Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 11 de junho de 2014

O folclore dos dentes - parte 2

Troca da dentição

A substituição dos dentes decíduos (dentes de leite) pelos permanentes é uma fase natural do desenvolvimento da dentição humana, que merece muita atenção da população. Há mães que pegam os dentes de leite de seus filhos e encastoam em metal para confecção de pingentes, presos por correntinhas ao pescoço à guisa de amuleto ou mera lembrança da infância. 

Outras tratam a troca de dentição com um ritual de arremesso. Consiste em pegar o dente decíduo extraído ou naturalmente esfoliado e jogá-lo sobre o telhado da casa, com o cuidado fundamental de atirá-lo por sobre o ombro, sem olhar para trás, para não ver onde cairá. No ato do arremesso enuncia-se em voz alta uma fórmula versificada, que em folclorística classifica-se como um ensalmo. Um dos mais difundidos no Brasil é o seguinte: 

"Mourão, mourão:
toma teu dente podre,
dê cá o meu são."

Há muitas variações destes versos. Na visão popular o ritual garante a erupção de um dente permanente sadio. Câmara Cascudo diz que "a tradição nos veio de Portugal, onde existe, com muitas variantes na fórmula, mas imutável no sentido." Forneceu a bibliografia portuguesa sobre o assunto. Eduardo Campos transcreveu exemplos portugueses deste ensalmo: 

"Telhado, telhadão:
toma lá meu dente podre
e dê cá o meu são."
(Alentejo)

"Palheirinha, palheirão:
tome lá este dente podre
e dê cá um são."
(Vale-do-Lobo e Idanha-a-Nova)

"Cinza, cinzão:
toma lá este dente podre
dá cá um são."
(Castelo Branco)

Há notícias de tal costume no Brasil já no século XIX [1]. Das coletas em pesquisa de campo, vale referenciar Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais, com esta versão (1988): 

"Andorinha, andorinhão:
toma lá este dente podre
e me dá um dente são."

Em Santa Cruz de Minas, no centro-sul do Estado (1994):

"Telhado, telhado: 
toma meu dente podre,
me dá um dente são."

Em São João del-Rei, igualmente, ou sob a forma variante, "Telhadinho, telhadão". 

Ainda em Santa Cruz de Minas um outro ensalmo foi colhido, mas com um rito que se distingue dos demais de arremesso, pelo detalhe de o dente de leite arrancado ser introduzido em um pedaço de pão ou de angu e assim ofertado a um cachorro, que o devora, sob o recitativo da seguinte fórmula:

"Cão, cão:
toma este dente podre,
me dá um dente são." 

Analisando a tradição, Luís da Câmara Cascudo esclareceu que o cuidado de não olhar para trás é um vestígio cerimonial das iniciações gregas. Mostrou sua difusão e completou que neste processo de transferência de moléstia ao dente de leite, não se deve olhar onde o mesmo caiu, sob pena de nascer outro defeituoso, pois há crença de que a desobediência a este preceito "reconduz os poderes maléficos quem pretendera abandonar". Lembrou ainda sobre a citação ao mourão numa das fórmulas: "Mourão é a pedra que divide do lume a pilheira, onde estão as cinzas. Prende-se ao culto larário e à sugestão de objetos sólidos, compactos, inabaláveis."

Dentro desta linha de pensamento, por analogias e associações, quem carrega consigo uma semente de mucunã ou olho de boi (Mucuna urens), terá boa dentição, porque a semente é rija. Um dente de jacaré, a pinça de um pitu, o ferrão de uma aranha-caranguejeira ou um dente de cachorro levados dentro de saquinhos pendurados ao pescoço ou presos a cordões, colares de caroços de azeitona, possibilitam a quem os carrega ter dentes fortes, duros, bem brancos e assim dão para as crianças levarem, para os novos dentes saírem sadios. Em São João del-Rei a receita prevista é carregar uma fava de Santo Inácio, assim denominada a semente do guapuruvu (Schizolobium parahyba), 

Dentes no cocar de um congadeiro da guarda de caboclos "Divino Espírito Santo",
do Bairro Nova Cintra, Belo Horizonte/MG. 

