Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




Mostrando postagens com marcador gato. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gato. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Tradições acerca do gato

O gato na cultura popular é o símbolo da esperteza e da rapidez, mas também é entendido como uma criatura sonsa e traiçoeira, capaz de repentinamente mudar de gênio, de calmo para agressivo.

Acreditam alguns congadeiros em São João del-Rei/MG, que o tamborim, se revestido por couro de gato terá uma força muito maior que se fosse com o de boi, garantindo ao capitão que o usa, sagacidade no vencimento das demandas. O gato então é citado num ponto de catupé um tanto provocativo, coligido mesmo nesta cidade, em 1992:

"Eu quero vê!
Eu quero vê!
O pulo do gato, 
caxinguele-lê!"

O sentido é o seguinte: quem canta propõe um desafio ao terno visitante que chega em terra alheia sem a devida humildade _ quem pula melhor, com maior desenvoltura no congado? O "gato" é o congadeiro da terra, de casa, anfitrião; o "caxinguelê" é o congadeiro de fora, do mato, que não é do lugar, que veio de fora. O caxinguelê ou serelepe é um roedor extremamente ágil em seus movimentos.

No campo da crendice é assaz conhecido que gato preto dá azar a quem o ver atravessando o caminho adiante do observador. Igualmente difundido que o gato teria sete vidas, ou seja a faculdade de resistir à morte extraordinariamente. O povo também acredita que o gato transmita bronquite ou mais acertadamente a asma. Por isto não recomendam o contato muito próximo com o animal. Deixar o gato dormir na cama junto com a pessoa facilitaria essa transmissão. No mais há quem coma gatos, reputado como um bom tira-gosto, mas segundo se diz, não se deve chupar seus ossos como se faz com a carne de galinha, por exemplo, posto que a pessoa ficaria com "chieira" igual ao gato, ou seja, com o peito cheio, congestionado, gerando um som semelhante ao ronronado.

A figura do gato como animal doméstico propiciou o surgimento da crença que ele é um animal que teria uma ligação com o mal, o capeta. Talvez esta ideia tenha surgido de sua astúcia, dissimulação, tocaias, enfim, técnicas de sua própria natureza que objetivam sucesso na caça de suas presas naturais. Mas fato é que o povo interpreta estes atributos como sinais negativos [1]. 

No causo abaixo, de fundo anedótico, esta fama aflora e serve de motivo para o desenrolar da narrativa. Mais uma tradição popular corrente em São João del-Rei. Desta mesma cidade segue ainda uma versão da fábula assaz conhecida "O Pulo do Gato", que também reflete a esperteza do animal. 


O padre ludibriado pelo sacristão

Conta-se que um certo padre criava muitos gatos e o sacristão era encarregado de alimentá-los, mas o fazia muito a contragosto, pois odiava o serviço e mais ainda aqueles animais. Não via a hora de se livrar deles, que lotavam a casa paroquial. 

Fazia de tudo para convencer o sacerdote a acabar com os bichanos, mas sem êxito. Assim sendo, adotou nova estratégia e passou a afirmar que o gato não era bicho de bem, não era de Deus, mas do demônio. Mas o padre não acreditava e mantinha sua criação. 

Certa ocasião o padre precisou fazer uma longa e demorada viagem e deixou a gataiada [2] a cargo do sacristão como de costume. Era exatamente o que ele esperava...Todo dia, o sacristão aproveitando a ausência do vigário, juntava os gatos num cômodo pequeno, todo fechado e começava a gritar forte: "cruz, credo!", "cruz, credo!", "cruz, credo!" E enquanto gritava, batia violentamente com um chicote nos bichos que ficavam apavoradíssimos. Assim fez por vários dias. 

O padre então voltou da viagem e veio logo saber de seus queridos gatos. O sacristão de imediato falou que tinha avisado que os gatos eram do diabo. O vigário desacreditando, supondo uma bobagem, ouviu do sacristão que era só eles ouvirem a expressão "cruz, credo" [3] que fugiam apavorados... O padre quis tirar a prova e o juntou os gatos; o sacristão logo gritou: "cruz, credo!" Os gatos já condicionados pelo mal trato, se desesperaram e fugiram apavorados por todos os lados, miando em tom de desespero. E o padre, crente que o sacristão tinha razão, livrou-se dos gatos, para alegria de seu ajudante.

