Para participar ou tão somente assistir uma Festa do Rosário é preciso entender a lógica da mesma, segundo a tradição que abarca os congadeiros. Quem não o puder fazer estará perdendo seu precioso tempo... Ou quando muito sentir-se-á atraído por algo supostamente exótico, curioso.
A festa do reinado de Nossa Senhora do Rosário é, sobretudo, um momento de coesão social, de repartimento das benesses recebidas no decurso do ano. Festejo de gratidão. Uma festa, quebra o cotidiano, rompe com o normal, conflitua com o padrão, entra em rota de colisão com o cotidiano. Por isso, seu ambiente é outro: clima de festa! É isto que faz a festa ser uma festa e não um momento comum. Se na festa tudo for igual ou no padrão urbano ou no padrão rural do dia a dia ela não é festa. Seria um arremedo. O evento se destaca pelos atrativos e programação diversificada, no caso, com maior destaque para os de natureza religiosa, pareada com manifestações da cultura popular.
Tal se dá no distrito de São Gonçalo do Amarante, em São João del-Rei, cerca de 18 km a noroeste da sede municipal. Pequena vila do período colonial, chamada primitivamente São Gonçalo do Brumado, mais tarde renomeada para Caburu, designação que persiste extraoficialmente. De vida rural típica, calma, tradicionalista, pautada na atividade agropecuária de subsistência, o distrito pratica tradições as mais variadas, a maioria já em ocaso, mas de quantas existem, a prática do congado é a mais forte, atingindo seu máximo na Festa do Rosário.
O congado local é do tipo congo [1], e segundo a tradição oral persiste já há mais de um século. Sua festa é feita, via de regra, em outubro, desde longa data fixada no segundo domingo do mês, como dia maior consagrado a Nossa Senhora do Rosário [2]. A preparação da festa envolve vários momentos. O congo como protagonista do evento sagrado, através de suas lideranças, cuida de um sem fim de detalhes.
Em outras postagens deste blog já constam informações sobre a estrutura festiva, razão pela qual, ora o foco será na questão alimentar, deixando o restante apenas para o registro fotográfico.
Alguns dias antes, o festeiro e sua equipe de ajudantes, se resguardam da preocupação de garantir o alimento necessário à fartura festiva. A arrecadação / compra de mantimentos deve contemplar para além dos grupos (ternos de congado) visitantes confirmados, porque não é raro um congado não confirmar, mas vir, e é preciso estar pronto para alimentar os congadeiros.
Um dos tópicos pertinentes é a produção caseira de quitandas (biscoitos e broinhas), a nível familiar, acondicionados corretamente e com higiene até o dia maior da festa. Destaque para os biscoitos e rosquinhas produzidos por "Dona Maninha". O ofício de quitandeira também é marcante nesse festejo e demarca também a importância da figura feminina na estrutura da festa. Tanto mais, o café da manhã se completa com pães trazidos da cidade. O café transcorre com muita tranquilidade, até porque os grupos participantes são relativamente poucos e vão recebendo a alimentação à medida que vão chegando à festa. Mas o espírito de confraternização é o mesmo, forte e evidente.
Para a alimentação é montado na lateral direita da igreja, sob a perspectiva do observador, um pequeno barraco de bambu e cobertura de lona plástica. Tem segurança em seus amarrios e encaixes, até porque é leve. Sob ela, postadas em pequenas mesas, o alimento a ser servido. A fila se forma e os congadeiros passam e recebem o alimento.
No almoço o esquema é idêntico, mas a fila se faz maior, porquanto, todos os grupos já chegaram. Vários visitantes e até alguns moradores se fazem presentes e, por fim, alimentam junto. A ideia é congregar e não deixar desperdício do alimento feito. Ao pegar seu alimento a pessoa se posta livremente na lateral externa ao adro, gramada, sob a sombra de árvores e o costume é mesmo sentar-se ao chão, sobre a grama limpa, livremente, dentro daquilo que já se frisou de quebrar a rotina. Aparenta um grande piquenique e nisto reside uma peculiaridade local, aceita, praticada há muito e bastante singular, por fazer parte da tradição são-gonçalense, ou, melhor dizendo, caburuense.