Referências 

CAMPOS, Eduardo. Folclore do Nordeste. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1960. 183.p.

CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro: pesquisa do catimbó e notas de magia branca no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978. 208p.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.

PAIVA, Melquíades Pinto, CAMPOS, Eduardo. Fauna do Nordeste do Brasil: conhecimento científico e popular. Fortaleza: Banco do Nordeste, 1995. 274p. 

STUDART, Guilherme.  Usos e superstições. In: SERAINE, Florival. Antologia do Folclore Cearense. 2.ed. Fortaleza: UFC, 1983. 356p. 

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 27/04/2014. 

Notas 

- Anotado no Pará em 1889. Conferir em: NERY, Frederico José de Sant'Anna. Folclore Brasileiro. 2.ed. Recife: FUNDAJ/Massangana, 1992. 235p.il. p.72. 

- Revisão: 27/12/2025. 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Véspera de Pentecostes em São João del-Rei

Neste sábado em São João del-Rei, véspera de Pentecostes, Matosinhos compartilhou com o Centro Histórico uma parte de seu grande jubileu em honra ao Divino Espírito Santo. A Procissão de Santo Antônio, o Imperador Perpétuo, ganhou as ruas desde a monumental Igreja de São Francisco de Assis, e com muita alegria, de mãos dadas com a fé, desceu até o Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. 

O novo itinerário embora contrarie o aspecto histórico (até o ano passado era via Matola), evidencia a beleza arquitetônica que justamente faz a cidade afamada. 

Com seus cavaleiros na dianteira e alas de bandeireiros, o vermelho é a cor marcante deste cortejo religioso. Entre as alas vem as Folias do Divino, este grupo que neste dia encerra seu giro anual de visita às casas. Descem cantando até Matosinhos, intercalando as participações entre si e a banda de música. 

A beleza da procissão é evidente e comentá-la chega a ser redundante. O Imperador Perpétuo segue numa liteira senhorial, dando um ar inusitado ao cortejo. Na passagem pela Gruta do Divino, uma calorosa recepção se concretiza e o padre dá sua bênção salutar. 

Em Matosinhos, a chegada triunfal se completa com o santo sacrifício da missa, da qual participam ativamente as folias nos cânticos, cada uma se responsabilizando por uma parte. No coreto da festa, após a celebração e lanche dos folieiros, se apresentou cada um dos nove grupos presentes, a saber: seis de São João del-Rei (Colônia José Teodoro, Guarda-mor, Bom Pastor, Águas Férreas, Rua São João e Jardim São José) e três visitantes _ Arame (Lagoa Dourada), Coqueiros (Nazareno) e César de Pina (Tiradentes). 

Na Rua Getúlio Vargas, antiga Rua Direita, as casas se enfeitam para a passagem
da Procissão do Imperador Perpétuo.
Da Igreja de São Francisco de Assis parte a Procissão do Imperador Perpétuo,
acompanhada pelas Folias do Divino entre alas de bandeiras vermelhas.

A Banda Municipal Santa Cecília, sob a batuta de José Antônio da Costa
é uma presença querida e reveladora de grande capacidade musical.

A corte do Imperador antecede a liteira, em travessia da antiga Rua da Prata.

No Centro Histórico a Folia das Mulheres vem na frente da procissão.
Membros da Comissão do Divino e o pároco de Matosinhos,
Padre José Bittar, diante da Igreja de Nossa Senhora do Carmo.

No crepúsculo os cavaleiros de vanguarda contemplam o majestoso templo do Carmo. 

Na Gruta do Divino a comunidade recepciona a Procissão do Imperador Perpétuo. 
* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S. Passarelli, 07/06/2014
*** Veja também: 


Cenas Pentecostais: o Dia Maior em 2014

O tradicional Jubileu do Divino em São João del-Rei concluiu-se com êxito neste Domingo de Pentecostes, dia 08 de junho do corrente, firmando-se na fé, na musicalidade, na alegria cheia de colorido. A grande Festa do Divino no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, mais uma vez congregou dançantes de vários grupos do município, das circunvizinhanças e de mais além dos limites dos Campos das Vertentes, graças à devoção ao Paráclito. 

