notas


[1] Para maiores referências às adivinhações, ler: 
OLIVEIRA, Sebastião Almeida. Cem Adivinhas Populares. In: Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Departamento de Cultura, 1940. n.66, p.59-76.
[2] Luís da Câmara Cascudo, no seu livro Folclore do Brasil (p.96) registrou a seguinte advinha tradicional, que se desenvolve de forma mais elaborada que a do capoeira, contudo, no mesmo padrão: 

"Somos iguais no nome,
desiguais no parecer;
meu irmão não vai à missa,
eu não a posso perder.
Entre bailes e partidas
todos lá me encontrarão,
nos trabalhos da cozinha
isto é lá com meu irmão."
(Resposta: o vinho e o vinagre)

[2] MOTA, Leonardo Ferreira da Mota. Cantadores: poesia e linguagem do sertão cearence. 3.ed. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1961. 302p. p.273.
[3] CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p.il. Verbete: adivinhas.
[4] Com procedência de Bias Fortes/MG, colhi como peça solta do cancioneiro, em variante: “Olha o sapo de cangalha / mantimento de  quem é? / É do homem da beirada / que não cuida da mulhé.”
[5] Contos: contos de réis, antiga designação monetária.