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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cangalha

Cangalha [1] é um utensílio arqueado, feito em duas peças interligadas, com dois ganchos de cada lado, todo em madeira, que se adapta ao lombo de um animal cargueiro (burro, besta, jumento, cavalo ou égua, mas quase sempre um muar), sobre uma proteção ou forro para não ferir o animal. Sobre ela se prende um determinado carregamento: pode-se empilhar lenha, cana ou bambus para o transporte. Noutro tipo, não há ganchos mas um detalhe em madeira propício para se prender o jacá [2] ou a bruaca [3].

É um objeto de feitura artesanal, rudimentar. Quando algo está atrapalhado, mal enjambrado, desajeitado, diz a voz popular que está "escangalhado". Um provérbio popular diz: “bater na cangalha pro burro entender”. O sentido é o seguinte: às vezes é necessário uma certa rispidez para que o outro compreenda o que se quer instruir; ou, por vezes é necessário agir por meio indireto para se chegar ao resultado; sugerir; indicar, sem deixar às claras, deixando que o raciocínio e a intuição do próximo descubram o restante. 

Nos congados (catupés) de São João del-Rei aparecem dois pontos cantados com tema neste objeto: 

"Ai, o Rei com a Rainha   BIS
tava muntado na cangaia...” 

(Capitão Luís Santana, 1993. Cangalha no caso é figura de linguagem irônica para indicar uma padiola ou tablado que suspende as figuras reais em destaque, como um dispositivo instalado na praça para ressaltar o reinado.)

“Meu burro morreu, 
e a cangaia ficô; 
num sei pra quem fica 
num sei pra quem dô!” 

(Capitão José Camilo, 1994. Sentido: cangalha sem o burro é imprestável. A sugestão é deixar para o desafeto...)

"Cangalheiro" é o animal treinado a trabalhar com cangalha, ou, o artesão fabricante de cangalhas. 

No passado, a figura dos burros encangalhados era muito comum, graças aos tropeiros. Estes trabalhadores conduziam pelo interior conjuntos de animais cargueiros levando e trazendo produtos entre sertão e cidades, Brasil afora, inclusive nesta região. Foram comuns por exemplo e marcaram época e cultura em Prados, Tiradentes e Dores de Campos [4].  

Em São João del-Rei, ficou na memória dos idosos que vislumbraram o período anterior ao da comodidade do botijão de gás nas cozinhas, quando a grande maioria, senão todas as casas, tinham fogão à lenha ("fogão de lenha", dizem). Então, naquele tempo, pela rua afora, tropas de burros passavam com as cangalhas carregadas de lenha, trazendo-as já encomendadas ou tentando a sorte. Até cada porta vinha o condutor da tropa de lenha e perguntava ao morador se estava precisando. Em caso afirmativo dava o preço de um cargueiro, ou de meio, correspondente à carga de uma cangalha completa e ou apenas um de seus lados, respectivamente. Em caso afirmativo, desembarcava-se a lenha para o freguês, no ponto que ele queria, recebia-se o pagamento e ia-se à procura de outro comprador do restante do carregamento [5]. 

Essa lenha vinha sobretudo de nossa histórica Serra do Lenheiro [6], que não tem este nome à toa, fonte que era de fornecimento de lenha para o arraial, vila e depois cidade de São João del-Rei. Na área serrana, o Morro dos Macacos foi uma área de intensa atividade de lenhadores, valendo-se para o transporte da "Estrada do Cascalho", denominação local de um trecho do Caminho Velho. Narrativas orais também descrevem que muita lenha descia o Rio das Mortes empilhada em barcaças, parando para desembarque junto à Ponte do Porto, entre Santa Cruz de Minas e São João del-Rei, donde segui por meio de carroções, carros de bois e burros cargueiros com suas cangalhas [7]. Cerrados, carrascais, restingas, saivás e capoeiras foram abatidos e conduzidos em fileiras serpenteantes de muares morro abaixo e morro acima, ardendo nos fornos e fogões, como garantia do pão de cada dia. 


Artesanato em madeira da cidade de Prados, figurando burros cargueiros
com jacás e lenha na cangalha. Década de 1990. Acervo do autor. 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli. 
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli.

Notas 

[1] No estado do Tocantins, próximo à divisa com o Maranhão existe a "Serra da Cangalha", uma cratera de impacto. Nas imediações do Vale do Rio Paraíba, em São Paulo, localiza-se a "Serra do Quebra-cangalha", contraforte da Serra do Mar. Por aqui também temos o topônimo "Quebra-cangalhas": a Resolução nº330 da Câmara Municipal de São João del-Rei, de 26/08/1905, aprovava as contas e ação executiva de reconstrução de duas pontes no distrito do Rio das Mortes, e ainda, os reparos na estrada que vai desse lugar ao Quebra-cangalhas (jornal O Repórter, n.34, 10/09/1905, São João del-Rei, acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida). No município de Ritápolis há uma unidade fluvial denominada "Córrego da Cangalha". 

[2] Jacá: grande balaio de abertura circular, trançado artesanalmente em taquara, usado para carregar espigas de milho, capim picado para tratar do gado, etc. 