Depois da novena e muitos eventos prévios, o domingo, coroado por um tempo esplêndido, se revestiu de um universo de ritmos, melodias laudatórias e cores esvoaçantes, tudo em louvor ao Espírito Santo. Edmilson deixou a Santa Coroa para Dácio e, com isto, a irmandade dos imperadores ganhou mais um membro. Seja bem vindo e tenha um feliz império!

Veja alguns detalhes deste ano nas fotografias abaixo, difíceis de selecionar ante tantas imagens bonitas que o evento oferece. 

Debaixo da umbela, na porta do santuário diocesano, 
o Imperador Coroado Edmilson Washington da Silva, cingido de faixa, 
ladeado pelo Imperador Eleito, Dácio Sebastião de Carvalho
 e pelos guarda-coroa com espadas, recepcionam os grupos visitantes, 
entregam lembranças artesanais e são saudados pelos congadeiros. 

        
Irmãos do Santíssimo Sacramento da paróquia 
e membros da Comissão do Divino com o estandarte e guiões 
abrem o Cortejo Imperial, seguidos imediatamente pelo congado do bairro. 

Debaixo de forte sol o povo se aglomera para ver a chegada do Cortejo Imperial. 
No momento retratado o moçambique são-joanense do Solar da Serra faz sua entrada.

Pela primeira vez presentes, congadeiros de Itatiaiuçu 
dançam o catupé na chegada ao santuário.

Com muito entusiasmo e elegância, o Reinado do Rosário faz sua entrada: 
Reis, Rainhas, Príncipes e Princesas são convidados especiais do Imperador do Divino
 para se irmanarem na grande festa ao Paráclito. 

Uma evolução dos Marujos do Capitão Ganair, 
de Conselheiro Lafaiete, presença tradicional no jubileu.

Gungas de Passa Tempo, 
choram na ingoma as tristes lembranças do cativeiro... 

Imperadores de vários anos assistem a Missa Solene. 

O novo Imperador, Sr.Dácio, coroado pelo Bispo Diocesano,
 Dom Célio de Oliveira Goulart.

A vanguarda da grande e solene Procissão do Divino, 
que lota as vias principais do bairro-cidade. 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 08/06/2014.

Notas

- Revisão: 26/05/2025. 

sábado, 7 de junho de 2014

Quadrinhas de amor - parte 1

Com esta série de quadras poéticas populares e anônimas, o blog inicia a difusão de uma extensa coletânea ligada ao refraneiro folclórico. Arrancadas da memória colossal da gentil informante, deve esta coleção o seu sucesso aos esforços da filha da mesma, Cida Salles, em contribuir para a riqueza da coleção, que ainda terá outras edições postadas. 

As quadrinhas aqui selecionadas falam do amor. A linguagem é muito distante da atual e acaba muitas vezes envolvendo o uso de flores, lenços, cartas e outros artefatos em ocaso nas relações amorosas. Muitas são difundidas e conhecem-se variantes por vezes em terras distantes, como Bahia ou Rio Grande do Norte, criando uma incógnita ao pesquisador. Cada uma delas é independente das demais. Tem vida própria, livre. Desvinculadas de outro contexto ou encadeamento estrófico, bastam por si, pelo preenchimento funcional de seu objetivo explícito e implícito. 

O modelo português da poesia é inegável e não admiraria se alguém demonstrasse que várias delas vieram da Península Ibérica. Feita aqui ou lá, naturalmente tem uma autoria, porém, a repetição de boca em boca, ano a ano, omitiu o autor e chegou-nos de domínio público. 

Algumas vezes são usados "versos-feitos", que surgem em várias quadras, mas com arremates diferentes, como: "Alecrim na beira d'água" , "Borboleta pintadinha", etc. 

Na prática, essa poesia singela era usada para manifestar amor ou interesse em namoro, escritas em bilhetes, cartinhas, recitadas em ocasiões propícias de festas onde moços e moças se encontravam e no intervalo da música instrumental surgia a oportunidade, voltando os instrumentos a irromper imediatamente ao recitativo. 

Passemos em breve revista a primeira parte do mostruário dessa forma pitoresca de manifestar o carinho, com cinquenta exemplares. 

