Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 3 de outubro de 2015

Trovinhas bem humoradas e outras quadras populares - parte 2

Um campo riquíssimo para a pesquisa do folclore é o universo da poesia popular, seja por sua imensa vastidão e variedade, seja por refletir com muita transparência e simplicidade os sentimentos e os costumes. Muitas vezes numa humilde trova encontra-se a referência que serve de pista ao pesquisador para enveredar mais a fundo num assunto, que rende certamente um estudo.

Este blog já tem se dedicado ao assunto tendo publicado quatro postagens da série “Quadrinhas de Amor”, uma Quadrinhas do Elvas e uma Trovinhas bem humoradas e outras quadras populares, que ora apresentamos a segunda parte.

Na mesma linha da parte 1, vê-se neste novo conjunto a pronúncia popular naturalmente estropiada nessas quadras, o que contribui para lhes ajustar a métrica, conferir uma verve típica e até mesmo a sonoridade necessária à rima: “véia” (velha), "trabaiadô" (trabalhador) “ôtra” (outra), “cumê” (comer), “armoço” (almoço), “bença” (bênção), “falá” (falar), “farejá” (farejar), “arto” (alto), “valô” (valor), “papé” (papel), “votá” (votar), “surjão” (cirurgião), etc. Da mesma forma os plurais são omitidos: “os olho”, “as veia”, “sete palmo”, “sete mês”, “cinco ano” ...  A palavra “cagô” (cagou), assaz conhecida, é o termo chulo equivalente a defecou; “dentadura” é prótese dentária total removível.

Surgem também os chamados versos-feitos, ou seja, composições fixas que aparecem para compor várias peças do refraneiro. “Lá detrás daquele morro...” , por exemplo, é empregado em várias trovas populares em variações, de extensa ocorrência geográfica. Outros exemplos de versos-feitos: “Ninguém viu o que eu vi hoje”; “Quando eu vim da minha terra”...

Entre o conjunto de quadras incluiu-se um único terceto (nº4). A justificativa é unicamente por fazer par com a trova nº3, com a qual guarda similitude e aparente continuidade.

A quadra nº1 tem ares de ponto, no estilo de pergunta, enigmática e provocativa.

A de nº5, bastante difundida, possui algumas variantes, uma das quais substitui “jatobá” por “manacá”.

Há de se observar que as composições muitas vezes ironizam situações cotidianas (“eu ontem comi no almoço”), brincam com a própria sorte (“fui um homem inteligente”), falam de personagens imaginários (Sá Chiquinha; seu Manuel Antônio...), zombam do próprio amor (“menina, se tu soubesse” ; “menina, casa comigo”), nada porém com cunho discriminador, mas sempre com ar hilário, no contexto da cultura popular.

Por fim é curioso notar as duas últimas peças, coletadas em Santa Cruz de Minas que motejam São João del-Rei, duas cidades extremamente vizinhas. As duas quadras revelam uma rivalidade da primeira urbe para com a segunda: a disputa feminina sobre namorados roubados e o desenvolvimento econômico são-joanense à época da coleta, confrontado com outras cidades regionais como referência.

Seja como for, ainda que aparentemente disparatadas, essas quadras revelam em seu intrínseco ou em seu panorama, a sabedoria e bom humor popular na composição lúdica de trovas avulsas, independentes, anônimas, que se difundem pela oralidade ou anotadas manuscritas em cadernetas e cabeçalho de páginas escolares. No todo transmitem mensagens coletivas e conselhos, ou apenas brincam com a vida, divertem com seu humor de delicioso sabor provinciano, por vezes, chulo.

*  *  *

1-Eu sou filho da caninana,
2-Lá vem Sá Chiquinha,
Neto da cobra-corá,
Rouca, sem poder falar,
Cachorro sem nariz
Trazendo na barra da saia,
Como pode farejá ?
Quarta e meia de fubá ...


3-Seu Manuel Antônio de Sousa,
4-Seu Manuel Antônio Saturnino
Que veio lá do surjão,
Pela cara que tem
Tira esse cará da garupa,
Tem os olho pequenino.
Que isso é mandioca do chão.



5-Lá detrás daquele morro
6-Meu amigo quando come,
Tem um pé de jatobá
Incha as veia do pescoço,
Quem comer,
Parece um cachorro velho
Dá muxiba no mamá...
Quando tá roendo osso.


7-Duas velha muito velha,
8-Lá no alto daquele morro,
Duas velha saragota
Tem um pé de samamabaia;
De tanto falar em casamento
A mulher deu um peido,
Uma velha cagô na outra...
Rebentou o cordão da saia...


9-Ninguém viu o que eu vi hoje,
10-Quando eu vim da minha terra
Lá no alto daquele morro:
Minha mãe disse: “vai, vai!”
Sete palmo de linguiça
Toma a bença a todo mundo,
Correndo atrás de um cachorro.
Que eu não sei quem é teu pai...


11-Eu ontem comi no armoço,
12-Eu já fui homem inteligente,
A Azeitona de uma empada,
Quase que tirei meu curso...
E coloquei o caroço
Do primeiro pro segundo ano
Sobre a toalha engomada.
Da escola fui expulso.


13-Eu nasci de sete mês
14-Eu não conheci meu pai,
Mesmo assim fui bem criado;
Mesmo assim fui bem criado;
Com idade de quinze ano,
Com idade de cinco ano,
Fui eleito deputado.
Fui votá pra deputado.


15-Alecrim verde cheira muito,
16-Preto é tinta que se escreve
Ele seco cheira mais;
Pra dá valô o papé;
A mulher que fia em homem,
Preto é o cabelo da Virge
Morre seca, dando “ais”...
E as barba de São José!


17-A mulher mais as galinhas
18-A mulher velha
Não se deixa passear:
Quando quer dançar um tango
As galinhas o bicho come,
Fica igual uma raposa,
A mulher dá o que falar...
Quando quer pegar um frango.


19-O marmelo é boa fruta,
20-Menina quando eu morrer,
Que dá na ponta da vara;
Vai na cova me adorar,
Mulher que chora por homem
Para ver o teu corpinho
Não tem vergonha na cara.
Faz o meu ressuscitar.


21-Menina casa comigo
22-Menina dos olhos pretos
Qu’eu sô bom trabaiadô,
Cor da linha do retrós,
Com chuva num vô na roça,
Põe a chaleira no fogo,
Com sole também num vô... 
Pra fazer café pra nós.


23-Menina, se tu soubesse,
24- Os jovens beijam devagar
Quanto eu estou te querendo,
Para sentir a doçura,
Eu queria te ver morta
Os velhos beijam depressa
E as formigas te comendo...
Para não cair a dentadura ...


25- Se você está namorando,
26- Juiz de Fora deu um grito
Guarde dentro do baú
Barbacena respondeu;
Que as mulheres de São João
Tiradentes tá doente,
É pior que urubu ...
São João [del-Rei] já morreu ...


Notas e Créditos

*Informantes: quadras 1 a 22 – Aluísio dos Santos (1994-1997), São João del-Rei; 23 – Luthéro Castorino da Silva (1998), São João del-Rei; 24 a 26 (1999), Maria Aparecida de Salles, Santa Cruz de Minas.
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Veja também a série: 

Quadrinhas de Amor - parte 1 
Quadrinhas de Amor - parte 2
Quadrinhas de Amor - parte 3
Quadrinhas de Amor - parte 4


Nenhum comentário:

Postar um comentário