Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sábado, 19 de julho de 2014

Parabéns pra você... dois anos no ar!

Hoje é aniversário do TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES. Com muita satisfação completamos dois anos no ar, superando as adversidades diárias. Vencemos a primeira prova de fogo das estatísticas, mantendo a página ativa com suas (agora) 360 postagens, cerca de 44.000 visitas (incluindo diariamente um grande número de internacionais) e constantes acréscimos de conteúdo. 

O blog tem buscado variar os temas sem sair de sua diretriz, perpassando a memória ferroviária, as festas religiosas, os costumes, as superstições, medicina popular, história, folk-comunicação, literatura oral, toponímia, defesa ecológica, folguedos e danças folclóricas, ritos, lúdica, lendas e mitologia, poesia folclórica, festejos, etc. 

O ecumenismo sinaliza para este blog o valor da cultura dentro das religiões e um caminho para a educação e a paz.

O ideal traçado foi mantido com fidelidade: difundir os valores da tradição regional, ressaltar o papel dos mestres da cultura popular, dar visibilidade ao folclore, escrever sobre a história não oficial, anunciar festejos típicos, fazer observações sobre o seu caminhar, despertar o interesse pela pesquisa, registro e preservação. A isenção político-partidária foi mantida e a finalidade lucrativa nunca conquistou esta página eletrônica. O ativismo cultural é o motor deste blog. 

Se o blog sobreviveu até aqui é porque abnegados companheiros o acharam merecedor e ajudaram a divulgar as postagens pela mágica dos links. A eles agradecemos, bem como a todos os visitantes, assíduos ou eventuais, nacionais ou estrangeiros. O número crescente de interessados nos assuntos aqui tratados é o estímulo para a continuidade. 

1- O querido carnaval, desde os tempos do entrudo, envolve muitos elementos da cultura popular.
Nesta fotografia, máscaras usadas pelo bloco Os Caveiras, de São João del-Rei,
trabalho em papel machê do artista Delci Vieira. Década 1990. 

2- Bambus votivos: à esquerda, bambu-catendê, na Serra de São José (Coronel Xavier Chaves); à direita, bamburecema, na Igreja Velha, em Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei) _ plantas votivas dos orixás das matas e dos caboclos, empregadas em rituais nos terreiros de matriz africana e que o povo usa para fazer rodilhas contra mau-olhado ... Ano de 2014.

3- Capela de São José, Águas Santas (Tiradentes), do final do séc.XIX.
Nas capelas e igrejas acontecem as festas populares, onde o povo mescla sua fé às tradições. 2014.

4- Nos distritos as manifestações folclóricas são vigorosas, como este congo
de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), unindo colorido, musicalidade, dança e devoção. 2013.

5- Nalguns cruzeiros o povo ainda se reúne em maio para as rezas e cantorias dedicadas à Santa Cruz,
como neste, em Trabanda do Corgo  ("Outra Banda do Córrego"), distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno

 (São João del-Rei). 2014.

6- Resquícios da outrora pujante EFOM, jazem à espera de restauro, utilidade e valorização,
como esta velha estação abandonada em Nazareno. 2014. 

7- A fé se manifesta concretamente no depósito de ex-votos nas "salas de milagres",
a exemplo destes, de natureza ortopédica, no Santuário da Santíssima Trindade, em Tiradentes. 2014. 

8- A tradição das folias de Reis é muito arraigada à região, tendo no "Encontro de Capelinha",
em Mercês de Água Limpa (São Tiago), um de seus pontos altos.
Esta foto de 2009 mostra a presença de um grupo de Lavras. 

9- As grutas são pontos muito tradicionais de reunião de fiéis para preces e festejos.
Esta, consagrada a São José, situa-se na Avenida dos Independentes, no Recreio das Alterosas,
Bairro Colônia do Marçal, São João del-Rei. 2014.

10- As festas do Rosário revelam a grande força do devocionário popular, onde os congadeiros
dançam e cantam sua fé. Igreja do Rosário, Dores de Campos, 2010. 

11- Porteira típica nas imediações do Montividiu (São João del-Rei), 2013.
As porteiras despertam temor por se creditar a elas morada de espíritos assombrosos...

Ao passar por uma porteira deve-se  fechá-la sem deixar que bata, para não atraí-los. Dá azar. 

12- Uma típica cerca de bambus, ladeia uma placa indicativa de direção para um povoado de São João del-Rei.
A toponímia valoriza uma família relevante no povoamento regional. Os nomes dos lugares e ruas devem ser preservados. Distrito de São Miguel do Cajuru. 2013.