*  *  *

Vou plantar um alecrim
Jurei sol, jurei lua,
Na linha de Deus, amém!
Jurei Estrela do Norte,
Se esse alecrim pegar
Jurei te amar, menino,
Nosso amor pega também.
até a hora da minha morte.


Alecrim na beira d’água
Enquanto o limão adoçar,
Chora a terra que nasceu,
Enquanto o açúcar amargar,
Eu também vivo chorando
Quando Deus descer a Terra
Um amor que já foi meu.
Deixarei de te amar.


Alecrim na beira d’água
Travessei o mar a nado
Pode estar quarenta dia,
No fundo de uma bacia,
Eu longe do meu amor
Fui riscando[1] minha vida,
Não posso estar nenhum dia.
Pro seu respeito, Maria...


No tempo que eu te amei
Eu queria ser uma formiga,
Não amava mais ninguém;
Daquelas que fura o chão,
Amava noventa e nove
Queria furar seu peito
Com você inteirou cem...
Para ver seu coração.


O tempo que eu te amei
Borboleta pintadinha,
Foi um tempo desperdiçado:
Encosta o peito no meu;
Se eu amasse um canarinho
Desengana esse rapaz
Era mais aproveitado.
Quem namora[2] ele sou eu.


Borboleta pintadinha,
Borboleta pintadinha,
Que entrou pro mar adentro,
Pinta aqui, pinta acolá;
Eu me chamo vira-folha
Pinta a casa do meu sogro
Quem me ama perde tempo.
Que domingo eu vou lá [3].


Cravo branco na janela
Menina acha esse lenço
É sinal de casamento;
E não conta quem te deu.
Tira o branco, põe o roxo,
No lenço vai um retrato,
Pra casar tem muito tempo.
Atrás do lenço vou eu.


Menino toma esse lenço
Menino do terno preto,
Partido em quatro pedaços,
Com lenço, paletó,
Quando abrir esse lenço,
Se você gosta de mim,
Tem um beijo e um abraço.
Tenha pena tenha dó.


Sá Moreninha,
Moreno lindo,
Seu lenço caiu,
Com lenço no pescoço,
No meio de tanta gente,
Se você gosta de mim,
Eu apanhei você não viu.
Deixa eu beijar seu rosto.


Não quero a sua camisa,
Abre a porta do jardim
Nem o seu botão do peito,
Quero apanhar uma rosa,
Quero só que vós me dê
Três brancas, três amarelas,
Sua linda mão direita.
E quatro encarnada formosa[4].


Meu amor vestiu de preto
O funcho é vencimento,
Para me fazer pirraça,
Eu já me acho vencida.
O preto pra mim é luxo,
Não tome amor com outra,
O branco pra mim é graça.
Que eu por ti já fui nascida.


O sol prometeu à lua
Seus olhos bem pretinhos,
Uma fita e dois laço;
Que brilham à luz do luar,
Eu prometo a você
São dois assassinos
Um beijo e um abraço.
Que me matam devagar.


O sol vai dobrando,
A rosa branca espalha,
Vermelhinho como fogo,
Perfume por toda cidade,
Eu ainda tenho esperança,
Você longe de mim,
De chamar seu pai de sogro.
Só espalha saudade.


Vou mandar fazer um barquinho
A folha da bananeira,
Todo cheinho de rosa,
De tão verde amarelou,
Para passear com você,
A boca do meu amor,
No meio das invejosas.
De tão doce açucarou.


Se você me ama de verdade
Sei que você gosta de mim,
Me diga por favor,
Embora diga que não,
Pois idade não importa,
A boca nem sempre diz,
O que importa é o amor.
O que sente o coração.


Menina se tu soubesse
Menina, minha menina,
Como eu te tenho amor,
Quem te fez tão bonitinha?
Tu caía em meus braços,
Foi o sol, foi a lua,
Como o sereno caiu na flor[5].
As estrelas miudinha...


Da roseira nasce espinho,
O suspiro mais a saudade,
E nasce também a flor;
São os dois amor que eu tenho;
Do seu orgulho, carinho,
O suspiro é quando eu vou,
Do seu desprezo a dor.
A saudade é quando eu venho.