O pulo do gato

A onça admirava muito o gato por sua grande habilidade em dar saltos. Foi conversar com ele sobre isto e pediu que ele ensinasse a pular de todo jeito, pois precisava dessa habilidade para as suas caçadas. O gato, gentilmente, ensinou.

Passaram dias de aulas até que a lição chegou ao fim. A onça, muito astuta, resolveu armar um bote para pegar e devorar o gato, achando que já sabia de tudo e usando um dos saltos aprendidos com ele. Esperou de tocaia e pulou sobre o gato, com um habilidoso salto mortal. O gato, com extrema agilidade deu uma pirueta espetacular para trás e a onça perdendo o golpe que dera, ficou boquiaberta. Sem ter o que fazer, disse:

_ Ôh, compadre gato, que salto maravilhoso! Esse você não me ensinou...
_ Se eu te ensinasse esse pulo, você me comia!

Assim o gato se foi, deixando a lição que nem tudo a gente ensina...



Grafite inspirado em gatos, pintado sobre parede externa de residência à
Rua Alexina Pinto, na Bela Vista, em São João del-Rei. 03/07/2016. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Estas características despertaram também sua aproximação a alguns terreiros. Nalgumas quimbandas e umbandas o gato é animal votivo dos exus. Há vinte e poucos anos tivemos oportunidade de ver uma caveira de gato no interior de uma casa de força, de um desses terreiros, no Bairro São Dimas em São João del-Rei, como firmeza da linha esquerda. Um ponto cantado alude a esta aproximação:

"Exu ganhou um gato, 
mas não quis comer sozinho, 
dividiu com os camaradas,
pedacinho por pedacinho!
Aí chegou, seu Lucifer,
e a Pombogira,
era homem, era mulher..."

[2] Gataiada: muitos gatos. O sufixo "ada" na formação de um vocabulário popular é sempre de efeito superlativo: "chuvarada" (muita chuva), "dinheirada" (muito dinheiro), "peixaiada" (muitos peixes), etc. 
[3] Cruz, credo!: expressão popular de natureza exorcisória, esconjuro, fórmula verbal de catarse.

- Informantes: José Camilo da Silva, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1992 (caso do padre; ponto do gato com caxinguelê), Luís Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1995 (fábula do pulo do gato). 
- Revisão: 26/10/2025. 
- Leia neste blog outros contos tematizados na suposta negatividade do gato, clicando nos links abaixo:

O GATO MALDITO: UM CONTO DO DEMÔNIO LOGRADO

UM CONTO POPULAR DE FIM TRÁGICO



domingo, 26 de outubro de 2014

O gato maldito: um conto do demônio logrado

Certo dia, um homem apareceu em casa com um gato e estava muito feliz por ter encontrado o bicho. Entregou-o à esposa e pediu que tratasse dele. Foi trabalhar. A mulher cuidava do felino e o gato sempre comia a fartar, mas todos os dias quando o marido chegava da labuta, o gato vinha ronronando, se esfregava na calça do dono e miava muito como se estivesse com fome. 

O homem começou a se chatear com a mulher, acusando-a de não alimentar o animal, pelo qual tinha tanta estima. Achava uma covardia deixar o bichano passar fome e ela se defendia dizendo que o tinha alimentado bastante. O marido não acreditava porque o comportamento do gato era de quem estava com muita fome. Assim a discórdia do casal aumentou dia a dia por causa do gato, a ponto do marido agredir a mulher. 

Foi então, que, certo dia, o homem passando por baixo de uma ponte escura e deserta ouviu vozes debaixo da mesma. Foi espiar e admirou ao ver vários capetas em reunião, contando os seus feitos malfazejos daquele dia. E ouviu um dos diabos dizer: 

"_ ultimamente tomei a forma de um gato e causo brigas entre um casal, porque o homem, ao voltar do serviço, acha que a esposa não deu comida para mim."

O homem trabalhador voltou apavorado para casa e foi se preparar para o gato maldito. Empilhou lenha para fazer uma fogueira e arranjou um cordão bento de São Francisco. Quando o gato apareceu ele o pegou de repente e amarrou as patas com o cordão. Jogou o gato ao fogo dizendo firmemente à mulher que não interferisse que ele sabia o que estava fazendo. Foi então que se ouviu um forte estouro que marcou o desaparecimento do tentador. A partir de então o casal voltou a viver bem, com paz e união. 