Por vezes ao público externo pode causar estranheza tamanho bucolismo, mas ele é perfeitamente aceito e praticado pelos locais e congadeiros em geral, que não se queixam ou sofrem com desconforto ou falta de higiene. A higiene, aliás, é primorosa. Experiências de anos anteriores de posicionar o alimento na área escolar ou outra área foram frustrantes, em razão da exiguidade do espaço, aí sim gerando o efeito do desconforto.
É preciso - essencial em verdade - se transportar ao âmago da tradição congadeira para a entendê-la de fato e dela participar. E mais que isto: se contextualizar à realidade estrutural e possibilidades práticas de cada lugar, sem desvirtuar o costume local, desde que não fira a segurança das pessoas. A alegria do compartilhamento na Festa do Rosário remete ao costume herdado da tradição cultural afro, base estruturante da cultura popular pertinente à festa. Conservá-la e prestigiá-la é salvaguardar essa raiz cultural e identitária, de natureza ancestral.
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| Vista posterior da Igreja de São Gonçalo do Amarante. |
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Pichorra: bexiga cheia de guloseimas aguardando ser rompida
para alegria da criançada - tradição ibérica.
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Na véspera, a gincana toma conta do largo para alegria da criançada.
É parte das comemorações do dia das crianças. |
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Balanço - tradicional brinquedo infantil.
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| Após as gincanas da véspera, distribuição gratuita de bolo. |
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| Último ensaio dos congadeiros, na véspera do dia maior. |
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| Logo cedo, algumas pessoas limpam o largo. |
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Na cozinha o alimento é preparado com esmero:
lavagem das verduras. |
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| Além de tempero e higiene, muito carinho é o ingrediente fundamental. |
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| Montando a barraca de alimento. |
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Preparando a cobertura.
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| O congo na porta da igreja. |
Créditos
- Texto, fotografias (12 e 13 de outubro de 2019) e acervo: Ulisses Passarelli
Notas
[1] Congo: ao iniciar minhas pesquisas naquele distrito, em 1992, ouvia sempre as pessoas chamarem o congo de reinado. Dançar o reinado; tocar no reinado. Sobretudo as pessoas mais idosas usavam tal palavra neste contexto. Em paralelo corria o nome "congo-cacique" e ouvia dizer, que tinha influência de indígenas, uma manifestação cultural que no universo mítico de então, vinha "do começo do mundo"... Para tempos mais recentes é corrente a designação popular "congo-vilão", inclusive inscrito na bandeira. Os demais nomes estão em crescente desuso. No entanto, apesar de na bandeira estar inscrito congo-vilão, no cartaz ainda aparece com certa frequência o termo congo-cacique. É preciso frisar que o congado local absolutamente nada possui de mínimas características de um vilão típico, como os ocorrentes no centro-oeste e oeste mineiro. Implica ainda fazer um paralelo ou comparação, que o grupo de congo (congada) que havia em Ibituruna, por usarem capacetes com pontas elevadas, dizia-se que eram como que caciques, talvez por alusão ao aspecto do capacete e um penacho, embora não usassem penas.
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Cartaz da Festa de Nossa Senhora do Rosário de São Gonçalo do Amarante, referente ao ano de 2017, com recorte ampliado que mostra a designação "Congo Cacique". |
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Bandeira do congo, fotografada durante um ensaio: o nome do grupo cultural indicado como "Congo Vilão". |
[2] O festeiro da década de 1980, o saudoso "Sininho", organizou com a ajuda da comunidade os festejos até o ano de 1988, deixando ao organização a seguir, pelo que nos próximos três anos não houve Festa do Rosário. Em 1992 ela foi retomada, já com um novo festeiro, Valdomiro, com auxílio de seu primo, Dorival. Em seguida, Valdomiro faleceu e Dorival Caim de Paula, de auxiliar, passou a responsável pela organização e segue até o presente (2026).
- Revisão: 22/06/2026 - com acréscimo das fotografias da nota 1 e da própria no 2.
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