Notas e Créditos

* Texto e fotos (2, 3, 5, 8, 9, 10, 11,12): Ulisses Passarelli
** Demais fotografias: Iago C.S. Passarelli
*** Assista ao nosso novo vídeo:


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Rasoura dos Passos

É COM MUITA SATISFAÇÃO QUE COMUNICO O RETORNO DAS POSTAGENS DESTE BLOG, INFELIZMENTE, SUSPENSAS DESDE JANEIRO DESTE ANO, EM DECORRÊNCIA DE PROBLEMAS TÉCNICOS NO COMPUTADOR. POR ISTO PEÇO DESCULPAS AOS CAROS LEITORES E LHES AGRADEÇO PELAS VISITAS, QUE, A DESPEITO DA FALTA DE NOVAS  POSTAGENS NESTE PERÍODO, AINDA ASSIM, SE MANTIVERAM EM BOM NÍVEL. CONTINUAREI NA MESMA LINHA DE PRODUÇÃO ATÉ A HORA QUE DEUS QUISER. AMÉM! 

PARA INICIAR ESTA SEGUNDA FASE, INCLUI O TEXTO "RASOURA DOS PASSOS", EM MEMÓRIA DAS COMEMORAÇÕES QUARESMAIS DE SÃO JOÃO DEL-REI, RECÉM PASSADAS. AS FOTOS SÃO RECENTES MAS O TEXTO EM SI NÃO. O RITUAL PORÉM PROSSEGUE, ANO A ANO. A PAR DESTE POST,  SUGIRO QUE LEIAM TAMBÉM  O "RASOURA DAS DORES", POSTADO EM JULHO DE 2012, POIS AMBAS AS RASOURAS ACONTECEM NO MESMO DIA, EM IGREJAS DIFERENTES. SEGUE IGUALMENTE INCREMENTADO POR FOTOS DESTE ANO. ESPERO QUE AGRADEM. 

BEM VINDOS DE NOVO. VISITE, DIVULGUE E VOLTE SEMPRE A ESTA PÁGINA. 



Imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos em seu andor aguardando o momento da rasoura, na Igreja de São Francisco de Assis e a Rasoura das Dores contorna o Largo do Carmo,
em São João del-Rei/MG

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RASOURA DOS PASSOS

 Ulisses Passarelli

               Dentro da monumental Igreja de São Francisco de Assis, em São João del-Rei, exala-se um odor diferente, que muitos consideram sagrado. É o rosmaninho, aquela planta colhida nos pastos úmidos e de terra boa, que se cobre de roxas flores na quaresma. Desfolhado no tabuado bicolor do assoalho, confere um ar pitoresco ao templo. Retribui o pisoteio dos fiéis soltando o seu aroma. Aliás, diz o povo: “quem passá pelo rosmanin’ e não chêrá, para o céu não irá”.
                O santo de Assis e todos os outros, estão encobertos de cortinas roxas, marcadas na frente por uma cruz amarela, agalonada. Todas as atenções se voltam para o Senhor dos Passos, visível em seu grande andor, lá no presbitério. Tem dois círios acesos na dianteira. Hortências lhe adornam a feição pesada. Enfim, carrega naquela imensa cruz preta, todos os pecados da vil humanidade.
                Os fiéis, arrependidos e com todo o respeito, ajoelham-se ante a grande imagem, da qual sai longa fita roxa, que repousa sobre um genuflexório e termina num escapulário, onde estão bordados estigmas da Paixão. Ali, uns após os outros, depositam o ósculo devoto. É possível ver que com discrição, muitos dão uma ou três voltas em redor do andor, e ao passar pela cruz, cuja base está suspensa por um gancho de ferro – o sirineu – (lembrando o Simão bíblico, que ajudou a segurá-la), em vez de rodeá-la por detrás, beijam-lhe e passam por debaixo, o que simbolicamente é uma limpeza dos males. Este ato em si mesmo configura-se em si mesmo como folclórico, típico da espontaneidade da cultura popular. Ao mesmo tempo Cristo está também carregando a nossa cruz, um pesado fardo pecaminoso.
                A igreja está repleta. Os bancos são tomados. De fora, muitos estão no formoso adro, conversando enquanto aguardam. De dois janelões frontais pende longa flâmula roxa com quatro letras douradas: S P Q R,  iniciais da arrogante expressão latina “Senatus Populus Que Romanus” (senado e povo romano), símbolo do poder de mão de ferro, emblema da ignóbil condenação. Mas ao povo isso pouco importa e preferem dizer que são iniciais de “sal, pão, queijo e rapadura”, ou ainda com mais gaiatice, “São Pedro quer rapadura”.
                Chega a banda militar, afinadíssima. Dá gosto ver o esmero do uniforme, os coturnos pretinhos de graxa, a disciplina.
                Lá dentro, o coral tudo de preto, como num luto à antiga, se posiciona atrás do andor e entoa o comovente “Miserere”, de Manoel Dias de Oliveira. Segundo a sua misericórdia, o Senhor dos Passos nos olha. Seu olho é de vidro, mas parece vivo, carregado de Paixão e acho que também de dó de nós, que não sabemos o que fazemos. Perdoai-os, Pai!
                A irmandade toda na dianteira. Opas e chamas bruxuleantes deixam em passos lentos o templo. Varas de prata emblemáticas reluzem. Sua excelência reverendíssima vem também, cingido de mitra e munido de báculo. Os sineiros se esforçam no movimento insistente do pesado sino. Seu badalo está enfeitado de um penacho de fitas roxas, que varrem o beiral de pedra da torre a cada giro. Para quem sente, ele não ecoa no bronze, mas no coração. O sol de março dá um brilho incomum às orquídeas em buquê, na mão do Mestre. Tais catléias, algumas pessoas cultivam em especial para essa ocasião.
                O povo acompanha. A banda também, com sua melodia fúnebre. O Senhor balanceia, ferido, cheio de escárnio, com a imensa cruz no ombro. “Abre a porta gente, lá en’vem Jesus! Ele en’vem cansado com o peso da cruz... Vem de porta em porta, vem de rua em rua, vem salvar as almas, sem culpa nenhuma...”, dizem uns versos do cancioneiro popular, que nessa hora me correram à lembrança.
                Ah! Lembrei. Tem também o insigne Padre Pedro Teixeira, o mais barroco dos nossos sacerdotes, com sua capa de asperges sob o pálio, trazendo à mão o Santo Lenho. A sua passagem o povo se persigna.
                A pequenina procissão retorna para a celebração da Santa Missa. Pequena no tamanho, mas não na solenidade. A orquestra se posiciona, gemem os violinos. Comungamos e o Senhor nos conforta...
  