Demônio. Parte de um painel pintado na parede direita da nave
da Igreja de Santo Antônio. Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
(São João del-Rei/MG)

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 19/10/2014.

Notas 

- Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1994.

- Obs.: este conto se enquadra na categoria das narrativas do "demônio logrado", quando as artimanhas malignas são superadas pela sagacidade humana. Conserva elementos folclóricos tradicionais, quais sejam, temas e fórmulas típicas: o gato como animal negativo (paralelo com sua preguiça e dissimulação - atributos do mal); satanás atentando um bom casamento para destruir a união; o cordão bento de São Francisco de Assis como amuleto capaz de amarrar e rebater o malefício; o fogo como elemento de catarse, purificação; a explosão como fórmula clássica de desaparecimento do demônio expulso. Em seu bojo, o conto transmite o ensinamento religioso de que a tentação vem muitas vezes sob aparências inocentes e chega sem avisar, sendo necessário, como ensinou o Divino Mestre, vigiar e orar. 

- Revisão: 03/08/2025. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um Conto Popular de Fim Trágico

No universo cultural brasileiro, no campo das tradições populares, as narrativas merecem uma atenção especial: contos, fábulas, lendas, mitos, causos, o anedotário. A "contação" de estórias embalou muitas pessoas, de várias gerações, nas cozinhas de roça, junto ao fogão "de lenha", no alpendre, no rancho boiadeiro aguardando passar a noite. Os mais velhos narrando sua experiência de vida aos jovens, parábolas do cotidiano ou aquilo que aprenderam com seus pais, avós... As senhoras na faina de fiar e tecer, iam narrando sem parar as hábeis mãos, enquanto a jovenzinha ao lado ajudando em pequenas tarefas, mas aprendendo o ofício, ouvia as velhas narrativas, "do tempo dos antigos", "do começo do mundo", "do tempo que os bichos falavam". 

Elas conservam uma riqueza extraordinária de dados da vida social e velhos elementos jurídicos. Os costumes encarnam nos próprios personagens, que por sua vez refletem, muitas vezes, os próprios membros daquela comunidade. 

A maioria dos contos termina de forma positiva, ou seja, com uma lição moral, um ensinamento religioso ou algo do tipo. É bem conhecida nos contos de fadas a fórmula de desfecho "viveram felizes para sempre". Mas como toda regra tem exceção, na pequena narrativa abaixo a protagonista tem um final trágico. Classifica-se entre os chamados contos de natureza denunciante: um animal ou vegetal ganha voz humana e denuncia um crime ou perigo. Dois temas recorrentes nos contos são vistos neste: a vida fidalga das princesas e o gato como animal influenciado por forças do mal,anti-religiosas. 

Transmissão de Saberes.

O Gato Incendiário

Faz muito tempo atrás, vivia uma princesa num castelo. Assim eles contam, os antigos, Então deve de ser verdade porque eles eram muito sabidos, tinham ciência das coisas...

Num castelo vivia uma princesa que tinha um gatinho, muito da sua estimação. Tratava ele a pão de ló mas parece que o bicho era atentado pelo demo.

Foi um dia, a princesa antes de dormir acendeu uma vela no oratório, que ficava na parede por cima da cama.

O gato, muito azucrinado, depois que ela dormiu, pulou no oratório e derrubou a vela em cima do lençol fino, de cetim. O fogo lastrou rápido e vendo aquilo, um ratinho anunciou assim, tentando salvar a todos:

Acorda, celentríssima,
acorda com bonança;
chama a forgazona,
que o mardito papa-rato
pois fogo na traficança!

Mas com sua vozinha fraca de camundongo não conseguiu despertar a princesa do sono profundo que tinha. Quando ela acordou já era tarde, pois as chamas tinham dominado toda sua cama ...

Pequeno Glossário

- Tratar a pão de ló: com requinte, da melhor forma possível.
- Celentríssima: corruptela de excelentíssima. 
- Traficança: conjunto de peças, reunião de objetos. Muitas coisas reunidas, tralha. No contexto versificado é uma referência ao conteúdo do quarto que pegava fogo. 
- Forgazona: folgazona; provavelmente a ama seca; lacaia. 
- Mardito papa-rato: maldito gato.

Notas e Créditos 

* Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1997.
**Texto e fotografia (2004): Ulisses Passarelli.