Tanto tempo eu procurei,
Não quero sentir na vida,
Alguém que soubesse amar,
A dor que um dia passei.
Pois em você encontrei
Por isso sigo sozinha,
Tudo que estive a procurar.
Não levo aquele que amei.


Do céu caiu um cravo,
Sonho com a esperança,
No chão nasceu um jardim,
Do dia de você chegar.
Bendita seja sua mãe,
Sonhando com novas flores
Que criou você pra mim.
Novos amores devo encontrar.


Fui no livro do destino
Menino da boca doce,
Minha sorte procurar,
Lábios de porcelana,
Em suas páginas encontrei,
Um beijo de sua boca,
Que nasci pra te amar.
Me sustenta uma semana.


Meu grande amor é você,
Eu queria ser a rola,
Isso não posso negar,
A rolinha do sertão,
Pois quanto mais eu te beijo
Queria fazer um ninho
Mais eu quero beijar.
Dentro do seu coração.


Voa passarinho
Nem todo menino é moço,
Não me venha aborrecer,
Nem toda lágrima é dor,
Não me venha trazer notícias
Nem todo sorriso é alegria,
De quem eu quero esquecer.
Nem todo beijo é amor.  


Queria ser uma flor,
Se o meu coração partisse,
Para viver no deserto,
Eu te dava um pedacinho,
Eu amo você de longe,
Mas como ele não parte,
Porque não posso amar de perto.
Te dou ele inteirinho.


Tu disseste que sou culpada
Roseira que dá rosa,
De querer-te para mim,
Craveiro me dá um botão,
Culpados são seus pais,
Amor, me dá um beijo,
Que o fizeram lindo assim.
Que eu te dou meu coração.


A primeira vez que te vi,
Sei que você gosta de mim,
Meu primeiro olhar lancei
Embora diga que não.
E fez nascer um amor
A boca nem sempre diz,
E por ti me apaixonei.
O que senti o coração.




[1] - Riscando: traçando o destino. Pode também possivelmente ser uma alteração: arriscando.
[2] - Namora: uma versão idêntica diz: “quem fica com ele é eu”, denotando uma linguagem mais recente, “ficar”, trocar carícias sem qualquer compromisso de repetição, continuidade.
[3] - Variante do último verso, da mesma informante: “que eu quero mudar pra lá.”
[4] - Ouvi uma variante dessa quadra cantada pelo Mestre José dos Santos Correia (1996), como parte do repertório do boi-de-Reis (bumba-meu-boi) da Vila de Ponta Negra (Natal-RN): “Menina que estais na horta – bis / ai, ai, meu bem! / Me venda um vintém de rosa! / Três brancas, três amarelas - bis / cabocla bonita! / Três encarnada cheirosa...”
[5] - Quadrinha difundida, da qual existem ligeiras variantes. 


* Texto: Ulisses Passarelli

** Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1994-1997
*** Agradecimentos especiais a Cida Salles, pela inestimável ajuda na coleta das quadras. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Troca de Bandeiras

A troca de bandeiras é um ritual das folias e congados, efetuado quando dois grupos se encontram amistosamente numa rua ou praça. Se o encontro não é cordial, gerado por rivalidade pré-existente ou instantaneamente surgida, a troca via de regra não se efetua.

Consiste em um grupo abordar o outro e oferecer sua bandeira aos devotos do outro grupo, que de imediato a beijam, passando-a o bandeireiro por cada um dos componentes e em contrapartida ofertam a sua para igual saudação. Concluídos os cumprimentos, destrocam-se as bandeiras com versos laudatórios e elogiosos de parte a parte e cada grupo segue seu destino. Tem caráter ocasional, pois depende do eventual encontro.

Troca de bandeiras no encontro de dois congados: a bandeira dos caboclos (Guarda "Divino Espírito Santo", à esquerda)
de Raposos, passa aos marujos (Guarda "Sereia do Mar", à direita), de Congonhas, e vice-versa, durante um festejo nas ruas
de Tiradentes/MG. 26/07/2015. 

Nas festas em geral muitos grupos se deparam, nem sempre porém o ritual ocorre, excetuando-se dois grupos muito amigos, independente da programação dos festeiros.