                                                                                                               (Quaresma de 2006)

Imagem do Senhor dos Passos e de fiéis passando por baixo de sua cruz. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli, quaresma de 2006
** Fotografia e foto-montagem: Iago C.S. Passarelli, março/2013

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Rasoura das Dores

                                                                             
Rasoura é uma pequena procissão, circunscrita aos arredores da igreja donde sai. Dizem que tamanho não é documento. Como de fato, o pequenino cortejo processional não dispensa uma certa pompa e aparato.

No quarto domingo da quaresma sai a Rasoura de Nossa Senhora das Dores, da Igreja do Carmo, em São João del-Rei, às 8 horas. A veneranda imagem, de impressionante fisionomia, é incensada. Espadas prateadas estão cravadas em seu peito, um manto roxo aveludado recobre-lhe o corpo. Seu olhar de sofrimento nos remete à Paixão Sagrada.

A orquestra e seu coro executam o O vos omnes, que nos faz refletir se há dor maior que a daquele martírio de salvação, de seu Filho muito amado, Nosso Senhor. Os terceiros carmelitas vestidos com hábitos talares, velas à mão, vão conduzi-la.

De fora, o sino anuncia tristemente a rasoura e a excelente Banda de Música “Santa Cecília” faz correr arrepios no corpo, executando a comovente e tocante marcha fúnebre “Saudades”, do são-joanense Benigno Parreira. Sob o pálio, o padre segue contrito com o ostensório e a capa de asperges. O Turiferário vai enfumaçando o ambiente, que fica com aquele perfume religioso.

Outra marcha torna o ar respeitoso e contemplativo. O Cruciferário e os Ciriais abrem alas; mais atrás, as chamas bruxuleantes dos Ceroferários. A rasoura segue vagarosa descendo a Rua do Carmo. Contorna-lhe a praça com o vistoso Chafariz da Municipalidade. Diante do cemitério da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo, fazem uma curta parada. A Mãe Dolorosa volta-se para o enorme portão de ferro trabalhado. Um coral ali posicionado a saúda com o “Stabat Mater”, para que a Senhora lacrimosa se compadeça das almas dos carmelitas ali sepultados.
            
Numa sacada de antigo sobrado, atiram-lhe uma chuva de pétalas de rosas. Se o andor fosse do Rosário, os congadeiros cantariam: “Lá do céu tá caíno fulô!”... São as graças infinitas, que caem do céu sobre nós. O andor estaciona para receber as flores: está “dando a graça” àqueles devotos.
            
O sino já anuncia a chegada. Entra sob palmas. A banda municipal, de fora, encerra a participação.  A orquestra, de dentro, retoma a função musical na missa. O celebrante lembra que “a fé nos edifica” e que “a procissão não é um passeio; é uma peregrinação, um símbolo da jornada terrena rumo à salvação celeste”.
            
Apurando os ouvidos já se ouve o dobre lá no São Francisco. É a Rasoura dos Passos, de igual valor e beleza. Muitos devotos saem de uma vão para a outra. A gradação das cores rosa-lilás-roxo das hortências do andor, no matiz da contrição, proporciona uma contemplação sui-generis, da piedosa imagem. Um devoto cuidadoso inseriu bailarinas amarelas entre elas, aquelas pequenas orquídeas mimosas (Oncidium), dando vida ao que parece morto de dor. A vida supera. E assim vão os fiéis se preparando espiritualmente para a soleníssima Procissão do Encontro. Mas esta é logo mais, à noite...

Rasoura das Dores.

Notas e Créditos


* Texto: Ulisses Passarelli, quaresma de 2001
* *Foto: Iago C. S. Passarelli, 10/03/2013