[3] Bruaca: mala de couro cru, usada pelos tropeiros no lombo dos burros para carregamento. 

[4] Vide a respeito desta última cidade o excelente registro contido no livro "Memória Tropeira", organizado por Luiz Antônio da Cruz e Maria José Boaventura. Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico, 2015, 70 p.il. 

[5] Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, Centro, 1995. 

[6] O reverendo irlandês Robert Walsh esclareceu em 1829 a razão do nome: “São João fica situada no sopé da Serra do Lenheiro, em cuja superfície escalvada, os lenhadores, que lhe deram o nome, não deixaram de pé um único arbusto”. WALSH, R. Notícias do Brasil em 1829-1829. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp,1985. 594p.

[7] Informantes: José Cândido de Salles, Córrego, Santa Cruz de Minas; Luís Pereira dos Santos, Candonga, Tiradentes. c.2000. 

- Leia também neste blog a postagem LENHEIRAS.
- Revisão e ampliações: 20/07/2025 e 22/09/2026. 

sábado, 18 de outubro de 2014

Mascates

Mascate era o caixeiro viajante, o vendedor ambulante, que passava pelas casas com produtos à venda, principalmente nas propriedades rurais, tais como: tecidos e objetos diversos, utensílios, pentes, perfumes, fitas de qualidade para os laçarotes das mocinhas, aviamentos, artigos de toucador e armarinho.

Na vida itinerante, sem paradeiro fixo, acompanhavam-se de animais cargueiros que levavam no lombo caixas de madeira (canastras) e malas de couro (bruacas), contendo os produtos. De costume, paravam nos mesmos pontos de pouso dos tropeiros, muladeiros e boiadeiros. Nos ranchos de descanso compartilhavam com os demais trabalhadores viajantes, os cantos, as superstições, as afinações de viola, as lendas, as receitas com raízes e folhas, os saberes do povo, incorporando e disseminando a cultura popular. 

Na tradição oral a maioria dos mascates eram "turcos", designação imprópria por demais genérica, e se não mesmo eivada de um cunho discriminador, dirigindo-se não só aos migrantes propriamente da Turquia, como também aos sírios e libaneses. 

Algumas vezes a Câmara Municipal de São João del-Rei aprovou resoluções visando regulamentar a atividade dos mascates. O Código de Posturas de 1887 [1] fixava o imposto sobre sua atividade (artigo 240):

- §48: "de cada mascate de figuras de gesso, imagens, quadros, ornamentos de casa e objectos semelhantes ... 5$000";
-  §64 "de vender em mascateação objectos de lata, cobre, etc... 10$000";
- §75 "de negociar, em mascateação, fazendas e objectos de armarinho, sendo em cargueiros... 20$000;
- §76 "de negociar, em mascateação, fazendas e objectos de armarinho, sendo em volumes conduzidos ás costas... 10$000;
- §77"de negociar, em mascateação, fazendas e objectos de armarinho, em pequenos volumes conduzidos á mão...5$000.

Já o artigo 247 diz expressamente: 

"Aos mascates, caixeiros ou agentes de qualquer mascateação que, encontrados a negociar dentro do municipio não apresentarem a competente licença, serão multados em 30$000 e apprehendidos os objectos da mascateação e depositados até que paguem a respectiva licença e as despezas que acrescerem". 

Uma determinação da Câmara Municipal são-joanense do fim do século XIX, obrigava “sob multa de Rs 50$000 os mascates a trazerem as licenças pregadas e expostas nos bahús, taboleiros, canastras, etc.” [2] 

Nova regulamentação surgiu em 1905, com a Resolução nº321, de 03 de abril, que autorizava o agente municipal (equivalente ao atual cargo de prefeito) a nomear um arrecadador especial para a cobrança de impostos sobre mascates, podendo despender até trinta por cento sobre a respectiva arrecadação [3].

Desapareceram os velhos mascates, da forma tradicional como foram conhecidos há um século atrás. A atividade exaustiva foi alvo de taxas e cuidados das autoridades, naturalmente motivadas por sua itinerância. Deu lugar a outras formas de comércio. Porém, é certo que contribuíram para construção da nossa identidade, no intercâmbio com outros trabalhadores das estradas e caminhos, com os fazendeiros, sinhazinhas e roceiros nos arraiais.

Burros cargueiros carregando canastras, flagrados no Festival de Carros de Bois e Tropeiros de Tiradentes
relembram os velhos tempos das tropas e mascates.


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 05/10/2013 .

Notas

[1] Codigo de Posturas e Regimento Interno da Camara Municipal de S.João D'El-Rei. Ouro Preto: Província de Minas, 1887. 99p. 
[2] Jornal: São João d’El-Rey, n.10, 25/03/1899.
[3] Jornal: O Repórter, n.25, 02/07/1905.
- Agradecimentos ao Guia de Turismo e Pesquisador, Luiz Antônio Sacramento Miranda, de São João del-Rei. 
- Leia também: CAMINHOS DO FOLCLORE .
- Revisão: 18/09/2025.