Em Carrancas, contudo, assisti em 07/11/2004, na Festa do Rosário, a troca como parte programática da Festa do Rosário, quando todos os ternos após o Recolhimento do Reinado, diante do Rei Congo e da Rainha Congo, assim ritualizam, tendo como anfitrião de todos a guarda de congo local. O verso de convite é:


“Olha que coisa bonita,
que são dois congos encontrando na rua! 
você beija a minha bandeira 
qu’eu também vou beijar a sua!” 
(Congo, Carrancas, 2004)

E assim os bandeireiros respectivos trocam. A seguir o terno abordado tem o direito a cantar um verso de resposta, cordial e laudatório e depois destrocam para se repetir entre o congo local e outra guarda visitante.

Nas folias o ritual pode ser um pouco mais complexo posto que pode haver apenas a troca de bandeiras como nos congados ou o se complementar com o cruzamento das bandeiras. Eis uma chamada ao ritual:

"Deus vos salve, folião, 
dessa nobre companhia,
encruza nossas bandeiras 
para o encontro de folia." 
(Mestre Dinho, Arraial das Cabeças, Bairro Bonfim, São João del-Rei, 1993)

Os dois bandeireiros ou os palhaços, seguram as bandeiras enquanto se estende um extenso ritual de cantoria de saudação.


Cruzamento de bandeiras num encontro de folias em São Sebastião da Vitória 
(São João del-Rei/MG), janeiro/1996. 

Completada a saudação, as bandeiras são trocadas enquanto um folião canta e o outro ouve. Depois se cala para ouvir aquele que saudou. Só então destrocam, após verso próprio, pedindo a devolução da bandeira.

Já um encontro não fraterno não tem troca de bandeiras, ou então, no caso das folias, quando estão cruzadas, surge a demanda que se estende em forma de versos desafiadores com perguntas enigmáticas sobre as tradições fundamentais do grupo, que devem ser respondidas em verso. Em caso negativo, a bandeira é tomada e a folia passa a andar com duas bandeiras. Mas este processo de desafiar e tomar bandeira sobrevive apenas na memória dos mais velhos, pois de fato, caiu em desuso. Pelo menos aqui nesta região...


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: encontro de folias, Ulisses Passarelli; encontro de congados, Iago C.S. Passarelli.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Camisa da Felicidade

Conta-se que um rico homem sentia-se infeliz. Buscava conselheiros, que lhe informassem como ser feliz, já que tinha tudo para ter uma boa vida mas vivia deprimido. 

Certo dia foi ter com um sábio curandeiro, que lhe assegurou que bastava sair pelo mundo e quando achasse alguém feliz, trocasse de camisa com esta pessoa, o que decerto seria fácil, pois sempre vestia belas roupas. E saiu pelos caminhos afora. Encontrou um homem e indagou-lhe: "_ és feliz? " a que ele respondeu: "_ sou não senhor, trabalho muito, tenho quase nada..."

Prosseguiu. Viu então uma cabana e ouviu entre batidas de machado, um homem cantarolando enquanto rachava lenha. Imaginou: "esse homem deve ser feliz. Morando nesta choupana, pobre, debaixo desse sol, fazendo serviço bruto e ainda cantando!" Então começaram a conversar. Conversa vai, conversa vem [1], o nobre soltou a pergunta: 

_ O senhor é feliz?
_ Sou muito, graças a Deus. 
_ Então me faz um favor?
_ O que estiver ao meu alcance...
_ Troca de camisa comigo?
_ Ah... ôh, senhor, peça outra coisa que isto eu não posso!

E desabotoou o paletó mostrando o peito nu. Nunca tivera uma camisa em sua vida miserável mas virtuosa. O homem rico, cabisbaixo, entendendo a lição da vida, compadeceu-se e tirando sua própria camisa deu-a ao humilde trabalhador rural e assim descobriu que, o que de fato lhe faltava na vida, era a caridade e o temor a Deus. 

Créditos


- Texto: Ulisses Passarelli.
- Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, Centro, julho/1994. 

Notas

[1] Conversa vai, conversa vem: expressão popular para indicar diálogo prolongado sem chegar ao âmago da questão.
- Revisão: 30/03/2026.